Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 9, 2018

O PODER QUE PODE

Um rei tenta abrir caminho para que sua filha assuma após sua morte. Porém há um empecilho: a Lei Sálica. O rei então promulga um ato anulando os efeitos que decorrem daquela lei.

Programática Sanção foi o ato promulgado pelo rei Carlos VI, Áustria, revogando a Lei Sálica,que proibia às mulheres reinar sobre as terras dos Habsburgos. Com isso, sua filha Maria Teresa pôde assumir o trono da Áustria, até então restrito aos homens. Que se altere a lei!

Maria Teresa, nascida Maria Teresa Valburga Amália Cristina da Áustria, assumiu o reino da Áustria em 1940, após a morte do seu pai, vítima de envenenamento por cogumelos venenosos. Maria Teresa criou o Codex Theresianus, que definia os direitos civis naquele país. Assumindo o trono depois da morte do seu pai, no ano de 1740, em 1776 ela proibiu que se queimassem mulheres acusadas de bruxaria, em fogueira, proibiu a tortura e retirou a pena de morte do Código Penal. Estas decisões contribuíram para que o reinado de Maria Teresa fosse  duradouro e profícuo.

Durante o seu reinado, Maria Teresa decidiu permitir a inoculação de seus filhos após a epidemia de varíola de 1767, e essa ato mudou a visão negativa que os médicos austríacos tinham sobre esse procedimento. A campanha de inoculação, na Áustria, foi inaugurada com um jantar no Palácio de Schobrunn às primeiras 65 crianças inoculadas, tendo a própria Maria Teresa se encarregado de receber essas crianças.

O reinado de Maria Teresa (1740–1780) e de seu filho José II foi um período de grande desenvolvimento social e político na monarquia. Durante esses anos ocorreu a abolição da servidão e da tortura e instalou-se a liberdade religiosa, entre outras medidas importantes, como as reformas administrativa e judicial.

O poder que pode. Pelos idos dos anos 1980, em um estado brasileiro, o então Secretario de Administração, aproveitando um momento de calmaria antes de uma inauguração, falou para o governador:

– Governador, tomei conhecimento de que um senhor de 70 anos foi nomeado para um cargo na Secretaria da Fazenda.

– O que há de errado nisso?

– Governador, pela lei, esse homem já deveria estar aposentado.

– Um governador não comete erros. Se ele deveria estar aposentado, então vê se providencia sua aposentadoria!

Alguns dias depois aquele senhor de 70 anos era o mais novo aposentado da administração pública estadual.

O poder que pode. Lá, como aqui.

Lá, uma proveitosa administração em 40 anos de reinado.

Aqui, mais um aposentado a mamar nas tetas do Estado. Com rima e tudo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 30, 2018

UM TRATORISTA SEM NOÇÃO

…que coisa estranha por que esse tratorista não limpa o matagal próximo àquela árvore  vou parar e ficar acompanhando o trabalho daquele homem sem noção  vou acompanhar para ver se ele vai deixar de cortar o mato em torno daquela árvore moro nesse conjunto e como cidadão tenho o direito de exigir que ele trabalhe direito vou ficar junto a este poste ele não vai me ver puxa vida não me conformo ele passou pelo outro lado da árvore e deixou o mato em volta do mesmo jeito agora ele vai se afastando da árvore e eu vou falar com ele ei moço por favor o senhor não vai aparar o mato que está em volta daquela árvore vou lhe dizer por que deixei aquela área sem roçagem vamos lá que eu lhe mostro veja só bem juntinho ao tronco desta árvore há uma toca de coruja e se você olhar direito verá que há um ninho lá dentro com dois filhotes e agora ele bateu nas minhas costas e está indo pegar algo é uma enxada vamos rapaz que você vai ver como se deixa um ninho desses protegido pela ramagem quase morri de vergonha e saí sem olhar para trás em casa fiquei com vergonha de contar o que havia acontecido naquela tarde que mico…

CorujaFoto internet

Um tratorista de verdade. Um homem de bem com a vida.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 26, 2018

QUATRO FOTOS PARA NÃO ESQUECER AUSCHWITZ

Auschwitz, mundialmente reconhecido como símbolo do terror, do genocídio e do holocausto, foi erguido em 1940, na Polônia, durante a II Guerra Mundial, pelos nazistas, nas redondezas da cidade de Oswiccim, mais tarde rebatizada como Auschwitz. Na foto abaixo, a entrada de Auschwitz, onde no alto do portal está escrito Arbeit Macht Frei– O TRABALHO LIBERTA. Era com essa falsa recepção que os prisioneiros eram acolhidos, imaginando que ali iriam trabalhar e cuidar dos seus filhos.

