Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 25, 2021

UM METRO E VINTE E DOIS

A mansão seria aberta aos amigos, e era necessário fazer uma resenha fotográfica. Os convidados aguardavam as novidades do novo lar dos Fernandini, mansão construída e decorada por especialistas.

O prédio – de oitocentos metros de área construída, com belos jardins, sauna, a adega cuidadosamente construída em um nível abaixo do piso, naturalmente climatizada, a piscina semiolímpica – localiza-se em um bairro famoso da cidade. 

Tudo pronto, a família ocupou o imóvel e preparava a festa de apresentação aos amigos e familiares. Um designer de interiores foi encarregado de guiar o fotógrafo pelos cômodos da mansão. No quintal, fotos especiais com a dona da casa e seus cães de raça, tendo ao fundo um belo gazebo.

Finalmente, chegara a vez da sala. Aqui, a dona da casa fez questão de acompanhar o trabalho dos profissionais. A certa altura, recostou-se em uma parede onde havia um nicho e insistiu em uma foto sua ali, um local de destaque na ampla sala. O designer falou que o ideal era que aquele nicho fosse ocupado por livros, e pediu que ela trouxesse alguns para que ele os dispusesse, para as fotos. Não havia livros naquela casa, justificou a dona da casa.

A socialite pediu para o profissional medir a extensão do nicho. Um metro e vinte e dois centímetros de comprimento, trinta de altura e vinte e cinco de profundidade. A dona da casa chamou o motorista e determinou que ele comprasse um metro e vinte e dois centímetros de livros, em uma livraria ali perto. Queria alguns de capa vermelha. E que fossem quase todos da mesma altura.

As fotos ficaram perfeitas.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 18, 2021

PELOS CAMINHOS DO NORDESTE

Todos os anos nós realizamos uma romaria pelo interior do Nordeste. O objetivo é visitar locais e cidades que sempre tivemos vontade de conhecer e revisitamos pontos importantes que já conhecemos, e sabemos que não voltaremos a rever. 

Assim, durante nossa quinta romaria, realizada em agosto deste ano, a satisfação pela boa qualidade das estradas só foi superada pelas descobertas de imagens inusitadas, em que pessoas da terra são aclamadas, assim como instituições culturais que até hoje nos emocionaram.

Aqui, nesta bem cuidada estrada, uma homenagem da cidade de Alagoa Grande-PB a Jackson do Pandeiro, um de seus filhos mais ilustres.

Nesta foto, toda a grandeza do Teatro Minerva, mantendo seu charme desde os idos de 1859, em Areia-PB, à época um dos melhores e mais famosos teatros do Brasil. Pequeno, bonito e bem conservado até hoje.

De passagem por Martins/RN, cidade no alto de uma serra, a contemplação deste belo portal, que me lembrou o Portal de Treveris, a cidade de Karl Max.

Nesta foto, o impressionante terreno pedregoso de Monte das Gameleiras-RN, de onde se contempla um dos pores do sol mais bonitos do Brasil.

Em 2018, em Serra Negra do Norte-RN, cidade de pessoas com boa formação cultural, conhecemos este cemitério. Do lado de fora, o caixão fica sob esta estrutura piramidal por alguns minutos, para as últimas homenagens dos parentes e amigos.

Ainda em 2018, em Carnaúba dos Dantas-RN, a visão do Castelo de Bivar em meio a um terreno pedregoso e arisco, em plena aspereza do sertão.

Coisas do Brasil Nordeste.

EvaldOOliveiraSócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 11, 2021

UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO, o dilema de Bananeiras-PB

No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho/tinha uma pedra
no meio do caminho/tinha uma pedra. Carlos Drumond de Andrade

De passagem por Bananeiras, uma das mais belas cidades da Paraíba, tivemos como tarefa quase obrigatória uma ida ao Túnel do Trem. O túnel ferroviário de Bananeiras foi aberto na pedra maciça, com 202 metros de extensão, para passagem do trem que iria até Picuí. O túnel permitiu que a estrada de ferro chegasse a Bananeiras. O então governador da Paraíba, Solon de Lucena, disse que o trem chegaria a Bananeiras nem que fosse por baixo da terra.

