Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 26, 2022

O HOMEM FOSFORESCENTE

Visitei um amigo meu, no interior da Inglaterra, que sobrevive ganhando dinheiro servindo de elemento para testes de novos medicamentos. E está muito bem, apenas com umas manchas na pele. Ouvi esta conversa de um desconhecido, em uma fileira atrás de mim, em uma reunião. Isto me fez lembrar de Aslee, personagem do livro Como Me tornei Estúpido, de Martin Page, lançado no Brasil pela Editora Rocco. 

A Nenê, fábrica de produtos alimentícios, tinha por hábito testar os novos produtos, antes da sua entrada no mercado, num grupo de consumidores. Os pais de Aslee eram muito pobres e o tinham inscrito em testes para receber bônus de aquisição de alimentos. 

Nesta época, a Nenê queria lançar uma nova variedade de potinhos para bebês com um complemento de vitaminas e fósforo. Em doses infinitesimais, o fósforo é bom para a saúde, mas houvera um erro de dosagem na fábrica – um engenheiro confundiu microgramas com quilogramas. Em decorrência deste equívoco industrial, não morreu nenhuma das crianças dos testes, mas as sobreviventes tiveram cânceres e outras doenças graves. Aslee teve a sorte relativa de não ter senão problemas mentais que retardaram seu desenvolvimento cerebral. Ele não tinha deficiência intelectual propriamente dita; apenas o seu espírito tomava caminhos particulares, e sua razão seguia uma lógica que ninguém compartilhava. Outra consequência daqueles pequenos potes para bebês superdosados em fósforo era que Aslee brilhava na noite. Era muito bonito. Quando perambulavam pelas ruas à noite, As – era assim que era chamado pelos amigos -, ao lado de Antoine, parecia um imenso pirilampo que iluminava o caminho pelas ruelas escuras.

Aslee passou dois anos e meio como guarda do Museu Nacional de História Natural do Jardim de Plantas de Paris. É que sua luminosidade o fazia parecer um espectro, uma aparição sobrenatural, e sua estatura imponente ajudava a amedrontar os raros ladrões que por ali apareciam.

Antoine, passeando pela primeira vez por uma galeria do museu, povoado de milhares de animais empalhados, teve sua atenção despertada por uma vaga forma estranhamente iluminada. Ele imaginou tratar-se de uma espécie de homem de Neandertal ou de um yet, conhecido como o abominável homem das neves glabro a que se teriam posto trajes e calçados. O jovem baixou os olhos em busca de uma tabuleta explicativa, de uma informação científica sobre a origem e a época desse estranho espécime. Ele a procurou aos pés da criatura, mas nada encontrou. Levantou a cabeça: a criatura sorria-lhe e estendia-lhe a sua enorme mão. Foi assim que se tornaram amigos. E passaram a estar sempre juntos.

Certa vez, junto aos amigos, Antoine fez esta reflexão, criticando o intelectualismo das pessoas: Há um provérbio chinês que diz, por alto, que um peixe nunca sabe quando urina. Isso se aplica perfeitamente aos intelectuais. O intelectual está persuadido de que é inteligente, porque se serve do seu cérebro. O pedreiro se serve das suas mãos, mas tem um cérebro que lhe pode dizer: “Ei! Essa parede não está reta, e, além disso, você se esqueceu de pôr cimento entre os tijolos”. Há um vaivém entre o seu trabalho e a sua razão. O intelectual, ao trabalhar com a sua razão, não possui esse vai-e-vem, as suas mãos não se animam a dizer-lhe: “Ei, meu caro, você está enganado. A Terra é redonda”. Falta ao intelectual esse retorno, razão por que ele se julga capaz de ter um parecer esclarecido a respeito de todos os assuntos. O intelectual é como um pianista que, por utilizar as mãos com virtuosidade, pensa ter aptidão para ser, naturalmente, jogador de pôquer, boxeador, neurocirurgião e pintor”.

