Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 16, 2018

UMA IGREJA SEM ENTRADA

Sempre gostei de visitar igrejas. Já conheci igreja protestante com imagens de santos em seu interior. Estranho? É que essa igreja foi confiscada pela religião protestante ao se expulsarem os padres. Isso é comum, tanto do lado do catolicismo quanto das igrejas protestantes, devido ao sem número de guerras europeias.

Também já vi um hotel recepcionando seus hóspedes onde até pouco tempo funcionava uma igreja católica, como esta na Polônia.

Hotel igreja

Em Praga, a bela capital da República Checa, caminhando por sua praça principal, à noite, vislumbrei duas belíssimas torres que pareciam flutuar, em sua tentativa de aparecer por trás de alguns prédios. Procurei um modo de entrar naquela igreja que se destacava na parte de trás de um imenso quadrilátero que formava praça. Impossível entrar. Não havia uma porta ou caminho pudessem me indicar o acesso ao edifício da igreja. Amanhã eu retorno, pensei.

Igreja noite

Na manhã do dia seguinte, novamente na praça, tentei descobrir o caminho que não encontrara na noite anterior. Perguntei nas lojas do quarteirão e encontrei a resposta. A entrada ficava quase despercebida entre alguns prédios comerciais, à direita da foto. A teimosia valeu a pena. A igreja é belíssima também por dentro.

Igreja dia

A história da praça da Cidade Velha remonta ao século XIV, quando era apenas um espaço comercial dominado, durante a Idade Média, por uma burguesia próspera e poderosa. Ali foi construída a prefeitura da Cidade Velha, e lguns anos depois seria construída a igreja Nossa Senhora de Tyn, que ficou conhecida como a catedral dos comerciantes, e tinha como objetivo competir com a catedral de Praga.

Igreja de Nossa Senhora de Tyn. Até hoje sua entrada nos confunde em meio a um emaranhado de prédios comerciais.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 9, 2018

TENSÃO NA FRONTEIRA

Corria o mês de maio do ano de 2008; portanto, há apenas 10 anos. Viajávamos de ônibus pela Hungria e atravessamos a Eslováquia com destino à Polônia, sob um clima de ansiedade. No interior do veículo, 48 brasileiros e dois portugueses estavam estressados e confusos com a aproximação da fronteira com a Polônia. É que no hotel fomos avisados de que a travessia da fronteira poderia ser tensa, e que todos deveriam estar com os passaportes à mão.

Em 1985 foi assinado o Acordo de Schengen pelos países fundadores da União Europeia para abertura de suas fronteiras, e se iniciou em 1995 com Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Alemanha. Schengen é uma pequena cidade luxemburguesa. Em seguida, aderiram a Itália, a Áustria, a Grécia, a Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia. Com a expansão da UE em 2004, aderiram Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Hungria, Letônia, República Checa, Polônia, Malta e Polônia. A Suíça entrou em 2008.

No dia 19 de agosto de 1989, na fronteira da Áustria com a Hungria, aconteceria algo inusitado. Os dois países permitiram a abertura de suas fronteiras durante algumas horas para que pudesse haver um piquenique, propiciando um encontro entre as famílias afastadas pelo regime comunista. Nesse momento, centenas de alemães orientais aproveitaram para cruzar a fronteira em direção à Áustria, sem que houvesse qualquer reação dos guardas húngaros, abrindo caminho para a queda do Muro de Berlim, que aconteceria três meses depois.

Voltemos à nossa viagem. A tensão aumentava à medida em que a fronteira se aproximava. Mantenham-se calmos. Preparem-se para encarar soldados portando fuzis e metralhadoras, dizia o guia. Não liguem para os tanques, rebatia.

E a fronteira foi surgindo, e nada de tanques, nada de soldados. Aquele posto de controle, onde antes havia um bloqueio de guerra, estava livre, sem qualquer sinal de hostilidade. Passamos por ele aos gritos e apupos. Um viva à liberdade! Era a nova Polônia.

