Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 12, 2021

MARQUÊS E POMBAL, O PRESTÍGIO DE UM HOMEM

Lisboa foi atingida por um terremoto em novembro de 1755, seguido de um grande tsunami. Muitos incêndios se sucederam, em face do uso do óleo nas luminárias. A violência tal que deixou a cidade com dois terços de sua área inabitáveis. Face ao acontecido, o Rei D. José I nomeou e concedeu plenos poderes a Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Marquês de Pombal, que ocupou cargo homólogo a primeiro-ministro, tendo organizado o plano de reconstrução urbanística da cidade. 

Naquela época, Lisboa era uma cidade com ares medievais, cheia de ruas pequenas, sinuosas e sujas. O Marquês de Pombal criou leis que proibiram escravizar índios e reformou a Universidade de Coimbra, o Exército e a Marinha. Reorganizou as finanças do Estado, criou a Imprensa Real e a Escola de Comércio.

As reformas pombalinas chegaram ao Brasil, com a criação da Companhia do Grão-Pará e do Maranhão, criação da Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba, a extinção definitiva das capitanias hereditárias, a elevação do Brasil a vice-reino de Portugal, a nomeação do Rio de Janeiro como nova capital da colônia, em substituição a Salvador, e a expulsão dos jesuítas.

Situada entre a Avenida da Liberdade e o Parque Eduardo VII, a Praça do Marquês de Pombal é hoje um dos logradouros mais importante da capital portuguesa. Inaugurada a 13 de maio de 1934, o Monumento ao Marquês de Pombal é constituído por um pedestal em pedra trabalhada, com 40 metros de altura. No alto, reina absoluta sua estátua em bronze. Sob a praça passa o Túnel do Marquês, extenso túnel rodoviário que liga a Avenida Fontes Pereira de Melo à autoestrada A5, com destino à região oeste de Lisboa.

A parte inferior da base encontra-se rodeada por diversas figuras alegóricas; ali, uma figura feminina – Lisboa reedificada – e três grupos escultóricos evocam as reformas levadas a cabo pelo Marquês de Pombal. A calçada em volta da praça está decorada com as armas de Lisboa.


A influência do Marquês de Pombal é tão forte que determinados trechos de Lisboa são considerados pombalinos e outros pré-pombalinos, em referência à época. Antes ou depois do Marquês de Pombal.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 5, 2021

CIDADE DO PORTO, ONDE O VINHO DA CASA DISPENSA TRADUTOR

Uma belíssima cidade para se conhecer, passear e esquecer das querelas da vida. Uma cidade com vinho servido na calçada, à margem do rio Douro. O charme é deixar o carro antes da ponte e atravessá-la a pé, para o lado de Vila Nova de Gaia. Aí, tendo à frente a cidade do Porto, você disporá de uma carta de vinhos do Porto com variadas opções, superando em muito tudo o que você imaginava. Uma sugestão: antes ou depois de se deliciar às margens do Douro, manda a prudência que se visite o Majestic Café, para não ficar com essa dívida turística.

Esta cidade deu nome a Portugal, desde duzentos anos antes de Cristo, quando era conhecida por Portus Cale, vindo mais tarde a ser elevada à categoria de capital do Condado Portucalense, de onde se originou Portugal. A cidade é  conhecida por seu vinho, por suas pontes, sendo seu centro histórico classificado com Patrimônio Mundial pela Unesco. A Universidade do Porto está colocada entre as cem melhores universidades da Europa.

No final da tarde, caso encontre um grupo de jovens fazendo barulho nas ruas, não se intimide. São estudantes na luta pelo que lhes é devido.

Cidade do Porto. Vinho do Porto. Barcos do Douro. Um brinde à vida!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 29, 2021

POLÔNIA 1945. UMA EM CHICO, OUTRA EM FRANCISCO

Um jovem judeu de 20 anos é levado de trem para o campo de extermínio nazista de Auschwitz. Era abril de 1942, e ele imaginava estar fazendo o melhor para o seu futuro. Passa pelo portão principal, onde lê aquela famosa frase: “O Trabalho Liberta” – ARBEIT MACHT FREI.

