Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 22, 2020

PRESENTE DE MUSSOLINI AO BRASIL

No dia 5 de julho de 1928, os pilotos italianos Carlo del Prete e Arturo Ferrari pousaram no rio Potengi, em Natal, provenientes de Roma, a bordo de um hidroavião. O voo durou mais de 49 horas, sem escalas, cobrindo uma distância de mais de sete mil quilômetros.

Em agradecimento ao povo do Rio Grande do Norte pela festiva acolhida aos dois pilotos italianos, o ditador Benito Mussolini fez a doação de uma coluna romana retirada do monte Capitolino, em Roma, quase três anos após o feito heroico. Foi trazida pelo cruzador Leonardo Mallocello.

No dia 6 de janeiro de 1931 houve um evento festivo, coroado pela amerissagem de uma esquadrilha de hidroaviões, sob o comando do Ministro da Aeronáutica da Itália.

O historiador Nestor dos Santos Lima ressalta que Benito Mussolini mandou arrancar das ruínas do Capitólio Romano uma das suas soberbas colunas e com ela presentear a cidade de Natal, em memória do acolhimento feito aos heróis da inédita aventura.

A arquiteta Jeanne Fonseca Leie Nesi ressalta que, também conhecida como coluna romana ou coluna Del Prete, a Coluna Capitolina recebeu tal denominação em virtude de ter pertencido às ruínas do templo sagrado de Júpiter, existente ao norte do Capitólio, na Antiga Roma.

A Coluna Capitolina termina em um capitel, facilmente identificável, como pertencente à ordem coríntia. A massa do capitel, em forma de cesta de flores e cheia de folhas de acanto, é menos funcional do que o capitel da ordem dórica. Sua riqueza tornou-se muito popular, no tempo da supremacia romana.

Col.Capit

Col. Capit 2

Pátio do IHGRN em noite de autógrafos

Coluna Capitolina. Um pedaço de Roma Antiga no Brasil.

Atualmente, a Coluna Capitolina encontra-se nos jardins do Instituto Histórico e Geográfico do RN, do qual tenho a honra de ser Sócio Correspondente.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Há três estilos de colunas, utilizadas tanto na Grécia quanto em Roma.

Estilo Jônico

Estilo Dórico

Estilo Coríntio

A ordem coríntia começou a ser utilizada no século IV a.C. como uma evolução estilizada da ordem jônica, e viria a ser expandida pelos romanos em todo o império.

 

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 15, 2020

AUTISMO, CONHECER PARA ENTENDER E RESPEITAR

Como pediatras, percebemos que há uma lacuna no conhecimento sobre o real conceito de Autismo e a importância que o assunto requer, principalmente dos pais e educadores.

A Sociedade Brasileira de Pediatria-SBP conceitua o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) como um transtorno do desenvolvimento neurológico, que se caracteriza por dificuldades de comunicação e interação social e pela presença de comportamentos e/ou interesses repetitivos ou restritos.

Na maioria dos casos, os sintomas do TEA só são consistentemente identificados entre os 12 e 24 meses de idade. No primeiro ano de vida, algumas condutas em crianças podem chamar a atenção dos pais, como não se voltar para sons, ruídos e vozes no ambiente, não apresentar sorriso social, baixo contato ocular e de ciência no olhar sustentado, baixa atenção à face humana, demonstração de mais interesse por objetos do que por pessoas. Contudo, não obstante essa evidência, o diagnóstico do TEA ocorre, em média, aos 4 ou 5 anos de idade. Essa situação é lamentável, salienta a SBP, tendo em vista que a intervenção precoce se associa a ganhos significativos no funcionamento cognitivo e adaptativo da criança.

Seria possível imaginar como uma criança com autismo percebe o mundo, e de que forma ela reagiria às coisas que acontecem ao seu redor? Vamos imaginar uma situação do dia a dia, como a ida a um shopping center ou outro local de grande movimentação de pessoas.