Dali seguimos com três horas para gastar pelo caminho, até chegarmos à capital, nosso destino. E fomos em frente. Uma hora e meia depois, a visão de uma cidade nos deixou aliviados. Era Budejovice, com uma imensa e estranha praça no meio, cercada de pequenos prédios e umas lojinhas do lado direito. Os moradores eram muito brancos; os homens, altos e fortes. Ficamos sabendo que ali é o berço da   cerveja Budweiser, assumida pelos americanos.

As pessoas ficaram nos olhando com ar de desconfiança. Saímos em busca de um local para almoçar. Eles não falavam outro idioma além do polaco, e não faziam nenhum esforço para disfarçar seu descontentamento com a nossa presença. Dali em diante, passei a chamar aquele local de cidade do fim do mundo.

Ceske BudejoviceAlgumas turistas em Budejovice

Budejovice. Talvez hoje, com dez anos de abertura da fronteira, as coisas tenham melhorado por ali. Voltarei para conferir.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 3, 2018

CAPADÓCIA, a Turquia em 5 fotos

A Capadócia fica na Anatólia Central, bem no meio da Turquia, a 700 quilômetros de Istambul. Nessa região, onde pontuam formações geológicas únicas, resultado de fenômenos vulcânicos e erosivos, as cidades mais conhecidas são Uçchisar, Göreme e Ürgrüp. Em Göreme se destacam hotéis, habitações e igrejas escavadas na rocha. O Parque Nacional de Göreme, com suas bizarras formações geológicas, foi declarado Patrimônio Mundial pela Unesco.

Na região da Capadócia, difícil é falar nas atrações, que são muitas. As cidades subterrâneas da região datam do século V a.C, e estão entre os locais cuja visita é obrigatória. Entre as mais importantes está a cidade subterrânea de Kaymakli, composta de quatro pisos e até 15 a 25 metros de profundidade. Em seguida vem a cidade de Derinkuyu, conectada com a cidade de Kaymakli. Está localizada a 25 quilômetros de Nevsehir, e tem quase oitenta e cinco metros de profundidade, com cinquenta e dois túneis de ar verticais catalogados em sua área.

Uma das melhores experiências, quando se está viajando pela Capadócia, é algo simples, geralmente desprezado pelos turistas: são as feirinhas públicas que se espalham pelas pequenas cidades. É nessas feiras onde, de forma descontraída, podemos sentir o pulsar de uma cultura milenar, de forma pura e espontânea. Aqui encontramos de tudo um pouco, desde réplicas de objetos de antes da era cristã, como lamparinas de azeite, assim como antigos moedores de pimenta, jarras, e ainda réplicas, em miniatura, de casas, teatros da época de São Paulo, pedras com escrita cuneiforme, figuras dos derviches dançantes e muitos outros elementos da cultura daquele povo de origem tão antiga.

Porém nada se compara ao encantamento de viajar pelo céu da Capadócia, onde sonho e realidade se fundem, dando origem a um terceiro sentimento que não sei qual.

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Quase esquecia de algumas bugigangas que adquiri em uma daquelas feirinhas e que guardo com carinho em minhas relíquias de viagens: um porta-caneta com tinteiro, instrumento utilizado pelos árabes em seus momentos de escriba.

Foto do porta-caneta

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 26, 2018

ENCRIPTANDO1 AINDA EM CRIANÇA

Embevecido pela leitura do livro Fortaleza Digital, de Dan Brown, de repente surpreendi-me com a personagem Susan, superespecialista em criptografia, fazendo um rabisco em um papel e o entregando para o namorado: enh anl sdq sd bnmgdbhcn. O rapaz era versado em vários idiomas, e isso facilitou as coisas. Logo ele traduziu, ao constatar que, naquela criptografia simplificada, cada uma das letras era trocada pela letra seguinte. Dessa forma, A virava B, que virava C e assim por diante. E aí, vamos decifrar a mensagem?

