Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 1, 2021

ÓLEO DE CANOLA; O QUE É, DE FATO?

Quando se viaja de ônibus ou de trem por alguns países da Europa, percebe-se que ao largo das estradas uma plantinha amarela toma conta de quase todo o visual, e logo vai ouvir de alguém que aquilo é plantação de canola, uma plantinha de onde se extrai um óleo comestível.

Depois, com calma, pesquisando na internet, você descobre que não existe uma planta chamada canola, e que aquela plantinha amarela se chama colza, que existe na Índia há 4000 anos. E por que essa confusão entre colza e canola? As informações a seguir foram retiradas da internet.

O óleo de colza, em estado natural, contém ácido erúcico e glucosinolatos, que têm um certo nível de toxidade para os seres humanos, e por isso era utilizado para fins industriais. 

Estudos comprovaram que o ácido erúcico causava danos cardíacos a ratos, e que os glucosinolatos davam mau sabor ao óleo, tornando-o impossível de se consumir. Mais tarde, técnicas de análise genética teriam demonstrado que existe uma predisposição genética à intoxicação com óleo de colza desnaturado. 

Esse problema levou um grupo de estudiosos a selecionar sementes que contivessem uma quantidade menor dessas duas substâncias. Chegou-se a variedades que contém menos de 2% de ácido erúcico e menos de 30 micromoles de glucosinolatos por grama de componente sólido da semente seca ao ar. 

Com isso, hoje se produz óleo de canola completamente seguro para o consumo humano e animal, além de estar entre os mais saudáveis óleos derivados de plantas, tendo uma quantidade relativamente baixa de gordura saturada, ao tempo em que contém um alto teor de gorduras poliinsaturadas, sendo também usado como uma fonte de biodísel. 

Desde 1978, todos os óleos de colza canadenses, produzidos para uso alimentar, contêm ácido erúcico em nível inferior a 2%. Nos EUA, o FDA só permitiu que o produto fosse introduzido com níveis de ácido erúcico que não ultrapassem 1%.

Colza – Canadian oil – Canoil – Canola.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 24, 2021

VACINAÇÃO E INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

No ano de 1823 a varíola matava de 20% a 40% das pessoas acometidas pela doença. Nesse período, 67% dos casos de cegueira, em Londres, tinham a varíola como causa. Além de terrível, a doença não dispunha de tratamento, que era limitado a sangria, jejum e lavagens, o que deixava o paciente ainda mais abatido, fraco e deprimido.

Para se defender da doença, a pessoa se submetia à variolação, que correspondia ao uso de crostas secas de um paciente com varíola para dar imunidade a outra pessoa. 

Em 1735, apenas 850 pessoas haviam se submetido a esse processo, na Grã-Bretanha.

No ano de 1749, nascia na Inglaterra Edward Jenner, que viria ser o criador do método de vacinação antivariólica. Aos oito anos, ao entrar para uma escola pública, Jenner teve que se submeter ao ritual da sangria, do jejum e das lavagens, que eram procedimentos assustadores. Ao final, a variolação.

Aos treze anos, Jenner foi trabalhar como aprendiz de um cirurgião rural. Lá, Jenner ouviu falar de um tipo de varíola que acometia camponeses que ordenhavam vacas, e que não adquiriam varíola depois. Jenner imaginou, então, que, se as pessoas contraíssem a forma bovina da doença, de modo deliberado, ficariam imunes à varíola. A partir de então, inúmeras pessoas passaram a receber a inoculação da varíola bovina como forma de prevenção da varíola humana, inclusive pelo próprio Jenner.

O Dr. William Rowley fez um relatório, afirmando que uma criança tinha desenvolvido no rosto uma deformação em forma de boi, um ano depois da vacinação, e sugeria que a vacinação de varíola bovina podia provocar o aparecimento de doenças animais em seres humanos, ou transformar estes em animais.