Na chegada, a apresentação: “Sou o comandante Rudolf Hoess. Estou no comando aqui em Auschwitz. Os portões pelos quais os senhores acabaram de entrar dizem: O TRABALHO LIBERTA. Essa é sua primeira lição, a única lição. Trabalhem duro. Façam o que lhes disserem para fazer e sairão livres. Desobedeçam, e haverá consequências”. 

Lá, os horrores da falta de alimento, do tratamento desumano, das execuções por puro sadismo, os estupros, as experiências do louco Josef Mengele, os crematórios lotados, funcionando a todo vapor, o terror por 24 horas, todos os dias. A lembrança do dia em que entrou em uma sala, levado por um oficial da SS, e se deparou com muitos corpos empilhados uns sobre os outros, com os membros retorcidos, ainda o atormenta. Eram homens, jovens e velhos; crianças por baixo.

Do nada, três anos depois, um avião passa voando baixo, e todos ficam eufóricos com a possibilidade, ainda que remota, de libertação para aqueles que ainda estão vivos. O tempo passa, e certo dia percebem uma agitação dos oficiais nazistas para queimar documentos, em uma tentativa de destruir provas. Os russos chegavam para libertar.

O jovem se anima, o ataque começa. Era o dia 27 de janeiro de 1945. Bombardeios em terra, tumulto generalizado. Surpresos e apavorados, os nazistas atiram em qualquer um que passe em sua frente. Ao fim, a liberdade chegou para aquele jovem, depois de três longos anos de torturas, terror e sofrimento.

Aproveita a confusão e foge do campo de Auschwitz-Birkenau, dirigindo-se à mata fechada, trôpego pelo longo período de fome e sofrimento. Caminha em meio às árvores por alguns dias, os poloneses do campo sempre ajudando nessa desesperada empreitada. Naquele dia, oito mil prisioneiros foram libertados pelos invasores russos, a maioria em estado deplorável, face ao martírio que enfrentaram.

Enfim, uma estrada. O jovem caminha sem destino. De repente, do nada, um comando russo aparece. Os primeiros soldados ignoram o rapaz, que segue em sua louca fuga. Um oficial grita para que ele pare. Pergunta se ele fala russo; sim, ele fala russo e mais seis idiomas. “Achamos quem vai nos ajudar”, bradou o oficial, acomodando o jovem em um transporte militar e levando-o para o comando local.

O tratamento era o mesmo dos nazistas, com a diferença de que, ali, na sede do comando, uma maravilhosa mansão certamente confiscada, havia muita comida, joias caríssimas, de todos os tipos, bebidas, mulheres nas festas noturnas. Tudo para os oficiais de alta patente. A saída seria fugir para Bratislava. E assim o fez. Liberdade?

Os soviéticos combateram focos de insurgências internas com prisões ou execuções. Enviaram um milhão e setecentos mil poloneses para campos de concentração russos e para outras partes da URSS para realização de trabalhos forçados. 

Nazismo. Campos de concentração. Russos. Difícil escolher o pior.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico 

Um passeio pelo livro O Tatuador de Auschwitz, de Heather Morris

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 15, 2021

BARCOS DO DANÚBIO

Quando criança, em Areia Branca-RN, que também tem um rio passando em frente à cidade, ficávamos impressionados com os iates embandeirados que adentravam o rio Ivipanim, deixando a meninada em polvorosa. 

De passagem pela Hungria, chegamos a Budapeste, a capital que de um lado do rio é Buda e do outro é Peste, cada um com seus encantos e seus palácios de requintada beleza. 

Se você gosta de barcos, Budapeste é um dos lugares certos para passear nos mais confortáveis e maiores que eu já vi. Barcos de passeio gigantescos, que parecem não ter fim, e barcos de carga, transportando a riqueza da União Europeia, desfilam pelo Danúbio, um maravilhoso rio de águas limpas.

Barcos do Danúbio. Reais, todos!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 9, 2021

POLÔNIA, DO PAPA JOÃO PAULO II A AUSCHWITZ

Em 2008 viajávamos de ônibus pela Hungria e atravessamos a Eslováquia com destino à Polônia. Havíamos sido avisados no hotel de que a entrada na Polônia poderia ser tensa. Todos com passaporte na mão. 