Antoine foi olhado por dois olhos assombrados. Apenas isso.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Texto já publicado neste blog, com outro título

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 19, 2022

COMO TRAZER SEU AMOR DE VOLTA

Apolônio sempre foi muito exigente. Por isso, seus casos de amor, além de raros, foram efêmeros. Exceção para seu namoro com Geracinda, o grande amor de sua juventude, que lhe causara o dissabor de trocá-lo por Nicanor, um sujeito magricela que todo mês passava em sua casa com novidades trazidas do Paraguai, como cintas para modelagem da cintura e rádios que funcionam com manivela. 

Saindo de casa, Apolônio foi parado por um adolescente tipo pode crer, que lhe entregou um pequeno folder, que imaginou ser propaganda de algum produto. Pôs o papel no bolso e se dirigiu à padaria. 

Na hora de se deitar, lembrou-se do papel e decidiu lê-lo: Atenção!!! Simpatias para o amor. No alto: DONA ADAMASTORA. Logo abaixo: Nada na vida acontece por acaso. Tudo tem um porquê de acontecer. Seja qual for o seu problema, não se desespere. Dona Adamastora está sempre pronta para lhe ajudar em seus problemas, tais como amor mal correspondido, vícios em geral, desemprego, casamento em crise, frieza sexual. Quer descobrir uma traição, receber uma dívida? Dona Adamastora traz a pessoa amada e grandes negócios na palma da mão. Negócios vão mal? Quer fazer voltar a pessoa amada? Está perturbado, sem prosperidade? Sofre com o vício do alcoolismo? Problemas sexuais? Qualquer que seja o problema, em uma só consulta ela indicará os caminhos certos e seguros para sua vida. Não cobra pelos trabalhos.

Apolônio quase não conseguiu dormir. Já estava com cinquenta anos, e precisava dar um rumo à sua vida. O problema era que Teregrácia, uma cabrocha assanhada, não lhe dava nem a atenção que se deve a um vira-lata. No dia seguinte, sábado, ele iria conversar com dona Adamastora para discutir seu projeto amoroso.

Meio sem jeito, ligou e marcou a consulta. No local, achou a casa estranha, com um forte cheiro que não identificou ser de incenso ou de mofo. Na sala, alguns gatos  deitados em sofás com jeito de nunca terem sido lavados.

Abriu seu coração. Falou do seu amor por Teregrácia e da frieza com que ela tratava seus olhares apaixonados e suas insinuações. A vidente, de fato, não cobrava pelas consultas. Mas exigia, para realização daquela trabalho especial, dinheiro para comprar quatro tachos de cobres novinhos, dois litros de um tipo especial de óleo, treze galinhas brancas, treze abóboras, muitas rosas – brancas e vermelhas – duas dúzias de velas brancas e duas grandes velas pretas, um binóculo pequeno, daqueles que são usados em teatros, alguns perfumes, além de outros itens que Apolônio não lembrava. E foi aí que boa parte da poupança do velho funcionário evaporou.

Passaram-se cinco dias, uma semana, quinze dias… e nada. Teregrácia continuava tratando-o com desdém. Não suportando mais tanta ansiedade, Apolônio foi conversar com a vidente. Esta, logo que o viu, em meio ao forte aroma dos incensos, foi logo falando:

– Seu Apolônio, que  bom revê-lo! Para concluir aquele trabalho, preciso de dinheiro para comprar uma jóia para a protetora da amarração. Essas divindades são muito exigentes, o senhor sabe. 

E novamente Apolônio fez o desembolso da quantia solicitada. Só pediu um tempinho para ir a um caixa eletrônico, e logo estaria de volta com o dinheiro.

Dinheiro entregue, ficou no aguardo. Continua aguardando, só que agora ele mora bem distante, em um bairro da periferia. Barraco de dois cômodos, que ele mantém sempre limpinho.

E Teregrácia? Depois de alguns meses, Apolônio ficou sabendo que ela havia fugido com um auxiliar de churrasqueiro que sempre aparecia por lá oferecendo carnês do Baú da Felicidade.

Naquela hora Apolônio lembrou do Prof. Laércio Segundo de Oliveira, que gostava de dizer: Todo churrasqueiro tem direito a três coisas: ser chato, ter um ajudante e ter uma toalhinha para pôr no ombro. 

