Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 7, 2020

DÉDALO ALÉM DE ÍCARO

Existe uma curiosidade acerca de qual teria sido o destino de Dédalo depois da morte do filho, Ícaro. Os dois fugiram da ilha de Creta, na antiga Grécia, e na fuga Ícaro se precipitou nas águas do mar Egeu, enquanto Dédalo continuou manteve seu voo até pousar em local seguro. Mas para onde, e que futuro teve o artesão e arquiteto grego em sua nova morada?

Dédalo foi o mais notável artesão, arquiteto e inventor da Antiguidade. Em seus primeiros anos, Dédalo dedicou-se ao descobrimento dos materiais, formas, volume e do próprio espaço. Em reconhecimento ao seu trabalho, foi convidado pelo rei de Creta, Minos, para construir o Labirinto para aprisionar o Minotauro,  um monstro filho de sua mulher.

O Minotauro exigia que lhe enviassem anualmente sete jovens virgens atenienses como oferenda, para serem devoradas. Teseu se ofereceu para tentar penetrar no labirinto e matar o monstro, e conseguiu seu intento. Com isso, o rei Minos ficou decepcionado com Dédalo, e determinou sua prisão.

Dédalo, sabedor do controle de Minos sobre mar e terra, teve a ideia de construir pares de asas de penas  para si e para o filho, ligadas com cera, para fugirem. No voo, Ícaro se encanta com a beleza do firmamento e sobe muito alto; o sol derrete a cera de suas assas, e o jovem se precipita nas águas do mar Egeu. Desesperado, Dédalo consegue chegar à Sicília.

A fuga de Dédalo, pelo ar, lembrou-me o feito de Casanova. A Ponte dos Suspiros, em Veneza, construída entre os anos de 1600 e 1602, situada próximo à Praça São Marcos, serve de ligação entre o Palazzo Ducale, onde os prisioneiros eram julgados, e as Prigioni Nuove, o primeiro edifício construído no mundo para ser prisão. O prisioneiro não saía dali com vida. Esta era a lenda.

img_0684-1 Ponte dos Suspiros

Giacomo Casanova, escritor e aventureiro italiano,  foi feito prisioneiro naquela Prigioni e colocado em uma cela minúscula, de onde fugiria saltando pelos telhados do palácio, depois de ficar preso durante 16 meses, tendo Paris como destino. Acusação: levar uma vida dissoluta, possuir livros proibidos e fazer propaganda antirreligiosa.

Na Sicília, Dédalo passou um bom tempo trabalhando para o rei Cócalo. Minos, quando soube que Dédalo havia se refugiado na Sicília, resolveu fazer uma campanha contra a ilha, onde desembarcou uma grande força. Minos solicitou que Cócalo lhe entregasse Dédalo, porém Cócalo trouxe Minos como convidado ao seu palácio, e o assassinou durante o banho, fervendo-o em água quente. Cócalo devolve o corpo de Minos aos cretenses, afirmando que ele havia se afogado no banho, e os cretenses o enterraram na Sicília.

Sem ter com o que se preocupar, Dédalo passa o resto de sua vida na Sicília, que fica no sudoeste italiano, trabalhando como arquiteto, inventor e construtor. Hoje, a Cicília é uma das regiões autônomas da Itália, tendo Palermo como sua capital.

Casanova, um empreendedor de aventuras.

Dédalo, um empreendedor de sonhos.

Ícaro, um jovem narcisista eternizado por seu marketing pessoal.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 31, 2020

GREVE, PICHAÇÕES (*)

No ano de 2018, em viagem por alguns países da América do Sul, tivemos chance de conhecer um grupo de estudantes que nos mostraram como se faz uma greve.

Na tarde da sexta-feira, caminhando por uma bela avenida de Buenos Aires, nos deparamos com um prédio gigantesco, com sua fachada emoldurada por estátuas imensas, no alto do primeiro andar. Ali, perfiladas, estátuas de vultos da História Universal que deram tudo de si para o engrandecimento da Ciência. Estávamos diante do prédio da Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires.