O que isso tem a ver com uma criança? No final da década de 1950, eu, na faixa dos meus catorze anos, estudando na Escola Técnica de Comércio, comecei a pensar em uma forma de escrever algo que só pudesse ser lido pela pessoa a quem era destinada a mensagem. O que fiz? Inventei de escrever trocando as letras de tal modo que o A fosse B e o B fosse A. E assim sucessivamente, nesta sequência:

A = B e B = A

C = D e D = C

E = F e F = E

G = H e H = G

I = J e J = I

L = M e M = L

N = O e O = N

P = Q e Q = P

R = S e S = R

T = U e U = T

V = X e X = V

Z = Z

Para escrever a frase quero falar com você na pracinha, eu colocava ptfsn ebmbs dpl xpdf mb qsbdjogb. Mesmo já adulto, vez por outra eu me comunicava com a namorada nesse código. O acento circunflexo não podia ser usado, assim como o agudo, o til (que não é um acento, mas um sinal indicativo de nasalização) e a crase, para não deixar pistas. Brrjl, enj dsjbcn n dncjhn cf Fxbmcn.

Vamos testar? Gnif rbaflnr ptf Dfrbs, n qncfsnrn jlqfsbcns, enj n qsjlfjsn b trbs dncjhnr frdsjunr. F ptf rftr lforbhfjsnr dnssjbl n sjrdn cf rfs dbqusbcnr fl flanrbcbr, f rtbr nscfor frdsjubr qncfsjbl rfs sntabcbr. Fmf tujmjzbxb tl dncjhn – tl rjruflb rjlqmfr cf rtarujutjcbn -, on ptbm b mfusb cb lforbhfl nsjhjobm fsb usndbcb qfmb mfusb ptf rf rjutbxb usfr qnrjdnfs b rtb esfouf, bcptjsjocn b rfhtjouf enslb: Dbcb mfusb B fsb rtarujutjcb qfmb mfusb C, A qns F f brrjl rtdfrrjxblfouf. Fsb n dncjhn cf Dfrbs.

Caso não tenha conseguido, segue aqui a tradução: Sabe-se que Cesar, o poderoso imperador, foi o primeiro a usar códigos escritos. É que seus mensageiros corriam o risco de ser capturados em emboscadas, e suas ordens escritas poderiam ser roubadas. Ele utilizava um código – um sistema simples de substituição -, no qual a letra da mensagem original era trocada pela letra que se situava três posições à sua frente, adquirindo a seguinte forma: Cada letra A era substituída pela letra D, B por E e assim sucessivamente. Era o código de Cesar.

Hoje, a feliz constatação de que algo simples, elaborado em tom de brincadeira por uma criança, carregava em si um simbolismo criptográfico.

FxbmcNNmjxfjsb

Rndjn Dnssfrqnocfouf cn Jorujutn Gjrunsjdn f Hfnhsbejkn cn SO

(1)Encriptação é o processo de transformar informação usando um algoritmo de modo a impossibilitar a sua leitura a todos exceto aqueles que possuam uma identificação particular, geralmente referida como de chave. Wikipédia

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 19, 2018

OUVINDO A VOZ DE DEUS? Se não, de quem?

Em apenas dois momentos de minha vida ouvi uma voz fluindo dentro de mim, de forma suave, mas firme. Porém eu ouvi essa voz de forma limpa, clara, em pleno dia no primeiro evento e em plena madrugada, no segundo. Nos dois casos, encontrava-me sozinho.

Na década de 1990 eu era chefe de uma unidade de saúde e, como tal, dispunha de uma vaga privativa para estacionar meu carro. Trabalhei ali durante quase 25 anos, pelo período de quatro anos fui chefe da unidade.

