Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 16, 2020

COMO NASCE UM CAMPEÃO

Natal vivia um período de efervescência social, com festas acontecendo nos clubes e nas casas. No início da década de 1970, as famílias com poder aquisitivo caprichavam na aquisição de joias, vestidos de festa e viagens. A vida universitária vivia uma fase de efervescência.

Mariana era uma legítima representante desse grupo. Casada, trabalhando em órgão do governo, marido advogado com fama local, dois filhos. A pessoa que trabalhava na casa da Mariana pediu dispensa do serviço e foi para o Rio de Janeiro, nos rastros de Beluco, namorado fogoso e matreiro.

Mariana estava em busca de alguém para auxiliar nos serviços da casa, que era grande e muito bonita. Com dificuldade de encontrar uma pessoa que se enquadrasse em suas exigências, a jovem senhora pediu a umas amigas para indicar alguém para trabalhar em sua casa. Helena indicou uma bela morena que ela conhecera na casa de outra amiga, com boas referências da dona da casa. 

No dia acertado, logo cedo chega Byanca, uma garota jovem, usando um vestido tipo cigana, no meio das coxas grossas, com uma blusa deixando prever dois maravilhosos seios, no limite do desassossego. Antônio, o marido, encontrava-se em seu escritório de advocacia.

Mariana olhou para a moça, convidou-a a entrar e iniciou o processo investigatório já conhecido da jovem candidata. Perfeito. Preenchidos os requisitos técnicos, partiu para as orientações formais. Mariana chamou a moça na cozinha e disse: 

– O dono da casa é muito exigente e conservador. Ele não gosta desse tipo de roupa; dessa saia curta e dessa blusa decotada. Por favor, a partir de amanhã você passa a usar roupas mais comportadas, porque o Dr. Antônio não tolera pessoas vestidas com esse tipo de roupa. Ele gosta de pessoas com modos mais recatados. 

E a moça desapareceu na imensidão da casa, demonstrando toda a sua experiência na arte da limpeza domiciliar, além dos seus dotes de cozinheira. Logo ela exigiria uma auxiliar, pensou.

Na hora do almoço, tudo encaminhado, pratos na mesa. Mariana, com o intuito de apresentar ao marido sua nova aquisição, chamou a Byanca até a sala de jantar, para servir o almoço. Quando Byanca chegou na sala, pôs as mãos nos quadris e gritou:

– Toinho, você mora aqui? Mas você nunca me falou nada. Ora vejam só, o Toinho Pé de Valsa!

Mariana, chocada com aquela descoberta, perguntou:

– De onde você conhece do Dr. Antônio?

– Toda sexta-feira a gente passa noite dançando no Araruna, que fica ali no final das Rocas, na Rua Miramar, no caminho da Praia do Meio. E ele dança muito bem! 

Byanca não terminou de servir o almoço. O Dr. Antônio, nas noites das sextas-feiras, passou a frequentar a casa do sogro, para jogar gamão, carregando seu sofisticado kit de apetrechos para charuto. Meses depois, com seu jogo refinado, Dr. Antônio ganhou o campeonato oficial de gamão do Ceará e de São Paulo, além de medalha de honra no torneio do Rio de Janeiro. Uma fera.

Dr. Antônio virou referência natalense no gamão.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

A Sociedade de Danças Antigas e Semidesaparecidas Araruna foi criada em 24 de julho de 1956, com o incentivo de Luís da Câmara Cascudo, o maior folclorista e incentivador da cultura do Rio Grande do Norte. 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 9, 2020

LILICA, O RETORNO

Depois de alguns dias, passei a sentir uma saudade sutil, que vinha em ondas, tocava meu coração e desaparecia. A partir de então, deixei de usar aquela solução de água sanitária diluída na bancada da cozinha. Voltei ao uso do álcool a 70%, até seguindo a sugestão de alguns leitores deste blog. As mensagens foram muitas. E fiquei à espera de Lilica e suas amigas.

Esperei um dia, e nada. Dois dias, nada. Lilica e seu grupo não davam sinal de vida. Todas as noites eu olhava com cuidado, e nada de Lilica. Desisti de esperar, apesar de continuar utilizando o álcool a 70% na limpeza da bancada.

