Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 21, 2018

REVOLUÇÃO DE 1930, vamos entender

Nós, brasileiros comuns, que estudamos em escolas públicas, não tivemos a oportunidade de conhecer e discutir os fatos históricos que aconteceram em nosso país, em especial quando se referiam ao envolvimento do Exército, ou melhor, das Forças Armadas. Quando muito, nos bancos escolares, havia uma referência aqui e ali sobre o tema, sem o  tempero da discussão.

Em busca de alguma informação, passei a me interessar pela leitura de  textos que tratavam do movimento tenentista Os Dezoito do Forte, que tentava derrubar a República Velha, e teve como motivação a vitória do candidato governista Arthur Bernardes à presidência da república nas eleições de 1º de março de 1922.

O candidato governista venceu a eleição com 56% dos votos válidos, e a oposição insistia na existência de fraudes. As oligarquias e o latifúndio, atrelados ao poderio dos fazendeiros, se opunham a um ideal de democracia idealizado por setores das forças armadas, em especial tenentes, sargentos, cabos e soldados. Na manhã do dia 5 de julho de 1922 o forte sofreu bombardeio da Fortaleza de Santa Cruz da Barra, que fica do lado oriental da barra da Baía de Guanabara. Dezessete militares e um civil saíram pelo calçadão da praia de Copacabana. Logo à frente, os 18 revolucionários foram derrotados em frente à Rua Barroso, atual Siqueira Campos, na altura do Posto 3 de Copacabana. Saldo do embate: do lado dos revoltosos, 14 mortos e 4 feridos.

Por se encontrarem os dois textos muito próximos, em seguida me dispus à leitura do segundo, que tratava de outro movimento armado, conhecido como Revolução de 1930, culminando com o Golpe que depôs o presidente da república, Washington Luís. O intervalo entre os dois eventos foi de apenas oito anos.

Veja como estas estórias são muito semelhantes. No ano de 1930, lideranças da oligarquia paulistana romperam a aliança com os mineiros (política do café-com-leite) e lançaram a candidatura de Júlio Prestes à presidência da República. Minas Gerais, como forma de reação, deu apoio ao canditado dos gaúchos, Getúlio Vargas, que tinha como candidato a vice o paraibano João Pessoa.

O Brasil continuava sendo governado pelas oligarquias de Minas Gerais e São Paulo. Essas oligarquias mantinham-se no poder através de eleições fraudulentas. Somente políticos que representavam seus interesses eram colocados no poder. Com isso, foi-se gerando descontentamento entre alguns setores militares

Nas eleições de 1930 houve um conflito político entre as oligarquias de Minas Gerais e São Paulo. Aquela era a vez de Minas Gerais indicar o candidato à presidência, porém os paulistas não abriram mão da candidatura de Júlio Prestes (que era fluminense, mas fez carreira política em São Paulo). Este comportamento causou descontentamento entre os políticos mineiros, que passaram a apoiar o candidato da oposição, o gaúcho Getúlio Vargas, governador do RS, que tinha como candidato a vice o paraibano João Pessoa. Júlio Prestes, apoiado pela elite de São Paulo, ganhou a eleição, mas havia indícios de fraude.

João Pessoa nasceu na cidade de Umbuzeiro, na Paraíba,  era sobrinho de Epitácio Pessoa, que fora presidente da República no período de 1919 a1922. O assassinato de João Pessoa por João Dantas, ocorrido em Recife no dia 26 de julho de 1930, no interior da Confeitaria Glória, por questões pessoais, foi usado como gatilho para pôr em marcha os entendimentos que culminariam com a deflagração da Revolução de 1930.

Washington Luiz, que seria o último presidente da República Velha, e então no poder, viu-se desprestigiado, mas não dava sinais de que renunciaria. Frente ao impasse, chefes militares do Exército e da Marinha depuseram o presidente, instalaram uma junta militar que em seguida transferiu o poder para Getúlio Vargas. Com isso, terminou o domínio das oligarquias no poder, e Getúlio Vargas governou o Brasil de forma provisória entre 1930 e 1934. Em 1934 o próprio Getúlio foi eleito presidente constitucional do Brasil pela Assembleia Constituinte, com mandato até 1937. Porém, através de um golpe que teve apoio de setores militares, permaneceu no poder até 1945, encerrando assim o período conhecido como Estado Novo.

