Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 15, 2021

O ACASO A SERVIÇO DA MACHEZA

Acaso é uma ocorrência, um acontecimento casual incerto ou imprevisível, uma eventualidade, uma casualidade. É assim que o dicionário define essa palavra. E foi assim que aconteceu com o que viria ser um dos principais benefícios à saúde dos homens. Puro acaso.

Na década de 1990 o laboratório Pfizer investiu muito dinheiro em pesquisa, com o objetivo de encontrar um medicamento para tratamento da hipertensão arterial e da angina. Os pesquisadores desenvolveram o citrato de sildenafila na Grã Bretanha, que tinha a propriedade de aumentar a concentração de NO (óxido nítrico) nas células musculares das artérias, favorecendo sua dilatação. Avaliaram que esse efeito poderia dilatar as artérias coronárias, podendo assim tratar a angina do peito. Não confundir o óxido nítrico (NO) com o óxido nitroso (N2O), também conhecido como gás hilariante, precursor dos agentes anestésicos inalatórios.

Pensou-se, então, em um estudo clássico, seguindo um princípio simples. Os pacientes foram escolhidos por sorteio; alguns receberiam comprimidos de citrato de sildenafila e os demais recebiam um placebo. Os pesquisadores logo perceberam que os resultados nas artérias do coração eram quase nulos, decidindo-se então pela interrupção dos estudos.  

Dessa forma, os envelopes que continham os comprimidos que não foram consumidos pelos pacientes foram recolhidos. A maioria devolveu de bom grado seus comprimidos, porém houve um grupo que não devolveu. Revogado o anonimato, constataram que aqueles que não tinham devolvido os comprimidos correspondiam ao grupo que havia recebido o citrato de sildenafila. É que esse grupo havia percebido uma melhora na performance sexual, com ereções duradouras e estáveis.

Testes confirmaram que a substância poderia ser uma esperança para homens que eram incapazes de manter uma ereção por tempo suficiente para a atividade sexual normal. A droga foi patenteada em 1996.  Em 1998 foi liberada para tratamento das disfunções eréteis, sendo oferecida para venda com o nome comercial de Viagra.

Sildenafila. 

O acaso conspirando a favor da macheza. 

“O acaso favorece apenas os espíritos preparados”, teria afirmado Pasteur.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 8, 2021

LAVAGEM DAS MÃOS E A CHACOTA DA IGNORÂNCIA

Semmelweis, nascido em 1818 na cidade de Buda, atual parte de Budapeste, Hungria, formou-se em medicina em 1844, especializando-se em seguida em obstetrícia. Foi  nomeado assistente na primeira clínica de obstetrícia do Hospital Geral de Viena, na Áustria, onde grassava uma terrível epidemia de febre puerperal, que levava à morte uma grande proporção das parturientes. 

Profundamente tocado pelo problema, Semmelweis se lança na busca de uma solução, chegando finalmente a identificar a causa real, e propõe um método simples e eficaz de prevenção. Propôs a lavagem das mãos para médicos e estudantes de medicina com solução de cal clorada (hipoclorito cálcico). As taxas de mortalidade materna tiveram uma queda expressiva; a taxa, que era de 18,3 por cento no mês de abril de 1847, caiu para próximo de dois por cento no mês seguinte. 

Em 1847, seu grande amigo Jakob Kolltschka foi acidentalmente ferido pelo bisturi de um aluno durante uma necropsia e contraiu um quadro infeccioso semelhante aos das mulheres que morriam da febre puerperal, levando-o à morte. Semmelweis associou a contaminação cadavérica com a febre puerperal, concluindo que os estudantes e os médicos carregavam partículas cadavéricas em suas mãos, oriundas das necropsias, para as salas de parto, reforçando suas exigências para lavagem das mãos. 

Apesar dos bons resultados da lavagem das mãos, as condutas de Semmelweis foram contestadas e negadas por seus superiores. O preconceito, de fato, era por conta da sua nacionalidade húngara, e ele terminou sendo demitido por motivos políticos, pois defendia a independência de seu país, a Hungria, do império austríaco.