Quarta-feira à noite, muitos jogos a assistir. Havia jogo do Vasco. Os ingredientes para uma grande noite. Um vinho branco português da Região do Minho já estava aberto, e a taça à espera. Depois de umas duas reposições do vinho e o jogo cheio de emoções, o inesperado.

Aquelas vozes fininhas, em si sustenido, roubaram minha atenção da tela da TV. Cortei o som do aparelho e me concentrei nos gritinhos atrás de mim, sobre a bancada da cozinha. Ali, um grupo de formiguinhas-do-açúcar, já sob o efeito do álcool que ainda não evaporara, caminhava em fila, com algo branquinho na cabeça, que demorei para perceber serem máscaras. Todas usavam máscaras, que traziam algo escrito na parte de cima. Logo entendi tratar-se de uma reivindicação, utilizando frases curtas, como: Formiguinhas-do-açúcar exigem respeito! Em outra, uma justificativa: Gostamos de açúcar, e não tumultuamos sua cozinha! 

O álcool já fazia o seu efeito, liberando substâncias que aceleravam algumas funções e inibiam outras. De repente, uma roda de ciranda se formou, e Lilica e suas amigas se deram as mãos e cantavam: Se o bem existe, por que não para a gente? Somos todas formiguinhas do bem; só queremos ficar contentes. Um viva! Dois vivas! E um grupo gritou: Uh lalalá! Uh lalalá! E o restante respondeu: A vida vai melhorar! Em um só tom, todas repetiram: Uh lalalá! Uh lalalá! A vida vai melhorar!

E saíram em uma fila indiana, com claros sinais de embriaguez, foram até a ponta da bancada e retornaram, entoando seu grito de guerra: Uh lalalá! Uh lalalá! A vida vai melhorar. No mesmo passo, sumiram por trás de alguns utensílios dispostos sobre a bancada, deixando para trás apenas o silêncio.  

Vamos ao segundo tempo do jogo, porque ainda resta um pouco do vinho e muitas jogadas por serem curtidas.

De frente para a TV, pensei: Eu tomando vinho português. E as formiguinhas não tinham direito a um pouquinho de álcool a 70%?

Que retornem amanhã! Vou cantar e dançar uma ciranda com elas.

Na última taça, descobri-me repetindo baixinho: Uh lalalá! Uh lalalá! A vida vai melhorar! Acho que devo estar ouvindo coisas -, pensei. É hora de dormir. 

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 2, 2020

O ANEL DE GIGES e os poderosos

O ANEL DE GIGES E OS PODEROSOS

Comecemos pelo entendimento do mito do anel de Giges, que é um artefato mítico e mágico mencionado pelo filósofo Platão no segundo livro A República. O anel concede o poder de tornar-se invisível àquele que o possui. A República pondera, então, se uma pessoa inteligente seria justa se não temesse por sua reputação ao cometer injustiças.

Essa história começa com Giges, rei da Lídia, fundador de uma dinastia. Giges era um pastor de ovelhas. Certo dia houve uma tempestade e um terremoto fez uma abertura na terra. Giges desceu até a abertura, onde encontrou o corpo de um homem nu com um anel de ouro no dedo. Ele pegou o anel e foi para casa.

Mais tarde, foi para uma assembleia dos pastores. Lá, começou a mexer em seu anel, e percebeu que quando o anel estava em certa posição as pessoas falavam dele como se ele ali não estivesse. Descobriu que se tornava invisível. Mexeu no anel mais uma vez, e constatou que, de fato, tornava-se invisível. Após a reunião, foi formado um grupo de mensageiros que iriam conversar com o rei sobre a produção dos rebanhos, e Giges se meteu no meio deles. No palácio, Giges seduziu a rainha, conspirou com ela a morte do rei e o matou, assumindo seus poderes. 

Imaginemos que são dois os anéis mágicos; o justo põe um em seu dedo e o injusto põe o outro. Será que algum homem poderia manter suas mãos longe do que não fosse seu, desde que ele pudesse, com segurança, tomar o que quisesse das lojas ou entrar em casas, deitar-se com qualquer um a seu bel-prazer, ou matar ou libertar da prisão quem ele quisesse? O justo e o injusto chegariam ao mesmo ponto?