Em 13 de maio de 1717, nascia Maria Teresa Valburga Amália Cristina da Áustria, e foi a única mulher a governar sobre os domínios habsbúrgicos. Foi arquiduquesa e soberana da Áustria, Hungria e Boêmia, Croácia, Mântua, Milão, Galícia e Lodomeria, Parma e Países Baixos Austríacos de 1740 até sua morte em 1780. 

Sua decisão de permitir a inoculação de seus filhos após a epidemia de varíola mudou a visão negativa que os médicos austríacos tinham em relação a esse procedimento. A campanha de inoculação foi inaugurada com um jantar no belo Palácio de Schöbrunn, oferecido às primeiras 65 crianças inoculadas, encarregando-se a própria Maria Teresa de receber essas crianças. Sem essa atitude, a vacinação teria atrasado muitos anos.

O Palácio de Schönbrunn tem uma ligação afetiva com o Brasil. É que nesse palácio viveu a arquiduquesa D. Leopoldina de Habsburgo até 1817, data de seu casamento com o futuro imperador brasileiro Pedro I, quando se tornaria Imperatriz Consorte do Império do Brasil de 1822 até sua morte. Leopoldina era filha de Maria Teresa e Francisco II, último imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Nascida Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena, ficou conhecida no Brasil como Maria Leopoldina.

Dom Pedro entregou o poder a Leopoldina no dia 13 de agosto de 1822, com poderes legais para governar o país durante sua ausência, e partiu para São Paulo. A princesa tomou conhecimento de que Portugal estava preparando ação contra o Brasil e, sem tempo para aguardar o retorno de Pedro, aconselhada por José Bonifácio de Andrada e Silva, assinou o decreto da Independência, declarando o Brasil separado de Portugal.

Maria Teresa, uma rainha responsável pelo desenvolvimento da educação, da medicina e do judiciário da Áustria. Maria Leopoldina, Imperatriz Consorte do Império do Brasil. Assinou o decreto que declarava o Brasil independente de Portugal.

Chegaríamos a esse desfecho sem a vacinação defendida por Maria Teresa?

Evaldo Alves de Oliveira, médico Pediatra

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 17, 2021

LILICA, IMPASSE OU ARMISTÍCIO

– Parte I – Lilica e sua turma invadem minha cozinha para sugar o açúcar que se formou sobre a bancada, após o uso do álcool em gel, e se embriagaram.

– Parte II – Com o uso de uma solução diluída de água sanitária na bancada, Lilica e seu grupo se armaram com placas e faixas para protestar, entoando cânticos de revolta.

– Parte III – Lilica e seu grupo passam por um processo de corrupção interna, face ao grande volume de dinheiro (K5 – cada unidade equivale a cinco porções de comida) gerado pela monetarização de suas mídias sociais. Houve dispersão dos componentes, com formação de grupos menores. 

– Parte IV – Os componentes do grupo da Lilica, frente à dificuldade de propor a suspensão do uso do hipoclorito para afastá-las da bancada, saíram com a disposição de experimentar um procedimento de dessensibilização baseado nos princípios de Mitrídates, a mitridificação.

Parte V

De repente, o grupo da Lilica se posta de um lado da bancada da cozinha e se põe em atitude de confronto. Querem dialogar para chegarmos a um acordo que ponha fim à perseguição das formigas-faraó. Lilica, em um ponto mais elevado da bancada, sinaliza com acenos de paz.

Ordena que sejam apresentadas algumas formigas com graves queimaduras no corpo, além de duas com irritação das vias respiratórias. De pé nas duas perninhas traseiras, Lilica explica:

– Chega de confronto! Basta de agressão! Não queremos nossas irmãs com lesões que as incapacitem para o trabalho. Vim disposta a propor regras para um armistício.

Fiz sinal de que concordava, e Lilica continuou: 

– Somente iremos à cozinha durante a noite, e retornaremos às nossas casas antes do amanhecer. Não invadiremos os utensílios, com comida, pães, tortas, potes de mel. Em troca, você não mais usará essa solução de água sanitária que tanto mal nos faz. Esperamos sua resposta.