Estímulos sensoriais variados e concomitantes, produzidos pela movimentação das pessoas, podem deixar uma criança com autismo desorientada e estressada, e essa situação aflitiva pode levá-la a ter um acesso de raiva, por exemplo. Esse excesso de estímulos pode levá-la a atingir o seu limite, levando-a a um colapso. Tudo pode parecer caótico para ela. Nesses momentos, seria antinatural querer que essas pessoas se retirem do local, avalia a Associação Brasileira de Autismo. Elas precisam de ajuda. Só isso.

Essas crianças sentem como se seus sentidos estivessem agindo ao mesmo tempo para poder entender toda a informação que recebem do exterior como se fosse caótica e causasse um mal-estar muito grande em nível interno, conforme observa a Associação Brasileira de Autismo. A sociedade precisa se conscientizar de como as pessoas com autismo veem o mundo, a fim de parar de isolá-las. E que finalmente entendam o que significa para essas crianças estar em um lugar com muitas pessoas, barulho, luzes, cheiros, cores. Os estímulos são sentidos de forma intensa, conclui a ABA.

É preciso conhecer melhor o Autismo, para o bem da criança, da família e da sociedade.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 8, 2020

ASSIS, SÃO FRANCISCO NASCEU AQUI

Assis é uma pequena cidade da Itália, localizada no flanco ocidental do Monte Subasio, na região da Umbria, província de Perugia, com 24 mil habitantes, que não chamaria muito a nossa atenção se ali não houvesse nascido Giovanni di Pietro di Bernardone (1182 – 1226), conhecido como São Francisco de Assis. No ano de 1206, orando na Capela de São Damião, ouviu um chamado de Cristo que dizia: Vá, Francisco, e restaure minha casa.

Francisco teve uma juventude irrequieta e mundana. Depois, voltou-se para uma vida religiosa de completa pobreza, fundando a Ordem dos Franciscanos, que renovaria o catolicismo do seu tempo.

Em Assis, Francisco fundou a Ordem dos Franciscanos em 1208. A Basílica de São Francisco de Assis começou a ser construída em 1228, dois anos depois de sua morte, sendo concluída em 1253. A Basílica de São Francisco foi classificada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Nesse conjunto há afrescos de Giotto e Cimabue , seu mestre, que retratam cenas da vida do santo.

Em 1214 Francisco viajou para a Espanha, chegando ao Marrocos, para pregar entre os mouros. Dali partiu para a Palestina, peregrinando pelos lugares santos, onde recebeu  a notícia de que sua comunidade em Assis estava em crise.

Em 1220 Francisco voltou à Itália, e viu que seus ideais em Assis haviam sido abandonados, reinando grande confusão entre os irmãos. Em 1224, doente e decepcionado, Francisco é obrigado a moderar suas atividades, ocasião em que renuncia à direção efetiva da irmandade que criara, e em companhia de seus discípulos parte em direção à floresta, para viver em contato com a natureza.

Conta-se que na floresta os peixes saltavam da água, com sua presença, e os pássaros pousavam em seus ombros.

Francisco de Assis morreria no dia 3 de outubro de 1226, assistido por seus discípulos. Dois anos depois de sua morte, foi canonizado pelo  papa Gregório IX, e seus restos mortais encontram-se na igreja de São Francisco de Assis, em Assis, Itália.

Igreja S.F.

Em setembro de 1997, Assis foi atingida por dois violentos tremores, danificando seriamente a basílica e ocasionando quatro mortes, determinando o fechamento da basílica por dois anos.

São Francisco. Itália. História e fé.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 1, 2020

O AZEDUME DE UMA VIDA MARGINAL

Gohar vivia como mendigo, circulando por ruas e vielas miseráveis da cidade do Cairo, capital do Egito. Jovem de excelente nível cultural, trabalhara como professor universitário, e atualmente vivia na esperança de encontrar o amigo Yéghen, um poeta desiludido que tinha no consumo do haxixe sua única e vital atividade. Dividir a droga com Gohar era o sumo prazer do jovem poeta.

Naquele dia, no ambiente miserável de seu quarto imundo, forrado por papéis sujos, Gohar fora despertado pelos urros mecânicos, gritados por carpideiras gordas, vestidas de preto, que ecoaram por seus ouvidos, como o chamado de um universo estranho. Para uma falsa garantia de limpeza, as mulheres jogaram baldes d’água no chão. A água escorreu e molhou os jornais que serviam de cama para Gohar. Ele não reconhecia naquele jogo mercenário a marca de um mundo humano.