A tensão aumentava com a proximidade com a fronteira. O guia nos avisa, com voz controlada: Mantenham-se calmos. Preparem-se para encarar soldados portando fuzis e metralhadoras. Não liguem para os tanques, rebatia. E a fronteira foi surgindo, nada de tanques. Aquele posto de controle, onde antes havia um bloqueio de guerra, estava livre. Era a nova Polônia.

Daí, com tempo livre, fomos para uma pequenina cidade chamada Budejovice, onde as pessoas – ao que nos pareceu – nunca tinham visto tantos turistas. Além do idioma, o tratamento rude no único restaurante nos amedrontou. Foi em Budejovice que teve origem a cerveja Budweiser, mas isso é outra história.

No centro de Cracóvia, onde Karol Wojtyla (Papa João Paulo II) foi bispo auxiliar entre 1958-1964, ouve-se, a cada hora fechada, ao invés da batida dos sinos, um clarim. Este evento é chamado na Polônia de Hejnal Mariacki (alerta de Mariacki) e o som afinado do topo da igreja Mariana invade as ruas da cidade, alertando turistas e moradores. Um bombeiro, do topo da torre, toca quatro vezes aquela música simples, uma para cada posição cardeal. 

O som do clarim cumpre uma tradição que remonta ao século XIII, determinando o fechamento dos portões da cidade. Em certa madrugada, tendo o guarda da muralha da cidade percebido o ataque dos tártaros, tocou o clarim para alertar os habitantes e os soldados da cidade sobre a invasão, tocando o Hejnal, mas foi interrompido ao ser atingido por uma flecha do inimigo.

Não se pode falar da Polônia sem mencionar o campo de extermínio de Auschwitz, um símbolo do terror, erguido em 1940, pelos nazistas, próximo à cidade de Oswiccim. Na foto abaixo, a entrada de Auschwitz, onde se lê, acima do portão ARBEIT MACHT FREI (O Trabalho Liberta). Era com essa falsa concepção que os prisioneiros eram acolhidos, imaginando que ali iriam trabalhar e cuidar dos seus filhos.

Para aliviar nossa tensão, fomos visitar a cidade onde João Paulo II nasceu, cresceu e foi batizado. Chegamos a Wadowice no meio da tarde, e nos sentamos para degustar um kremówka, o doce preferido do papa, até porque ninguém é de ferro. Wadowice fica a 50 km de Cracóvia, no sul da Polônia. 

Polônia. História de dor, luta e superação. E doce, no final.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 1, 2021

ÓLEO DE CANOLA; O QUE É, DE FATO?

Quando se viaja de ônibus ou de trem por alguns países da Europa, percebe-se que ao largo das estradas uma plantinha amarela toma conta de quase todo o visual, e logo vai ouvir de alguém que aquilo é plantação de canola, uma plantinha de onde se extrai um óleo comestível.

Depois, com calma, pesquisando na internet, você descobre que não existe uma planta chamada canola, e que aquela plantinha amarela se chama colza, que existe na Índia há 4000 anos. E por que essa confusão entre colza e canola? As informações a seguir foram retiradas da internet.

O óleo de colza, em estado natural, contém ácido erúcico e glucosinolatos, que têm um certo nível de toxidade para os seres humanos, e por isso era utilizado para fins industriais. 

Estudos comprovaram que o ácido erúcico causava danos cardíacos a ratos, e que os glucosinolatos davam mau sabor ao óleo, tornando-o impossível de se consumir. Mais tarde, técnicas de análise genética teriam demonstrado que existe uma predisposição genética à intoxicação com óleo de colza desnaturado. 

Esse problema levou um grupo de estudiosos a selecionar sementes que contivessem uma quantidade menor dessas duas substâncias. Chegou-se a variedades que contém menos de 2% de ácido erúcico e menos de 30 micromoles de glucosinolatos por grama de componente sólido da semente seca ao ar. 