Seria uma prova de que um homem é justo não por sua vontade ou porque ele acha que a justiça é algum bem para ele individualmente, mas por necessidade, pois onde quer que qualquer um pense que pode ser injusto com segurança, ele é injusto. Será que alguém, obtendo esse poder de se tornar invisível, continuaria sem fazer nada errado ou tocar no que não era seu?

Um homem agiria com correção se tivesse o poder da invisibilidade, podendo fazer maldades sem ser percebido? Ou o importante é manter as aparências de ser uma pessoa justa e bondosa?

Quantas pessoas conhecemos que eram justas e honestas, mas quando passaram a exercer um cargo público de relevância se corromperam? Mas ele era tão honesto, cheio de bons propósitos! Com o anel de Giges no dedo, o nosso amigo se corrompeu, como a maioria. O medo de ser pego por seus atos, e julgado por eles, fazia com que o nosso amigo cuidasse do seu comportamento em grupo. Com a fugaz ilusão de que não seria descoberto, mudou o que consideramos de caráter? Onde estavam seus valores?

Imagine o que você faria se estivesse de posse desse anel. Se você tivesse uma garantia perfeita de que nunca seria pego ou punido, o que faria? São acertos de contas a realizar, vinganças a concretizar… 

Não lembro de um amigo que tenha assumido cargo político importante e ter voltado a ser meu amigo depois.

Anel de Giges. O sentir-se livre para agir. Aqui, a importância da ética.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 25, 2020

A COELHADA DA TYARES

Era uma noite de quinta-feira, e Tyares convidava alguns amigos para comer alguns coelhos no almoço do sábado. Estava muito empolgada em reunir o pessoal para um papo legal em torno da piscina.

Minha amiga Tyares ganhara um casal de coelhos de presente, mas não imaginava que a reprodução dos animais fosse tão acelerada, a ponto de haver tirado a paz de sua casa. Era coelho por todos os lados, furando o chão, escapando pelos buracos da cerca e fugindo, perturbando a vida dos vizinhos.

Foi aí que teve a ideia da coelhada. Comeriam todos os coelhos no sábado, pondo fim àquele suplício. Feito o convite na quinta-feira, na sexta-feira à noite o rapaz que iria preparar os coelhos já estava em sua casa, com suas facas devidamente afiadas.

Tyares não queria assistir à morte dos coelhos, e buscou refúgio em seu quarto, no primeiro andar. Momentos depois, todas as crianças da casa choravam e gritavam para o rapaz: Delphos não! Você não vai matar o meu Delphos! – gritava outro. O homem pegou outro coelho e os gritos aumentaram: Romeu não! Mamãe, ele vai matar o Romeu! E assim aconteceu com Freud, Ramiro, Sansão, Inácio, Biloca, Pituca, Galileu e Moreno. 

A choradeira e os gritos da meninada, que corria alvoroçada para esconder os coelhos, chamou a atenção de Tyares. Ao descer as escadas, encontrou sua casa toda revirada, menino escondido em tudo que era lugar, cada qual segurando um ou dois coelhos e protegendo-os entre as pernas.

– Para tudo! – gritou Tyares. Não vai mais haver coelhada. Não podemos matar um animal com certidão de nascimento. 

E sugeriu para as crianças oferecer um coelho de presente para cada convidado. Eles teriam que prometer criar o animal com carinho. Todos concordaram.

Pagou ao rapaz, que retornou para casa levando suas facas afiadas. Ainda deu para ouvir seu muxoxo, baixinho: Vôte! Cada coelho tem um nome! Assim não dá!

No dia seguinte, vários amigos passaram pela casa da Tyares e cada um recebia das crianças o seu coelho, com o nome do animal escrito em um papel. 