Em 1951 Getúlio Vargas retornou à presidência da República, agora por meio do voto popular. Candidato pelo PTB, venceu o pleito de 1950 com 48,7% dos votos. Com a crise política e social solapando as bases do seu governo, o presidente redigiu uma carta-testamento e, no Palácio do Catete, suicidou-se com um tiro no peito no dia 24 de agosto de 1954.

Da morte de João Pessoa à Revolução de 1930, um pretexto fabricado.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 15, 2018

TRABANT, UM REGIME, UMA ERA

Com a queda do Muro de Berlim, no ano de 1989, muitos moradores da antiga Alemanha Oriental abandonaram seus automóveis nas ruas, com vergonha de aparecer dirigindo um carro que se tornara símbolo do atraso.

Era o Trabant – em alemão, companheiro de viagem– um automóvel com cara de tiozão que tinha uma carroceria de plástico parecido com fibra de vidro, porém mais barato, e não reciclável. Com suas características, o Trabant poderia partir-se em dois se fosse colocada uma carga além de sua capacidade.

O carro tinha fama de lento – desenvolvia uma velocidade máxima de 100/km/h e somente em vinte segundos acelerava de 0 a 80 km. Nos anos de 2009 e 2010 o governo alemão lançou um programa para renovação da frota de veículos, e mais alemães se desfizeram de seus Trabant. Hoje, uma empresa de Berlim organiza passeios de grupos de turistas dirigindo Trabant pelas ruas da cidade, formando um belo espetáculo visual.

Visitando Berlim, vale a pena conhecer a East Side Gallery, uma galeria de arte ao ar livre situada em uma sequência de 1.113 metros no lado leste do antigo muro que dividia a cidade, e foi preservado da demolição. Consta de 105 pinturas de artistas convidados de todas as partes do mundo, e foram iniciadas em 1990.

A galeria representa a apropriação de um muro até então intocado. A opressão de suas paredes passaram a exprimir a euforia da liberdade em face de um novo horizonte político para o mundo.

Uma das pinturas mais emblemáticas é o Beijo da Morte, quando o russo Brejnev cumprimenta o presidente da Alemanha Oriental em Berlim, 1979. Nessa pintura, Brejniev cumprimenta o presidente da Alemanha Oriental, Erich Honecker, em Berlim Oriental, 1979.

Beijo da Morte

Em outra  imagem, um Trabant parece atravessar o muro em direção ao desconhecido, apesar de seu simbolismo de atraso e subdesenvolvimento, por ser campeão de poluição sonora e emissão de gases tóxicos.

Trabant

O Beijo da Morte. O Trabant. Dois ícones que arregimentam milhares de pessoas no rumo da East Side Gallery todos os dias.

Não sei por que, lembrei-me do nosso Fiat 147.

EvaldOOliveira

Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 6, 2018

UM DIA DE CRIANÇA

Se eu pudesse, nem que fosse somente por um dia, poria minha vida em ordem, no que tange às reminiscências da infância. Hoje, já próximo ao fim da minha jornada, faria o mundo parar, retornaria no tempo e viveria um dia especial, com duas exigências prévias: gosto de cajarana e cheiro de oró. Ah!, e em plena maré de sizígia.

Pela manhã, vestiria uma calça curta, sustentada por suspensórios e, sem camisa, retornaria à Praia do Meio, bem no início da manhã, sentindo o toque da brisa em  meu corpo magricela, sob o intenso sol de março, com o cheiro de chuva trazido pelo vento que brinca de surfar sobre as ondas, fazendo a alegria de tainhas madrugadeiras. Na volta, caminharia pelas salinas de antigamente, com a visão distante de cataventos hoje espectros na paisagem de várzeas salitradas.

