Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 26, 2020

AVES DO TEJO

Hoje, lembrei-me de uma manhã passada às margens do Tejo, o rio mais extenso da Península Ibérica, que nasce na Espanha, onde é chamado de Tajo, e após um percurso de mil quilômetros desagua no oceano Atlântico, em Lisboa. Espanha e Portugal são os dois países que compõem a Península Ibérica, além de Andorra, que é um principado, e o território britânico de Gibraltar.

Sabíamos que o Tejo passeia pela costela mindinho de Lisboa, e nos dispusemos a curtir aquela manhã em suas margens, depois de um café (pequeno almoço) no hotel. Descemos pelo  Rossio, amplo espaço que abriga vida e alegria. Tomamos a direita, em busca do Tejo, admirando o belo passeio público à margem do rio.

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Descortinávamos a beleza do local, quando fomos tocados pela leveza do voo de algumas aves do Tejo, barulhentas, exibidas por se acharem belas; e como o são! Sequer tivemos coragem de perguntar sobre suas linhagens ornitológicas, se marrequinha, corvo-marinho-de-faces-brancas, garça-branca-pequena, garça-real ou  garça-vermelha. Interessava-nos a beleza sutil de seus voos.

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Aqui, um pequeno grupo de aves nos deliciou com suas acrobacias argonáuticas, como a nos indicar o sentido da Torre de Belém, logo à frente.

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Esta diminuiu o voo e pousou para uma foto especial. Pousou para nós -, pensei.

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Aves do Tejo, aves de todas as latitudes. A beleza no ar. A natureza.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

– Fotos de Lucas Fonseca

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 19, 2020

SETE FOTOS PARA CELEBRAR A FORÇA DA POLÔNIA

Quando passeamos pelas belas ruas e avenidas de Varsóvia, a elegante capital da Polônia, nem nos damos conta de que aquela cidade já passou por dias de dor  e muito sofrimento, tendo presenciado cenas de horror durante a perseguição ao povo judeu. Em 1944 Varsóvia foi vítima de terrível e maciça destruição. Em praças e ruas da cidade monumentos pontuam episódios que não devem jamais ser esquecidos.

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O Pequeno Insurgente (Little Insurgent). Criança vestida com roupas militares e com uma pistola representando todas as crianças e adolescentes que lutaram no Levante de Varsóvia, em 1944.

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Monumento Warsaw Uprising Figters. A Revolta ou Levante de Varsóvia foi uma luta armada durante a Segunda Guerra Mundial, na qual o Exército Clandestino Polaco tentou libertar Varsóvia do controle da Alemanha Nazi.

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Monumento mostrando combatentes surgindo do esgoto para uma tentativa de ataque surpresa ao inimigo.

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O Monumento aos Caídos e Assassinados no Leste, em particular aqueles deportados para campos de trabalhos forçados na Sibéria, após a invasão soviética (Monument to the Fallen).

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Um paredão com os nomes dos países amigos que ajudaram na reconstrução do País.

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Praça central em Varsóvia. A vida fluindo em alto nível.

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Uma volta por cima. Uma resposta à intolerância.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 12, 2020

UMA ALMA EM BUSCA DE PAZ

Dóris conhecia muito bem a asma do tio Adamastor, e sabia que era à noite que os sintomas se intensificavam, o que transformava sua hora de dormir um quase suplício.

Dóris morava em um lugarejo do interior do Maranhão, onde passava o Mearim, rio mais importante do estado, há cerca de quatro quilômetros de sua casa. Era nesse rio que as mulheres se reuniam para lavar a roupa da família.

Naquele dia Dóris saíra com algumas tias, primas e pessoas da vizinhança para lavar a roupa da casa, que era pouca. Pela madrugada ouvira o tio Adamastor com a respiração mais forte, produzindo um chiado mais intenso, com tosse seca e respiração forçada. Pelo caminho, pensava no sofrimento do tio.

Ao passar em frente à casa onde morava, uma pessoa veio à porta avisar que seu tio queria falar com ela. Encontrou-o respirando com dificuldade, sentado junto ao espelho da cama, com uma almofada servindo de apoio para as costas.