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Em Auschwitz, corredores com arames farpados garantem facilidade no controle dos prisioneiros, como animais em cativeiro. Os primeiros a serem assassinados aqui foram os polacos, seguidos pelos prisioneiros de guerra soviéticos, ciganos e pessoas de outras nacionalidades

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O pátio de fuzilamento era o local onde as questões do dia a dia eram resolvidas pelos nazistas.

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A partir de 1942 Auschwitz tornou-se o mais importante local de extermínio em massa de judeus em toda a história da humanidade. A maior parte era enviada para ser exterminada nas câmaras de gás de Birkenau, separado de Auschwitz-1 pelos trilhos de uma estrada de ferro. Para Birkenau, estima-se terem sido deportados mais de um milhão e cem mil judeus. Os comboios de trens passavam pelo portão e eram recepcionadosno interior do campo.

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Auschwitz/Birkenau – lembrar sempre, para nunca esquecer.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico

 

 

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 19, 2018

A MONARQUIA NO BRASIL

Algumas vezes, no silêncio de nossos momentos de descontração, ficamos pensando em coisas vagas, tipo pode crer. Uma delas: como a monarquia surgiu no Brasil? O que era o Brasil antes da monarquia?

Pesquisandona internet, nos damos conta de que era o Brasil Colônia, que se iniciou quando o governo português enviou para o Brasil a primeira expedição colonizadora chefiada por Martim Afonso de Souza, em 1530. Martim Afonso, em 1532, fundou o primeiro povoamento, a Vila de São Vicente, no litoral do atual estado de São Paulo. Resumo da História: o Brasil colônia compreende o período de 1530 a 1822.

Ao aportarem as 13 caravelas lideradas por Pedro Álvaves Cabral, os portugueses imaginaram tratar-se de um grande monte, e o chamaram de Monte Pascoal. De volta à Índia, Cabral, na dúvida entre tratar-se de um continente ou de uma grande ilha, rebatizou a terra descoberta para Ilha de Vera Cruz. A partir de informações de explorações realizadas por outras expedições, os portugueses se deram conta tratar-se de um continente, e novamente o nome foi mudado para Terra de Santa Cruz. A partir do ano de 1511 nosso país passou a ser chamado pelo nome que até hoje conhecemos: Brasil.

O Brasil, colônia do Reino de Portugal, torna-se a sede do governo do Império Português em 1808, quando o príncipe regente de Portugal (futuro D. João VI) fugiu da invasão do território português pelas tropas de Napoleão e se estabeleceu com a família real e a corte na cidade do Rio de Janeiro. Mais tarde, D. João VI retornou para Portugal, deixando seu herdeiro, o filho mais velho, D. Pedro, na condição de Príncipe Regente do Brasil. O Reino do Brasil, no dia 7 de setembro de 1822, desmembrou-se do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, quando foi proclamada a Independência por D. Pedro, Príncipe Real.

Em 12 de outubro de 1822 o reino do Brasil, agora independente, torna-se Império do Brasil, com a aclamação do imperador D. Pedro I, com a outorga da Constituição brasileira de 1824. Nesse período reinou D. Pedro I, responsável pela independência e pela primeira constituição elaborada pela Assembleia. D. Pedro I não aceitou essa constituição, dissolveu o colegiado e redigiu uma carta magna para o país obedecendo a seus critérios, que vigoraria até a queda do regime monárquico.

O período monárquico brasileiro durou 67 anos, isto é, desde a independência, em 1822, até o ano de 1889, quando o Marechal Deodoro da Fonseca liderou um golpe militar que instituiu a República dos Estados Unidos do Brasil.