Ainda pela manhã, em frente à igreja, embarcaria em uma canoa e, aí sim, tomaria o rumo de Barra e Pernambuquinho, só para fazer inveja a um tal de Evaldo que hoje habita em mim. Na volta, passaria pela boca da barra para ver o mar de perto, fazer cócegas em sua barriga e fugiria, para que ele sequer suspeitasse de que fora eu quem o tirara do seu cochilo na sesta da preamar.

img_9842Foto Lucas Fonseca

À tardinha, usaria minha roupa de domingo, pensando em alugar uma bicicleta mequetrefe e passear pela Rua do Meio, até o final, na outra ponta, sem esquecer de passar brilhantina Glostora no cabelo, então farto e quase loiro. Na volta, passaria ao lado da igreja e visitaria a casa onde morei, revivendo a figura do meu pai atrás do balcão de sua bodega, e com certeza já imaginando coisas para a longa conversa à noite, em uma roda de cadeiras na calçada.

Caminharia despreocupado pelo Beco da Galinha Morta, na tentativa de dar de cara com um Zorro subnutrido e sem estilo que costumava aprontar uma zorra na saída que dá para a igreja, dar seu grito de guerra e em seguida desaparecer por onde surgira; o grande mistério de então. O herói mascarado só atacava à noite, lembrei agora.

À noite, andaria devagar, da pracinha até o Cine Coronel Fausto, pelo lado direito, curtindo cada fisionomia conhecida, e dando boa noite para todos, coisa que jamais fiz.

No cinema, qual o filme em exibição? Seria o que menos importaria. Compraria um ingresso colorido (azul, vermelho ou amarelo, naquela noite?) e esperaria a parada no meio do filme, onde uma bandinha tocava músicas de antigamente. Meu pai era um dos componentes daquele conjunto. No reinício do filme, um chicletes Adams na boca, guardando a caixinha para uma coleção sem futuro.

Pertinho das dez horas da noite, uma passada pela pracinha só para encontrar os retardatários conversando em pequenos grupos, aí incluídos os estudantes da Escola Técnica de Comércio, identificados por usarem uma calça cáqui com uma listra cor de vinho de cada lado da perna. Um charme. Mais adiante eu estudaria ali.

Voltaria para dormir em casa, agora em Brasília, porque já avisaram que a luz vai apagar.

É que já são dez e meia, e aparenta ser noite de cruviana.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 31, 2018

CASTELO DI BIVAR, EL CID NO SERTÃO

Viajando pelo Rio Grande do Norte, em minha romaria/peregrinação anual, ao  deixarmos a cidade de Acari, onde comemos cocada na quenga, dirigimo-nos a Carnaúba dos Dantas, município com fortes arrojos turístico-religiosos.

Uma das atrações de Carnaúba dos Dantas fica a um quilômetro dos limites da cidade, por onde se chega através de uma estrada vicinal. De longe, vislumbra-se um castelo de forma arredondada, cuja construção foi inspirada no castelo em que se ambientou o filme El Cid. Neste filme é contada a história da vida do maior herói do Reino de Castela, na Espanha, o cavaleiro Don Rodrigo Diaz de Bivar, chamado El Cid.Cast. El Cid

Mesmo com uma visão à distância, somos tomados pelo sentimento de respeito e admiração, em vista do árduo trabalho exigido para sua construção. O castelo fica fora dos limites da cidade, em área de difícil acesso, e a sequidade daquela região tem o condão do desencorajamento.

Castelo Di Bivar

O Castelo Di Bivar – este e o seu nome – foi construído por um seridoense com fama de roqueiro (José Ronilson Dantas), no sítio arqueológico Xique-Xique, que fica próximo do Monte do Galo, um dos principais pontos no roteiro do turismo religioso no Rio Grande do Norte. Naquele local os fiéis contam com uma capela, um cruzeiro, a estátua do galo e a sala dos ex-votos, além dos 12 passos de Cristo ao longo da subida.

Na aspereza do sertão nordestino, a beleza de um castelo evocando as bravuras de um herói espanhol.