Com isso, hoje se produz óleo de canola completamente seguro para o consumo humano e animal, além de estar entre os mais saudáveis óleos derivados de plantas, tendo uma quantidade relativamente baixa de gordura saturada, ao tempo em que contém um alto teor de gorduras poliinsaturadas, sendo também usado como uma fonte de biodísel. 

Desde 1978, todos os óleos de colza canadenses, produzidos para uso alimentar, contêm ácido erúcico em nível inferior a 2%. Nos EUA, o FDA só permitiu que o produto fosse introduzido com níveis de ácido erúcico que não ultrapassem 1%.

Colza – Canadian oil – Canoil – Canola.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 24, 2021

VACINAÇÃO E INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

No ano de 1823 a varíola matava de 20% a 40% das pessoas acometidas pela doença. Nesse período, 67% dos casos de cegueira, em Londres, tinham a varíola como causa. Além de terrível, a doença não dispunha de tratamento, que era limitado a sangria, jejum e lavagens, o que deixava o paciente ainda mais abatido, fraco e deprimido.

Para se defender da doença, a pessoa se submetia à variolação, que correspondia ao uso de crostas secas de um paciente com varíola para dar imunidade a outra pessoa. 

Em 1735, apenas 850 pessoas haviam se submetido a esse processo, na Grã-Bretanha.

No ano de 1749, nascia na Inglaterra Edward Jenner, que viria ser o criador do método de vacinação antivariólica. Aos oito anos, ao entrar para uma escola pública, Jenner teve que se submeter ao ritual da sangria, do jejum e das lavagens, que eram procedimentos assustadores. Ao final, a variolação.

Aos treze anos, Jenner foi trabalhar como aprendiz de um cirurgião rural. Lá, Jenner ouviu falar de um tipo de varíola que acometia camponeses que ordenhavam vacas, e que não adquiriam varíola depois. Jenner imaginou, então, que, se as pessoas contraíssem a forma bovina da doença, de modo deliberado, ficariam imunes à varíola. A partir de então, inúmeras pessoas passaram a receber a inoculação da varíola bovina como forma de prevenção da varíola humana, inclusive pelo próprio Jenner.

O Dr. William Rowley fez um relatório, afirmando que uma criança tinha desenvolvido no rosto uma deformação em forma de boi, um ano depois da vacinação, e sugeria que a vacinação de varíola bovina podia provocar o aparecimento de doenças animais em seres humanos, ou transformar estes em animais.

Em 13 de maio de 1717, nascia Maria Teresa Valburga Amália Cristina da Áustria, e foi a única mulher a governar sobre os domínios habsbúrgicos. Foi arquiduquesa e soberana da Áustria, Hungria e Boêmia, Croácia, Mântua, Milão, Galícia e Lodomeria, Parma e Países Baixos Austríacos de 1740 até sua morte em 1780. 

Sua decisão de permitir a inoculação de seus filhos após a epidemia de varíola mudou a visão negativa que os médicos austríacos tinham em relação a esse procedimento. A campanha de inoculação foi inaugurada com um jantar no belo Palácio de Schöbrunn, oferecido às primeiras 65 crianças inoculadas, encarregando-se a própria Maria Teresa de receber essas crianças. Sem essa atitude, a vacinação teria atrasado muitos anos.

O Palácio de Schönbrunn tem uma ligação afetiva com o Brasil. É que nesse palácio viveu a arquiduquesa D. Leopoldina de Habsburgo até 1817, data de seu casamento com o futuro imperador brasileiro Pedro I, quando se tornaria Imperatriz Consorte do Império do Brasil de 1822 até sua morte. Leopoldina era filha de Maria Teresa e Francisco II, último imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Nascida Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena, ficou conhecida no Brasil como Maria Leopoldina.

Dom Pedro entregou o poder a Leopoldina no dia 13 de agosto de 1822, com poderes legais para governar o país durante sua ausência, e partiu para São Paulo. A princesa tomou conhecimento de que Portugal estava preparando ação contra o Brasil e, sem tempo para aguardar o retorno de Pedro, aconselhada por José Bonifácio de Andrada e Silva, assinou o decreto da Independência, declarando o Brasil separado de Portugal.