Semmelweis retornou para a Hungria, onde assumiu o cargo de médico honorário, de pouco prestígio e não remunerado, na enfermaria de obstetrícia do pequeno Hospital Szent Rókus (São Roque), em Budapeste, onde a febre puerperal foi praticamente eliminada depois das práticas por ele preconizadas.

Como nos casos anteriores, Semmelweis virou alvo de chacota por parte dos colegas e acabou sozinho, vaiado e abandonado.

Sua esposa, juntamente com alguns amigos, achava que ele estava mentalmente desequilibrado e, a pretexto de visitar um novo instituto médico, levaram-no para um asilo de doentes psiquiátricos. Quando ele percebeu que estava sendo internado, tentou sair, mas foi contido com violência, submetido a camisa de força e colocado em uma cela escura.

Duas semanas depois, em 13 de agosto de 1865, morreria aos 47 anos, vítima de uma infecção no dedo médio da mão direita, que gangrenou.  

Aqui, a certeza de que o cuidado com a lavagem das mãos salvaria muitas vidas. E poderia ter salvado a sua.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 1, 2021

UMA VISITA CASUAL A D. PEDRO II


Mais uma vez, vamos passear pela história da monarquia no Brasil. Tudo começou com a chegada da família real em Salvador, no dia 22 de janeiro de 1808, quando o príncipe regente, D. João, fugiu da ameaça de invasão por Napoleão Bonaparte. D. João era príncipe regente desde 1792, devido a doença da rainha-mãe D. Maria I. Em 1807, com a morte da rainha, D. João foi coroado Rei do Reino Unido, Portugal, Brasil e Algarves.

No dia 22 de janeiro de 1808 desembarcava em Salvador a família real portuguesa. No dia 7 de março a comitiva chegava ao rio de janeiro. D. João VI, que era rei de Portugal, resolveu retornar ao seu país no dia 26 de abril de 1821, levando consigo uma grande quantidade de ouro e diamantes que estavam nos cofres do Banco do Brasil, deixando seu filho mais velho, Dom Pedro, como Príncipe Regente do Brasil. A independência do Brasil aconteceria um ano depois, tendo como marco o grito às margens do riacho do Ipiranga no dia 7 de setembro de 1822.

D. Pedro I (Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon) foi aclamado imperador do Brasil no dia 12 de outubro de 1822, tendo sua coroação ocorrido no dia 1º de dezembro do mesmo ano. O autoritarismo foi a grande marca de D. Pedro I durante seu reinado, provocando um desgaste com as elites. 

A partir da independência, iniciou-se no Brasil o Primeiro Reinado, que se estendeu até 1831. Os desgastes na relação de D. Pedro I com a elite econômica e política fizeram com que o imperador abdicasse do trono em favor de seu filho, que tinha cinco anos, e retornasse a Portugal, onde morreria quando o príncipe regente tinha nove anos.

Dessa forma, em 1831 chegava ao fim o Primeiro Reinado. A maioridade do príncipe foi antecipada, e com isso ele assume o trono em 1840, pouco antes de completar 15 anos. Com isso, iniciava-se o Segundo Reinado, governado por D. Pedro II, estendendo-se de 1840 até 1889, quando a Proclamação da República determinou o fim da monarquia no Brasil. 

Nascido em 2 de dezembro de 1825, no Rio de Janeiro, Dom Pedro II era filho de Dom Pedro I e da imperatriz D. Maria Leopoldina, que morreu quando o filho tinha um ano.  O seu nome – Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Bourbon – seguia a tradição portuguesa de homenagear seus avós, santos e anjos. Sua formação foi pautada na moralidade, para evitar que ele repetisse os exemplos de seu pai, D. Pedro I, cujas relações extraconjugais provocavam escândalos, abalando a imagem da monarquia brasileira. Sua maioridade foi antecipada, permitindo que ele assumisse o trono com apenas catorze anos.