Fingi estar pensando na proposta do grupo. Eu aceitaria aquela sugestão de armistício, principalmente depois que soube do plano das formigas-faraó para uma possível negativa de minha parte. Elas invadiriam minha casa, iriam até a cama das pessoas e entraria pelos ouvidos, boca, olhos, em um confronto cujo final seria imprevisível.

Para marcar esse armistício, faríamos como o imperador Francisco I da Áustria e Napoleão, no ano de 1805, quando colocaram de forma simbólica uma bala cor de ouro no alto da fachada da catedral de Bratislava, abaixo do relógio. Ali, o marco da paz, depois da batalha de Austerlitz.

Lilica, a disposição para um acordo. Hoje, um ponto minúsculo, branquinho, se destaca no alto da placa de granito que forra o fundo da bancada, ali colocada por Lilica, conduzida por um Ubermosq. É o nosso marco da paz.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Obs.: Fiquei sensibilizado com este manifesto do poeta e escritor Francisco de Assis Câmara: “Deixe a Liliquinha em paz. Preserve-a. Ela é PATRIMÔNIO FORMIGÁVEL DA HUMANIDADE”.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 10, 2021

DESPACHOS/MACUMBAS EM BRASÍLIA

Despacho, nas religiões afro-brasileiras, é a realização de oferendas como pagamento antecipado a Exu pela realização de favores. Os despachos são depositados em lugares como encruzilhadas, cruzeiro das almas, matas, rios, descampados. Se, por algum motivo, algo não possa mais ser usado, deve ser despachado. Comidas rituais são alimentos específicos ofertados a cada orixá, cujo preparo requer o uso de ritual.

Macumba. Esse nome passou a ser utilizado pra nomear as oferendas feitas aos Orixás, sendo considerada por muitos como magia negra. Trata-se de um presente a uma energia divina, para que ela auxilie no direcionamento de uma causa. 

Graças à macumba, muitos escravos fugitivos conseguiam se alimentar enquanto fugiam da senzala. Por terem medo das oferendas deixadas em encruzilhadas, muitos caçadores de escravos e a população de origem europeia no geral não mexiam na comida, que era na verdade uma oferenda de escravos já estabelecidos aos seus companheiros que estavam em fuga. A macumba era, na verdade, uma forma de oferecer alimento para aqueles que estavam enfraquecidos na fuga.

Desde cheguei a Brasília, pelos idos do início de 1972, percebo que, aqui, esse tipo de manifestação é muito comum, especialmente no plano piloto, em toda a extensão dos eixos rodoviários norte e sul, colocados entre as árvores que ali existem.  

Em Stonehenge, livro de Bernard Cornwell que narra a história dos celtas que viveram no interior da Inglaterra dois mil anos antes de Cristo, há uma cena em que o principal feiticeiro de uma tribo responde, quando perguntado se realmente ele teria colocado mijo na barriga dos inimigos, e que o céu iria queimar seu inimigo, e a terra recusaria seus ossos, e até os animais iriam se afastar do fedor de sua morte; que até os vermes e as larvas iriam recusar sua carne pútrida e que iria secar até virar uma casca amarela, e os ventos o carregariam para os pântanos envenenados do fim do mundo, conforme gritara de forma tresloucada para o inimigo.

– Aprendi que a feitiçaria está nos nossos medos, que os nossos medos estão na nossa mente e que só os deuses são reais – respondeu o feiticeiro, baixinho, com voz pausada.

Em três ocasiões estive de frente para um despacho: 1. No centro de saúde, quando puseram um despacho de amarração atrás da cadeira do chefe, um médico boa pinta; 2. No meio da estrada que dava para minha chácara, cerca de 10 galinhas depenadas, prontas para assar, foram colocadas em um círculo, ladeadas por grandes abóboras com um líquido amarelado no seu interior, fechando completamente a estrada. Os carros iam parando na estrada de terra, de um lado e do outro; 3. No retorno que leva à 109 Sul, rua do Beirute, composto por alimentos e cerca de sete ampolas grandes, com um líquido branco dentro (soro glicosado?). Em todos os casos, o final foi feliz. Todos foram desfeitos pelas pessoas em volta.