Certa manhã, chegando bem cedo, estacionei o veículo que havia dado à minha filha por ter sido aprovada no vestibular, pois meu carro estava em revisão na concessionária. Estacionei debaixo de uma árvore, onde costumava fazê-lo todos os dias, e saí. Quando cheguei na metade do corredor que dava para minha sala, ouvi perfeitamente uma voz suave, mas incisiva, dizer: Volte e retire seu carro daquele local. Agora. Parei e pensei um pouco. Sim, aquela voz ainda reverberava em minha mente, quando voltei e retirei o carro e o estacionei em um local ao lado. O guarda achou estranho aquela atitude, mas nada falou. No momento em que eu retornava pelo corredor, caminhando para a sala da chefia, o guarda me chamou forte, com veemência, para que eu comparecesse ao local onde de onde eu havia retirado o carro. Lá, fiquei estático ao constatar que um galho enorme da árvore havia caído exatamente onde há uns dois minutos eu havia retirado o carro da minha filha, e provocara um pequeno afundamento no asfalto. À noite, em casa, concluí que aquela voz não havia entrado pelos meus ouvidos, mas, ao contrário, viera de dentro de mim. Alguém me dera uma ordem, mas quem?

Cerca de três anos depois, eu retornava da casa de uma criança adoentada que eu acabara de visitar. Eram duas da madrugada, e entrei no Buraco do Tatu, uma via subterrânea escavada que passa por baixo da rodoviária, no centro de Brasília -, via de mão dupla – duas faixas para cada lado. Eu dirigia na velocidade da via, na faixa da esquerda, logicamente bem próximo à faixa da esquerda de quem vinha em sentido contrário. No momento em que me aproximava da saída dessa via rebaixada, ouvi nitidamente uma voz dizer: Saia dessa faixa. Vá para a direita. Em um reflexo inesperado, puxei o carro para a direita e quase fiquei sem voz, de tanta perplexidade. Acabara de passar, em alta velocidade, um carro que invadira a contramão e passara por mim, exatamente na faixa à minha esquerda, onde me encontrava quando recebi a ordem para dali me afastar. Aquela voz também não chegara a mim pelos ouvidos. Viera de dentro. Novamente alguém me dera uma ordem, mas quem?

Pesquisando na internet, descobri algo que talvez oriente um eventual debate sobre essa questão: Sem dúvida, há diversos idiomas (vozes) no mundo; todavia, nenhum deles é sem sentido. Portanto, se eu não entender o significado do que alguém está falando, serei estrangeiro para quem fala, e ele, estrangeiro para mim (1 Coríntios 14:10,11).

Este evento me leva ao encontro de uma dúvida que algumas pessoas têm a respeito do fato de os apóstolos terem ouvido a voz de Cristo após a ressuscitação. Um dia desses, dizia um sujeito na televisão: Como podem eles, os apóstolos, ter ouvido uma voz, se não havia um aparelho fonador para produzir as palavras supostamente ouvidas? Sem um aparelho fonador não pode haver som, voz, comunicação oral, rebateu o debatedor.

Hoje, tenho certeza. Não há necessidade de aparelho fonador para que se escute uma voz. Alguém, ou algo, pode, sim, falar conosco pelo lado de dentro de nós mesmos. De que modo? Não sei.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Sem chance.

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 14, 2018

PONTE DE TRAJANO EM CHAVES, os romanos em Portugal

Você vai dirigindo por uma estrada portuguesa e fica na dúvida. Será que vale a pena entrar nessa cidade indicada na placa? Com certeza vai valer a pena, mesmo que não tenha havido indicação prévia. Seja por sua arquitetura antiga ou por seus monumentos, sentimentos agradáveis nos surpreendem em cada cidade ou até vilarejo.

Viajando de Lisboa para Santiago de Compostela, depois de um dia na cidade do Porto e dois em Coimbra, decidimos entrar em Chaves para almoçar. Será que vale a pena? – alguém perguntou.

Entramos. E nos deparamos com uma cidade limpa, agradável, que na época dos romanos chamava-se Aquae Flaviae. O aglomerado urbano originou-se em torno de um balneário termal importante, além de um centro religioso dedicado às Ninfas. Logo percebemos que nossa presença se estenderia para algo bem mais que um simples almoço.