No início da tarde, Gohar deixou seu aposento sem ter uma bolinha de haxixe para mascar e, enlouquecido pelos efeitos da falta da droga, dirigiu-se a um prostíbulo, na ânsia de encontrar Yéghen, porém ele já havia saído. Ali, sem qualquer justificativa, e sem saber por que, Gohar matou uma jovem e bela prostituta por esganadura.

Nour El Dine era o policial encarregado da investigação. Conhecido como um homem violento, viu-se envolvido pelas conversas de Yéguen, que tentava a qualquer custo livrar o amigo Gohar de ser incriminado pelo assassinato da prostituta. Em seu último depoimento, respondeu às indagações do policial com extrema ironia. Depois de uma série de bofetadas, o policial, ordenou que retirassem Yéguen da sala, e tomou uma decisão inusitada. Afastou-se de tudo que até ali representara. Pela primeira vez em sua vida, sentia uma imensa necessidade de paz. Simplesmente paz.

Mais uma vida marginal nas ruas da capital do Egito. Desesperança.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Livro: Mendigos e Altivos, de Albert Cossery, da Conrad Editora

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 24, 2020

UM RENAULT DAUPHINE É CAPAZ DE MUDAR UM DESTINO?

Durante o meu curso de Medicina, eu me deslocava para as aulas montado em uma Vespa. E assim aconteceu durante cinco anos. Foi desse modo que cheguei ao último ano do curso.

No sexto ano, vislumbrando um horizonte que se limitava com as divisas do Rio Grande do Norte, fui induzido a comprar meu primeiro carro. Uma belezura que me encantou à primeira vista.

Era um Dauphine branco, de quatro portas; acendia as luzes e buzinava. Os freios não eram confiáveis, mas funcionavam. Consegui usufruir dos benefícios do meu carro por um mês. A partir de então, começaram a surgir problemas que eu, até então, desconhecia.

Ora era o câmbio que não engatava marcha, o trambulador desconectava ou o motor falhava. De tal modo que raramente eu saía de casa e retornava sem que algo deixasse de funcionar. E minhas parcas economias foram escapando pelo ralo, digo, carburador.

Três meses. Basta. Resolvi negociar o carro. Fiz anúncio, colei cartaz, avisei aos conhecidos (amigos, nem pensar!). Ninguém apareceu. Certo dia, em uma volta pelo Alecrim, estacionei o carro, fingi trancar as quatro portas, que na verdade não funcionavam. Por segurança, estacionei em um local de declive, já prevendo um empurrãozinho na saída.

Na volta, um sujeito forte me esperava no carro, com o pé sobre o pneu dianteiro. Ao ver-me, o homem falou:

– Gostei do carrinho. Quer vender?

Fingindo desinteresse, perguntei quanto ele me oferecia pelo veículo.

– Bem, como sou matador de carro – até ali eu desconhecia essa profissão –, não posso lhe pagar além de duzentos (não lembro a moeda, mas sei que mal daria para comprar um par de sapatos).

Saí dali com cara de contrariado, controlando-me para não cair na gargalhada. E o carro pegou no tranco, ajudado pelo declive. O carro ficou parado, na rua.

Em uma manhã de sábado, aparece um comprador sério, vestido com roupas simples. O sujeito Chamava-se Faquir, pois podia tranquilamente esconder-se atrás de um poste sem que fosse visto. Fechamos o negócio. Imaginemos que o valor foi quinhentos, e ele apenas me pagou cem, ficando quatro prestações a serem quitadas no final de cada mês.

Jamais tive notícia de Faquir. Sumiu de Natal. Porém algo aconteceria. Durante meu estágio no CRUTAC (Centro Rural Universitário de Ação Comunitária), no último ano do curso, que aconteceu na cidade de Santa Cruz-RN, encontrei-me com Faquir feliz da vida. Veio em minha direção, e confesso que imaginei o pior. O encontro foi amigável, o rapaz estava feliz por ter conquistado o segundo lugar em uma gincana de carros que acontecera na cidade vizinha, dirigindo o seu Dauphine ainda branquinho. Por conhecer a ótima situação financeira dos jovens da outra cidade, imagino que o Dauphine era o único carro velho a participar. De quebra, usava o veículo em seu trabalho. Era um orgulhoso motorista de táxi.