A feitiçaria está nos nossos medos, e os nossos medos estão na nossa mente. 

Fecho com o voto do relator de Stonehenge.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 3, 2021

O CARVALHO E O JUNCO

Conversando certo dia, disse o carvalho ao junco:
“Você tem bons motivos para reclamar da natureza.
Até um passarinho é um fardo pesado para você.”

“Um ventinho à toa que faça
A superfície da água enrugar,
Obriga você a cabeça baixar.
Por outro lado, minha fronte,
Não contente em segurar os raios do sol,
Enfrenta bravamente a tempestade. 
Para você tudo é vento violento,
Para mim, brisa suave.
Se você nascesse abrigado pela folhagem
Com que eu cubro a vizinhança,
Não iria sofrer tanto: Eu defenderia você da chuva.”

“Mas vocês costumam nascer
Nas bordas úmidas do reino do vento.
A natureza, apesar de tudo,
Com você parece injusta.”

– “Sua compaixão”, respondeu o arbusto,
“É sincera, eu sei, mas não se inquiete:
Para mim, os ventos não são tão terríveis:
Eu me curvo e não me quebro.
Você tem esse corpo grande
E resiste sem entortar,
Mas espera o fim chegar.”

Enquanto diziam essas palavras,
Lá no horizonte furiosamente surgiu
A mais terrível das tempestades
Que os ventos do norte podiam trazer.
A árvore tentou resistir, o junco se curvou.
O vento redobrou seus esforços.
E tanto fez que destruiu
Aquele que tinha o céu como vizinho de cima
E as raízes no andar de baixo.

O Carvalho e o Junco, fábula de Jean de La Fontaine (1621-1695).

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 27, 2021

CALANGOS COLORIDOS DESAFIAM PSIQUIATRA

Lázaro andava macambúzio, desconfiado, sorupembático, escalafobético, colicocéfalo. À noite, no colégio, sem conseguir se conter, mais uma vez desabafou com seu amigo: 

– Cara, estou passando por um período muito ruim da minha vida. Aquelas visões têm piorado dia a dia. Parece que estou sendo vítima de uma ilusão reptiliforme. Acho que é devido ao exagero naquilo que estou fazendo todos os dias, no banheiro; você sabe.

– Nada disso. Se aquilo produzisse confusão mental, não haveria um estudante com a cabeça equilibrada nesta sala.

– Hoje foram cinco -, continuou Lázaro. Um azul, dois vermelhos, um amarelo e um branquinho. Verifiquei com todo cuidado. Eram calangos de verdade. Passaram pelo meu quintal, quando estava estudando debaixo da mangueira.

– Tem certeza? Pode ser impressão sua.

Por isso é que estou preocupado. Pode ser uma alucinação visual, uma visão de espectros, e isso é grave. Tenho que diminuir aquele negócio que faço no banheiro. Acho que estou ficando fraco, com esgotamento nervoso.

Por que você não conversa com Salatiel, que é psiquiatra, meu amigo. Posso marcar um encontro de vocês. Converse com ele.

O doutor Salatiel morava na rua de cima, e conhecia quase todos os moradores da redondeza; ouviu atentamente as alegações de Lázaro. No dia seguinte estavam os dois no quintal dos calangos, e ficaram observando a movimentação das folhas secas, as frutas caídas, a ramagem das pequenas plantas. Logo surgiram os calangos. Todos coloridos. O primeiro era branco; o segundo era amarelo, mais simpático, parecendo convocar a turma para um passeio. Em seguida passaram outros: um vermelho, um verde e outro azul. 

O psiquiatra, recostado em uma jaqueira, pensou um pouco, franziu o cenho e falou:

– Vou ali à casa do Jaime e já volto.