Em 1922 foi concluída a estação do trem, porém a conclusão do túnel ocorreu em 1923. Em novembro de 1924 chegava o primeiro trem à Estação Bananeiras, porém somente em 1925 seria aberta ao tráfego. Foram 15 anos para entregar 35 km. O trem jamais chegou a Picuí. Em 1966 o trem deixou de circular pelo ramal. Em 1973 a linha foi desativada, mas o túnel e a estação (hoje hotel de luxo) continuam, até hoje, sendo atrações turísticas da cidade.

Bananeiras foi o maior produtor de café da Paraíba, e o segundo do Nordeste. O café de Bananeiras, em 1852, rivalizava em qualidade e aceitação com o de São Paulo. A ideia do trem surgiu para dar escoamento a esse produto, em especial, porém o trem somente chegaria 72 anos depois. Todo o fausto do café acabaria em 1923, quando o cafezal foi atacado pela praga Ceracocus paraibensis, que contaminou as plantações. O trem ainda foi utilizado para escoar a safra de outros produtos, porém esta atividade não se mostrou rentável. 

Hoje a Estação Bananeiras é uma das hospedagens mais procuradas da Paraíba, como destino de luxo, com destaque para sua beleza histórica e arquitetônica, gastronomia e o clima agradável de Bananeiras. 

A luta de um homem. Um túnel. O trem, que chegaria tarde demais. 

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 5, 2021

UM CASTELO NO SERTÃO, SONHO OU LOUCURA?

Na cidade de Sítio Novo, no Rio Grande do Norte, fomos visitar um castelo construído em meio a imensas rochas, no alto do morro da Tapuia, justo no local onde havia uma pequena capela frequentada pelos moradores das redondezas. É uma construção que tem o dom do encantamento, por sua grandeza e localização. No auge da construção, ali trabalhavam cerca de cem pessoas.

Ainda criança, José Antônio Barreto – Zé dos Montes – teve uma visão. Nossa Senhora lhe pedia para construir uma igreja. Essa visão retornaria na adolescência, deixando o jovem assustado. Depois de servir na Segunda Guerra Mundial, aquele homem iniciou uma sondagem sobre o local indicado pela mãe de Jesus para que fosse construída sua capela. 

Zé dos Montes adquiriu o terreno no alto do morro da Tapuia e no dia 13 de agosto de 1984 deu início à construção do castelo, seguindo seus instintos, sem qualquer tipo de orientação técnica, desafiando a lógica mais primitiva. E foram surgindo torres, postos de vigilância, estreitas passagens formando labirintos. No quintal, túneis paralelos, da altura de um homem, feitos com tijolos, lembram caminhos de cupins. Nesses túneis-labirintos são realizadas as cerimônias da via sacra, com as pessoas conduzindo velas em procissão. No alto desses túneis existem orifícios para ventilação. No centro do castelo percebemos boa parte da estrutura da capelinha que ali existia, ainda com as imagens de santos.

O sol abrasador, as pedras gigantescas, o Castelo Zé dos Montes.

Fé? Sonho? Loucura?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 8, 2021

Quando viajamos pelos mais diversos caminhos do mundo, deixamos nesses lugares nossas secreções, excreções, células do nosso corpo; nosso DNA. No contraponto, trazemos pequenas lembranças impregnadas de vivências e sentimentos. Podem ser objetos de uma feirinha no interior da Capadócia, como estas lâmpadas da época de Cristo e este porta-caneta com tinteiro, utilizado pelos antigos escribas árabes. Ainda da Turquia, a biblioteca de Éfeso, uma das maiores do mundo antigo, e o anfiteatro de Éfeso, onde São Paulo fez muitas de suas pregações.

Dos caminhos de Santiago de Compostela, essas bruxinhas benfeitoras, que saúdam os peregrinos em sua busca por aperfeiçoamento espiritual e o majestoso Portal da Glória, da catedral, considerado um dos mais belos da Europa. Ainda da Espanha, homens em busca de um sonho: D. Quixote e Sancho Pança. 