– Mas não tem o direito de levar a minha mulher -, resmungou Apolônio.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 12, 2022

CINCO SEGUNDOS PARA VOLTAR A VIVER

Em fevereiro de 2015 um senhor de 60 anos chegou ao PS de um hospital em Brasília com insuficiência respiratória aguda, tossindo, rosto com sinais de cianose. Pronto Socorro lotado. Aos gritos e empurrões, uma maca foi providenciada e o paciente transportado para o atendimento de emergência. A família não tinha qualquer informação quanto ao que poderia ter levado àquele quadro.

Com muita dificuldade para respirar, e com intensa agitação, o rosto em pletora, com sinais de cianose, o homem foi colocado na mesa de exame e o médico providenciou o material para intubação. O médico do Pronto Socorro tentou intubar o paciente, mas não conseguiu. Aos gritos, convocou um dos plantonistas da UTI, que ficava ao lado. O médico, mais experiente, já com o laringoscópio nas mãos, percebeu que o paciente esboçava um forte movimento para tossir, e resolveu esperar um pouco, apesar da insistência do médico plantonista para que agisse rápido. Cinco segundos. O paciente fechou os olhos, espremeu-se ao extremo e expeliu algo em forma de bola, logo identificado como sendo uma daquelas contas de madeira com que são feitos uns protetores de bancos de carros, especialmente utilizados por taxistas.

O paciente se refez, foi oxigenado e recebeu alta em seguida. Um familiar informou ao médico ter percebido, depois de identificado o corpo estranho, que o paciente retirara uma daquelas bolinhas do encosto do banco do carro e tentara engolir, sem que alguém percebesse. Com a trepidação do veículo, o objeto foi direto para a traqueia. O paciente entrou em desespero, com sinais de sufocação, e foi levado ao hospital. 

Aquele senhor, de sessenta anos, era esquizofrênico e tinha como hábito engolir qualquer objeto pequeno que lhe viesse às mãos.

Um corpo estranho na traqueia. Cinco segundos.

A vida.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 5, 2022

REVOLUÇÃO DOS CRAVOS; FIM DA DITADURA EM PORTUGAL

Com a queda da monarquia portuguesa em 5 de outubro de 1910, o sistema político que se instalou foi a República Portuguesa, que vigorou até o golpe de 28 de maio de 1926, que deu origem à Ditadura Militar, posteriormente Estado Novo.

Nesse período de 16 anos houve sete parlamentos, oito presidentes da República, 45 governos, 40 chefias de governo, entrecortados por convulsões sociais e crimes políticos.

Após o golpe militar de 1926, a ditadura foi estabelecida em Portugal, tendo o professor Antônio de Oliveira Salazar, em 1932, se tornado o Primeiro-Ministro das Finanças, instaurando então um regime inspirado no fascismo italiano, em que as liberdades de reunião, de organização e de expressão foram suprimidas, em 1933.

Em 1928 Salazar passara a comandar o Ministério das Finanças e se destacou nessa tarefa, face às medidas que implementou, conseguindo, estabilizar a economia portuguesa. Assim, em 1932 foi nomeado Presidente do Conselho de Ministros e, conforme a nova constituição de 1933, alcançava plenos poderes.

O governo de Salazar foi marcado pelo autoritarismo, a censura, a repressão, exílios e guerras coloniais. Para controlar a população, foi criada a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), a polícia política.

O governo de Salazar, também conhecido como Estado Novo, teve a duração de 41 anos, quando foi afastado por invalidez, em 1968, vítima de um derrame, vindo a falecer em 1970, sendo substituído por Marcelo Caetano, seu ex-Ministro, que deu  continuidade à sua política. 

Os portugueses não suportavam mais as imposições do regime salazarista, de forma que um grupo de militares, os chamados “capitães de abril”, começaram a planejar sua deposição. Os portugueses ansiavam por desfrutar um nível de vida semelhante ao dos moradores da Europa Ocidental.

Em março de 1974 houve a primeira tentativa de rebelião, mas esta não teve sucesso. Um mês depois, outra investida foi feita, e no dia 25 de Abril de 1974 as ruas de Lisboa se tornam o palco do golpe militar que conseguiu depor o presidente Marcello Caetano, que seguiria para o exílio no Rio de Janeiro, onde faleceria.