– Dóris, quero lhe pedir um favor. Quero que lave essa minha roupa -, falou com grande escorço.

Pela primeira vez lhe pedia algo em especial. E era uma roupa que o tio vestia em dias de festa.

– Outra coisa – continuou. Saiba que estarei sempre ao seu lado para protegê-la, esteja onde você estiver. Só lhe peço que me avise toda vez que mudar de lugar. Não se esqueça disso.

Na beira do rio, em meio ao converseiro das mulheres, começou a soprar um vento frio. Vento frio em setembro? – pensou. O vento aumentou, formando um pequeno redemoinho, que girava carregando as folhas secas. A manhã estava cinzenta, e o vento serenou em seguida. Uma sensação estranha correu pelo seu corpo. Logo, um garotinho surgiu gritando o seu nome – Dóris! Dóris! O tio Adamastor morreu -, pensou consigo. E saiu em disparada para a casa .

A vida de Dóris mudou completamente. Sem a ajuda e a proteção do tio, ela foi mandada pela família para a casa de um tio que morava em uma cidade distante.

O tio era muito exigente, e logo Dóris estava cuidando de todos os serviços da casa. Sua vida se resumia a trabalhar, trabalhar e trabalhar. Percebendo a triste situação da sobrinha, uma tia querida providenciou sua ida o Gama, uma cidade satélite do Distrito Federal. Outra reviravolta em sua vida. Finalmente, voltara a estudar e logo concluiria o segundo grau. Foi nessa época que conheceu Abadio, um goiano trabalhador e apaixonado.

E os anos se passaram, a vida fluindo sem grandes sobressaltos. Naquela tarde de sábado, um vento solto e forte assobiava nos pés de pequi que Dóris avistava da cozinha. Chegou a esboçar um riso, percebendo o vai e vem das folhas.

À noite, Abadio entra no quarto com o rosto pálido, suado, e as pernas trêmulas. Quase resfolegando, afirmava ter ouvido nitidamente o chiado de alguém, ou o gemido de algum animal. Atônito e confuso, olhou para Dóris e falou:

– Tem alguma coisa esquisita lá na garagem. Parece um animal ferido ou alguém com asma! Olhei em volta do fusca e não percebi nada de anormal. O portão está trancado.

Dóris sabia que seu marido sempre fora corajoso e destemido, e trataram de se preparar para dormir. Mais tarde, em meio às suas orações, sentada na rede, Dóris percebeu o peso de alguém sentando ao seu lado. Imaginou ser Abadio em busca de uma companhia para esperar o sono chegar. Ali, Dóris sentiria o mesmo frio daquela manhã, à beira do Mearim, correr-lhe pelo corpo. E uma voz cortou o silêncio do quarto:

– Minha filha, por que você não me avisou onde estava? Passei todo esse tempo lhe procurando. – Era uma voz limpa, sem chiado, como jamais ouvira o tio falar. Ela sabia de quem era aquela voz. Porém havia uma dúvida: aquelas palavras estavam sendo pronunciadas, ou apenas entendidas em sua mente, sem serem faladas, mas ouvidas? Dóris virou-se para Abadio, que continuava dormindo na cama tranquilamente

Um tio amoroso. Uma alma atribulada, em busca de paz.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 5, 2020

EM BUSCA DE PILATOS, a descoberta de uma Suíça bucólica

Tocados pela informação de que o corpo do  Governador Romano Pôncio Pilatos  se encontra sepultado em um monte perto de Lucerna, resolvemos sair em busca da verdade.

No dia seguinte estávamos subindo o Monte Pilatus. Conta a lenda que as pessoas do local temiam que o fantasma do governador romano que se omitiu durante o julgamento de Cristo surgisse no meio das águas do lago, no alto da montanha, para lavar as mãos com o sangue de Cristo. A montanha foi então amaldiçoada por séculos, sendo por isso chamada de Monte Pilatus.