De Paris, as gárgulas da catedral de Notre-Dame nos emocionam com os gestos de seus animais ferozes. De Touros, no interior do Rio Grande do Norte, este primeiro marco deixado pelos portugueses em solo brasileiro. Do México, esse monumento fúnebre em homenagem a um deus asteca. De Bratislava, Napoleão repousando os cotovelos em um banco em frente à praça, depois de assinar um armistício.

Do Ceará, o Padim Ciço em postura habitual. De Barcelona, obras que representam o inesquecível Galdi, como este touro em movimento. De Portugal, a Torre de Belém em Lisboa e o Templo de Diana em Évora, próximo à Capela dos Ossos. Ao final, vários tipos de armaduras medievais. 

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 31, 2021

ESSAS CRIANÇAS CHEIAS DE SABEDORIA

Todos nós conhecemos aquela criança que sabe de cor todas as capitais dos estados brasileiros. Ou aquela outra que aos cinco anos toca sanfona muito bem, ou aquela outra que já se destaca em habilidades matemáticas ou históricas. 

Mas o que acontece com a quase totalidade dessa meninada que expressa desde cedo o seu dom, a sua habilidade? A maior parte dessas crianças se torna adultos comuns, e sequer utilizam aquele dom de criança como trampolim para se expressar e crescer.

Eu gosto é dessa sabedoria inata de quase toda criança, com suas expressões e tiradas espetaculares frente aos problemas vivenciados no dia a dia.

– O garoto de quatro anos ia de carro para a escola, junto com seu irmão de oito, e o maior pergunta: Pai, o que é Belzebu? – O pai pensa um pouco, quando o de quatro anos responde na hora: Belzebu é a representação mitológica do demônio!

– A menininha de quatro anos se prepara para sair da casa dos avós, quando a vovó pede um beijinho. Com a mãozinha na boca, nhac -, manda um beijo. O avô, serelepe, pede também o seu beijinho. A garota responde: Ah, vovô, só tinha um!

O menininho de apenas dois anos estava na casa da vovó e esta faz um convite quase irrecusável: Vamos brincar no parquinho? – Vovó, aquilo não é um parquinho; é uma caixa de areia.

– O menininho aponta para um carro estacionado, com o pneu furado, e diz: Papai, o chão amassou o pneu daquele carro!

A garotinha de dois anos estava com os pais, e surgiu uma conversa sobre profissões. O pai pergunta: Você sabe que o vovô Dado é médico? – Sei, sim. – Você sabe o que um médico faz? – Sei sim. Ele cuida das pessoas.

– A menininha tossiu e expeliu uma lombriga comprida, e grita da área de serviço: Mãe, aqui tem um macarrão andando!

– A vovó chega à casa do netinho de apenas dois anos e ele corre para os seus braços. A vovó diz que não pode segurá-lo, porque está dodói da coluna. O netinho olha para ela e dispara: Então, por que você não procura um médico?

– A mãe fez ao filho de nove anos aquela pergunta clássica: Meu filho, você ainda vai ser médico, quando crescer? – Ah, mãe, eu vou ser é o Fernando Henrique Cardoso!

Crianças, infância, momentos de magia.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geogr

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 24, 2021

A ALQUIMIA ERA DO NETINHO. POR QUE O VOVÔ SE INTROMETEU?

O netinho de oito anos chegou na casa do vovô, eufórico, carregando uma sacola que ganhara de presente da mamãe. Retirou uma caixa grande e se pôs a explicar o seu conteúdo. Ali, tubos de ensaio, pipetas e algumas substâncias químicas para serem usados em experiências alquímicas. Na caixa, avisos de perigo por apresentar riscos químicos, pois poderiam entrar em contato com parte do corpo e causar irritações.

O vovô explicou, com o auxílio do Google, que a alquimia é uma prática de caráter místico, com vários objetivos. A transmutação dos metais seria um deles, com a transformação de metais inferiores em ouro. Outro seria obter o Elixir da Longa Vida, um remédio que curaria todas as doenças. Para isso, os alquimistas teriam que obter a Pedra Filosofal, uma substância mística. A alquimia era praticada pelos árabes, gregos, mesopotâmicos, egípcios e persas. Essa prática exigia conhecimentos de Metalurgia, Medicina, Astrologia, Física e Química. 