Com o desgaste de seu governo, D. Pedro I foi forçado a abdicar em 1831, deixando seu filho, de apenas cinco anos de idade (futuro D. Pedro II) e seguiu para a Europa. Tendo em vista que o futuro imperador era jovem demais, foi instituído o regime de Regência até que o imperador pudesse assumir. Em 1840 foi declarada a maioridade de D. Pedro II, sendo considerado apto a assumir o trono do Império do Brasil. D. Pedro II tornou-se um monarca popular, com os louros de haver conseguido debelar as revoltas regionais e apaziguar as disputas políticas. O reinado foi interrompido pelo golpe militar que instituiu o sistema republicano no Brasil, no dia 15 de novembro de 1889, movimento liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca.

Brasil. História confusa desde o descobrimento.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 12, 2018

UMA PSIQUIATRA EM APUROS

Um serviço de emergência psiquiátrica exige dos profissionais que ali trabalham, além dos conhecimentos técnicos específicos, um potencial envolvimento com a verdade do ser humano. A presente estória foi vivenciada por uma psiquiatra de Brasília que, recém-saída de sua especialização, trabalhou como plantonista em um hospital psiquiátrico no interior de São Paulo. Esta estória já foi contada aqui.

Certa noite, por voltadas onze horas, o hospital psiquiátrico foi avisado de que uma ambulância estava conduzindo um paciente bastante conhecido daquela unidade hospitalar. Jorjão era seu nome fictício; um sujeito forte, medindo um pouco acima de dois metros, portador de transtorno bipolar, que desenvolvera um surto maníaco. Em casa, descontrolado, batera muito no pai e destruíra quase todos os móveis.

A enfermeira chefe e o pessoal de apoio do hospital foram avisados. Em poucos minutos, uma ambulância adentrava o portão do estabelecimento, conduzindo o paciente. O veículo dirigiu-se para a entrada de um grande corredor, em um local construído para receber pacientes agressivos. O veículo parou, e a Dra. Lúcia logo percebeu o tamanho da encrenca. O paciente era tão grande que, do lado de fora da janela, somente se conseguia ver parte do ombro e do tórax . Então, iniciou-se um diálogo difícil e demorado:

– Oi, Jorjão, vamos descer para tomar um café?

– Se eu descer, vou quebrar tudo, inclusive a doutora!

E a conversa prosseguiu, com pequenos avanços e retrocessos difíceis de serem recuperadas. Uma hora e dez minutos depois, um acordo: Jorjão concordou em descer para tomar um cafezinho e conversar, porém com uma exigência: todos deveriam se afastar e ficariam apenas ele e a doutora, em cuja companhia ele entraria na copa. E mais ninguém. Proposta aceita. Já fora da ambulância, Jorjão gritou, com sua voz de trovão:

– Somente eu e a doutora!

O paciente e a médica caminhavam pelo corredor, cujas luzes iam se acendendo à medida em que os dois passavam. Nesse momento, a Dra. Lúcia arrependera-se do que estaria para acontecer, mas já haviam atravessado o Rubicão – alea jacta est,imaginou a psiquiatra. Ato contínuo, membros da enfermagem surgiram e aplicaram uma injeção especialmente preparada para aquele caso, composta de quatro tipos de medicação. Muita agitação. O paciente era forte em demasia, e difícil de ser contido. Aguardaram alguns minutos e a medicação não fez efeito. A médica reavaliou o caso e prescreveu mais um dos medicamentos. Em alguns minutos o paciente havia se acalmado.

Jorjão foi internado, permanecendo no hospital por cerca de três meses. Nesse período, falava com insistência no nome da Dra. Lúcia com os companheiros de quarto. A médica só atendia pacientes da emergência, e apenas em seus plantões noturnos. Por esse motivo, só soube da alta de Jorjão através do pessoal de apoio.

Passaram-se seis meses. A médica, na fila do Banco do Brasil, distraída enquanto conferia alguns papéis a serem pagos em seguida, ergueu o olhar e contou: havia duas pessoas à sua frente. Percebeu que, atrás, a fila crescera.