Prédio FM

No dia seguinte, sábado, caminhando por uma rua lateral, deparei-me com um grupo de estudantes, alguns do lado de fora e outros na parte de dentro da grade. Do lado de fora, estudantes distribuíam panfletos às pessoas que passavam pela calçada. Na parte de dentro da grade, um grupo cantava músicas de protesto, acompanhado por um violão, sob a proteção de um ombrelone. Pura alegria. Mas percebia-se que era um movimento grevista.

Entrei para falar com o grupinho animado e uma estudante me conduziu para o interior do prédio. Ali, pequenos grupos se revezavam na elaboração de algumas faixas e cartazes; coisa pouca. A maioria se digladiava em discussões sobre como se desenvolveria o movimento grevista. Os protestos do movimento eram postos em cartazes espalhados pelo grande rol de entrada.

Pichações

Perguntei a um deles por quanto tempo aquela greve se desenvolveria, e a moça me disse: Nossa paralisação é somente nos sábados e domingos, porque durante a semana temos aulas, e nessa semana que vem teremos um período de provas.

 Greve em fins de semana. Protestos, eventos musicais. Nenhuma pichação. Agressividade zero.

A caminho do restaurante, um pensamento: Quando chegaremos a esse patamar de discernimento e educação? Algumas greves na UnB chegavam a durar até seis meses, ou mais.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

(*) Atualização da crônica Greve À Moda Argentina

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 24, 2020

LICENÇA MÉDICA, UM IMBRÓGLIO

Camilo era médico de uma grande empresa. Especializado em obstetrícia, ele era muito respeitado por suas ponderações pertinentes e muito bom senso em suas decisões. Certo dia, passando pelo corredor, foi chamado em uma sala, de modo informal, por um médico de outro setor, que participava de uma avaliação de saúde de uma servidora.

Na sala, o médico que o convidou, ladeado por outro médico e uma médica, todos seus conhecidos na empresa. Mesmo sem ter qualquer relação funcional com as pessoas daquele grupo, aquiesceu em participar da discussão, tendo em vista o estado avançado de gravidez da mulher sentada no outro lado da mesa.  Em um pequeno sofá, um homem acompanhava de longe a discussão.

O médico que liderava aquele grupo contou ao Dr. Camilo o motivo da reunião. É que alguns colegas de trabalho daquela senhora grávida informaram à direção da empresa que ela chorava pelos cantos, e algumas vezes saíra do banheiro com a mão no rosto, tentando dissimular um choro quase incontido.

Com base nessa informação, a diretora instituíra aquela comissão, formada por dois médicos e uma médica, para avaliar o caso e definir uma licença médica com o objetivo de afastar a servidora do trabalho e, a seu critério, submeter-se aos  cuidados de um psicólogo.

O Dr. Camilo ponderou com a servidora que ela deveria concordar em se afastar do trabalho, para cuidar de sua saúde. A jovem senhora discordou com rispidez a acusação de que estava triste, deprimida ou ansiosa. Ao contrário, encontrava-se em um grande momento de sua vida, muito feliz com o breve nascimento de seu segundo filho.

Frente ao impasse, o Dr. Camilo propôs à servidora sua concordância para que ele conversasse com seu médico obstetra e, dependendo de sua orientação, ela acataria  a decisão. Falou que sim, e forneceu o telefone do seu médico. O Dr. Camilo foi ao consultório do médico, que ficava próximo. O profissional disse que sua paciente encontrava-se muito bem de saúde e que aquela estória da tristeza, ansiedade e depressão não procedia, e que ele discordava da concessão de uma licença antecipada à servidora.

De volta, alguns minutos depois, Dr. Camilo passou ao grupo o posicionamento do médico, contrário à liberação da licença médica. Percebendo o impasse, o Dr. Camilo propôs que, tendo em vista faltarem apenas 22 dias para a licença da servidora, que ela permanecesse trabalhando, já que esse era o seu desejo.