E assim deram adeus a Freud, Sansão, Ramiro, Delphos, Inácia, Platão, Biloca, Pituca, Galileu, Laércio, Morena, Michelangelo, Assis e Romeu.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 18, 2020

UM ALMOÇO NA QUARTA-FEIRA

O que um almoço na quarta-feira tem de diferente do da terça ou da quinta-feira? Há alguma diferença?  Essa confusão durou alguns segundos, até que fossem esclarecidos os detalhes. 

Ambientação: você está em Lisboa, deliciando-se com pastéis de Belém em uma tarde de segunda-feira e alguém lhe propõe um almoço na quarta-feira. Logo imaginei que seria dali a dois dias. Não. É amanhã, terça-feira. Ops! Agora fiquei confuso. Mas logo viria a explicação. A proposta era simples: almoçar na Taberna Quarta-Feira, que fica em Évora, ali pertinho. O dono do convite enfatizou que conheceríamos um dos locais mais especiais de Portugal, com a vantagem de um preço justo. E por que não?

No dia seguinte, chegávamos a Évora antes do meio dia. Uma visita rápida por locais já conhecidos, um retorno à Cartuxa e tomamos o rumo previsto: Taberna Quarta-Feira, com a reserva devidamente acertada por telefone.

Era uma casa simples, com cara de casa de avó, e bem cuidada. Logo na entrada, uma sala comprida recebia os convidados. Umas oito mesas nos aguardavam. Logo, o chef visitou cada mesa para explicar a dinâmica do almoço. 

Não havia pratos a serem solicitados; o cardápio era reduzido. Fomos comunicados de que os pratos eram preparados pela equipe com os elementos que o chef, pela manhã, escolheria de seus fornecedores. Legumes e frutas frescos, temperos, carnes, peixes com o frescor possível. O que ele achasse melhor. E os pratos seriam iguais para todos, com alguma variação que não alterasse o essencial.

E ficamos na mesa à espera das iguarias, com uma ansiedade benfazeja, precursora de bons eventos. E veio a entrada: cogumelos com sopa feita na água da fervura desses cogumelos; pata negra com aspargos; pão, queijo de cabra cremoso do Alentejo; salada de folhas temperada com coulis de pimenta. O prato principal foi porco cozido ao molho; creme de espinafre com migas, batatas em cubos (fritadas duas vezes) e arroz com cenoura. A sobremesa coroou nosso almoço: torta de nozes com baba-de-moça e doce de ovos (ovos moles).

O chef se despede de uma cliente.

Taberna Típica Quarta-Feira. Mas pode ser de todos os dias.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 11, 2020

LILICA, UMA DEVASSA!

As cenas explícitas de devassidão aconteceram na minha cozinha, protagonizadas por Lilica, uma formiguinha que adora comer coisas doces. De longe, muito longe, sente o cheiro das guloseimas sobre a pia da cozinha. Vem na frente, examina com cuidado os lugares mais atraentes, volta pra casa e retorna com sua turma. Sempre foi assim, e eu assim a tolerava.

Lilica pertence a uma família importante (Monomorium pharaonis) mas adora ser chamada de formiga-do-açúcar. Mede dois milímetros, sua cor é amarelada e tem o corpo meio transparente. Guarda a mágoa de ter sido expulsa dos hospitais. Lilica também é conhecida como formiga faraó. Estas formigas são uma espécie tropical, mas enfrentam qualquer clima, desde que haja aquecimento central.

Por ser de uma família nobre (pharaonis), Lilica gosta de se exibir frente a seus pares, em especial nas noitadas em que se entrega à esbórnia. Voltemos à minha cozinha. Com o surgimento da pandemia do novo coronavírus e da quarentena, entrou em ação a minha esposa, exigindo que Lilica e suas amigas sumissem da nossa casa.

Coloquei álcool a 70% em um borrifador e à noite, antes de iniciar a partida de futebol a que eu iria assistir, borrifei toda a bancada da cozinha; passei um guardanapo de papel para uniformizar a distribuição do álcool na bancada e fui assistir ao jogo pela TV.

O jogo corria em bom nível, e eu me esqueci da Lilica. Perto do final do primeiro tempo, imaginei ouvir gritinhos em si sustenido. Imaginei serem as crianças do vizinho em suas brincadeiras quarentenais. Porém os gritinhos continuaram. Foi justo aí que terminou o primeiro tempo.