A Revolução dos Cravos aconteceu praticamente sem violência, com apenas quatro mortos. Consta que uma florista, tocada pela alegria das pessoas, começou a oferecer flores aos soldados. Outras versões afirmam que foi uma pessoa do povo que voltava do trabalho.

As flores foram entregues aos soldados, que as puseram nos canos dos fuzis. Os cidadãos que saíam às ruas, para comemorar, também pegavam cravos, e assim esta flor ficou como o símbolo e nome da revolução.

Em 2017 fomos conferir a festa da democracia portuguesa.

Em seguida à Revolução dos Cravos, houve o reconhecimento da independência das colônias portuguesas na África, e o retorno dos exilados a Portugal.

O Licor de Merda, bebida apreciada em Lisboa, foi criado como uma crítica à classe política, à desordem partidária, quando os grupos políticos não se entendiam àquela altura da pós-Revolução dos Cravos, deflagrada no dia 25 de abril de 1974 para pôr fim à ditadura salazarista. Nascido como uma brincadeira, essa bebida quase desapareceu, ressurgindo no ano de 2004. 

Revolução, independência das colônias, desentendimentos, Licor de Merda.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 29, 2022

INSTALAÇÃO DA REPÚBLICA EM PORTUGAL, COM REGICÍDIO E MUITO ÓDIO

A implantação da República Portuguesa teve como causa uma revolução organizada pelo Partido Republicano, e se iniciou no dia 2 de outubro de 1910, sendo destituída a monarquia constitucional no dia 5 de outubro de 1910, quando foi implantado o regime republicano. Diversas forças militares se sublevaram na noite do dia 3 para 4 de outubro contra a monarquia. Após fortes combates, foi proclamada a República.

Oito meses antes, o rei de Portugal, D. Carlos I e seu herdeiro, o príncipe Filipe, foram assassinados (regicídio), quando o rei e seus familiares passavam pela Praça do Comércio, em Lisboa, em carruagem aberta (01.02.1910). Eram dois agressores, e no calor dos disparos, o Príncipe D. Luís Filipe saca seu revólver e desfecha quatro tiros em um deles, atingindo-o mortalmente. Esse crime político gerou uma escalada de violência e marcou profundamente a História de Portugal.

Na representação do atentado, D. Amélia de Orleães tenta salvar o marido e os filhos.

Julgando tratar-se de um novo golpe de estado, a população de Lisboa se refugiou em suas casas, mas as tropas continuaram nos quartéis e a situação permaneceu calma.

Depois desse ato de barbárie, assumiu o trono D. Manuel II, filho mais novo de D. Carlos I, com apenas dezoito anos de idade, sem preparação para arcar com tais responsabilidades, no justo momento em que era necessário conter a fúria republicana contra a monarquia. 

O rei D. Manuel II foi convencido por João Franco, que acabara de ganhar a eleição, em 1906, pelo Partido Regenerador Liberal, a dissolver o Parlamento, assumindo um governo ditatorial, o que acirrou ainda mais a ira dos revolucionários republicanos. 

A queda da monarquia, com a consequente instalação do sistema republicano, foi fruto de uma revolução organizada pelo Partido Republicano Português, face ao ultimato britânico de 1890, aos elevados gastos da família real, ao poder da igreja, à instabilidade política e social, à ditadura de João Franco, do Partido Regenerador Liberal. Na manhã daquele mesmo dia 5 de outubro, o rei D. Manuel II embarcou no iate real para seu exílio na Inglaterra, onde viveria até sua morte, no ano de 1932, aos 42 anos.

O Partido Republicano Português tinha como objetivo primário, desde sua fundação, a substituição do regime. Em 1907 a Carta Constitucional seria suspensa. Em 30 de janeiro de 1908 o governo apresenta ao rei um Decreto prevendo o exílio para o estrangeiro, ou a expulsão para as colônias, sem julgamento, de indivíduos que fossem pronunciados em tribunal por atentado à ordem pública. Esta teria sido a principal causa para o regicídio.

O Partido Republicano apresentava-se como a saída para a crise, com um programa capaz de colocar Portugal no rumo do progresso. Foi criado um governo provisório, até a aprovação da Constituinte de 1911, que deu início à Primeira República.