Dias depois, todos os servidores daquela comissão foram demitidos, exceto o Dr. Camilo, que entrara naquela discussão por puro acaso. O homem sentado no sofá era, de fato, um policial, que conduzia um gravador no bolso. A gravação foi entregue ao presidente da empresa, que se apressou em pôr ordem na casa.

Alguns dias depois, o Dr. Camilo soube que a diretora odiava aquela senhora, e a queria fora da empresa a qualquer custo. Não a suportava, e deixou claro que no dia em que ela retornasse, respeitados os direitos previstos na lei, ela a demitiria.

Pelos idos de 2005, o uso da verdade a serviço da mentira, parafraseando Norman Meiler. Nos dias de hoje, assédio moral.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 17, 2020

BERLIM EM QUATRO ESTAÇÕES

Berlim é uma cidade diferenciada, moderna, e tem destino grandioso inscrito no   futuro. Mas Berlim é muito mais do que isso. Pensei em mostrar as qualidades turísticas desta cidade com uma parada em quatro estações.

A primeira, e mais característica, é o famoso Muro, que foi criado como símbolo esquizofrênico da rivalidade ideológica que fomentava a guerra fria. O início da sua construção foi na madrugada de 13 de agosto de 1961, e tinha como objetivo separar a República Democrática Alemã (socialista) da República Federal da Alemanha, capitalista. E de repente foi surgindo um gradeamento metálico com 66,5 quilômetros, 302 torres de observação e pistas de corrida para ferozes cães de guarda. Os soldados da Alemanha Oriental tinham ordens claras de atirar para matar.

muro-berlim-1O muro hoje

A segunda estação tem relação com o Muro. É a East Side Gallery, uma galeria de arte ao ar livre situada em uma sequência de 1.113 metros no lado leste do Muro que foi preservada da demolição, próximo ao centro de Berlim. Consta de 105 pinturas de artistas convidados de todas as partes do mundo, e foram iniciadas em 1990. A pintura mais emblemática desse museu a céu aberto é o Beijo da Morte, quando o russo Brejnev cumprimenta o presidente da Alemanha Oriental em Berlim, no ano de 1979.

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dsc038993 O beijo da morte

A terceira estação, o Check Point Charlie. A separação pelo Muro exigia um posto  militar ou uma passagem para facilitar o trânsito de estrangeiros e membros das Forças Aliadas da Alemanha Ocidental para o lado oriental da cidade. Foi exigido que a Alemanha Oriental construísse passagens, que se tornariam fronteiras dentro de Berlim. Eram três passagens ou fronteiras.

checkpoint-700x416 Na guerra fria

check-point Check Point hoje

O Portão de Brandemburgo, quarta estação, tem 26 metros de altura, 11 metros de profundidade, 65 metros de largura e dispõe de doze colunas dóricas de estilo grego, sendo seis de cada lado. Pelos cinco vãos centrais passam cinco estradas. Sobre o arco encontra-se a quadriga (estátua da deusa grega Irene, deusa da paz, em uma biga puxada por quatro cavalos). Ali aconteceriam as manifestações pela derrubada do Muro de Berlim, no ano de 1989.

Antes de retornar ao Brasil, vale a pena conhecer uma ponte antiga, construída em 1907. À primeira vista, aquela ponte de ferro nada tem de especial, porém ao ler a placa Ponte Gilenicke (BlienickerBrüce)nos damos conta de que ali está mais um marco que separava a Alemanha da Alemanha. É a famosíssima Ponte dos Espiões, eternizada em filme do mesmo nome. Ali, a União Soviética e os Estados Unidos trocariam espiões capturados durante a guerra fria.

ponte-final Ponte dos Espiões

Quatro estações, muitas visões de uma cidade envolvida pelo manto da História.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 10, 2020

CEMITÉRIO MEMORIAL NA NORMANDIA

Os cemitérios franceses são conhecidos por sua exuberância, sendo o le Père La Chaise (o padre La Chaise) o mais conhecido. É utilizado pelos parisienses como um parque. Sua origem remonta ao século XII, e seu nome homenageia François d’Aix de La Chaise, sacerdote católico confessor do rei Luís XIV da França. Com a expulsão dos jesuítas, o terreno passou para a cidade por manobra de Napoleão Bonaparte, e assim foi construído o cemitério, inspirado no estilo dos jardins ingleses.