Fui à bancada da cozinha e fiquei atônito. Lilica e suas amigas completamente de porre, promovendo balbúrdia sobre a bancada, indo e vindo em rodinhas de ciranda. Nesse momento, Lilica subiu em um caroço de feijão cru que estava junto à parede e ficou se contorcendo, sentada e rodando a parte superior do corpo em evidentes poses sensuais. As outras formiguinhas, com sinais claros de embriaguez, batiam palmas e atiçavam a performance da Lilica. 

Fui examinar o que havia acontecido de errado. Eu havia borrifado o álcool na bancada para promover a limpeza do local. Como aquelas danadinhas estavam ali, em um lugar devidamente limpo? 

Depois de algumas conjecturas, cheguei a uma conclusão: Lilica e suas amigas sentiram o cheiro adocicado do álcool que eu havia passado na bancada, vieram em grande grupo e ficaram consumindo a parte de cima, puro álcool. Depois de algum tempo, já embriagadas, passaram a sugar resquícios de açúcar que ficaram depois da evaporação do álcool; elas, agora, consumiam esse açúcar.

Esperei terminar o jogo e, percebendo que as formigas tinham ido embora, borrifei uma solução de água sanitária diluída sobre toda a bancada. No dia seguinte, repeti a dose da solução. E assim, todas as noites, aquele ritual de limpeza extrema se repetia. Lilica e seu grupo sumiram de vez.

Nesta noite não tem jogo na TV, e baixou uma saudade da minha amiga Lilica. 

Jogo novamente a solução de água sanitária na bancada, ou retorno com o álcool a 70%?

Qual a sua sugestão? 

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 4, 2020

EPIDEMIAS/PANDEMIAS exigem lideranças que constroem

No dia 13 de maio de 1717, nascia na Áustria Maria Teresa Valburga Amália Cristina da Áustria, a primeira e única mulher a governar sobre os domínios habsbúrgicos. Maria Teresa assumiu o poder depois da morte e seu pai, Carlos VI, em 1740, vitimado por uma intoxicação por cogumelos venenosos.

Maria Tereza era a mãe de D. Leopoldina de Habsburgo (Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena), que no ano de 1817 casou-se com o futuro imperador brasileiro, Pedro I, tornando-se a Imperatriz Consorte do Império do Brasil de 1822 até sua morte. No Brasil, ficou conhecida como Maria Leopoldina. Foi ela quem assinou o ato de independência do Brasil.

Na Áustria, Maria Tereza permitiu a inoculação do vírus da varíola em seus filhos, com isso mudando a visão negativa que os médicos austríacos tinham em relação a esse procedimento. A campanha de inoculação foi inaugurada com um jantar no Palácio de Schonbrunn às primeiras 65 crianças inoculadas, e a própria Maria Teresa encarregou-se de receber essa garotada. O Palácio de Schonbrunn é considerado o Versalhes da Áustria. 

Na Inglaterra do século XVIII a varíola era responsável por cerca de 10% das mortes, e mais de um terço ocorria em crianças. No início do século XVIII, foi introduzida a técnica de injetar o vírus vivo em crianças. Para convencer seus concidadãos, a própria família real inglesa foi inoculada publicamente. A mortalidade da doença caiu para 1%.

No Rio de Janeiro, em meados de 1904, havia mil e oitocentas pessoas internadas devido à varíola. As pessoas, mesmo assim, rejeitavam a vacina, que consistia na inoculação do líquido de pústulas de vacas doentes. À época, corria o boato de que quem se vacinava ficava com cara de boi. 

A vacinação contra a varíola foi declarada obrigatória no Brasil, para crianças em 1837 e para adultos em 1846. Em junho de 1884, Oswaldo Cruz fez com que o governo enviasse ao congresso um projeto para reinstaurar a obrigatoriedade da vacinação em todo o Brasil. A aprovação dessa Lei serviu de fundo para a Revolta da Vacina. O povo, já oprimido, não aceitava ver sua casa invadida e ter que tomar uma injeção contra sua vontade. E saiu às ruas do Rio de Janeiro para protestar. 