El Cid revisitado.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 24, 2018

VIAGARISTAS SÃO OUTROS QUINHENTOS

A palavra vigarista envolve um golpe praticado com o envolvimento ou a citação de um vigário. Sua origem latina vem de vicarius, com o significado de “substituto, o que está em lugar de outro”. O vigário era um padre que substituía outro temporariamente em sua paróquia.

Portanto, a palavra vigarista origina-se da expressão conto do vigário, que significa alguém burla outra pessoa. Mas aí já são outros quinhentos.

E de onde teria surgido a expressão aí são outros quinhentos? Contam que em uma cidade do interior, onde não havia banco para as transações com o dinheiro, quem guardava as economias da população era o padre. Tudo na confiança, escrito em uma caderneta.

Certo dia, na saída da igreja, o padre caminhava cercado pelos paroquianos, quando um estranho se aproximou e disse:

– Padre, eu quero que o senhor guarde esses quinhentos contos de réis.

E entregou ao religioso um pacote de notas que, após serem contadas, foi levado para a casa paroquial e colocado no cofre.

Dois dias depois, o forasteiro foi à casa do padre e pediu seu dinheiro de volta, sem que alguém servisse de testemunha.

Na semana seguinte, novamente na saída da igreja, o estranho pediu ao padre que devolvesse seus quinhentos contos. O padre estranhou aquele pedido, pois já havia devolvido o dinheiro ao forasteiro, em sua casa.

– Mas eu já lhe devolvi esses quinhentos lá na casa paroquial, – falou o padre.

Um comerciante, colaborador da igreja, percebendo o mal estar do religioso, falou para o forasteiro:

– Foi comigo que o senhor deixou esses quinhentos contos. Vamos em minha loja que eu lhe devolvo.

– Não, esses aí são outros quinhentos. Eu pego com você mais tarde. Agora eu quero receber os quinhentos que eu deixei com o padre.

Esperteza em outras eras.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 10, 2018

A GRANDE FLOR DE AÇO E ALUMÍNIO

Depois de uma visita ao cemitério da Recoleta, você caminha por alguns minutos até à Praça das Nações Unidas e vai se encantar com uma imensa flor. No meio do parque, uma flor de aço e alumínio exibe-se ao vento e ao sol da capital da Argentina desde o ano de 2002, com suas seis pétalas, pesando 18 toneladas e com uma altura de 23 metros.

Localizada sobre um espelho d’água, a flor gigante de Buenos Aires abre suas pétalas às oito da manhã, como se por encanto, e se fecha ao anoitecer, girando conforme o dia passa. Todos os movimentos são controlados por um sistema elétrico que abre e fecha automaticamente as pétalas, a depender da hora do dia. À noite a flor fecha e de seu interior sai uma luz vermelha; pela manhã ela se abre novamente.

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Depois de caminhar pelo cemitério da Recoleta, uma flor nos espera.

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Com bom gosto, brilho e movimentos.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 3, 2018

UM RESTAURANTE, UM JOGO AMERICANO

Em nossa viagem ao Chile, em abril deste ano, além da demonstração de um bom nível civilizatório, alguns eventos ficaram marcados pelo bom gosto e pela qualidade dos serviços, fosse no metrô ou nos cafés, estes bonitos e agradáveis.

Em Santiago, um restaurante simples nos recebeu de forma surpreendentemente agradável, como eram seu ambiente e suas mesas. O cardápio anunciava uma comida trivial, que depois saberíamos com gosto de comida de verdade.

Ao entrarmos, percebemos um ambiente de simplicidade, porém a clientela nos dava a garantia de um bom aval em uma duplicata. Não lembro o nome daquele  lugar, mas o gosto e a satisfação com que as pessoas saboreavam suas iguarias, fosse o prato do dia ou algo um pouco mais elaborado, nos encheu de confiança. Sentamos, pedimos um vinho e não nos arrependemos.

Nas mesas próximas, estudantes, pequenos empresários e trabalhadores do comércio riam e discutiam assuntos pertinentes. Ao lado da nossa mesa, um casal de mulheres conversava sobre coisas da vida, o dia a dia eviscerado em um papo de restaurante. No contraponto, riso e descontração.