Maria Teresa, uma rainha responsável pelo desenvolvimento da educação, da medicina e do judiciário da Áustria. Maria Leopoldina, Imperatriz Consorte do Império do Brasil. Assinou o decreto que declarava o Brasil independente de Portugal.

Chegaríamos a esse desfecho sem a vacinação defendida por Maria Teresa?

Evaldo Alves de Oliveira, médico Pediatra

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 17, 2021

LILICA, IMPASSE OU ARMISTÍCIO

– Parte I – Lilica e sua turma invadem minha cozinha para sugar o açúcar que se formou sobre a bancada, após o uso do álcool em gel, e se embriagaram.

– Parte II – Com o uso de uma solução diluída de água sanitária na bancada, Lilica e seu grupo se armaram com placas e faixas para protestar, entoando cânticos de revolta.

– Parte III – Lilica e seu grupo passam por um processo de corrupção interna, face ao grande volume de dinheiro (K5 – cada unidade equivale a cinco porções de comida) gerado pela monetarização de suas mídias sociais. Houve dispersão dos componentes, com formação de grupos menores. 

– Parte IV – Os componentes do grupo da Lilica, frente à dificuldade de propor a suspensão do uso do hipoclorito para afastá-las da bancada, saíram com a disposição de experimentar um procedimento de dessensibilização baseado nos princípios de Mitrídates, a mitridificação.

Parte V

De repente, o grupo da Lilica se posta de um lado da bancada da cozinha e se põe em atitude de confronto. Querem dialogar para chegarmos a um acordo que ponha fim à perseguição das formigas-faraó. Lilica, em um ponto mais elevado da bancada, sinaliza com acenos de paz.

Ordena que sejam apresentadas algumas formigas com graves queimaduras no corpo, além de duas com irritação das vias respiratórias. De pé nas duas perninhas traseiras, Lilica explica:

– Chega de confronto! Basta de agressão! Não queremos nossas irmãs com lesões que as incapacitem para o trabalho. Vim disposta a propor regras para um armistício.

Fiz sinal de que concordava, e Lilica continuou: 

– Somente iremos à cozinha durante a noite, e retornaremos às nossas casas antes do amanhecer. Não invadiremos os utensílios, com comida, pães, tortas, potes de mel. Em troca, você não mais usará essa solução de água sanitária que tanto mal nos faz. Esperamos sua resposta.

Fingi estar pensando na proposta do grupo. Eu aceitaria aquela sugestão de armistício, principalmente depois que soube do plano das formigas-faraó para uma possível negativa de minha parte. Elas invadiriam minha casa, iriam até a cama das pessoas e entraria pelos ouvidos, boca, olhos, em um confronto cujo final seria imprevisível.

Para marcar esse armistício, faríamos como o imperador Francisco I da Áustria e Napoleão, no ano de 1805, quando colocaram de forma simbólica uma bala cor de ouro no alto da fachada da catedral de Bratislava, abaixo do relógio. Ali, o marco da paz, depois da batalha de Austerlitz.

Lilica, a disposição para um acordo. Hoje, um ponto minúsculo, branquinho, se destaca no alto da placa de granito que forra o fundo da bancada, ali colocada por Lilica, conduzida por um Ubermosq. É o nosso marco da paz.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Obs.: Fiquei sensibilizado com este manifesto do poeta e escritor Francisco de Assis Câmara: “Deixe a Liliquinha em paz. Preserve-a. Ela é PATRIMÔNIO FORMIGÁVEL DA HUMANIDADE”.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 10, 2021

DESPACHOS/MACUMBAS EM BRASÍLIA

Despacho, nas religiões afro-brasileiras, é a realização de oferendas como pagamento antecipado a Exu pela realização de favores. Os despachos são depositados em lugares como encruzilhadas, cruzeiro das almas, matas, rios, descampados. Se, por algum motivo, algo não possa mais ser usado, deve ser despachado. Comidas rituais são alimentos específicos ofertados a cada orixá, cujo preparo requer o uso de ritual.