Instalação da República. No Brasil, em 1889, um pouco menos violenta.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 22, 2022

A FORÇA DA FÉ NO MUNDO TENSO DE UMA UTI

Tarde de sexta-feira. Chega à UTI uma paciente de 62 anos com um gravíssimo quadro de sepse pulmonar, evoluindo para um estado de coma profundo, sendo colocada em respiração mecânica. Dias depois, a paciente foi submetida a traqueostomia. 

A paciente tinha muitos filhos, e dois deles se alternavam nos cuidados com a mãe, que continuava em coma profundo. Ficavam ao lado da cama fazendo orações, esforçando-se para que ela os escutasse, mesmo naquele estado vegetativo. Nas passagens dos plantões, a paciente era referida como aquela que não inspirava qualquer chance de sobrevida.

Dos dois meses que passou na UTI, a paciente esteve em coma por vinte e um dias. Certa manhã, a equipe percebeu que a paciente começara a emitir pequenos sinais de melhora. Dias depois, saiu do coma, e foi suspensa a respiração mecânica. Retirada a cânula da traqueostomia, a paciente  dava claros sinais de que queria dizer algo. Dias depois, começou a falar. O médico responsável pela UTI, ao saber que os dois filhos de sua paciente eram padres, brincou:

– Dona Elvira (nome fictício), assim até eu sarava!

E o riso foi geral. Recebeu alta e foi para casa. Um mês depois, um enfermeiro da UTI chegou na manhã da segunda-feira eufórico: encontrara dona Elvira em um clube de Caldas Novas com um grupo da terceira idade, brincando na piscina.

Um rapaz de 22 anos, dependente químico e pai de dois filhos pequenos, dirigia-se do Gama (cidade satélite a 30 km de Brasília) para o plano piloto, sofrendo um gravíssimo acidente de moto, ocasionando secção completa da coluna toracolombar, com desencontro das partes proximal e distal da coluna.

Junto com a lesão da coluna, sofrera um traumatismo craniano grave, com hematoma. Seu estado era desesperador, com midríase – dilatação das pupilas -, e sem qualquer reação aos estímulos. Mesmo assim, com mínimas esperanças de sobrevida, o jovem foi levado para o centro cirúrgico para drenagem do hematoma, permanecendo em coma profundo por algumas semanas, em ventilação mecânica, sem apresentar qualquer melhora do quadro clínico.  

O paciente do leito vizinho ao do motoqueiro começou a ler trechos da Bíblia durante boa parte do dia, e fazia questão de se dirigir para o rapaz, como se aquela leitura fosse para ele.

Após a alta do paciente do leito vizinho, a esposa do rapaz passou a ler trechos da Bíblia para ele, imitando o que até ali fizera o senhor que recebera alta. Depois de quarenta dias internado, o paciente começou a apresentar melhora. Dias depois, conseguia ler trechos da Bíblia com a esposa e, mesmo sabendo-se paraplégico, vez por outra falava em voz alta para todos na UTI: 

– Gente, Deus existe! E eu sou a prova!

Sua alegria contagiava toda a UTI, e os outros pacientes vibravam com suas palavras de satisfação pela vida. Na sequência, recebeu alta. Soube-se que havia largado as drogas, e se dedicava a cuidar de sua família, com o foco em seus dois filhos.

A fé. Uma luz no fim do túnel.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Recentemente descobriu-se que meditações e preces coletivas produzem uma energia altamente ordenada, e capaz de alterar o mundo físico. Em outras palavras, descobriu-se que a intenção humana é capaz de afetar o mundo; que o pensamento direcionado pode alterar, entre outras coisas, a direção em que os peixes nadam em um aquário e as reações químicas do corpo humano. Em síntese, o pensamento humano pode transformar o mundo físico, e essa capacidade pode ser incrementada por meio da prática. 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 15, 2022

O INFINITO EXISTE?

Infinito é a qualidade daquilo que não tem fim. E eu pergunto: Você já imaginou como é complicada a noção de que algo possa não ter fim? Os cientistas imaginam que existem cerca de cem bilhões de galáxias no nosso Universo, mas esse número pode aumentar com a melhoria dos telescópios. Somente na Via láctea existem mais de 16 bilhões de planetas similares ao nosso. Esse número pode até nos assustar. O conceito de infinito sempre teve relação com o de tempo.