Meia hora depois retornou com um sorriso maroto, e deu a devida explicação para o fato que transtornava a vida de Lázaro.

Jaime morava em uma casa próxima à de Lázaro, e era pintor. Todos os dias usava sua pistola para dar cores a carrinhos, caminhões e outros brinquedos que eram vendidos na feira. Quando estava pintando, com a pistola na mão, passava um calango e ele pintava o pequeno animal. Foi assim que a fauna colorida foi aumentando.

Explicado o mistério dos calangos coloridos, o estudante sentia-se liberado para suas práticas desajeitadas de fisiculturismo que andava fazendo no banheiro, escondido de sua família. Era um jovem raquítico, e precisava melhorar sua aparência.

Aliviado, olhou de forma dissimulada para seu muque à Olívia Popeye.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 20, 2021

TRÊS ESTÓRIAS PARA LERMOS NA QUARENTENA

Deslize, gafe, descuido ou mancada pode acontecer com qualquer pessoa. E de nada adianta tentar corrigir. Cada tentativa pode gerar nova gafe. 

O casamento seria no dia seguinte, no Rio de Janeiro. Várias vans foram alugadas para transporte do pessoal que viria de fora, e as pessoas se revezavam na ida à rodoviária  e ao aeroporto. A acomodação na casa dos parentes era tarefa de outro grupo, que se esmerava para bem desempenhar sua missão. Dona Orminda, que viera dias antes de Lisboa, ansiosa, naquele calor carioca infernal, coordenava a recepção e a hospedagem do grupo que estaria para chegar de Portugal.

Andrade, tio da noiva, percebendo a aflição de dona Orminda, providenciou um copo com água gelada. A parente lusitana, um pouco aliviada, falou com seu sotaque forte:

– Eu vou ter muito trabalho, porque vai me chegar uma besta completa. – Andrade, sem se dar conta, e tentando agradar, interveio:

– Pode deixar que a gente dá um jeito nela, dona Orminda.

– Mas eu estou a falar de um autocarro, disse a senhora.

– Pensei que estavas a falar de uma sobrinha!

Constança fora convidada para o lançamento de um livro em Brasília, que aconteceria em um restaurante na 104 Sul. Ao chegar, ficou atordoada com o barulho do grupo de pagode que animava a festa.

Muita gente chegando ao mesmo tempo, congestionando o portão de entrada, que dava para um grande pátio. Logo, viu algumas amigas, e isso deixou-a mais calma. Do jeito que entrara no pátio, percebeu uma pessoa com a mão estendida em sua direção.

E as amigas gritavam:

– Constança, vamos! Constança! Oh, não!

Foi quando Constança se deu conta de que estava com a mão estendida à espera de um aperto. À sua frente estava uma estátua de um homem, em tamanho natural, que ela imaginava ser o escritor recebendo os convidados. 

Um grupo de amigos viajava pela Alemanha, e tomaram um trem que seguia para a Itália. Ana Maria, olhar no horizonte, admirando a bela paisagem, smartphone ligado, fones nos ouvidos.

De repente surge o cobrador, com ar de bonachão e com aquele habitual bom humor dos alemães. Para em frente a Ana Maria e, quase gritando, fala:

– Itali?… Itali?… Itali?

Ana Maria retira os fones dos ouvidos e, desligada como sempre, olha para cima e responde:

– Não, é Rod Stewart. – Recolocou os fones nos ouvidos, voltou a abaixar a cabeça e continuou balbuciando alguns trechos da música.

Os amigos conversaram com o cobrador, mostraram o tíquete da passagem e ele se retirou com seu passo pesado. Ana Maria, nesse instante, levanta a cabeça e pergunta para o grupo à sua volta:

– Como esse cobrador sabe que eu conheço Rita Lee?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 13, 2021

DOIS TÍMIDOS NAS NOITADAS

Em Natal dos anos 1970 a vida social era muito intensa, com bailes nos diversos clubes da cidade, bem como festinhas chamadas de assustados, que consistiam de eventos realizados em casas de amigos e conhecidos, organizados de modo quase informal. Cada convidado podia convidar um amigo ou amiga, desde que levasse algo para beber ou degustar. 