O belíssimo cenário do Monte Pilatus, cujo acesso é feito através de um inusitado trem de cremalheiras, recebia naquela manhã um concerto de cornetas alpinas. Somente ouvindo o som daqueles instrumentos primitivos temos a real grandeza da voz  da natureza. Originalmente, aquelas cornetas eram usadas para chamar as vacas.

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Para chegarmos ao Monte Pilatus, a satisfação de conhecer uma Suíça bucólica, simples, cheia de saúde e perspectivas para o futuro de seus filhos.

Neste parque, várias oportunidades para as crianças desenvolverem habilidades,sonhos e criatividade.

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Aqui, um parquinho infantil pronto para emoções e descobertas.

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Nos arredores do Lago de Lucerna, uma raridade arquitetônica pouco difundida: a Igreja de Mármore de Meggen, construída sob a forma de cubo, com as paredes feitas de finas placas translúcidas de mármore grego. Toda a beleza da estrutura arquitetônica só é percebida do lado de dentro. A impressão é de que as paredes são de vidro.

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Monte Pilatus, parquinhos infantis, Igreja de Meggen. Encantamento.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 29, 2020

O GRITO SILENCIOSO DE OS PETRIFICADOS DE GENEBRA

Ao conhecer a emblemática Cadeira Quebrada, que fica na Praça das Nações, em Genebra, Suíça, fui informado de que ali perto ficava o Museu da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Nesse museu estariam retratadas histórias de milhões de pessoas vitimadas por guerras e conflitos pelo mundo.

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A Cadeira Quebrada é uma obra do escultor Daniel Berset. Sua perna esfacelada é um grito de protesto pelo uso de minas terrestres que ainda mutilam e matam milhares de pessoas pelo mundo. A Cadeira Quebrada Ergue-se a uma altura de 12 metros, pesa  5,5 toneladas e domina a Praça das Nações desde 1997.

Antes de adentrarmos o Museu da Cruz Vermelha, uma imagem nos intrigou. Ali, dez figuras humanas sem rosto nos impõem uma reflexão. São figuras esculpidas em pedra, formando uma escultura – Hirto de Medo -, obra do artista suíço Carl Bucher.

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Hirto de Medo. Aqui, figuras sem rosto, almas torturadas, vítimas mutiladas denunciando a violação dos direitos humanos em todo o mundo.

 

Os petrificados personificam  essa luta.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 22, 2020

PRESENTE DE MUSSOLINI AO BRASIL

No dia 5 de julho de 1928, os pilotos italianos Carlo del Prete e Arturo Ferrari pousaram no rio Potengi, em Natal, provenientes de Roma, a bordo de um hidroavião. O voo durou mais de 49 horas, sem escalas, cobrindo uma distância de mais de sete mil quilômetros.

Em agradecimento ao povo do Rio Grande do Norte pela festiva acolhida aos dois pilotos italianos, o ditador Benito Mussolini fez a doação de uma coluna romana retirada do monte Capitolino, em Roma, quase três anos após o feito heroico. Foi trazida pelo cruzador Leonardo Mallocello.

No dia 6 de janeiro de 1931 houve um evento festivo, coroado pela amerissagem de uma esquadrilha de hidroaviões, sob o comando do Ministro da Aeronáutica da Itália.

O historiador Nestor dos Santos Lima ressalta que Benito Mussolini mandou arrancar das ruínas do Capitólio Romano uma das suas soberbas colunas e com ela presentear a cidade de Natal, em memória do acolhimento feito aos heróis da inédita aventura.

A arquiteta Jeanne Fonseca Leie Nesi ressalta que, também conhecida como coluna romana ou coluna Del Prete, a Coluna Capitolina recebeu tal denominação em virtude de ter pertencido às ruínas do templo sagrado de Júpiter, existente ao norte do Capitólio, na Antiga Roma.

A Coluna Capitolina termina em um capitel, facilmente identificável, como pertencente à ordem coríntia. A massa do capitel, em forma de cesta de flores e cheia de folhas de acanto, é menos funcional do que o capitel da ordem dórica. Sua riqueza tornou-se muito popular, no tempo da supremacia romana.