Zenão de Eleia (490-430 a.C.), usava paradoxos como método de argumentação para demonstrar o absurdo das teses que combatia. Zenão combatia o conceito positivo de infinito e as teses atomistas (*), e afirmava que a subdivisão infinita levava a uma contradição; logo, não podia fazer sentido. Portanto, o infinito seria algo para além da razão, mas que pode ser pensado como sendo transcendental ou sob o domínio do divino.

Platão (428-348 a.C.) imaginava que o potencial de extensão era considerado limitado, claramente determinado, finito. O conceito de infinito era algo impensável, sem sentido. Aristóteles, discípulo de Platão, também recusou a existência do infinito como algo real ou até imaginável.

Galileu Galilei (1584-1642) deu o primeiro passo para a conceituação de infinito na física, ao estabelecer correspondências entre conjuntos infinitos, seguido por Newton, ao inventar o cálculo diferencial.

No século XIX, George Cantor, matemático alemão nascido em 1845, desafiou a visão do infinito como algo que não podia ser tratado racionalmente, e desenvolveu sua teoria dos transfinitos, que o levou a concluir a existência de um infinito Absoluto, que consegue estar para além de toda a criação racional. Sua tese de doutorado tinha como título: “Em matemática, a arte de fazer perguntas é mais importante do que resolver problemas”.

Infinito. Muito se fala; pouco se entende.

Esta reflexão ajudou em sua concepção de infinito?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

(*) Os atomistas acreditavam que os elementos básicos da realidade eram átomos, partículas de matéria indivisíveis, indestrutíveis, que se moviam no espaço. O termo átomo, do qual deriva a filosofia do atomismo, significa, em grego, algo que não pode ser subdividido, ou seja, algo indivisível. Wikipedia.

No ano de 1911, Rutherford criou o modelo atômico que levaria seu nome, o átomo de Rutherford. Trata-se de um modelo planetário do átomo e, anos mais tarde, já em 1917, realizou um experimento marcante: a primeira divisão do átomo, mais precisamente do núcleo atômico. A estrutura do átomo é dividida basicamente em duas regiões: o núcleo, que é formado pelos prótons e nêutrons, e a eletrosfera, formada por elétrons e um grande vazio. Wikipedia.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 8, 2022

POR QUE USAMOS O DINHEIRO

Em 1519 o México foi invadido por conquistadores espanhóis, e os astecas ficaram intrigados com o interesse dos invasores por um metal amarelo; e só falavam nisso. Os astecas conheciam o ouro, mas quando iam comprar alguma coisa, o pagamento era feito com grãos de cacau ou rolos de tecidos. Quando os nativos questionaram sobre o porquê de os espanhóis terem tanta paixão por ouro, o conquistador respondeu: “Porque eu e meus companheiros sofremos de uma doença do coração que só pode ser curada com ouro”.

Mesmo hoje, moedas e cédulas são uma forma rara de dinheiro.  Todo o dinheiro do mundo soma cerca de 60 trilhões de dólares, mas a soma total de moedas e cédulas é de menos de 6 trilhões. Assim, mais de 50 trilhões de dólares que aparecem em nossas contas existem apenas em servidores de computador. Desse modo, a maior parte das transações é executada por meio da movimentação de dados eletrônicos de um computador para outro. “Só um criminoso compra uma casa, por exemplo, e entregando uma maleta cheia de notas” (Yuval Noah, em Sapiens).

A confiança é a matéria-prima com que todos os tipos de dinheiro são cunhados. O dinheiro é um sistema de confiança mútua, e não só isso: o dinheiro é o mais universal e mais eficiente sistema de confiança mútua já inventado.

A primeira forma de dinheiro conhecida na história – os grãos de cevada sumérios – é um bom exemplo. Apareceu há três mil anos a.C., no mesmo período e lugar, e sob as mesmas circunstâncias, do aparecimento da escrita. A escrita supria as necessidades administrativas, e o dinheiro de cevada se desenvolveu para atender às necessidades de se intensificar as atividades econômicas. Mas havia um problema: como armazenar e transportar toda essa cevada?