O ponto alto foi conhecer, no centro da cidade, a Ponte Romana sobre o rio Tâmega. A ponte, erguida entre fins do século I e o início do século II da era cristã, é conhecida como Ponte de Trajano, e se constitui em um dos melhores legados romanos da antiga Aquae Flaviae que prevalece até os nossos dias, resistindo às cheias e às fortes correntes do rio. Contando com um tabuleiro com 140 metros de comprimento, a ponte apoia-se em 12 arcos de volta redonda visíveis e em quatro outros soterrados pelo casario e aluviões. Conta ainda com duas colunas cilíndricas epigráficas no meio, que confirmam ter sido obra do imperador Trajano. No ano de 1910 a ponte foi declarada Monumento Nacional, e hoje é uma ponte de pedestres.

Ponte Trajano

Arco Ponte

A leitura epigráfica¹ de uma das colunas do meio da ponte revela: “Imperando Cesar Nerva Trajano Augusto Germânico Dácico, Pontífice Máximo, com poder tribunício cônsul a 5ª vez, pai da pátria, os aquaflavienses trataram de fazer à sua custa esta ponte de pedra”.

Depois do almoço, quando imaginávamos haver conhecido a única construção antiga da cidade, fomos informados da existência de um castelo medieval um pouco adiante. E nos surpreendemos com a beleza do castelo e seu excelente estado de conservação. Construído no século IX pelo conde Odoário, localiza-se na freguesia de Santa Maria Maior, cidade e conselho de Chaves. Por sua posição dominante sobre uma elevação à beira do rio Tâmega, tinha como função estratégica a defesa da fronteira com a Galiza, hoje Galícia, e tem como capital a cidade de Santiago de Compostela.

Cast Chaves Foto internet

Em Portugal, placa indicando cidade ou vilarejo, pode entrar.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

(¹)Epigrafia  é uma ciência auxiliar da história, na qual se estudam as inscrições antigas, ou “epígrafes“, gravadas em matérias sólidas (tais como a madeirarochaossosmetal), visando a obter a decifração, interpretação e classificação das inscrições. Trajano foi imperador romano de 98 a 117, e é reconhecido por seus extensos programas de obras públicas e as políticas sociais implementadas durante seu reinado. Wikipédia.

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 5, 2018

O ASSASSINATO DE JOÃO PESSOA E A REVOLUÇÃO DE 1930

Nós, brasileiros de classe média, não temos o hábito de ler a respeito dos fatos que marcaram nossa história. Mas é simples. Para isso podemos contar com a internet. Assim, eu o convido para um passeio pela História do Brasil.

Para entendermos os fatos que deram início à Revolução de 1930, é preciso entender o período monárquico brasileiro, que durou 67 anos, isto é, desde a independência, em 1822, até o ano de 1889, quando o Marechal Deodoro da Fonseca liderou um golpe militar que instituiu a República dos Estados Unidos do Brasil. No ano de 1891 foi elaborada a primeira constituição do período republicano, que vigorou até 1930. Este período é conhecido como República Velha. Durante esse período, o Partido Republicano Paulista-PRP e o Partido Republicano Mineiro – PRM fizeram alianças que lhes garantiriam o revezamento na presidência da República, artifício conhecido como política do café com leite.

Em consequência desse acordo, no dia 15 de novembro de 1926 Washington Luís assumia a presidência da República, em eleição sem opositor. No final do seu mandato, em 1930, o presidente rompeu com a política do café com leite, ao apoiar a candidatura de outro representante da política paulista, Júlio Prestes, que venceu as eleições contra Getúlio Vargas. O grupo derrotado, usando como pretexto o assassinato de João Pessoa, uniu-se a chefes militares do Exército e da Marinha e depuseram o presidente, instalando uma junta militar que, em seguida, transferiu o poder para Getúlio Vargas. Com isso, terminou o domínio das oligarquias no poder, e Getúlio Vargas governou o Brasil de forma provisória entre 1930 e 1934. Em 1934 o próprio Getúlio foi eleito presidente constitucional do Brasil pela Assembleia Constituinte, com mandato até 1937. Porém, através de um golpe que teve apoio de setores militares, permaneceu no poder até 1945. Era o fim do período conhecido como Estado Novo.