A confusão em torno da vacina serviu de pretexto para a ação de forças políticas que queriam depor Rodrigues Alves, gerando uma coalisão estranha e explosiva, diz o historiador Jaime Benchimol. Em 5 de novembro foi criada a Liga Contra a Vacinação Obrigatória. Estudantes aos gritos foram reprimidos pela polícia. Os fatos se agravaram de 10 a 19 de novembro de 1904. No dia 13 estava instalado o caos, com bondes assaltados e outros queimados, lampiões quebrados a pedradas, árvores derrubadas, edifícios públicos e privados apedrejados.

Ao final, após ação das tropas governamentais, havia um saldo de 945 prisões, 461 deportados, 110 feridos e 30 mortos em menos de duas semanas de conflitos, o que levou o governo de Rodrigues Alves a desistir da vacinação obrigatória. Mais tarde, em 1908, quando o Rio foi atingido pela mais violenta epidemia de varíola de sua história, o povo correu para ser vacinado, uma atitude na contramão da Revolta da Vacina.

Estadistas lutando pela vacinação. O povo revoltado. Lampiões quebrados.

Faltaram – ou faltam – aqui lideranças que construam.

Sejamos, pois, fômites do bem, emanando atitudes positivas, orientações seguras, exemplos que respeitem a população.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 28, 2020

CURSO PROFISSIONALIZANTE NÃO PRESENCIAL, uma opção?

Visitando uma cidade no interior do Maranhão, precisei dos serviços de alguém que trabalhasse como radiotécnico. Fui orientado a procurar um quiosque onde um senhor exercia seu trabalho. Parecia ser bastante respeitado naquele local. Serviço realizado, equipamento funcionando perfeitamente. Dei-lhe os parabéns por sua postura e indaguei onde havia adquirido aqueles conhecimentos. Contou que ele e seu irmão tinham se formado pelo Instituto Universal Brasileiro, sendo que o irmão era eletrotécnico.

Lembrei-me do meu tempo de estudante em Natal, quando meu irmão Eraldo fez um curso de radiotécnico nessa instituição. Recebeu as apostilas e o material de trabalho, estudou e se aprimorou, porém viu que aquele não era o seu caminho, e desistiu.

Entrei no Google para obter informações atualizadas sobre o Instituto Universal Brasileiro, que atuava em todo o território nacional. Todo o material de estudo e de trabalho eram remetidos através dos Correios.

O Instituto Universal Brasileiro foi fundado em 1941, sendo a segunda escola no Brasil a funcionar a distância, vindo a se tornar a maior escola do gênero no país, durante os anos 1960/1980; sua gráfica funcionava em São Paulo.

Assim, o IUB faz parte da primeira geração da educação a distância, o ensino por correspondência. Hoje, duas unidades permanecem funcionando na cidade de São Paulo. Disponibiliza cursos profissionalizantes, livros de suplência e cursos oficiais supletivos de ensino fundamental e médio.

Cursos não presenciais. Ao que parece, funcionam.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RNCUR

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 21, 2020

VIAGENS, RISCOS, MICOS E ESTRIPULIAS

Quando em viagem, seja para lugares próximos ou distantes, nossa imaginação ganha ares de perplexidade, e algumas vezes somos traídos pela empolgação. Daí para um vacilo, a distância é curta.

Lembro que no retorno de Brasília, onde fomos realizar a  prova para Residência Médica, apanhei um ônibus da Princesa do Agreste. O veículo era tão deteriorado que o motorista de reserva dormia no alto das três primeiras cadeiras, em uma tábua, ocupando a parte de cima, na lateral direita, com os pés quase tocando no rosto do infeliz ocupante da quarta cadeira.

Ao chegarmos em uma cidade da Bahia, deparei-me com três colegas que vinham do Rio de Janeiro, em um ônibus de última geração que acabara de estacionar ao lado do meu, na frente de uma grande lanchonete. Foram abraços e apertos de mão, e acertei com eles que mudaria de ônibus. Peguei minha pequena sacola e passei para o ônibus que vinha do Rio.