O motivo da segunda colocação naquela gincana aconteceu por acaso. Chegando ao local, procurou saber se ainda podia inscrever-se. Podia. Foi informado de que  era obrigatória a companhia de uma partner. Nesse momento, uma moça fez um  sinal para participar, e ele aceitou. A última tarefa da gincana era parar, apanhar uma garrafa de Coca-Cola e a partner teria que ingerir seu conteúdo por inteiro. Quando Faquir chegou nesse posto, havia vários carros parados, esperando que as elegantes moças tomassem delicadamente o refrigerante. A moça ao lado de Faquir pegou a garrafa, entornou de uma só vez o conteúdo na boca e a devolveu vazia. Faquir disparou, chegando assim na segunda colocação.

Na despedida, desculpou-se por não ter honrado sua dívida comigo. Adiantei-me e dei o débito por quitado, ganhando mais um abraço de Faquir. Não perguntei se ele dividira o prêmio com a garota.

Dauphine, um carrinho com o condão de mudar a vida de um ser humano. No caso de Faquir, para melhor.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 17, 2020

TUTEEMO-NOS!

Shyrlei estava eufórica com seus estudos universitários. Acabara de entrar para o curso de Jornalismo, e iniciara suas leituras obrigatórias. Deveria ler ao menos os livros constantes da listagem que lhe fora entregue no  primeiro dia de aula.

Comprara um livro de pequeno volume e iniciara sua leitura, e queria aproveitar aquele almoço em casa para discutir uma questão. O livro era Dom Casmurro, e a questão era a suposta traição de Capitu.

E a discussão foi tomando corpo, com o posicionamento já fechado de Shyrlei no fato de a doce e ingênua Capitu haver traído Bentinho. Escobar havia tirado proveito de sua amizade com Bentinho para se aproximar da moçoila, e o fato de haver morrido não o isentava de culpa.

A mãe da Shyrlei tinha uma ideia contrária à da filha, apesar de haver lido o livro de Machado de Assis quando estudava o primeiro grau, depois de ser aprovada no Exame de Admissão. A discussão foi ficando acalorada e quase sem controle, embora a conversa ainda mantivesse o tom do respeito. A questão era: Traiu, não traiu, e por quê.

Arcelina, a moça que viera do interior para trabalhar na casa da família, assistia a tudo, fingindo lavar alguma louça, porém ligada na conversa. Em certo momento, virou-se e fulminou:

– Dona Shyrlei, Capitu não traiu Bentinho. Ela não foi infiel. Ele, por ser inseguro, não conseguia entender um espírito libertário como o de Capitu. Seu ciúme o fez conceber, de forma doentia, uma situação de traição para justificar sua fraqueza. Perceba que desde o início ele já demonstrava seu ciúme.

Aquela intromissão fora de hora, de uma trabalhadora doméstica novata, apesar de recheada de bom senso, carregava em si um despropósito. Quando a mãe da universitária se preparava para uma reprovação – onde se viu um empregado  imiscuir-se na conversa dos patrões, de forma gratuita, sem que fosse solicitado a participar? –, Arcelina emendou:

– Aproveitando o momento propício, vou colocar uma proposta para apreciação. Que tal, a partir de hoje, nos tutearmos?

Todos se entreolharam, em choque.

Hoje, Arcelina é Gerente de Controle de Qualidade da empresa da família. Shyrlei anda muito ocupada, estudando para concorrer a uma bolsa de estágio em uma grande empresa de publicidade.

Tutearam-se.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Tutear-se– Tratar reciprocamente por TU. Igualar-se.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 10, 2020

A ELEGÂNCIA SUTIL DE UM LADRÃO

Fica sabendo que a honra é uma noção abstrata, inventada como sempre pela casta dos dominadores para que o mais pobre dos pobres possa orgulhar-se de possuí-la.