Uma figura que circulava nas noites natalenses daquela época era Restinho. Não sei seu nome. Restinho era um rapaz de poucos modos, mas falastrão e exibido junto às rodas de conversas no Grande Ponto. 

Restinho tinha esse codinome porque, nas festas dos clubes ou em assustados, ele ficava de pé, acompanhando o andamento da música, escaneando com o olhar as moças que estavam sentadas. Ao perceber que a melodia já estava perto do fim, o rapaz se dirigia a uma das moças e, com seu jeito à James Dean, jogava seu charme: Vamos dançar esse restinho? E rodopiava não mais que trinta segundos.

Olha a Faca era um rapaz excessivamente tímido, e um ser especial. A primeira namorada; o primeiro encontro junto à janela da casa da moça, em uma noite de total escuridão. Para complicar, a iluminação local era reduzida, devido ao galho de uma árvore ao lado. E ficaram os dois ali, sem sequer se olharem de frente. Lá se foram duas horas de total silêncio. Na despedida, ele falou duas palavras em tom forte: Olha a Faca! A donzela tomou um susto e se afastou. Foi uma tentativa desesperada do rapaz para puxar conversa. Aquela foi a última vez que os dois se encontraram.

Restinho e Olha a Faca. Figuras hoje quase sem representantes nos modernos escaninhos sociais. 

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 6, 2021

LILICA, CONFRONTO E AMEAÇA

– Parte I – Lilica e sua turma invadem minha cozinha para sugar o açúcar que se formou sobre a bancada, após o uso do álcool em gel, e se embriagaram.

– Parte II – Com o uso de uma solução diluída de água sanitária na bancada, Lilica e seu grupo se armaram com placas e faixas para protestar, entoando cânticos de revolta.

– Parte III – Lilica e seu grupo passam por um processo de corrupção interna, face ao grande volume de dinheiro (K5 – cada unidade equivale a cinco porções de comida) gerado pela monetarização de suas mídias sociais. Houve dispersão dos componentes, com formação de grupos menores. 

Parte IV

Depois de algum tempo ausente, três elementos do grupo da Lilica surgiram sobre a bancada da minha cozinha, montados em Ubermosq (mosquitos para transporte de passageiros de pequeno peso, como as formigas-faraó).

De pé, encarando-me de frente, demonstraram toda a revolta do grupo pela utilização continuada da solução diluída de água sanitária sobre a bancada da cozinha, todas as noites. Os três soldados-mensageiros exigiam a urgente suspensão do uso da solução, sob pena de uma paninvasão, com milhares de elementos atacando a um só tempo, pela madrugada, fora horário do movimento da cozinha. Todos utilizavam máscara do tipo F-1 (formiga-faraó), com filtragem especial para gases e eflúvios indesejados.

Fiquei rindo, porque sabia da reação tóxica que essa solução provoca, podendo levar à morte por envenenamento. Sentindo-me fortalecido, ameacei-as de usar a solução naquele momento, o que exterminaria com os três representantes do grupo. Deixei claro que não estava disposto a qualquer acordo. Rapidamente elas se afastaram. Um pouco à frente, várias formiguinhas-faraó, escondidas atrás de um vaso, se juntaram aos três soldados-mensageiros, e se afastaram gritando em uníssono: Mitrídates! Mitrídates! Mitrídates! Ao final, uma delas gritou: Aguarde-nos!

Decidi desvendar aquela mensagem, e descobri que Mitrídates VI viveu entre os anos 120 e 63 a.C. Depois de conquistar a Anatólia ocidental (atual Turquia), Mitrídates ordenou a execução de cem mil homens, mulheres e crianças romanas, tornando-se um dos maiores inimigos de Roma. 