Almoçamos e retornamos às gargalhadas. Cerca de uma hora depois da saída, o motorista avisou que a pessoa que havia mudado de ônibus fosse falar com ele na próxima parada. Assim o fiz. E tive que pagar a passagem dali até Recife. Nada bom para um estudante pobre.

Ao chegarmos à rodoviária de Recife, compramos passagem para Natal. E um dos colegas sugeriu que tomássemos um comprimido de um ansiolítico para irmos dormindo até Natal. E cada um de nós fez uso daquele bendito remédio. Jamais em minha vida, até ali ou depois, fiz uso de tal medicação. Em Natal, chegando à rodoviária, estranhamos a movimentação da polícia em torno do nosso ônibus. Houve um assalto dentro do ônibus, durante a viagem. Os bandidos entraram e roubaram os pertences de todos, menos os nossos, porque não conseguiram nos despertar do sono em que nos metêramos.

Um amigo viajou para o Marrocos com a euforia de uma criança ao receber um  presente. Em Marrakech, resolveu conhecer um mercado popular. Vestiu suas roupas de aventura e se dirigiu à feira. No retorno ao hotel, havia trocado toda a sua roupa por uma kaftan que mais se assemelhava a uma batina franciscana. No hotel, falou que não gostava desse tipo de roupa.

Em uma viagem a Miami, um amigo chegou ao hotel com um bonito par de luvas de boxe. Alguém do grupo elogiou, pois desconhecia seu gosto por aquele tipo de luta. Não, eu não gosto; comprei porque o preço estava muito bom –, respondeu.

Outro amigo, médico oftalmologista, em viagem por vários países da Europa, no primeiro dia, em Roma, encontrou em uma loja o faqueiro dos sonhos, com três andares. Empolgado, comprou o super faqueiro e empreendeu o restante de sua viagem carregando aquela pesadíssima relíquia. Ao chegar ao Brasil, resolveu mostrar sua aquisição aos familiares, e no fundo da caixa estava escrito: Made in Brazil. Era da Tramontina, e muito mais barato aqui.

Viajar em grandes grupos é uma superaventura. Já viajei desse jeito para muitos países. É seguro, você está sempre sob o amparo do guia, que fala incontáveis idiomas. Mas temos que ter cuidado, especialmente com os horários. Em Roma, as pessoas foram avisadas de que, às 13:30, todos tinham que estar ali, sem falta, pois o ônibus somente podia ficar estacionado por meia hora, e a viagem da tarde era longa. Quarenta e sete retornaram, menos um senhor que viajava sem companhia. Não o encontraram. Não sei se ele conseguiu retornar ao Brasil, pois o ônibus teve que continuar a viagem.

Viajar é uma aventura, mas precisamos retornar em paz.

Idosos devem viajar sempre acompanhados.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 14, 2020

ESCAPANDO DO MUNDO DOS MORTOS

Em texto recentemente publicado neste blog, comentei sobre a fuga de Ícaro da ilha de Creta, utilizando o par de asas construído por seu pai, Dédalo. A fuga de Dédalo, pelo ar, lembrou-me o feito de Casanova, aventureiro e escritor italiano, preso na Prgioni Nuove, de onde jamais um prisioneiro saíra com vida. Essa era a lenda. Giacomo Casanova, colocado em uma minúscula cela, fugiria saltando pelos telhados do palácio, depois de ficar preso durante 16 meses, tendo Paris como destino.

Fiquei a pensar se alguém, um pouco mais astucioso, teria conseguido fugir do Mundo Subterrâneo, depois de ficar cara a cara com Perséfone ou com o próprio Hades. Citarei quatro que alcançaram essa glória.

Para se chegar ao mundo dos mortos, era necessário atravessar o rio Estige. Havia o barqueiro dos mortos, de nome Caronte. Ele exigia uma moeda (óbolo) como pagamento. Contudo, ele apenas conduzia o barco, e era a alma que teria todo o trabalho de remar. Após ser recebido por Caronte, o morto tinha que passar por Cérbero, o cão de Hades, antes de entrar pelos portões do Mundo Subterrâneo. O cão tinha três cabeças, e adorava comer carne fresca. Mas Cérbero só atacava aqueles que queriam escapar, ou mortos vivos que queriam entrar.