Logo o vovô se apoderou do livrete de orientações e convidou o neto para viajar pelo vasto mundo das pesquisas alquímicas. Espalhou o kit sobre uma pequena mesa da cozinha previamente forrada com um plástico e passou a ler em voz alta a relação de produtos necessários aos experimentos que logo viriam. E o neto calado, escutando.

Óleo de cozinha, álcool, uma régua, uma tesoura, um pouco de bicarbonato de sódio, dois copos transparentes de 200 ml e três de 50 ml, vinagre branco, sal grosso, sal refinado, gelo, um pires, uma colher, produto de limpeza multiuso, um cronômetro, alguns cotonetes, leite integral, um ovo, detergente líquido, um pedaço de esponja de aço, uma moeda, um filtro de papel para café, canetas de várias cores, três corantes alimentícios de cores distintas, três flores de pétalas brancas, duas garrafas plásticas de 300 ml, um balão de aniversário, suco de uva, 30 gotas de suco de abacaxi, algodão, um canudo, uma gota de água oxigenada 10 volumes, uma batata crua, um pedaço de sabão de coco, cinco gotas de suco de laranja, cinco gotas de suco de limão, vinte gotas de refrigerante de limão, um pente plástico e papel bem picadinho.

Abriram as gavetas super arrumadas da vovó e começaram a recolher o bicarbonato, o óleo, o vinagre, o sal grosso, o sal refinado, algumas pedras de gelo, e as flores brancas da orquídea da vovó logo foram cortadas com tesoura. Ao final, uma montanha de frascos, vidros com temperos e garrafas se acumulava sobre a mesa. E o nervosismo dos dois era evidente, face ao suposto perigo das substâncias contidas nos pequenos frascos que acompanhavam o estojo (iodeto de potássio, sulfato de cobre, nitrato de prata, hidróxido de prata, hidróxido de cálcio, fenolftaleína) que eventualmente poderiam ser utilizadas.

E começaram a primeira experiência. O material a ser utilizado seria apenas dois tubos de ensaio, uma haste plástica, 30 gotas de água, 30 gotas de óleo de cozinha além de 30 gotas de álcool. O vovô estranhou, mas ficou calado. Ansioso, pega algo aqui, um vidro ali, água de uma garrafa acolá. Nisso, o plástico da mesa foi acidentalmente puxado com força, jogando no chão limpinho todo o material. Eram garrafas abertas, jogando líquidos no chão, ovos quebrados, vidros espatifados, temperos coloridos espalhados, substâncias químicas atiradas para todos os lados.

O vovô, assustado, olhava para o netinho, que apontava para o livrete, onde se lia que aquelas substâncias listadas no início seriam utilizadas nas cinquenta experiências do kit, com cerca de três para cada experimento.

Alquimia, misticismo, Flamel, Paracelso, busca pelo conhecimento. Tudo no chão. Nesse momento, com o maior desprendimento, entra a vovó na cozinha:

– Deu tudo certo?!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 17, 2021

DIA DO FICO, UMA RESPOSTA

A família real chegou ao Brasil em 1808, fugindo de uma possível invasão francesa. Com isso, o Brasil deixou de ser uma colônia portuguesa e passou a ser o centro do império português. Sete anos depois, o Brasil seria elevado à categoria de reino. Em 1921 D. João VI é forçado a retornar a Portugal, e deixou seu filho Pedro de Alcântara na condição de príncipe regente.

Havia intenção do governo português de retornar o Brasil ao status de colônia, o que provocou uma reação do Partido Brasileiro no sentido de evitar esse retrocesso. Foi com essa intenção que as Cortes exigiam o retorno do príncipe regente Pedro de Alcântara a Portugal, quando seria nomeada uma junta governativa para o Brasil.

Os liberais radicais organizaram uma movimentação para reunir oito mil assinaturas a favor da permanência do príncipe que, pressionado, resolveu ficar. Foi então que, contrariando as ordens emanadas de Portugal, declarou para o público: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico”.