As primeiras moedas da história foram feitas em torno do ano 640 a.C. pelo rei Aliates da Lídia, na Anatólia, hoje Turquia. As moedas tinham um peso padronizado de ouro ou prata e eram gravadas com uma marca de identificação, que atestavam o quanto de metal havia na moeda e identificava a autoridade que emitiu a moeda e que garantia o seu conteúdo. Quase todas as moedas em uso, hoje, descendem das moedas lídias. 

Durante a Idade Média, surgiu o costume de guardar as moedas com ourives e, como garantia, era entregue um recibo. Aos poucos esses comprovantes passaram a ser usados para  efetuar pagamentos, circulando no comércio e dando origem ao dinheiro de papel.

O dinheiro é baseado em dois princípios universais: convertibilidade universal e confiança universal. Assim, esses princípios permitiram que milhões de estranhos cooperassem no comércio e na indústria de maneira eficaz. Podemos não confiar no estranho ou no vizinho, mas confiamos na moeda que possuem. Se suas moedas acabarem, acaba nossa confiança.

Uma moeda-mercadoria é uma moeda cujo valor é ditado pelo objeto que a compõe. É diferente, por exemplo, de uma cédula, onde seu valor não está no papel-moeda, mas no acordo social firmado acerca daquele item.

Assim, o que faz com que uma cédula de R$ 50 valha mais que uma de R$ 20 não é a quantidade de papel-moeda que ela possui, mas a confiança de que sua inscrição “50” valerá mais do que a cédula com a inscrição “20” e menos que a de inscrição “100”.

Dinheiro. Confiança. Convertibilidade. Entendimento entre as nações.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Baseado no livro Sapiens, de Yuval Noah Harari, editado por L&PM 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 1, 2022

CEARÁ DECLARA GUERRA AO RN

Em meados do século XVIII, a vila de Aracati-CE era uma grande produtora de carne salgada, e usava o sal trazido de Portugal, com altos impostos embutidos. Com vistas à solução deste problema, Aracati solicitou a anexação das salinas do rio Mossoró ao seu território, o que foi concebido por uma carta régia de 1793, gerando fortes protestos do governo da província do Rio Grande do Norte.

No século XIX, o desenvolvimento de Mossoró atraía muitas pessoas para a cidade, o que reativou o clima de disputa fronteiriça com o Ceará. As oficinas de carne seca de Mossoró causaram animosidades a alguns comerciantes de Aracati, e estes quiseram fechar os portos dos rios Assú  e Mossoró, visando a impedir a saída do produto. A situação chegou ao clímax em 1888, quando a Câmara daquela cidade cearense “mandou medir terrenos à margem esquerda do Mossoró” e tentou estender os limites de seu município, encampando terras das localidades de Tibau e Grossos.

Em 1894, o Estado do Ceará impetrou uma ação no Supremo Tribunal, alegando conflito de jurisdição, que se transformou em ação de limites. Em 1901, a Assembleia Legislativa do Ceará aprovou uma Lei elevando Grossos-RN à condição de Vila, gerando protestos do governo potiguar. Face à reação dos norte-riograndenses que moravam na área em disputa, os governos dos dois Estados mandaram tropas para o local. 

As tropas do Rio Grande do Norte, em fins de janeiro de 1904, se posicionaram na barra do rio Mossoró. Os cearenses reagiram, trocando sua posição de invasor para invadidos. Em 5 de março de 1904, a tropa cearense, composta de duzentos e cinquenta homens, tomou posição em Aracati, a 80 km da zona em disputa.

Os cearenses se deslocaram de Aracati até Grossos, aonde chegaram em 11 de março de 1904 e ali estabeleceram seu quartel-general. As tropas do Rio Grande do Norte se agruparam em Areia Branca. Não houve conflito armado.

O presidente da República interveio e mandou que as tropas recuassem para suas bases. A decisão do conflito foi feita por arbitragem, sendo favorável ao Ceará. Nos tribunais, o Rio Grande do Norte ganhou em três ocasiões diferentes: 30 de setembro de 1908; 02 de janeiro de 1915 e 17 de julho de 1920. Rui Barbosa, o grande jurista brasileiro, defendeu os interesses do RN, a fim de que se lograsse uma vitória nesse litígio.