D. Pedro II em 1875

O reinado de D. Pedro II durou 58 anos (1831 a 1889), e representou uma época de grande prosperidade e progresso para o país. Apesar de suas realizações, foi deposto por um golpe de estado organizado por republicanos insatisfeitos com o regime imperial. O povo, no entanto, não desejava tal mudança.

A Proclamação da República ocorreu no dia 17 de novembro de 1889, e D. Pedro II e a família imperial deixaram o Rio de Janeiro de forma discreta, rumo ao exílio. D. Pedro preferiu ficar em Paris, onde morreria no dia 6 de dezembro de 1891, de pneumonia.

Além da prosperidade e modernização que Pedro deixou ao Brasil, também houve um legado de valores políticos e pessoais, que contribuíram para a fundação dos ideais democráticos brasileiros. Alguns acadêmicos o consideram como o maior brasileiro da história.

A lei que permitiu o traslado dos corpos de D. Pedro II e Teresa Cristina foi assinada em 3 de dezembro de 1920, encerrando o banimento da família imperial. Os caixões foram transportados no couraçado São Paulo. O Conde d’Eu acompanhou os restos mortais de seus sogros, ao lado do filho ainda vivo, Pedro de Alcântara, Príncipe do Grão-Pará.

Os corpos de D. Pedro II e de Teresa Cristina encontram-se até hoje na Catedral de São Pedro de Alcântara, em Petrópolis.

Tumbas de Pedro e Teresa Cristina na Catedral de Petrópolis. Nas pontas estão as tumbas de Isabel (esquerda) e Gastão (Conde d’Eu).

Voltemos, que Maria Leopoldina nos espera.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 25, 2020

VAI, ALMA MINHA – reflexões em tempos de quarentena

 Vai, alma minha. Viaja pelo infinito, onde os deuses olimpianos fizeram suas trilhas, travaram batalhas homéricas e conquistaram suas ninfas. Se perceberes faíscas rasgando o céu azul, são os ciclopes de Zeus zangados com Asclépio. Quem mandou aquele médico maluco reduzir a clientela de Hades?   

Vencedora, conquistarás espaços, posições, posicionamentos; discutirás os temas que afetam a humanidade, sempre amparando a honra e o respeito pelo pensar do outro.

Também encontrarás empecilhos, dificuldades inerentes à luta pelo que achas correto. Vai e tenta convencer. Tens a força da verdade, a disposição dos justos, a visão de futuridade.

Vai, alma minha, com jeito e modos de criança, ajeitando os suspensórios sustentando calças curtas, sem medo dos embates. Segue em frente, a luta te chama; vai e retorna sorrindo.

Vai, alma minha, paira sobre incompreensões e rancores e, qual libélula multicor que um dia foi dragão, fica ziguezagueando pelo sem-fim dos desencontros, dos rancores e das incompreensões.  

Alma minha, vai e, se te desgastares, transmuta-te em acalanto, conforta os infelizes e retorna ao teu ninho para te recompores. 

Vai, alma minha!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 19, 2020

CONFLITOS POLÍTICO-MILITARES NO BRASIL REPÚBLICA

Os estudantes brasileiros, aqui incluídos os que cursam o ensino médio e boa parte dos cursos superiores, desconhecem fatos importantes de nossa história, que influenciam de forma direta o entendimento do que acontece no Brasil, nos últimos anos. Hoje, ferramentas de fácil acesso, como a internet, facilitam um passeio pela história republicana do Brasil. Vamos nos aventurar?

 O regime monárquico existiu no Brasil entre os anos de 1822 a 1889, tendo como imperadores D. Pedro I e D. Pedro II. Houve um desgaste da Monarquia junto à população, que desejava mais liberdades, mais democracia, aliado ao crescente descontentamento dos militares, levando a um desejo de mudança. No Rio de Janeiro, no dia 15 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca liderou um movimento militar (golpe) que derrubou a Monarquia e instaurou a República Federativa e Presidencialista no Brasil.