Situado em Colleville-Sur-Mer, o Cemitério e Memorial Americano na Normandia conta com 9.387 túmulos, e foi criado após o Dia D (6 de junho de 1944). Havia 23.000 americanos ali sepultados, antes do cemitério ser construído em 1956. A pedido dos familiares, foram repatriados quase 14.000.

O cemitério fica situado próximo a uma das praias onde ocorreu o desembarque (Omaha Sangrenta), e suas cruzes de mármore branco estão em alinhamento perfeito, lembrando uma parada militar, com um nome em cada cruz.

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Cemitério e Memorial Americano na Normandia. O zelo dos americanos por seus soldados.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Fotos de Lucas Fonseca

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 3, 2020

MADURODAN, HOLANDA, uma cidade inusitada

Viajando pela Holanda, fomos informados de uma moderníssima cidade chamada Madurodan. Chegamos na cidade de Scheveningen, Haia, nos Países Baixos. Ali, fomos conhecer Madurodan, que sequer constava do mapa. A seguir, mostrarei quatro fotos dessa cidade para que você tenha uma ideia do grau de sofisticação e do desenvolvimento que ali se verifica.

Holanda_058Visão panorâmica

Holanda_055Detalhe dos edifícios e casas

Holanda_056Canal passando em frente às casas

Acabou o mistério. Madurodan é uma cidade em miniatura, em uma escala de 1:25, construída em 1952, com dinheiro doado pela família Maduro, uma bela homenagem a seu filho George Maduro, morto lutando contra a ocupação nazista dos Países Baixos.

Ali, todos os expoentes arquitetônicos da Holanda estão representados, como as casas típicas ao longo dos canais de Amsterdã. Tudo que deu fama à Holanda se encontra representado nos mínimos detalhes. Em Madurodan os equipamentos estão em movimento, desde os moinhos de vento às lanchas panorâmicas que fazem passeios pelos canais. Comboios de trens são vistos percorrendo toda a cidade, sobre o maior caminho de ferro em miniatura do mundo.

Madurodan. Puro encantamento. Para crianças e adultos.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Fotos de Lucas Fonseca

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 26, 2020

AVES DO TEJO

Hoje, lembrei-me de uma manhã passada às margens do Tejo, o rio mais extenso da Península Ibérica, que nasce na Espanha, onde é chamado de Tajo, e após um percurso de mil quilômetros desagua no oceano Atlântico, em Lisboa. Espanha e Portugal são os dois países que compõem a Península Ibérica, além de Andorra, que é um principado, e o território britânico de Gibraltar.

Sabíamos que o Tejo passeia pela costela mindinho de Lisboa, e nos dispusemos a curtir aquela manhã em suas margens, depois de um café (pequeno almoço) no hotel. Descemos pelo  Rossio, amplo espaço que abriga vida e alegria. Tomamos a direita, em busca do Tejo, admirando o belo passeio público à margem do rio.

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Descortinávamos a beleza do local, quando fomos tocados pela leveza do voo de algumas aves do Tejo, barulhentas, exibidas por se acharem belas; e como o são! Sequer tivemos coragem de perguntar sobre suas linhagens ornitológicas, se marrequinha, corvo-marinho-de-faces-brancas, garça-branca-pequena, garça-real ou  garça-vermelha. Interessava-nos a beleza sutil de seus voos.

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Aqui, um pequeno grupo de aves nos deliciou com suas acrobacias argonáuticas, como a nos indicar o sentido da Torre de Belém, logo à frente.