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Pátio do IHGRN em noite de autógrafos

Coluna Capitolina. Um pedaço de Roma Antiga no Brasil.

Atualmente, a Coluna Capitolina encontra-se nos jardins do Instituto Histórico e Geográfico do RN, do qual tenho a honra de ser Sócio Correspondente.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Há três estilos de colunas, utilizadas tanto na Grécia quanto em Roma.

Estilo Jônico

Estilo Dórico

Estilo Coríntio

A ordem coríntia começou a ser utilizada no século IV a.C. como uma evolução estilizada da ordem jônica, e viria a ser expandida pelos romanos em todo o império.

 

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 15, 2020

AUTISMO, CONHECER PARA ENTENDER E RESPEITAR

Como pediatras, percebemos que há uma lacuna no conhecimento sobre o real conceito de Autismo e a importância que o assunto requer, principalmente dos pais e educadores.

A Sociedade Brasileira de Pediatria-SBP conceitua o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) como um transtorno do desenvolvimento neurológico, que se caracteriza por dificuldades de comunicação e interação social e pela presença de comportamentos e/ou interesses repetitivos ou restritos.

Na maioria dos casos, os sintomas do TEA só são consistentemente identificados entre os 12 e 24 meses de idade. No primeiro ano de vida, algumas condutas em crianças podem chamar a atenção dos pais, como não se voltar para sons, ruídos e vozes no ambiente, não apresentar sorriso social, baixo contato ocular e de ciência no olhar sustentado, baixa atenção à face humana, demonstração de mais interesse por objetos do que por pessoas. Contudo, não obstante essa evidência, o diagnóstico do TEA ocorre, em média, aos 4 ou 5 anos de idade. Essa situação é lamentável, salienta a SBP, tendo em vista que a intervenção precoce se associa a ganhos significativos no funcionamento cognitivo e adaptativo da criança.

Seria possível imaginar como uma criança com autismo percebe o mundo, e de que forma ela reagiria às coisas que acontecem ao seu redor? Vamos imaginar uma situação do dia a dia, como a ida a um shopping center ou outro local de grande movimentação de pessoas.

Estímulos sensoriais variados e concomitantes, produzidos pela movimentação das pessoas, podem deixar uma criança com autismo desorientada e estressada, e essa situação aflitiva pode levá-la a ter um acesso de raiva, por exemplo. Esse excesso de estímulos pode levá-la a atingir o seu limite, levando-a a um colapso. Tudo pode parecer caótico para ela. Nesses momentos, seria antinatural querer que essas pessoas se retirem do local, avalia a Associação Brasileira de Autismo. Elas precisam de ajuda. Só isso.

Essas crianças sentem como se seus sentidos estivessem agindo ao mesmo tempo para poder entender toda a informação que recebem do exterior como se fosse caótica e causasse um mal-estar muito grande em nível interno, conforme observa a Associação Brasileira de Autismo. A sociedade precisa se conscientizar de como as pessoas com autismo veem o mundo, a fim de parar de isolá-las. E que finalmente entendam o que significa para essas crianças estar em um lugar com muitas pessoas, barulho, luzes, cheiros, cores. Os estímulos são sentidos de forma intensa, conclui a ABA.

É preciso conhecer melhor o Autismo, para o bem da criança, da família e da sociedade.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 8, 2020

ASSIS, SÃO FRANCISCO NASCEU AQUI

Assis é uma pequena cidade da Itália, localizada no flanco ocidental do Monte Subasio, na região da Umbria, província de Perugia, com 24 mil habitantes, que não chamaria muito a nossa atenção se ali não houvesse nascido Giovanni di Pietro di Bernardone (1182 – 1226), conhecido como São Francisco de Assis. No ano de 1206, orando na Capela de São Damião, ouviu um chamado de Cristo que dizia: Vá, Francisco, e restaure minha casa.

Francisco teve uma juventude irrequieta e mundana. Depois, voltou-se para uma vida religiosa de completa pobreza, fundando a Ordem dos Franciscanos, que renovaria o catolicismo do seu tempo.