Naquele mesmo dia foi instituído o Governo Provisório, tendo como presidente o marechal Deodoro da Fonseca. O marechal Floriano Peixoto assumiu como vice-presidente. Ficou acertado que o governo provisório deveria dirigir o País até a elaboração uma nova Constituição. Porém no ano de 1891 o presidente renunciaria.

Após a renúncia de Deodoro da Fonseca, assumiu a presidência o marechal Floriano Peixoto. Um grupo de militares que era contrário à ascenção política de civis promoveu a Revolta da Armada. É que Floriano, ao assumir, destituiu todos os governadores que apoiavam Deodoro da Fonseca. Este fato gerou divergências políticas, com um agravante: a Marinha sentia-se desprestigiada em relação ao Exército.

O conflito teve início em 1893, decorridos apenas quatro anos da Proclamação da República. Nessa revolta, navios de guerra da Marinha bombardearam a cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Foi montada a defesa do litoral, que impediu o desembarque dos revoltosos. A rebelião só foi debelada em março de 1894.

Prudente de Morais (1894-1898) foi o primeiro civil a assumir a presidência da República. Em seu governo, Prudente de Morais teve que enfrentar o arraial de Antônio Conselheiro na Guerra de Canudos. Campos Sales (1898-1902) enfrentou a primeira crise econômica da República brasileira. Afonso Pena (1906-1909) promulgou a lei que transferiu a capital de Minas Gerais de Vila Rica (Ouro Preto) para Belo Horizonte. O marechal Hermes da Fonseca governou o brasil de 1910 a 1914. O governo Wenceslau Braz (1914-1918) marcou a entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial, com o patrulhamento do Atlântico.

A Revolta do Forte de Copacabana ocorreu no governo Epitácio Pessoa (1919-1922). No dia 5 de julho de 1922 houve um bombardeio da Fortaleza de Santa Cruz da Barra, que fica no lado oriental da barra da Baía de Guanabara. Dezessete militares e um civil saíram pelo calçadão da praia de Copacabana. Um pouco adiante, os 18 revolucionários foram derrotados em frente à Rua Barroso, atual Siqueira Campos, na altura do Posto 3 de Copacabana. Saldo do embate: do lado dos revoltosos, 14 mortos e 4 feridos. Era uma resposta às oligarquias e ao latifúndio, que se opunham a um ideal de democracia idealizado por setores das forças armadas, em especial tenentes, sargentos, cabos e soldados.

Artur Bernardes (1922-1926) governou sob estado de sítio, e fez uso de seus poderes excepcionais. O governo de Washington Luís (1926-1930) marcou o fim da Primeira República. Foi deposto pela Revolução de 1930.

Nas eleições de 1930 houve um conflito político entre as oligarquias de Minas Gerais e São Paulo. Chegara a vez de Minas Gerais indicar o candidato à presidência, porém os paulistas não abriram mão da candidatura de Júlio Prestes (era fluminense, mas fez carreira política em São Paulo). Este comportamento causou descontentamento entre os políticos mineiros, que passaram a apoiar o candidato da oposição, o gaúcho Getúlio Vargas, governador do RS, que tinha como candidato a vice o paraibano João Pessoa. Júlio Prestes, apoiado pela elite de São Paulo, ganhou a eleição, mas havia indícios de fraude.

Washington Luiz, que seria o último presidente da República Velha, e então no poder, viu-se desprestigiado, mas não dava sinais de que renunciaria. Frente ao impasse, chefes militares do Exército e da Marinha depuseram o presidente, instalaram uma junta militar que, em seguida, transferiu o poder para Getúlio Vargas. Com isso, terminava o domínio das oligarquias no poder, e Getúlio Vargas governou o Brasil de forma provisória entre 1930 e 1934, período este chamado Governo Provisório.  