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Esta diminuiu o voo e pousou para uma foto especial. Pousou para nós -, pensei.

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Aves do Tejo, aves de todas as latitudes. A beleza no ar. A natureza.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

– Fotos de Lucas Fonseca

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 19, 2020

SETE FOTOS PARA CELEBRAR A FORÇA DA POLÔNIA

Quando passeamos pelas belas ruas e avenidas de Varsóvia, a elegante capital da Polônia, nem nos damos conta de que aquela cidade já passou por dias de dor  e muito sofrimento, tendo presenciado cenas de horror durante a perseguição ao povo judeu. Em 1944 Varsóvia foi vítima de terrível e maciça destruição. Em praças e ruas da cidade monumentos pontuam episódios que não devem jamais ser esquecidos.

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O Pequeno Insurgente (Little Insurgent). Criança vestida com roupas militares e com uma pistola representando todas as crianças e adolescentes que lutaram no Levante de Varsóvia, em 1944.

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Monumento Warsaw Uprising Figters. A Revolta ou Levante de Varsóvia foi uma luta armada durante a Segunda Guerra Mundial, na qual o Exército Clandestino Polaco tentou libertar Varsóvia do controle da Alemanha Nazi.

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Monumento mostrando combatentes surgindo do esgoto para uma tentativa de ataque surpresa ao inimigo.

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O Monumento aos Caídos e Assassinados no Leste, em particular aqueles deportados para campos de trabalhos forçados na Sibéria, após a invasão soviética (Monument to the Fallen).

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Um paredão com os nomes dos países amigos que ajudaram na reconstrução do País.

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Praça central em Varsóvia. A vida fluindo em alto nível.

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Uma volta por cima. Uma resposta à intolerância.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 12, 2020

UMA ALMA EM BUSCA DE PAZ

Dóris conhecia muito bem a asma do tio Adamastor, e sabia que era à noite que os sintomas se intensificavam, o que transformava sua hora de dormir um quase suplício.

Dóris morava em um lugarejo do interior do Maranhão, onde passava o Mearim, rio mais importante do estado, há cerca de quatro quilômetros de sua casa. Era nesse rio que as mulheres se reuniam para lavar a roupa da família.

Naquele dia Dóris saíra com algumas tias, primas e pessoas da vizinhança para lavar a roupa da casa, que era pouca. Pela madrugada ouvira o tio Adamastor com a respiração mais forte, produzindo um chiado mais intenso, com tosse seca e respiração forçada. Pelo caminho, pensava no sofrimento do tio.

Ao passar em frente à casa onde morava, uma pessoa veio à porta avisar que seu tio queria falar com ela. Encontrou-o respirando com dificuldade, sentado junto ao espelho da cama, com uma almofada servindo de apoio para as costas.

– Dóris, quero lhe pedir um favor. Quero que lave essa minha roupa -, falou com grande escorço.

Pela primeira vez lhe pedia algo em especial. E era uma roupa que o tio vestia em dias de festa.

– Outra coisa – continuou. Saiba que estarei sempre ao seu lado para protegê-la, esteja onde você estiver. Só lhe peço que me avise toda vez que mudar de lugar. Não se esqueça disso.

Na beira do rio, em meio ao converseiro das mulheres, começou a soprar um vento frio. Vento frio em setembro? – pensou. O vento aumentou, formando um pequeno redemoinho, que girava carregando as folhas secas. A manhã estava cinzenta, e o vento serenou em seguida. Uma sensação estranha correu pelo seu corpo. Logo, um garotinho surgiu gritando o seu nome – Dóris! Dóris! O tio Adamastor morreu -, pensou consigo. E saiu em disparada para a casa .

A vida de Dóris mudou completamente. Sem a ajuda e a proteção do tio, ela foi mandada pela família para a casa de um tio que morava em uma cidade distante.