Sobre as mesas, um jogo americano de papel reciclado trazia  em seu falar uma provocação que nos fez pensar; o choque que desperta:

Jogo americano

Escuta, respeita, diverte-te

Ama, canta, confia, viaja

Sonha, sorri, arrisca-te, confia

Compartilha, luta, deixa-te levar

Ri, manifesta-te contra, fala, ri

Descobre, arrisca-te, vive

Sê feliz

 …

Sê feliz, a mensagem. E nós o fomos.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 27, 2018

O SILÊNCIO DAS MURIÇOCAS

Nasci e vivi durante alguns anos em uma pequena cidade que fica na esquina do mundo, na região da Costa Branca. É ali onde o sol toca primeiro em seu domínio sul americano. Desde pequeno, quando estudava no grupo escolar, eu imaginava coisas quase impossíveis, como subir de avião e recolher aquelas nuvens que passavam faceiras pelos céus da minha cidade.

Ainda criança, como uma brincadeira, pensei em uma forma de me comunicar com algumas pessoas sem o perigo de ter meus escritos vazados, e vi-me envolvido no obscuro mundo da encriptação. Idealizei, então, uma forma simples e segura de me comunicar, ao criar um código primitivo que depois viria saber já ter sido utilizado por Celso, o todo poderoso imperador de Roma.

Em outro momento, já adulto, imaginando o universo dos pequeninos, penetrei no mundo nano. Na crônica Nanomedicina, o Futuro Chegou, enfoco os benefícios e os riscos dos nanoprodutos. Ali, um pouco do que nos espera nessa área do conhecimento. Em outra ocasião, em um texto sobre Ciência Noética – Ciência Noética, o Futuro da Cura ou Instrumento do Terror?– eu chamava a atenção para um mundo  de esperanças, sem esquecer os perigos que cercam este tema.

Porém dois elementos sempre me intrigaram: o silêncio e a escuridão. Minha  medida para o breu total acontecia depois das dez da noite – quando a energia elétrica era desligada – momento em que ela, a escuridão, em conluio com a cruviana e a serração da velha, apagava a cidade para os raros aviões. Ali, na esquina do mundo, o império dos grilos; se no inverno, também dos sapos.

Haveria um nível de ultra escuridão? A resposta é sim. O cosmo era totalmente escuro, antes e depois do Big Bang, que aconteceu há treze bilhões de anos. A luz visível aos nossos olhos somente iluminaria o cosmo passados 400 milhões de anos, com o esfriamento de uns 4 mil graus, permitindo que prótons, neutros e elétrons se aglutinassem em átomos neutros, o que coincidiu com o surgimento das primeiras estrelas.

Uma dedução elementar e antiga: a escuridão simplesmentenão existe; é criada pela ausência da luz. A quantidade de luz presente em um espaço define o nível da escuridão.

Do mesmo modo, haverá o silêncio absoluto, em que o ruído produzido pelo voo de uma libélula possa até nos apavorar, por sua intensidade? A entrada em uma câmara anecoica acústica poderia nos fornecer elementos para reflexão. Em uma dessas câmaras você pode se assustar ao ouvir com clareza os batimentos do seu coração, o ruído do sangue correndo em suas artérias cerebrais, o ronco da sua respiração.

Escuridão, ausência da luz.

Silêncio, necessário até no nível do cochicho das muriçocas. E somente até aí.

Os dois juntos, loucura.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 20, 2018

UMA NO PINO E OUTRA NO CONTRAPINO

Em minha vida de 30 anos como pediatra, sempre trabalhando em unidades do serviço público de saúde, atendi muitas crianças envolvidas em ocorrências ligadas a choques elétricos. Algumas delas morreram. Lembro de uma criança do Gama que chegou com a parte interna da boca queimada por ter colocado a ponta do chuveirinho na boca e soprado com força. A mãe estava junto.