Em 1934 o próprio Getúlio foi eleito presidendte constitucional do Brasil pela Assembleia Constituinte, com mandato até 1937, conhecido como Governo Constitucional ou Presidencial. 

Em 1937, através de um golpe que contou com o apoio de setores militares, Getúlio Vargas permaneceu no poder até 1945, dando início ao Estado Novo, que se caracterizou como um regime ditatorial. 

Brasil República. Um emaranhado de golpes. O sacrifício do povo, sempre. Há algum tropeço neste passeio pela história do Brasil tirada da internet?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 12, 2020

ATROPELEI UM FANTASMA

Ela sabia que não era para sair de casa naquela noite escura de um ano da década de 1970. Já passava das onze horas, e o pessoal aguardava sua presença para a festa de confraternização da empresa. Mesmo sua mãe avisando que aquela era uma noite da cruviana, Lucy saiu de casa sem demonstrar qualquer preocupação. 

Saiu do Lago Norte, em Brasília, fez a volta para acessar o Eixo Monumental Norte, que a levaria ao restaurante onde rolava a festa. Quando reduziu a velocidade para entrar na tesourinha, sentiu uma pancada forte na lateral do carro. Estava um pouco escuro, e ali não havia ninguém. Mas o barulho foi intenso e surdo, como se jogassem um saco de frutas sobre o veículo. Andou uns cem metros, parou e deu uma olhada em ambos os lados do carro, pelo retrovisor. Algo lhe pedia para retornar. 

Em casa, todos se surpreenderam com sua chegada repentina, e Lucy foi logo dizendo, com ar de brincalhona: “Atropelei um fantasma”! Contou que sentira uma pancada na lateral direita do carro, mas que nada de errado havia com o veículo.

Todos já se preparavam para dormir quando ouviram gemidos estranhos vindos da garagem, como um animal ferido. O irmão Otávio, mais corajoso, assumiu que iria lá fora ver o que estava acontecendo. O resto da família ficou olhando por uma janela estreita que dava para a garagem. 

O irmão acendeu as luzes e deu de cara com um homem na carroceria, contorcendo-se de dor, aos urros. Na mesma hora levaram o ferido para o pronto socorro, sem que ele falasse uma palavra. Só urrava. Não possuía documentos. Ganhou até um novo nome.

No dia seguinte retornaram ao pronto socorro e o homem já se encontrava em melhor estado, movimentando-se na cama e ensaiando caminhar. Três dias depois o homem estava de alta. Continuava sem falar uma palavra.

Foi aí que surgiu o problema. Para onde levá-lo? Sequer sabiam seu nome ou o local de moradia. Colocaram o homem na caminhonete e o levaram para a chácara da família, onde ficou em uma espécie de chalé confortável, utilizado pelas visitas.

Logo o homem se recuperara totalmente e passou a ajudar o caseiro nos trabalhos com a terra. Gostava de cuidar das plantas. 

A família publicou a foto do homem no jornal, a televisão contou o fato, mostrando o homem para os telespectadores, e nada. Não havia uma só informação que pudesse ajudar em sua identificação.

A última notícia que tive desse senhor é que ele se comportava como pessoa de boa índole, trabalhadora, responsável. Mas continuava na chácara, sem falar nem escrever.

Uma noite confusa, dominada pela aura da cruviana. Um homem sozinho, sem rumo. Um final de vida confortável, apesar de tudo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 27, 2020

QUANDO ALGO COMEÇA TORTO…

Fui a uma loja de veículos de uma pessoa bastante conhecida, com quem já havia feito vários negócios. A loja era grande, e havia inúmeros veículos expostos, entre novos e seminovos. Eu desejava comprar um veículo simples para meu filho.

Depois de analisar as várias propostas do meu suposto amigo, fechei a compra de um Uno zerinho. Só faltava emplacar. Por se tratar de uma pessoa muito conhecida, e de estar negociando em uma loja grande, paguei antecipadamente. À vista. Nada falei para o meu filho; segredo e surpresa.