Em Assis, Francisco fundou a Ordem dos Franciscanos em 1208. A Basílica de São Francisco de Assis começou a ser construída em 1228, dois anos depois de sua morte, sendo concluída em 1253. A Basílica de São Francisco foi classificada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Nesse conjunto há afrescos de Giotto e Cimabue , seu mestre, que retratam cenas da vida do santo.

Em 1214 Francisco viajou para a Espanha, chegando ao Marrocos, para pregar entre os mouros. Dali partiu para a Palestina, peregrinando pelos lugares santos, onde recebeu  a notícia de que sua comunidade em Assis estava em crise.

Em 1220 Francisco voltou à Itália, e viu que seus ideais em Assis haviam sido abandonados, reinando grande confusão entre os irmãos. Em 1224, doente e decepcionado, Francisco é obrigado a moderar suas atividades, ocasião em que renuncia à direção efetiva da irmandade que criara, e em companhia de seus discípulos parte em direção à floresta, para viver em contato com a natureza.

Conta-se que na floresta os peixes saltavam da água, com sua presença, e os pássaros pousavam em seus ombros.

Francisco de Assis morreria no dia 3 de outubro de 1226, assistido por seus discípulos. Dois anos depois de sua morte, foi canonizado pelo  papa Gregório IX, e seus restos mortais encontram-se na igreja de São Francisco de Assis, em Assis, Itália.

Igreja S.F.

Em setembro de 1997, Assis foi atingida por dois violentos tremores, danificando seriamente a basílica e ocasionando quatro mortes, determinando o fechamento da basílica por dois anos.

São Francisco. Itália. História e fé.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 1, 2020

O AZEDUME DE UMA VIDA MARGINAL

Gohar vivia como mendigo, circulando por ruas e vielas miseráveis da cidade do Cairo, capital do Egito. Jovem de excelente nível cultural, trabalhara como professor universitário, e atualmente vivia na esperança de encontrar o amigo Yéghen, um poeta desiludido que tinha no consumo do haxixe sua única e vital atividade. Dividir a droga com Gohar era o sumo prazer do jovem poeta.

Naquele dia, no ambiente miserável de seu quarto imundo, forrado por papéis sujos, Gohar fora despertado pelos urros mecânicos, gritados por carpideiras gordas, vestidas de preto, que ecoaram por seus ouvidos, como o chamado de um universo estranho. Para uma falsa garantia de limpeza, as mulheres jogaram baldes d’água no chão. A água escorreu e molhou os jornais que serviam de cama para Gohar. Ele não reconhecia naquele jogo mercenário a marca de um mundo humano.

No início da tarde, Gohar deixou seu aposento sem ter uma bolinha de haxixe para mascar e, enlouquecido pelos efeitos da falta da droga, dirigiu-se a um prostíbulo, na ânsia de encontrar Yéghen, porém ele já havia saído. Ali, sem qualquer justificativa, e sem saber por que, Gohar matou uma jovem e bela prostituta por esganadura.

Nour El Dine era o policial encarregado da investigação. Conhecido como um homem violento, viu-se envolvido pelas conversas de Yéguen, que tentava a qualquer custo livrar o amigo Gohar de ser incriminado pelo assassinato da prostituta. Em seu último depoimento, respondeu às indagações do policial com extrema ironia. Depois de uma série de bofetadas, o policial, ordenou que retirassem Yéguen da sala, e tomou uma decisão inusitada. Afastou-se de tudo que até ali representara. Pela primeira vez em sua vida, sentia uma imensa necessidade de paz. Simplesmente paz.

Mais uma vida marginal nas ruas da capital do Egito. Desesperança.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Livro: Mendigos e Altivos, de Albert Cossery, da Conrad Editora

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 24, 2020

UM RENAULT DAUPHINE É CAPAZ DE MUDAR UM DESTINO?

Durante o meu curso de Medicina, eu me deslocava para as aulas montado em uma Vespa. E assim aconteceu durante cinco anos. Foi desse modo que cheguei ao último ano do curso.