Não há nada de mais imoral do que roubar sem riscos. É o risco que nos diferencia dos banqueiros e dos seus êmulos que praticam o roubo de forma legalizada, com cobertura do governo. – Disse certa vez seu amigo Nimr.

Ossama, um jovem pobre, de 23 anos, logo aprendeu que pelo trabalho honrado não sairia da miséria. Transitando pelos ambientes miseráveis das ruas de Cairo, capital do Egito, Ossama tinha um forte diferencial competitivo: sabia ler e escrever, em um universo de analfabetos.

Foi nesse ambiente em que Ossama resolveu, por estratégia de sobrevivência, que seria ladrão. Não um ladrão legalista da estirpe dos ministros, banqueiros, mas um ladrão de alto nível, que disputasse espaço com as pessoas importantes da cidade. Com essa ideia, passou a tomar aulas com um especialista carteirista, e aperfeiçoou-se em seu ofício. Queria ser o melhor.

Ossama, seguindo seu planejamento para ser ladrão, tomou aulas práticas com o melhor de todos os carteiristas da cidade. Nimr era responsável pela formação de toda uma geração de bons batedores de carteira que pululavam pela cidade. desenvolvendo uma técnica sutil para surrupiar polpudas carteiras com a suavidade de uma pluma.

O jovem passou a se vestir com os melhores ternos, movimentando-se com modos elegantes, de forma contemplativa, por bairros sujos e mal cuidados da capital do Egito. Desse modo, bem vestido, ele não levantaria suspeitas. Como premissa, decidiu que não roubaria dos pobres.

Ossama era amigo de Karamallah, escritor, ex-presidiário por haver denunciado em um livro alguns atos políticos; um gozador, um gênio, que se divertia com o cinismo das pessoas da sociedade. Com o amigo Karamallah, velho professor, que morava em um mausoléu herdado dos pais, Ossama trocava ideias anarquistas.

Nenhum regime político impedirá de roubar. Estou certo de que sempre poderei exercer a minha profissão. E esta certeza não existe em nenhuma outra categoria de trabalhadores. Alguma vez viste um ladrão no desemprego? – Questionava o empolgado Ossama.

Ao final, em uma tensa conversa com um alto funcionário do governo, surgiu esse diálogo:

– Diga-me, caro príncipe, você não seria por acaso um ladrão?

– Um ladrãozinho bem chinfrim, se comparado a Vossa Excelência. – E Nimr desatou a rir, um riso que não se parecia com nenhum outro, um riso revolucionário, o riso de alguém que acabava de descobrir a face ignóbil e grotesca dos poderosos deste mundo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Livro: AS CORES DA INFÂMIA, de Albert Cossery, edição esgotada.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 3, 2020

POLO NORTE, POLO SUL, POLARIZAÇÃO

O Polo Norte, chamado de Ártico, é um mar congelado; não existe terra por baixo, só água, e se localiza no meio do Oceano Ártico, sendo portanto relativamente plano. Trata-se, pois, de um mar coberto por uma camada de gelo. O Polo Sul é a Antártica, continente coberto por uma imensa camada de gelo, o que o torna mais gelado que o Polo Norte.

No Polo Norte a camada de gelo é relativamente fina, com apenas alguns metros de espessura. Sua área abrange o extremo norte dos continentes americano, europeu e asiático, e tem uma população de quatro milhões de pessoas, morando em pequenas aldeias ou em cidades. O Polo Norte sempre foi habitado por tribos bárbaras.

Polo Sul. O continente Antártico é o único lugar na Terra que não pertence a um país específico. Não há vestígio de povos indígenas que tenham habitado aquela região, que é governada pelo Tratado da Antártica. Aqui, a camada de gelo pode ter até dois quilômetros de espessura. A parte mais ao norte do continente antártico fica a mil quilômetros da Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina.Polo Sul - Polo Norte

Em algum momento podemos nos perguntar por que os ursos polares não se alimentam dos pinguins. É que os pinguins vivem apenas no hemisfério sul, na região Antártica. O urso polar habita o hemisfério norte e se alimenta de focas, peixes, ovos, para sorte dos pinguins.