De repente, uma pancada forte e decidida em seu ombro. Dra. Lúcia virou o rosto e constatou a presença desconfortável de cinco dedos enormes e uma palma de pele áspera fazendo peso em sua pele. Assustada, virou-se para trás.

– Oi, Jorjão, como vai?

– Escapando, feito gás de cozinha! Por falar em cozinha, a senhora me enganou. E não se engana uma pessoa daquela forma, doutora! Eu saí da ambulância para tomar um cafezinho e conversar. Fique sabendo que eu nunca consegui esquecer o que aconteceu naquela noite.

Logo, um senhor ao lado apresentou-se como o pai de Jorjão, e a conversa ficou um pouco mais amena. A médica respirou aliviada quando foi chamada pelo caixa do banco.

Quando a psiquiatra, na saída, se aproximava da porta giratória, Jorjão, agora no balcão de atendimento, virou-se para trás e lançou, qual flecha mortal, um olhar 121 na direção da médica, que quase congelou, pois conhecia muito bem o seu sentido. Instintivamente, lembrou-se do Código Penal.

Não se engana uma pessoa daquela forma. Esta frase, proferida no interior de um banco, em uma tarde quente, ribombaria nas lembranças de uma hoje experiente psiquiatra.

Um paciente. Uma aprendizagem. Uma mudança radical. A verdade, sempre.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 5, 2018

CRIANÇAS EM RISCO

Encontrava-me na área de alimentação de um grande supermercado, lanchando tranquilamente, quando uma moça chegou com uma criança de cerca de um ano em um carrinho, à minha frente. Parou, retirou a criança do carrinho e a colocou sobre a mesa. Fixei os olhos naquele quadro que me parecia surreal. De repente, ela se afastou para fazer o pedido no balcão, e deixou a criança sobre a mesa da lanchonete. Quando ia se afastando, dei um grito e ordenei que ela retornasse e colocasse a criança de volta no carrinho. Ela assim o fez, e me agradeceu quando saiu. Um acidente quase certo, evitado a tempo.

Em um plantão, atendi uma criança com a boca queimada por fora e por dentro. A mãe estava dando banho no menino quando ele colocou o chuveirinho na boca e soprou. Tomou um forte choque na boca, o que quase lhe custou a vida.

Dados da Sociedade Brasileira de Pediatria nos mostram que, no Brasil, cerca de 37 crianças e adolescentes sofrem de intoxicação pelo contato inadequado com medicamentos. Em 18 anos, 245 mil casos de intoxicação ocorreram nessa faixa etária.

 

Estados Total
Amazonas 910
Bahia 7.510
Ceará 2.794
Distrito Federal 7.782
Espírito Santo 16.806
Goiás 6.011
Mato Grosso 588
Mato Grosso do Sul 3.334
Minas Gerais 13.315
Pará 1.540
Paraíba 2.088
Paraná 5.592
Pernambuco 4.271
Piauí 248
Rio de Janeiro 11.602
Rio Grande do Norte 384
Rio Grande do Sul 47.342
Santa Catarina 6.980
São Paulo 88.582
Sergipe 2.525
Total 245.402

Os números mostram que o risco de intoxicação é maior entre crianças de um a quatro anos, com um número total de 130 mil, correspondendo a um percentual de 53% dos casos. O segundo grupo mais atingido vai de 14 a 19 anos (42.614 casos), seguido daqueles com idade entre cinco e nove anos (32.688 registros) e, por fim, as de 10 a 14 anos (24.282).