Nos anos 1960, o governador Aluísio Alves fez doação de glebas de terras devolutas a antigos posseiros, muitos deles em região fronteiriça dom o Ceará, medida que viria favorecer os habitantes da região, dando-lhes oportunidade de melhorar seu nível de vida.

A Constituição Federal Brasileira de 1988 determina que, em prazo de três anos, a partir de sua promulgação, que os Estados e municípios promovessem a demarcação de suas linhas divisórias em litígio. Esgotado esse prazo, cabe à União determinar os limites das áreas litigiosas.

O Rio Grande do Norte e o Ceará, até agora, não resolveram definitivamente suas pendências de limites geográficos, conferindo tal decisão ao STF (alínea “f”, art. 102 da Constituição Federal: “Compete ao STF […] as causas e os conflitos entre a União e os Estados, entre a União e o Distrito Federal, ou entre uns e outros…”.

A guerra que quase houve. A paz que o povo queria.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Baseado no texto A GUERRA QUE QUASE HOUVE, de R. Femenick, do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 24, 2022

UM ASSASSINO RONDANDO NO BAIXO

Sabemos que Rodedrom é um sujeito estranho, de cara e corpo arredondados. Nasceu e cresceu nas redondezas, e desde pequeno diferenciava-se dos demais por  ostentar pequenos fios de barba na parte de baixo das bochechas. 

Sabemos também que Tatá era um filhote de tainha que gostava de se exibir ao sol, afirmando ter um corpo quase de sereia. Nasceu e cresceu na Praia do Meio, de onde tinha uma bela visão de Upanema, de um lado, e da entrada da barra, do outro.  

A partir do sumiço de Tatá, que se deixou levar pelo palavrório maroto de Rodedrom,  o pessoal da periferia – peixinhos que habitavam o Baixo, nas proximidades da areia, não se satisfez com as explicações do aprendiz de matador que, agora,  retornava ao ambiente dos pequenos peixes, causando desconforto às águas há algum tempo serenas da Praia do Meio. Uma onda de maus presságios começou a se alastrar por toda a redondeza.

Com ar dissimulado, Rodedrom estava de volta ao reinado das tainhas, sempre observado pelos siris adultos, que piscavam seus olhinhos toda vez que o tubarão passava sorrateiro, entabulando conversa com quem não conhecia. Para Ribinha, um siri esperto, Rodedrom falava demais, e quem fala demais dá bom dia a cavalo, resmungava.

O  intuito de todos era promover um desenvolvimento harmônico do local, com todos empenhados na melhoria da convivência entre os habitantes da região do Baixo. Os mais velhos difundiam uma orientação filosófica em que se propunham fazer sempre o bem, até em relação a um desafeto. Sempre ajudar, sempre colaborar, sempre fazer o bem. Aí incluíam-se elementos tipo Rodedrom.

Dias depois, em um sábado de manhã ensolarada, os peixinhos foram avisados pelos siris que havia uma grande movimentação nas bordas da água, no mais seco do raso. Perplexos, e em meio a um grande reboliço, perceberam que Rodedrom, se debatia na areia molhada, e, já no quase final do desespero, olhava para todos com aquele olhar que depois ficaria conhecido como olhar de peixe morto. É que Rodedrom havia disparado em direção a uma tainha e, nesse frenesi, ficou encalhado.

Sem qualquer discussão, todos os peixinhos, aproveitando uma das últimas ondas que os levaria até o pequeno tubarão, deslizaram juntos e, depois de muita luta, e aproveitando o retorno da mesma onda,  e já quase sem forças, puxaram o peixe com dificuldade, e o puseram de volta no rumo do mar. Rodedrom olhava de longe, e sentia que suas energias retornavam com vigor. De repente, partiu na direção dos peixinhos, e só escapou Ribinha, o sirizinho esperto, que se enterrou na areia.

Ofegante, Ribinha balançava lentamente a cabeça, e pensava, entristecido: Piabas me mordam! Não tem jeito. É da natureza!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN    

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