Orfeu perdeu sua esposa, Eurídice, morta por uma picada de cobra. Ficou sem interesse pela vida e se aventurou ao Submundo para trazê-la de volta. Com sua música maravilhosa, conseguiu chegar a Perséfone, a rainha do Submundo. Ele usou sua lira para encantar todos os monstros e até o próprio Hades. Perséfone se tocou com a história de Orfeu e permitiu que Eurídice o seguisse de volta para a terra dos vivos. Orfeu não poderia olhar para trás, ao saírem do Submundo. Pouco antes de conseguir o seu intento, Orfeu foi acometido de um desejo de olhar para trás, para se certificar de que sua esposa o seguia. Quando se virou, Eurídice foi puxada de volta para as Regiões Inferiores. Orfeu retornou à terra dos vivos sozinho. Não deu!

Teseu decidiu descer ao Submundo, em uma tentativa de ajudar seu amigo Pirítoo a  raptar Perséfone. Os dois enfrentaram muitos obstáculos pelos caminhos do Submundo, mas finalmente chegaram ao palácio de Hades. Lá, disseram ao rei que queriam levar Perséfone embora. Hades convidou-os a sentarem-se; ao fazê-lo, os dois ficaram sem capacidade de se mover. Foram presos nas Cadeiras do Esquecimento, onde permaneceram por anos. Nesse tempo, esqueceram quem eram e o que os levara até ali. Mais tarde, em visita ao Submundo, Héracles conseguiu resgatar Teseu, mas não foi possível libertar Pirítoo; Hades não permitiria a fuga do mortal que tentara raptar sua esposa, e o amigo de Teseu permaneceu no Submundo para sempre. Também não deu para Pirítoo!

O terceiro a conseguir escapar do Mundo Subterrâneo foi Sísifo, considerado o mais astuto de todos os mortais, chegando a enganar a Morte. Durante sua vida, Sísifo ofendeu os deuses de muitas formas, Zeus em especial. Era um ser ganancioso, mentiroso e desleal. Irritado, Zeus ordenou o aprisionamento de Sísifo por Hades, tendo este enviado a Morte (Tânato) para buscá-lo. Foi aí que Sísifo enganou a Morte, prendendo-a com as correntes que lhe eram destinadas. Enquanto a morte permanecesse presa, nenhum mortal poderia morrer. No final, Ares, o deus da guerra, interveio para libertar a Morte, que inverteu o jogo com Sísifo. Antes de morrer, Sísifo fez com que sua esposa prometesse que lhe negaria os ritos apropriados em seu funeral, jogando seu corpo em uma praça pública. Ela cumpriu o prometido e, no Submundo, Sísifo não pôde pagar a taxa para atravessar o rio Estige. Ele implorou a Perséfone para deixá-lo retornar à terra dos vivos, para que pudesse punir a esposa por sua negligência. Seu pedido foi atendido por Perséfone. Sísifo não cumpriu sua promessa, e não retornou ao Submundo, vivendo até a velhice em total desafio aos deuses. Porém teve que retornar ao Mundo Subterrâneo, sendo imediatamente enviado ao Tártaro para sofrer o castigo eterno. O véi dançou!

Asclépio, o deus da Medicina, era tão bom em cura que ele tinha conseguido enganar a morte e trazer as pessoas de volta do Submundo. Instigado por Hades, Zeus o fulminou com um raio, por pretender igualar-se aos deuses e tornar os homens imortais. Apolo, seu pai, exigiu que Zeus o trouxesse de volta à vida, e ele voltou como um semideus (os mortais não podiam ser deuses). Asclépio nem precisou visitar o Submundo para desafiar Hades.

Dédalo desafiou o rei Minos, fugindo de Creta.

Casanova desafiou a justiça veneziana, fugindo da Prigione Nuove

Orfeu, Teseu, Sísifo e Asclépio desafiaram o deus Hades, o todo-poderoso senhor do Submundo.

EvaldOOlieira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

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