Foi assim que, em 9 de janeiro de 1822, o então príncipe regente D. Pedro I declarou que não cumpriria as ordens das Cortes portuguesas, permanecendo no Brasil. Era o Dia do Fico.

Com essa atitude, D. Pedro I entrou em conflito com os interesses portugueses, e oito meses depois seria declarada a Independência do Brasil, no dia 7 de setembro de 1822. Em 12 de outubro de 1822 o reino do Brasil, agora independente, torna-se Império do Brasil, com a aclamação do imperador D. Pedro I. 

Com o desgaste de seu governo, D. Pedro I foi forçado a abdicar em 1831, deixando seu filho, de apenas cinco anos de idade (futuro D. Pedro II) e seguiu para a Europa. Tendo em vista que o futuro imperador era jovem demais, foi instituído o regime de Regência até que o imperador pudesse assumir. Em 1840 foi declarada a maioridade de D. Pedro II, sendo considerado apto a assumir o trono do Império do Brasil. D. Pedro II tornou-se um monarca popular, com os louros de haver conseguido debelar as revoltas regionais e apaziguar as disputas políticas. O reinado foi interrompido pelo golpe militar que instituiu o sistema republicano no Brasil, no dia 15 de novembro de 1889, movimento liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca.

Fico durou de 1822 a 1831, quando D. Pedro I abdicou e seguiu para a Europa.

Não ficou.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 10, 2021

UM DOM PARA CHAMAR DE SEU

Há três anos, assumia a presidência do Tribunal Superior do Trabalho o ministro João Batista Brito Pereira. Em sua biografia, algo despertou minha atenção. O ministro, como eu, nasceu em uma pequena cidade do interior (Sucupira do Norte) e sempre estudou em escolas públicas, e iniciou sua vida pública como datilógrafo. Como eu.   

Um dom, uma aptidão, quando bem trabalhados, podem ser definitivos na construção de um destino. Posso dizer que o meu foi traçado, em grande parte, pelo fato de saber manejar, de forma quase perfeita, uma máquina de datilografia. Chegando a Natal, no ano de 1960, já com a base da técnica datilográfica, fui trabalhar no Arquivo Público do Estado.

O Diretor do IML, quando visitava a administração do arquivo, fixou o olhar naquele menino franzino datilografando uns documentos com impressionante rapidez, fato que chamou sua atenção.  Na mesma hora, fez um convite para trabalhar com ele, triplicando o meu salário. Esse trabalho junto aos peritos foi um fator definitivo na minha decisão quanto à profissão que assumiria em minha vida (médico).

Com uns quinze dias no IML, certa tarde, em pleno uso dos meus quinhentos toques por minuto, utilizando corretamente os dez dedos, pressenti que havia alguém atrás de mim, observando o meu desempenho em uma IBM elétrica. No dia seguinte estava em uma fazenda, no interior de Santa Cruz-RN, datilografando o que me diziam um coronel e um capitão da PM, em uma tomada de depoimento de um coronel da região que, cercado de jagunços, mandara soltar todos os presos da delegacia. Ali eu utilizaria uma máquina pequena, manual. Mesmo assim, quando o depoente terminava de explicitar a frase, eu já estava à espera da próxima. Não foi um trabalho fácil.

Lembro de um concurso que fiz para o Banco do Brasil; o fiscal distribuiu o texto para ser datilografado. Ao sinal da campainha, todos desviraram a folha de papel e iniciamos a digitação. O fiscal, ao me ver parado, quis saber por que, e eu falei que já havia terminado. Ele pediu para que eu datilografasse outro, e outro, em sua frente. Foram três textos, e ele extasiado, olhando meu desempenho.