Macumba. Esse nome passou a ser utilizado pra nomear as oferendas feitas aos Orixás, sendo considerada por muitos como magia negra. Trata-se de um presente a uma energia divina, para que ela auxilie no direcionamento de uma causa. 

Graças à macumba, muitos escravos fugitivos conseguiam se alimentar enquanto fugiam da senzala. Por terem medo das oferendas deixadas em encruzilhadas, muitos caçadores de escravos e a população de origem europeia no geral não mexiam na comida, que era na verdade uma oferenda de escravos já estabelecidos aos seus companheiros que estavam em fuga. A macumba era, na verdade, uma forma de oferecer alimento para aqueles que estavam enfraquecidos na fuga.

Desde cheguei a Brasília, pelos idos do início de 1972, percebo que, aqui, esse tipo de manifestação é muito comum, especialmente no plano piloto, em toda a extensão dos eixos rodoviários norte e sul, colocados entre as árvores que ali existem.  

Em Stonehenge, livro de Bernard Cornwell que narra a história dos celtas que viveram no interior da Inglaterra dois mil anos antes de Cristo, há uma cena em que o principal feiticeiro de uma tribo responde, quando perguntado se realmente ele teria colocado mijo na barriga dos inimigos, e que o céu iria queimar seu inimigo, e a terra recusaria seus ossos, e até os animais iriam se afastar do fedor de sua morte; que até os vermes e as larvas iriam recusar sua carne pútrida e que iria secar até virar uma casca amarela, e os ventos o carregariam para os pântanos envenenados do fim do mundo, conforme gritara de forma tresloucada para o inimigo.

– Aprendi que a feitiçaria está nos nossos medos, que os nossos medos estão na nossa mente e que só os deuses são reais – respondeu o feiticeiro, baixinho, com voz pausada.

Em três ocasiões estive de frente para um despacho: 1. No centro de saúde, quando puseram um despacho de amarração atrás da cadeira do chefe, um médico boa pinta; 2. No meio da estrada que dava para minha chácara, cerca de 10 galinhas depenadas, prontas para assar, foram colocadas em um círculo, ladeadas por grandes abóboras com um líquido amarelado no seu interior, fechando completamente a estrada. Os carros iam parando na estrada de terra, de um lado e do outro; 3. No retorno que leva à 109 Sul, rua do Beirute, composto por alimentos e cerca de sete ampolas grandes, com um líquido branco dentro (soro glicosado?). Em todos os casos, o final foi feliz. Todos foram desfeitos pelas pessoas em volta.

A feitiçaria está nos nossos medos, e os nossos medos estão na nossa mente. 

Fecho com o voto do relator de Stonehenge.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 3, 2021

O CARVALHO E O JUNCO

Conversando certo dia, disse o carvalho ao junco:
“Você tem bons motivos para reclamar da natureza.
Até um passarinho é um fardo pesado para você.”

“Um ventinho à toa que faça
A superfície da água enrugar,
Obriga você a cabeça baixar.
Por outro lado, minha fronte,
Não contente em segurar os raios do sol,
Enfrenta bravamente a tempestade. 
Para você tudo é vento violento,
Para mim, brisa suave.
Se você nascesse abrigado pela folhagem
Com que eu cubro a vizinhança,
Não iria sofrer tanto: Eu defenderia você da chuva.”

“Mas vocês costumam nascer
Nas bordas úmidas do reino do vento.
A natureza, apesar de tudo,
Com você parece injusta.”

– “Sua compaixão”, respondeu o arbusto,
“É sincera, eu sei, mas não se inquiete:
Para mim, os ventos não são tão terríveis:
Eu me curvo e não me quebro.
Você tem esse corpo grande
E resiste sem entortar,
Mas espera o fim chegar.”

Enquanto diziam essas palavras,
Lá no horizonte furiosamente surgiu
A mais terrível das tempestades
Que os ventos do norte podiam trazer.
A árvore tentou resistir, o junco se curvou.
O vento redobrou seus esforços.
E tanto fez que destruiu
Aquele que tinha o céu como vizinho de cima
E as raízes no andar de baixo.

O Carvalho e o Junco, fábula de Jean de La Fontaine (1621-1695).

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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