Dois dias depois, fui buscar o veículo. Passei em frente à loja e não reconheci. Voltei e procurei novamente. Nada na fachada. Nada lá dentro. Estava vazia. Telefonei para o dono da firma e ele me mandou buscar o carro no dia seguinte, logo pela manhã. Não tinha nenhum carro novo para me entregar, mas ele foi na parte de trás da loja, pelo lado de fora, e retornou com um Uno seminovo, com pouca quilometragem. Eu ficaria com esse carro, que estava em nome da empresa, até ele me entregar o novo. A firma estava passando por dificuldades, mas iria reagir e em breve estaria funcionando.

Pensei um pouco, olhei os documentos novinhos, em nome da empresa, e aceitei ficar com o carro. Chegando em casa, chamei meu filho e ele saiu dirigindo o carro com a intenção de abastecê-lo. Com uns cinco minutos ele me liga. Um caminhão, em alta velocidade, batera na traseira do veículo, resultando em um grande prejuízo. O carro não tinha seguro. O guincho deixou o carro em uma oficina, e o serviço foi autorizado.

Dois dias depois, um homem da voz bem fraca me ligava, mas eu não atendia. De tanto insistir, terminei atendendo. Ele queria encontrar-se comigo, porém não falava sobre o quê. Poderia ser no local que eu indicasse. Encontramo-nos em um posto de gasolina perto da minha casa. Pela voz ao telefone, imaginei encontrar uma pessoa de pequeno porte, magrinha. Logo vi-me diante de um homenzarrão, que se expressava em tom bastante baixo. 

Moço -, falou o homem com voz abafada – esse carro é da minha mulher. Eu fui deixar o veículo na empresa que havia vendido o carro, para passar o documento para o nome da minha mulher.

Olhei para aquele homem pacato e fiquei com medo de contar onde estava o carro, e em que estado. Quando contei o acontecido, ele chorou. Entreguei-lhe as chaves e os documentos e fui com ele à oficina, onde encontramos o carro desmontado, mas com sinais claros de breve recuperação. Ele agradeceu emocionado. O carro não estava no nome da sua esposa, e sequer possuía Nota Fiscal. 

Imbróglio em cascata. Prejuízos que se somavam.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Se lhe interessa o final dessa estória, aí vai: meses depois, encontrei o dono da loja trabalhando em uma revenda de veículos. Ameacei contar para o gerente o que ele havia feito, e chegamos a um acordo: ele me ressarciu o prejuízo em doze prestações mensais. 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 21, 2020

LAMPIÃO É LAMPIÃO EM QUALQUER OCASIÃO

Eu tinha um cliente cujo pai fazia o papel de Lampião em uma peça sobre o cangaço, que estava sendo encenada na escola do bairro. Todas as noites lá estavam o Capitão Virgulino, Corisco, Menino de Ouro, Beleza, Beija-Flor, Cajueiro, Cigano, Cravo Roxo, Cavanhaque, Chumbinho, Cambaio, Criança, Delicadeza, Damião, Ezequiel, Português, Fogueira, Jararaca, Juriti, Luís Pedro, Linguarudo, Lagartixa, Moreno, Moita Braba, Mormaço, Ponto Fino, Porqueira, Pintado, Sete Léguas, Sabino, Trovão, Zé Baiano, Zé Venâncio, além, evidentemente, de Maria Bonita.

No palco, invadiam lugarejos, matavam e esfolavam pobres diabos, tomavam dinheiro de prefeitos não menos corruptos, além de brigarem entre si. As disputas  eram ferrenhas, e o punhal lustroso falava mais alto, na maioria das vezes. Mas quem mandava mesmo era o rifle. As encenações, à noite, nas escolas ou no teatro da prefeitura, já se estendiam à terceira semana, e muitas balas de festim já haviam iluminado palcos e tablados, e o grupo se mantinha unido.