O tio era muito exigente, e logo Dóris estava cuidando de todos os serviços da casa. Sua vida se resumia a trabalhar, trabalhar e trabalhar. Percebendo a triste situação da sobrinha, uma tia querida providenciou sua ida o Gama, uma cidade satélite do Distrito Federal. Outra reviravolta em sua vida. Finalmente, voltara a estudar e logo concluiria o segundo grau. Foi nessa época que conheceu Abadio, um goiano trabalhador e apaixonado.

E os anos se passaram, a vida fluindo sem grandes sobressaltos. Naquela tarde de sábado, um vento solto e forte assobiava nos pés de pequi que Dóris avistava da cozinha. Chegou a esboçar um riso, percebendo o vai e vem das folhas.

À noite, Abadio entra no quarto com o rosto pálido, suado, e as pernas trêmulas. Quase resfolegando, afirmava ter ouvido nitidamente o chiado de alguém, ou o gemido de algum animal. Atônito e confuso, olhou para Dóris e falou:

– Tem alguma coisa esquisita lá na garagem. Parece um animal ferido ou alguém com asma! Olhei em volta do fusca e não percebi nada de anormal. O portão está trancado.

Dóris sabia que seu marido sempre fora corajoso e destemido, e trataram de se preparar para dormir. Mais tarde, em meio às suas orações, sentada na rede, Dóris percebeu o peso de alguém sentando ao seu lado. Imaginou ser Abadio em busca de uma companhia para esperar o sono chegar. Ali, Dóris sentiria o mesmo frio daquela manhã, à beira do Mearim, correr-lhe pelo corpo. E uma voz cortou o silêncio do quarto:

– Minha filha, por que você não me avisou onde estava? Passei todo esse tempo lhe procurando. – Era uma voz limpa, sem chiado, como jamais ouvira o tio falar. Ela sabia de quem era aquela voz. Porém havia uma dúvida: aquelas palavras estavam sendo pronunciadas, ou apenas entendidas em sua mente, sem serem faladas, mas ouvidas? Dóris virou-se para Abadio, que continuava dormindo na cama tranquilamente

Um tio amoroso. Uma alma atribulada, em busca de paz.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 5, 2020

EM BUSCA DE PILATOS, a descoberta de uma Suíça bucólica

Tocados pela informação de que o corpo do  Governador Romano Pôncio Pilatos  se encontra sepultado em um monte perto de Lucerna, resolvemos sair em busca da verdade.

No dia seguinte estávamos subindo o Monte Pilatus. Conta a lenda que as pessoas do local temiam que o fantasma do governador romano que se omitiu durante o julgamento de Cristo surgisse no meio das águas do lago, no alto da montanha, para lavar as mãos com o sangue de Cristo. A montanha foi então amaldiçoada por séculos, sendo por isso chamada de Monte Pilatus.

O belíssimo cenário do Monte Pilatus, cujo acesso é feito através de um inusitado trem de cremalheiras, recebia naquela manhã um concerto de cornetas alpinas. Somente ouvindo o som daqueles instrumentos primitivos temos a real grandeza da voz  da natureza. Originalmente, aquelas cornetas eram usadas para chamar as vacas.

Foto 1

Para chegarmos ao Monte Pilatus, a satisfação de conhecer uma Suíça bucólica, simples, cheia de saúde e perspectivas para o futuro de seus filhos.

Neste parque, várias oportunidades para as crianças desenvolverem habilidades,sonhos e criatividade.

Foto 2

Aqui, um parquinho infantil pronto para emoções e descobertas.

Foto 3

Nos arredores do Lago de Lucerna, uma raridade arquitetônica pouco difundida: a Igreja de Mármore de Meggen, construída sob a forma de cubo, com as paredes feitas de finas placas translúcidas de mármore grego. Toda a beleza da estrutura arquitetônica só é percebida do lado de dentro. A impressão é de que as paredes são de vidro.

Foto 6

Monte Pilatus, parquinhos infantis, Igreja de Meggen. Encantamento.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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