Tabela 1 – Casos Registrados de Intoxicações Humanas pelos Centros de Intoxicações, por Agente Tóxico e Faixa etária, Brasil, 2006, de 0 a 20 anos de idadeTotal de casos: 480481
Faixa Etária (anos) < 1 1 a 4 5 a 10 11 a 15 15 a 19
Agente no no no no no
Medicamentos 1099 8290 2288 1736 3201
Agrotóxicos/Uso Agrícola 46 402 108 167 569
Agrotóxicos/Uso Doméstico 176 1174 165 157 253
Produtos Veterinários 9 337 57 54 90
Raticidas 93 1119 127 173 574
Domissanitários 267 5245 685 371 611
Cosméticos 84 827 67 32 43
Produtos Químicos Industriais 120 2193 363 175 311
Metais 32 187 40 19 19
Drogas de Abuso 15 28 19 134 612
Plantas 58 701 300 122 73
Alimentos 30 162 171 137 158
Animais Peç./Serpentes 15 140 338 451 543
Animais Peç./Aranhas 27 262 240 272 308
Animais Peç./Escorpiões 33 411 515 503 576
Outros Animais Peç./Venenosos 52 543 638 444 446
Animais não Peçonhentos 41 396 392 356 359
Desconhecido 97 836 476 334 370
Outro 35 404 126 71 277

Fonte: MS / FIOCRUZ / SINITOX, 200611

Choques elétricos podem ser evitados, assim como a ingestão inadvertida de medicamentos e de produtos de limpeza, que ficam à disposição da meninada em embalagens dos mais variados tipos e com os mais diversos rótulos.

As novas tomadas ajudam a prevenir os choques elétricos. Aqui, a importância de não improvisar nas instalações. A vigilância é que faz a verdadeira diferença.

Ingestão de medicamentos e produtos que causam intoxicação também podem ser prevenidos. Nesse sentido, a guarda responsável desses produtos é essencial.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 28, 2018

HONESTINO, UM NOME, UMA PONTE

Pessoas do Brasil inteiro que vêm a Brasília atravessam uma ponte que ostenta um nome até pouco tempo desconhecido. Brasília, no entanto, conhece bem esse nome – Honestino Guimarães. Quer saber quem foi Honestino? Então, vamos à Wikipédia.

Por ironia, a atual ponte Honestino Guimarães chamava-se Costa e Silva, como podemos perceber nesse inconformismo anônimo.

ponte_honestino

Honestino Monteiro Guimarães era um jovem de 26 anos, nascido em Itaberaí, no estado de Goiás. Estudava Geologia na UnB – Universidade de Brasília e era presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília. Por conta de sua forte militância, foi preso quatro vezes, não mais retornando depois de sua quarta e derradeira prisão. Seu atestado de óbito só foi entregue à família em 1996, vinte e três anos depois, e sem constar a causa da morte.Ponte H. Guimarães

Com a edição do AI-5, Honestino passou a viver na clandestinidade, com Isaura, em São Paulo. Em 10 de outubro de 1973, foi preso no Rio de Janeiro por agentes do Centro de informações da Marinha (Cenimar), quando desapareceu aos 26 anos, sem deixar vestígios.

Nos bares de Brasília, fosse no Beirute ou no Gilberto Salomão, jovens estudantes cantavam músicas quase em sussurro, e recitavam poemas de artistas, o que, de alguma forma, ajudava a manter aceso o sonho da liberdade.

Entre os versos mais repetidos naqueles encontros, era recitado um soneto cuja autoria era atribuída a Honestino: Punhais Alabastrinos. Somente esta semana tomei conhecimento de que este soneto pertence a Liônio Guerra, que o publicou em seu livro O Doce Cárcere das Rimas, com o título de Amor a Três.

AMOR A TRÊS

Amei Maria, gente. Amei de fato!

Não por seus olhos lúbricos, ardentes,

Nem pelo toque de seus lábios quentes

Nem por seu corpo de infernal contato;

 Nem mesmo pelos ares insolentes

De um queixo fino e um narizinho chato.

De Maria, do amor que aqui relato,

Acreditem, irmãos, amei os dentes.

 Sim, os dentes! Punhais alabastrinos,

Alvíssimos, brilhantes, purpurinos,

De brancura mais branca que Deus fez!

 Eram pérolas, joias, diamantes,

Perfeitos, divinais, esfuziantes.

Os dentes de Maria… Todos três!!!…

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 21, 2018

REVOLUÇÃO DE 1930, vamos entender

Nós, brasileiros comuns, que estudamos em escolas públicas, não tivemos a oportunidade de conhecer e discutir os fatos históricos que aconteceram em nosso país, em especial quando se referiam ao envolvimento do Exército, ou melhor, das Forças Armadas. Quando muito, nos bancos escolares, havia uma referência aqui e ali sobre o tema, sem o  tempero da discussão.