Polo sulPolo Norte

Ao final, uma questão. Para que tanta polarização, se sabemos que os polos são naturalmente muito diferentes?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 27, 2020

LUCIEN, UMA MULHER BRASILEIRA

Uma capital do Nordeste, 1947. Uma bela garotinha acabara de nascer na maternidade. Primeira  filha do casal. Tudo era alegria e contentamento. O pai vai apanhar a criança de carro na maternidade, junto com a mãe. Chegam em casa, tudo normal. O pai vai ao supermercado fazer as compras.

A mãe, transbordando de alegria, dá de mamar para a criança, coloca-a no berço.

Enfim, senta-se em uma cadeira de balanço para descansar um pouco, enquanto aguardava a volta do marido.

Em trinta minutos o pai, então professor da Universidade Federal, retorna com os mantimentos que acabara de comprar. Todo feliz, dá um beijo na esposa, vai ao berço e beija também a recém-nascida.

– Querida – Falou o professor universitário -, eu vou à faculdade resolver umas pendências das provas de alguns alunos e retorno em seguida.

Aquela foi a primeira e a última vez que a recém-nascida tivera contato com seu pai. Ele nunca mais daria notícia. A criança foi bem criada pela mãe, estudou em excelentes colégios e se formou em medicina.

São Paulo, 1997. Participando de um congresso de sua área de atuação, Lucien se dirigiu à recepção para fazer seu crachá. Ao seu lado, outra médica, que parecia ter sua idade, solicitou o seu crachá, e falou seu nome e sobrenome. O sobrenome despertou a atenção de Lucien, que olhou para o lado e perguntou o nome do pai daquela moça. Era o pai dela, também. Nada falou. Apenas sorriu e desapareceu.

Brasília, 2007. Há alguns anos, fiquei sabendo, através de uma amiga comum, que Lucien havia morrido, vitimada por um tumor cerebral. Nessa época (2007) eu trabalhava em um hospital de oftalmologia, em Brasília. Certo dia, observando do mezanino, percebi Lucien sentada no térreo, aguardando ser chamada para os exames pré-consulta. Um susto! Mas ela morreu!– Pensei.

 

Confuso, desci as escadas. Ao avistar-me, Lucien se levantou, abrindo os braços a um grande abraço meu. Você talvez não imagine a felicidade que eu sinto em vê-la –, falei, controlando a forte emoção que me cortava as palavras. Ela havia casado com um oficial do exército e tinha um filho rapaz, que estava ao seu lado.

Lucien, três momentos de uma vida difícil. Uma mulher excepcional, de quem sou amigo até hoje.

Lucien nunca viu seu pai.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 21, 2020

UM CARTÃO POSTAL CHAMADO ÓBIDOS

Óbidos é um cartão postal, digo, uma vila portuguesa do distrito de Leiria, na província de Estremadura, com 2.200 habitantes na marte murada. A cidade tem costa no oceano Atlântico. O Castelo de Óbidos foi declarado o segundo entre os sete monumentos mais relevantes do patrimônio arquitetônico português.Arquivo Escaneado 4Muralha

A imponente entrada da cidade é feita através de um grandioso portal, que faz parte das muralhas que a cercam.

O Aqueduto da Usseira, também conhecido como Aqueduto de Óbidos, estende-se ao longo de seis quilômetros, sendo três  subterrâneos, e vai da nascente da Usseira até o chafariz da Praça de Santa Maria de Óbidos. Foi mandado construir pala rainha D. Catarina, mulher de D. João III, no ano de 1573. As arcadas, com seus arcos de volta perfeita, são reforçadas a espaços regulares por pegões.

Tiago

Suas ruas estreitas, calçadas por pedras,  Óbidos nos transporta ao Renascimento em Portugal. É fechar os olhos e sonhar. Em alguns pontos da cidade, objetos do  passado evocam antigas lembranças.

Tiago (1)

Sem querer, terminei lembrando de outro cartão postal chamado Chamonix, uma cidade aos pés do Mont Blanc, na França, com seus dez mil habitantes.

chamonix-2

Em Portugal, Óbidos. Pequenina, austera, com ares tropicais.

Chamonix, na França. Aqui, exibindo-se com o Mont Blanc ao fundo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Older Posts »

Categorias