E onde João Pessoa entra nessa história? João Pessoa nasceu na cidade de Umbuzeiro em 1878; era sobrinho de Epitácio Pessoa, que fora presidente da República no período de 1919 a1922. O assassinato de João Pessoa por João Dantas, ocorrido em Recife no dia 26 de julho de 1930, no interior da Confeitaria Glória, quando ainda era presidente da Paraíba, foi o gatilho que pôs em marcha os entendimentos que culminariam com a deflagração da Revolução de 1930. O escritório de João Dantas fora invadido por homens da polícia, supostamente a mando de João Pessoa. O presidente da Paraíba era candidato a vice-presidente da República, na chapa de Getúlio Vargas, mas perderam para o candidato governista Júlio Prestes. Em sua homenagem, a capital do estado da Paraíba, antes denominada de Parahyba, passou a se chamar João Pessoa a partir de 4 de setembro de 1930.

O Nego da bandeira da Paraíba teve origem neste telegrama: Paraíba, 29-julho-1929. Deputado Tavares Cavalcanti: Reunido o diretório do partido, sob minha presidência política, resolveu unanimemente não apoiar a candidatura do eminente Sr. Júlio Prestes à sucessão presidencial da República. Peço comunicar essa solução ao líder da Maioria, em resposta à sua consulta sobre a atitude da Paraíba. Queira transmitir aos demais membros da bancada essa deliberação do Partido, que conto, todos apoiarão, com a solidariedade sempre assegurada. Saudações: João Pessoa, Presidente do Estado da Paraíba.

O professor Fábio Lafaiete Dantas, em seu livro Uma Família na Serra do Teixeira, questiona: O nome vigente da capital simboliza a tragédia ampliada das mortes de João Pessoa, João Dantas, Augusto Caldas, Anaíde Beiriz e João Suassuna; simboliza também a vitória dos que se apropriaram da tragédia, criaram um mito do bem e um mito do mal, transformando esta criação num poder que, malgrado sua fragilidade, atravessou o século. Respeitável quando designa um paraibano ilustre, o nome João Pessoa passa a representar também a grande tragédia. Imposto que foi pela manipulação das massas traumatizadas, perdura o nome mesmo depois da tragédia diluída pela realidade dos fatos.

O Prof. Lafaiete questiona: Os paraibanos levarão para sempre em sua bandeira uma palavra do ídolo – Nego – significando um ato estritamente pessoal, que foi negar-se a aderir a uma articulação política? Deverá a bandeira paraibana manter assustados os supersticiosos, ao alçar um ícone de mau agouro? É justo que a bandeira paraibana faça com que a negativa circunstancial de um líder signifique que o povo paraibano, onde quer que hasteie sua bandeira, esteja proclamando uma atitude de negatividade generalizada, ilimitada e perpétua?

Assassinato de João Pessoa por questões pequenas, pessoais. Um pretexto para mais um golpe contra a democracia.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 29, 2017

BULLYING, QUASE TODOS PASSAMOS POR ISTO

Pediatra há mais de quarenta anos, quero deixar algumas impressões sobre esse evento – bullying -, aqui entendido como uma atitude agressiva sob a forma de ameaça, humilhação, tirania, opressão, intencional e repetida, seja verbal, física ou psicológica, que ocorre sem motivação aparente, praticada por um indivíduo ou grupo de indivíduos contra uma ou mais pessoas, causando dor e sofrimento. Geralmente essa atitude é realizada em meio a uma relação desigual de poder.

Essa atitude agressiva, que vem do inglês bully = valentão, pode ser direta, sem arrodeios, ou de forma dissimulada, ou até virtual (cyberbullying), e pode levar o indivíduo ao isolamento social. Para ser bullying, a violência tem que ocorrer entre pares, seja na escola ou no trabalho. Por esta razão, inexiste bullying de aluno contra o professor ou de funcionário contra seu chefe. O problema aqui é outro – fofoca, difamação.

Quando criança, nascido e morando em cidade do interior, sofri bullying de todas as formas, em especial a tentativa de agressão física, os apelidos e o menosprezo por ser pobre. Por sermos sete irmãos homens, essa coisa não tomou um aspecto mais intenso.