Adultos ou crianças, um dos momentos mais perigosos era exatamente aquele em que se tentava colocar ou retirar um aparelho da tomada. É que sobrava um espaço sem proteção entre o pino do aparelho e a entrada da tomada. Esse era o momento mais propício para o choque.

Foi criado o novo sistema de tomadas, que pode ser de dois tipos: plugues para aparelhos que não produzem calor (10 amperes), como batedeira, máquina de lavar roupa) e os plugues mais grossos, de 20 amperes, para equipamentos que geram calor, como aquecedor elétrico e micro-ondas. Com isso, evita-se a ligação de um equipamento de maior consumo em um ponto que não foi projetado para ele, o que poderia causar uma sobrecarga.

Em face dessa evidente melhoria que se seguiu à implantação do novo sistema de tomadas, fica difícil não entender os benefícios trazidos por esse novo modelo. Só se fechar os olhos.

Já li muitas queixas em relação a essas tomadas, mas nenhuma delas foi feita por pessoas comuns que se sentiram iludidas pelas melhorias propaladas quando de sua implantação no Brasil.

Todos sabem que as causas dos choques elétricos são muitas e variadas, e em sua maioria ocorrem por negligência e desrespeito às normas de segurança. Lembro aqui o caso de duas enfermeiras que mandaram pintar uma casa  e em sua visita ao imóvel, depois da entrega do serviço, se depararam com a fiação energizada,  com cerca de meio metro para fora das paredes, com as pontas protegidas  por fita isolante. Ao chegarem à casa, as irmãs amarraram a corrente de ferro, onde o cachorro estava preso, em um dos fios e o dobraram para cima. O cão começou a latir e a pular, desencapando o fio. Quando uma das moças ouviu o grunhido do cãozinho, que se debatia em reação aos choques, jogou-se sobre o animal, tendo morte instantânea. Frente àquela situação, a irmã pulou sobre os dois, e também morreu. Nada disso teve a ver com as novas tomadas.

Novos pinos

Por ser apenas médico e não entender de lobbys nacionais ou internacionais, sou francamente favorável à implantação desse novo sistema de tomadas. Tenho a firme convicção de que as indústrias brasileiras poderiam assumir, sem qualquer dificuldade, a produção desses novos padrões de tomadas no Brasil e fora dele.

Uma no pino. Tomadas seguras evitando acidentes. Até hoje não entendi a causa de tanta reclamação.

Contrapino 1   Contrapino

Outra no contrapino. A segurança em um pequenino artefato.

Por quem os contra pinos dobram?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 13, 2018

LIVRARIA ATENEO Buenos Aires

Ao visitar Buenos Aires, além de todos os programas que você organizou para sua estada na capital da Argentina, dê uma passadinha na Avenida Santa Fé, no bairro Norte, e você se encantará com um edifício em estilo eclético, com o teto exibindo belíssimos afrescos pintados pelo artista italiano Nazareno Orlando. Ali, no ano de 1919, funcionava um teatro com capacidade para acolher 1.050 felizes espectadores.

Pelo caminho você poderá se deparar com Dom Quixote exibindo-se com sua espada ao lado de um belo touro, tendo ao fundo a imagem de Evita Peron.

Dom Quixote

No final da década de 1920 o teatro foi convertido em cinema, sendo projetados ali os primeiros filmes sonoros na Argentina. Como um passo de mágica, no lugar do cinema surgia a Livraria El Ateneo que, somente em 2007, vendeu mais de 700 mil livros. Anualmente, mais de um milhão de pessoas visitam aquele local.

Livraria-El-Ateneo

Nesse ambiente encantador, utilizando seus camarotes ainda intactos, os leitores podem mergulhar nos livros, sob uma aura de pura e elegante retrofilia. No local que funcionava como palco, o visitante pode desfrutar dos serviços de um bonito café. Tudo isso fez com que El Ateneo fosse classificado, pelo jornal britânico The Guardian, no ano de 2008, como a segunda melhor livraria do mundo.

El Ateneo. Cultura, beleza e história juntas. Com a companhia de um cafezinho, porque ninguém é de ferro.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

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