Naquela época era comum o envenamento, inclusive por familiares, de pessoas ligadas à nobreza, ao poder. Por precaução, Mitrídates começou a tomar doses crescentes dos venenos mais utilizados, até que fosse capaz de tolerar uma dose letal. Esta técnica de dessensibilização é hoje conhecida como mitridificação. 

No ar, uma dúvida. O grupo da Lilica estaria tentando uma dessensibilização à solução de água sanitária pela técnica de Mitrídates?

Acho que não conseguirão essa façanha, ao menos em grupo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 26, 2021

UM CONTO DO VIGÁRIO EM 1964

Você, que é jovem, que tal fazer uma busca na internet com a frase ouro para o bem do Brasil? Você descobrirá coisas sinistras, de pura enganação, como as que serão mostradas a seguir, também obtidas na internet.

Poderia dar certo uma campanha em que a população doaria ouro para o bem do Brasil, com o objetivo de ajudar o país a reduzir sua dívida externa, com o intuito de equilibrar as finanças do estado brasileiro? Pode parecer estranho, mas isso aconteceu logo após o golpe militar de 1964.

A campanha foi liderada por jornalistas dos Diários Associados, sob a tutela de Assis Chateaubriand, e teve início em São Paulo no dia 13 de maio de 1964. E assim era anunciada ao povo:  A Campanha “Ouro para o Bem do Brasil” será uma contribuição patriótica do povo brasileiro em todos os quadrantes da nossa amada Pátria para o Tesouro Nacional, objetivando o fortalecimento do lastro-ouro e maior valorização da nossa moeda… com a entrega de suas alianças ou quaisquer outros objetos em ouro. 

Muitos fizeram isso, e houve ainda quem doasse colares, brincos e outros objetos de ouro e até dinheiro do próprio bolso, para ajudar nossa terra a se levantar dos infortúnios vividos no período que antecedeu o golpe militar. 

Veja este relato de um jornalista: Em junho de 1964, eu fui com o meu pai entregar um anel de ouro e rubi e duas alianças de seu casamento para os militares que recolhiam as doações numa bandeira do Brasil, estendida em frente ao Museu Histórico da rua Barão de Jundiaí, SP. Era a campanha do Chatô: Ouro para o Bem do Brasil. Quem dava ouro, ganhava um anel de latão. Não sei até hoje o que foi feito com o montante de ouro, que chegou a uma tonelada e meia só em São Paulo, nem com o dinheiro, pedras preciosas e até veículos que foram doados em muitas cidades do Brasil

Em São Paulo havia três cofres para receber as doações. Uma destinado ao dinheiro em espécie, outro para cheques e um outro para os objetos de ouro. Os doadores podiam entregar suas alianças de casamento, de ouro, e em troca receber uma aliança símbolo de latão com os dizeres Dei Ouro para o bem do Brasil. Segundo os números oficiais, foram entregues quase dois milhões de anéis símbolo.

O montante arrecadado no estado de São Paulo foi de mil e duzentos quilos de ouro e um pouco mais de dois bilhões de cruzeiros. Nas semanas seguintes, muitas outras cidades brasileiras aderiram a essa campanha. As pessoas fizeram filas para doar dinheiro e joias da família, além de suas alianças de casamento. O valor total de todo o país nunca foi divulgado.

O tempo passou, e anos mais tarde começaram a surgir dúvidas sobre o verdadeiro destino desses recursos. Ao final, Brasil quebrado, e os militares promoveram um arrocho sem precedentes, enquanto a desigualdade social aumentava.

A campanha entrou para a história como uma picaretagem. Na década de 1980, Ruy Gouveia (PB) foi denunciado pela Lei de Segurança Nacional por afirmar que o então ministro Delfim Neto havia usurpado todo o ouro doado em 1964.

Ouro para o bem do Brasil. Somente em São Paulo, mil e duzentos quilos de ouro e dois bilhões de cruzeiros. Qual o valor total levantado? O que aconteceu com esse dinheiro?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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