Como pediatra, percebo essas atitudes em crianças a partir dos três anos, quando no parquinho ou na creche o maiorzinho fica repetindo ele é bebê…; ele faz cocô na fralda…; e repete essa cantilena inúmeras vezes, até que a criança menor começa a chorar, e aos gritos também reaja: eu não sou bebê; eu não faço cocô na fralda! Ocorre também durante as brincadeiras, quando aquele maiorzinho insiste: Você não pode brincar com a gente! Você é bebê! E novamente vem o choro e o sofrimento do garotinho ofendido. Nessa idade, é raro ver isso entre as meninas. Nunca vi.

Quando maiorzinhos, a coisa vai se materializando em apelidos, muitas vezes ingênuos, que quase todos nós fizemos ou sofremos em nossas escolas.

Para Telma Vinha, doutora em Psicologia Educacional, para ser considerado bullying essa agressão física ou moral deve apresentar quatro características: a intenção do autor em ferir o alvo, a repetição da agressão, a presença de um público espectador e a concordância do alvo com relação à ofensa.

Com relação a este último item, conheci um garoto que morava na minha rua que desde pequeno sofria bullying por ter um nariz avantajado, fosse na escola ou nos jogos de futebol. No seu primeiro dia de aula na faculdade, ao entrar na sala percebeu um certo movimento nas carteiras, com risos dissimulados. Em certo momento, ele começou a jogar a cabeça para um lado e para o outro. O professor perguntou o que havia e o jovem falou, rindo e fazendo rir toda a sala: É a sombra do meu nariz que está atrapalhando a iluminação do meu caderno. Nunca alguém fez, na faculdade, qualquer referência a esse assunto de forma jocosa. Pelo fato de ele sempre ter levado na brincadeira, imagino que até nem poderia ser chamado de bullying, Hoje ele também é especialista em educação.

No Brasil, a Lei Federal 13.185, de 6 de novembro de 2015, instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying).

Bullying. Professores atentos, pais participativos; parte da solução. No trabalho, práticas de bom relacionamento e todo o rigor da hierarquia quando o problema ainda está no nível da fofoca.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 22, 2017

ELA NÃO QUER SAIR DO MEU BANHEIRO

Em uma manhã fria de sábado pós-feriado em Brasília, um dilema. Há dois dias chovia na capital do Brasil, e o clima era de pura Europa. Fazia um friozinho gostoso que, na semiescuridão, me empurrava de volta para debaixo dos lençóis. Minha mulher estava viajando, e eu me encontrava sozinho em casa.

Despertei supostamente pela manhã – digo supostamente porque o relógio ao meu lado emitia sinais de uma hora maluca, intermitente, sinalizando que, em algum momento daquela noite/madrugada, faltara energia elétrica em face das chuvas que caíram. Havia me levantado pela madrugada e ido ao banheiro. Era disso que eu lembrava.

Acendi as luzes no interior do banheiro e me vi diante de uma cena chocante. Na cuba do banheiro, embaixo da torneira, gotas esparsas, já ressecadas, de algo de cor marrom terroso, como se fora sangue antigo. Em seguida, pensei em vinho tinto. Mas eu havia tomado vinho branco na noite anterior. Imaginei serem gotas de café dispersas pela cuba. Porém em casa, à noite, não costumo tomar café puro. Impossível ser café.

Eu sozinho em casa. A cuba da pia do banheiro com resquícios de algo que não tinha relação comigo. De repente, no box, um barulho chamou minha atenção. Na noite anterior havia terminado de ler ORIGEM, o novo livro de Dan Brown, e meu coração ainda não retomara seu ritmo sinusal de sempre. Minha mente ainda não se libertara do museu Guggenheim da cidade de Bilbao, na Espanha.

E ali estava ela, bela e amedrontada, ensaiando fuga feminina. Tomei-a pela mão e cuidadosamente providenciei sua fuga pela janela do banheiro. Tentou voltar, mas não permiti.