Damião – o pacato pai do meu cliente de cinco anos -, que desempenhava o papel de Lampião, passava por uma rua do centro, à noite, quando percebeu que havia uma confusão no Bar e Lanchonete Gasnatripa. De longe percebeu que Ronaldão – que assumira o personagem de Corisco – metera-se em uma encrenca, e, furioso e fora de controle, exibia uma faca no interior do bar, enfrentando dois homens que o provocaram; um filete de sangue rutilante escorria-lhe do sincipúcio. Coisas do excesso de álcool. Damião, percebendo o perigo em que se encontrava o amigo, e com o moral de Lampião, gritou:

– Corisco, cabra da peste, vá pra casa! Já!

No mesmo tom de voz, Ronaldão respondeu, batendo continência, de pés juntos:

– Pois não, Capitão!

E se retirou sem qualquer discussão.

Ninguém entendeu nada. Nem pagou a conta, claro.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

Texto já publicado neste blog, com outra formatação.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 14, 2020

LILICA, O ANEL DE GIGES ATRAPALHOU

  • Parte I: Lilica e sua turma invadem a cozinha para sugar o açúcar que se formou sobre a bancada, após o uso do álcool em gel, e se embriagaram.
  • Parte II: Com o uso de uma solução diluída de água sanitária, Lilica e seu grupo se armaram com placas e faixas para protestar, entoando cânticos de revolta.

Algum tempo depois a utilização da solução de água sanitária para limpeza da cozinha, finalmente recebi informações seguras sobre a Lilica. Soube que ela e seu grupo estão bem. Com a falta do suprimento básico que era retirado da cozinha, houve dificuldade de manutenção dos diversos grupos, e um sistema gerencial foi emergencialmente criado pela organização não governamental Sugar Eaters. Foi criado um grande grupo de indivíduos, que passaram a desenvolver um trabalho conjunto, subdividindo-se em grupos menores, alinhados pelo critério da especialização.

Por ser uma formiga poligínica (suas colônias podem conter muitas rainhas – até 200), o grupo da Lilica se dispersou em vários subgrupos, cada grupo formado por indivíduos ligados por suas ideias e posicionamentos políticos. Até ali, a vida fora simples e não havia hostilidade entre as colônias vizinhas. Esse equilíbrio foi perdendo força face às disputas dos pequenos grupos.

A verdade é que tudo teria começado depois que o grupo da Lilica foi entrevistado pelas duas maiores redes de notícias, a CNN (Comando Nacional de Notícias) e a Esfera News. Isso teria levado à subdivisão do grupo, em função da monetarização do blog Lilica’s News e de outros elementos de mídia.

O trabalho do grupo aumentou em tal dimensão que Lilica e seu pessoal contrataram os serviços do Ubermosq (grupo que utiliza mosquitos para transporte de passageiros de pequeno peso, como as formigas-faraó). E elas passaram a utilizar esse serviço o dia inteiro, para seus deslocamentos urgentes e distantes (além de cem metros), motivo da redução de seu condicionamento motor. A moeda utilizada nas transações é o K5. Cada unidade equivale a cinco porções de comida, o que elevou o status bancário da colônia.

O grupo de auditoria interna detectou sinais de desvios de K5, feitos pela madrugada, utilizando zangões para transporte de grandes quantidades de alimentos desviados do banco da colônia. Aberto o procedimento de investigação, foram identificados grupos que vendiam os estoques de comida e se apossavam dos valores. Muitos elementos foram processados e presos, mas o ambiente entre as formigas se deteriorou. 

Cada formiga faraó passou a ser fiscal da formiga que morava ao lado, e o clima ficou pesado, de tal forma que não dava mais para continuar. Face às pressões que surgiam de todos os lados, a colônia implodiu. Cada elemento foi para um lado, com a intenção de recomeçar suas vidas na simplicidade do que sempre fora. 