Assumi, em 1966, por concurso público, o cargo de Escriturário do IAPFESP, e logo fui indicado para Encarregado do Setor de Divulgação e Biblioteca, mais uma vez em função de minha habilidade com a máquina de datilografia. Os documentos eram encaminhados para mim, datilografados em uma novíssima IBM elétrica e em seguida esse material era rodado em um mimeógrafo Gestetner. Em seguida surgiria o offset para implementar qualidade e rapidez na composição do Boletim de Serviço Local, contendo todos os atos administrativos do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários e Empregados em Serviços Públicos-IAPFESP no Rio Grande do Norte. Em 1966 – um mês depois de entrar para o serviço público federal – entrei no curso de medicina da UFRN, mas continuei trabalhando no instituto.

Em seguida, viria a fusão de todos os institutos e caixas de previdência. Para que se implementasse essa fusão, foi formado um grupo composto por cinco funcionários, todos indicados por serem excelentes datilógrafos. E lá estava eu, mais uma vez, no comando de uma IBM elétrica. Ali, muitas amizades foram feitas.

Minha habilidade datilográfica pontuou os momentos mais importantes da minha vida profissional, e aqui está posta para que as novas gerações percebam que a vida não é fácil e que, às vezes, um pequeno detalhe pode ser a diferença a seu favor.

Dom. Qualidade inata, natural; aptidão, talento. 

Pintura, música, canto, desenho, datilografia. Dom ou talento?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 26, 2021

NA TRILHA DE ASCLÉPIO, O DEUS DA MEDICINA

Asclépio não era para ter nascido, visto que sua mãe, a ninfa Corônis, foi assassinada quando ele ainda se encontrava no ventre materno. Apolo, seu pai, tirou-o do útero antes que morresse junto com sua mãe, no que teria sido a primeira cesariana da História, no século VIII a.C.

O recém-nascido foi entregue a Quíron, o melhor e mais sábio de todos os centauros, para que o criasse e educasse. Quíron era um excelente médico, e ensinou a seu pupilo todos os meandros da cirurgia e da arte de curar. 

Quando adulto, e já excelente médico, foi acusado de retirar a clientela de Hades, o deus do submundo, ao ressuscitar alguns mortos. Hades exige que Zeus ordene seus ciclopes produtores de raios a fulminarem Asclépio. Apolo, enfurecido, sequestra os ciclopes de Zeus, e determina que ele o traga de volta ao mundo dos vivos, agora como um deus. Porém um mortal não poderia ser um deus, e ele retornou à vida como um semideus. 

Quíron também ficou encarregado de criar Jasão, aquele da expedição dos argonautas. Assim, Asclépio participou dessa expedição dirigida por Jasão. O objetivo era trazer de volta o Velocino de Ouro, a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo, de Cólquida para que pudesse ter de volta o trono. Jasão foi para Argo, uma cidade na Península do Peloponeso, para construir sua nau. Em seguida, escolhe uma tripulação de heróis para acompanhá-lo no que seria conhecida como Expedição dos Argonautas. 

Asclépio sempre aparece com um cajado com uma serpente enrolada. A origem desse símbolo é muito antiga, anterior aos gregos. Na Mesopotâmia, há cinco mil anos, era usado um bastão com uma serpente como emblema de Ningizzida, o deus das pragas, da fertilidade e do matrimônio. 

Foi em Epidauro, a 180 km de Athenas, que foi criado o primeiro centro de cura da Grécia antiga. Esse centro era dedicado ao tratamento dos enfermos e à formação de iniciados. 

Na asclépia, o ponto principal da consulta era o ritual da incubação. Os doentes eram adormecidos com chás à base de ervas, no interior do templo sagrado, na esperança de que eles mesmos, à noite, descobrissem as razões que os fizera adoecer, e Asclépio viesse ter com eles em sonho, e indicasse a prescrição para a cura da sua doença. O próprio doente recebia a orientação que levaria à cura. O lugar onde o doente adormecia era chamado kemiterio – as pessoas pareciam estar mortas. Após a cura, o paciente escrevia seus sintomas e o tratamento determinado por Asclépio em uma tábua, colocava na sala dos votos, matava um galo em sinal de agradecimento e retornava para sua casa. O galo sacrificado em sua honra era o símbolo do raiar do sol, o astro regido por Apolo, o pai divino de Asclépio.

Asclépio. Retirado do útero materno para ser o deus da Medicina.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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