Respirei aliviado. Que bom que minha mulher esteja viajando, pensei. Ela não encararia de modo fácil esta situação.

Que bela borboleta! E media exatamente o tamanho do meu palmo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 15, 2017

TAIPING, UMA REVOLUÇÃO TAMANHO CHINA

Em uma de minhas incursões pela internet, em busca de revoluções, revoltas e golpes que teriam ocorrido no Brasil, deparei-me com um dos conflitos mais sangrentos da história.

Durante os anos de 1850 a 1863, cerca de trinta a cinquenta milhões de chineses morreram em consequência direta da Rebelião de Taiping. Toda essa barbárie teve como ponto de partida um fato bizarro. Hung Hsiu, filho de um agricultor pobre perto de Cantão, era um estudante bastante promissor, mas que falhava com frequência nos exames para admissão em função pública. Ele ouviu a pregação de um cristão e se converteu à sua religião. Acreditando que recebia visões do próprio Deus, que o considerou como a um pai, passando a ser irmão mais novo de Jesus Cristo, e que teria sido enviado por Deus à terra, a fim de erradicar os demônios e os cultos demoníacos.

Hung passou a estudar com J. Roberts, ministro batista do sul, que lhe ensinou tudo que sabia sobre o Cristianismo. Junto com alguns seguidores e parentes, ele formou uma nova seita religiosa, que se chamava Os Adoradores de Deus, que se dedicava à destruição de ídolos na província de Cantão.

O movimento atraiu muitos seguidores. No entender de Hung, ele havia chegado à conclusão de que a derrubada dos seus opositores (Manchus) iria trazer o Reino do Céu para a Terra. Compôs então uma ideologia eclética que combinava elementos da antiga filosofia taoísta (pré-confuciana) com crenças herdadas do cristianismo protestante. Com base nisso, idealizou uma sociedade utópica, na qual os camponeses possuiriam e trabalhariam a terra em comum. Nessa sociedade ideal, inspirada num passado lendário, a escravidão, a tortura policial, os casamentos arranjados, o consumo do ópio, a idolatria e outros costumes da China Imperial seriam abolidos.

Junto com sua crença de que o Reino dos Céus seria criado sobre as ruínas do governo Manchu, os militantes dos Adoradores de Deus também foram treinados militarmente para destruir e eliminar os cultos demoníacos. Em 1840 Hung reorganizou seu movimento em uma organização militar. Todos os crentes tiveram que dar as suas propriedades e seus bens para o movimento, que se voltou para o comércio de armas.

Com isso, Hung atraiu milhares de seguidores que se opunham às desigualdades sociais, à rapinagem colonialista e à odiada dinastia Manchu. Essas multidões se organizaram em um exército revolucionário.

Em dezembro de 1850, Hung foi atacado por forças do governo, mas revidou de forma eficiente, obtendo sucesso. No ano seguinte, ele declarou que um novo reino havia se estabelecido, o Reino da Paz Celestial, sendo proclamado então o Rei Celestial. Havia começado a Era de Taiping ou Grande Paz, uma sociedade sem classes, sem distinções entre as pessoas. O movimento criou um programa radical de reformas econômicas no qual todas as riquezas foram igualmente distribuídas a todos os membros da sociedade.

O exército foi se estruturando e os crentes de Taiping foram disciplinados, tornando-se soldados dedicados, dispostos a morrer em nome de Deus e pela destruição das contra-forças demoníacas. Em março de 1853 os Taipings ocuparam Nanquin, e mudaram o seu nome. Em seguida, partiram para atacar Pequim, mas seu exército foi derrotado. As pressões da guerra e uma ineficiente administração levaram ao desmoronamento do Reino da Paz Celestial.

Em junho de 1864, diante de uma iminente derrota da Rebelião, Hung decidiu se matar, e morreu envenenado.

Brasil, guerra de Canudos: 25 mil mortos. Guerra do Paraguai: 300 mil pessoas morreram. Primeira Guerra Mundial: 9 milhões de mortos.

Taiping: entre 30 e 50 milhões de mortos. O tamanho da estupidez!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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