No sexto ano, vislumbrando um horizonte que se limitava com as divisas do Rio Grande do Norte, fui induzido a comprar meu primeiro carro. Uma belezura que me encantou à primeira vista.

Era um Dauphine branco, de quatro portas; acendia as luzes e buzinava. Os freios não eram confiáveis, mas funcionavam. Consegui usufruir dos benefícios do meu carro por um mês. A partir de então, começaram a surgir problemas que eu, até então, desconhecia.

Ora era o câmbio que não engatava marcha, o trambulador desconectava ou o motor falhava. De tal modo que raramente eu saía de casa e retornava sem que algo deixasse de funcionar. E minhas parcas economias foram escapando pelo ralo, digo, carburador.

Três meses. Basta. Resolvi negociar o carro. Fiz anúncio, colei cartaz, avisei aos conhecidos (amigos, nem pensar!). Ninguém apareceu. Certo dia, em uma volta pelo Alecrim, estacionei o carro, fingi trancar as quatro portas, que na verdade não funcionavam. Por segurança, estacionei em um local de declive, já prevendo um empurrãozinho na saída.

Na volta, um sujeito forte me esperava no carro, com o pé sobre o pneu dianteiro. Ao ver-me, o homem falou:

– Gostei do carrinho. Quer vender?

Fingindo desinteresse, perguntei quanto ele me oferecia pelo veículo.

– Bem, como sou matador de carro – até ali eu desconhecia essa profissão –, não posso lhe pagar além de duzentos (não lembro a moeda, mas sei que mal daria para comprar um par de sapatos).

Saí dali com cara de contrariado, controlando-me para não cair na gargalhada. E o carro pegou no tranco, ajudado pelo declive. O carro ficou parado, na rua.

Em uma manhã de sábado, aparece um comprador sério, vestido com roupas simples. O sujeito Chamava-se Faquir, pois podia tranquilamente esconder-se atrás de um poste sem que fosse visto. Fechamos o negócio. Imaginemos que o valor foi quinhentos, e ele apenas me pagou cem, ficando quatro prestações a serem quitadas no final de cada mês.

Jamais tive notícia de Faquir. Sumiu de Natal. Porém algo aconteceria. Durante meu estágio no CRUTAC (Centro Rural Universitário de Ação Comunitária), no último ano do curso, que aconteceu na cidade de Santa Cruz-RN, encontrei-me com Faquir feliz da vida. Veio em minha direção, e confesso que imaginei o pior. O encontro foi amigável, o rapaz estava feliz por ter conquistado o segundo lugar em uma gincana de carros que acontecera na cidade vizinha, dirigindo o seu Dauphine ainda branquinho. Por conhecer a ótima situação financeira dos jovens da outra cidade, imagino que o Dauphine era o único carro velho a participar. De quebra, usava o veículo em seu trabalho. Era um orgulhoso motorista de táxi.

O motivo da segunda colocação naquela gincana aconteceu por acaso. Chegando ao local, procurou saber se ainda podia inscrever-se. Podia. Foi informado de que  era obrigatória a companhia de uma partner. Nesse momento, uma moça fez um  sinal para participar, e ele aceitou. A última tarefa da gincana era parar, apanhar uma garrafa de Coca-Cola e a partner teria que ingerir seu conteúdo por inteiro. Quando Faquir chegou nesse posto, havia vários carros parados, esperando que as elegantes moças tomassem delicadamente o refrigerante. A moça ao lado de Faquir pegou a garrafa, entornou de uma só vez o conteúdo na boca e a devolveu vazia. Faquir disparou, chegando assim na segunda colocação.

Na despedida, desculpou-se por não ter honrado sua dívida comigo. Adiantei-me e dei o débito por quitado, ganhando mais um abraço de Faquir. Não perguntei se ele dividira o prêmio com a garota.

Dauphine, um carrinho com o condão de mudar a vida de um ser humano. No caso de Faquir, para melhor.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

 

 

 

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