Os novos grupos estão voltando a produzir indivíduos sexualmente reprodutivos duas vezes por ano. As colônias laboratoriais haviam sido manipuladas para produzir várias vezes ao ano.

As rainhas da formiga-faraó voltaram a pôr centenas de ovos durante a vida, com 10 a 12 ovos por lote. O período larval retornou para 18 a 19 dias; o período pré-pupa foi normalizado para três dias e o período pupal voltou a ter a duração de nove dias. São necessários mais quatro dias para se tornarem formas sexuais femininas e masculinas. Logo, do ovo até a maturidade leva cerca de 38 a 45 dias, dependendo da temperatura e da umidade relativa. Colônias amadurecidas voltaram a contar com várias rainhas, machos alados, trabalhadores, ovos, larvas, pré-pupas e pupas. 

É assim que as formigas-faraó estão implementando seu programa de retorno a uma vida simples e comunitária. 

Distante do anel de Giges. Os perigos e a tentação da Hubris.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 7, 2020

NA PRAIA COM AS DIVAS

A água estava morna, o sol a pino, a areia branquinha. Praia de Canoa Quebrada, no Ceará. O carioca Andrade logo tratou de fazer amizade a partir da barraca que acabara de adotar. 

Na beira da praia, à frente de Andrade, três crianças aparentando ter entre oito ou nove anos de idade esbanjavam simpatia e disposição. A mãe das crianças, ali mesmo, exímia artesã, confeccionava pequenas garrafinhas de areia colorida que a todos encantavam.

Com seu jeito carioca de ser, Andrade tentou tirar a dúvida de sua esposa, que achava que as garotas eram irmãs.  E arriscou para a que estava mais próxima:

– Vocês três são irmãs?

– Somos, e gêmeas – respondeu com simpatia. – O que foi uma surpresa para Andrade, pois uma delas era menor que as outras duas. E o carioca insistiu:

– Quais os nomes de vocês?

A garota, com mechas loiras naturais, tipo reflexo, respondeu com um bonito sorriso:

– Eu sou Katrine, aquela que está na água é Katerine e a acocorada, brincando com aquele menininho, é a Nikole Kidman.

Durante a conversa, Andrade ficou sabendo que eram onze irmãos vivos, de um total de catorze, e que somente à noitinha retornavam para casa, que ficava um pouco distante.

– Vocês chegam em casa à noite e ainda vão cuidar da janta? – Perguntou o curioso Andrade.

– Não. Quem cuida da comida é minha irmã de catorze anos, a Katy Marrone. A janta já está pronta, quando chegamos à noite.

Andrade, até como forma de entrosamento, comprou algumas garrafinhas de areias coloridas da mãe das garotas. Esta, loquaz e bem-humorada, revelou que perto de sua casa mora um senhor que, ao se dirigir ao cartório para registrar seu filho, teve que enfrentar algumas dificuldades.

– Qual o nome da criança? – Perguntou o escrivão.

– Não sei falar direito, mas é o nome desse campeão de Fórmula 1… Michael Schumacher – Disse com certa dificuldade.

– E como se escreve? O senhor trouxe escrito em um papel?

– Não.

– Então não vai dar para fazer o registro hoje, porque eu não vou escrever o nome do garoto de forma errada.

– De acordo – Disse o pai do recém-nascido. – Eu vou falar com um rapaz que mora perto da minha casa, e que é letrado. Ele escreve o nome da criança num papel e eu volto amanhã. 

No dia seguinte, chega o pai e procura novamente o escrivão.  

– Eu falei com o rapaz, e ele disse que domingo tem corrida de Fórmula 1. Ele vai copiar o nome o piloto diretamente da televisão. Na segunda-feira eu volto e a gente faz o registro.

Imagino que Michael Schumacher seja, hoje, um rapagão, surfando as ondas de Canoa Quebrada, como seus amigos.

Uma família tranquila, com a leveza das marolinhas da beira do mar.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Texto já publicado neste blog, com outro título e outra configuração.

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