Em busca de alguma informação, passei a me interessar pela leitura de  textos que tratavam do movimento tenentista Os Dezoito do Forte, que tentava derrubar a República Velha, e teve como motivação a vitória do candidato governista Arthur Bernardes à presidência da república nas eleições de 1º de março de 1922.

O candidato governista venceu a eleição com 56% dos votos válidos, e a oposição insistia na existência de fraudes. As oligarquias e o latifúndio, atrelados ao poderio dos fazendeiros, se opunham a um ideal de democracia idealizado por setores das forças armadas, em especial tenentes, sargentos, cabos e soldados. Na manhã do dia 5 de julho de 1922 o forte sofreu bombardeio da Fortaleza de Santa Cruz da Barra, que fica do lado oriental da barra da Baía de Guanabara. Dezessete militares e um civil saíram pelo calçadão da praia de Copacabana. Logo à frente, os 18 revolucionários foram derrotados em frente à Rua Barroso, atual Siqueira Campos, na altura do Posto 3 de Copacabana. Saldo do embate: do lado dos revoltosos, 14 mortos e 4 feridos.

Por se encontrarem os dois textos muito próximos, em seguida me dispus à leitura do segundo, que tratava de outro movimento armado, conhecido como Revolução de 1930, culminando com o Golpe que depôs o presidente da república, Washington Luís. O intervalo entre os dois eventos foi de apenas oito anos.

Veja como estas estórias são muito semelhantes. No ano de 1930, lideranças da oligarquia paulistana romperam a aliança com os mineiros (política do café-com-leite) e lançaram a candidatura de Júlio Prestes à presidência da República. Minas Gerais, como forma de reação, deu apoio ao canditado dos gaúchos, Getúlio Vargas, que tinha como candidato a vice o paraibano João Pessoa.

O Brasil continuava sendo governado pelas oligarquias de Minas Gerais e São Paulo. Essas oligarquias mantinham-se no poder através de eleições fraudulentas. Somente políticos que representavam seus interesses eram colocados no poder. Com isso, foi-se gerando descontentamento entre alguns setores militares

Nas eleições de 1930 houve um conflito político entre as oligarquias de Minas Gerais e São Paulo. Aquela era a vez de Minas Gerais indicar o candidato à presidência, porém os paulistas não abriram mão da candidatura de Júlio Prestes (que era fluminense, mas fez carreira política em São Paulo). Este comportamento causou descontentamento entre os políticos mineiros, que passaram a apoiar o candidato da oposição, o gaúcho Getúlio Vargas, governador do RS, que tinha como candidato a vice o paraibano João Pessoa. Júlio Prestes, apoiado pela elite de São Paulo, ganhou a eleição, mas havia indícios de fraude.

João Pessoa nasceu na cidade de Umbuzeiro, na Paraíba,  era sobrinho de Epitácio Pessoa, que fora presidente da República no período de 1919 a1922. O assassinato de João Pessoa por João Dantas, ocorrido em Recife no dia 26 de julho de 1930, no interior da Confeitaria Glória, por questões pessoais, foi usado como gatilho para pôr em marcha os entendimentos que culminariam com a deflagração da Revolução de 1930.

Washington Luiz, que seria o último presidente da República Velha, e então no poder, viu-se desprestigiado, mas não dava sinais de que renunciaria. Frente ao impasse, chefes militares do Exército e da Marinha depuseram o presidente, instalaram uma junta militar que em seguida transferiu o poder para Getúlio Vargas. Com isso, terminou o domínio das oligarquias no poder, e Getúlio Vargas governou o Brasil de forma provisória entre 1930 e 1934. Em 1934 o próprio Getúlio foi eleito presidente constitucional do Brasil pela Assembleia Constituinte, com mandato até 1937. Porém, através de um golpe que teve apoio de setores militares, permaneceu no poder até 1945, encerrando assim o período conhecido como Estado Novo.

Em 1951 Getúlio Vargas retornou à presidência da República, agora por meio do voto popular. Candidato pelo PTB, venceu o pleito de 1950 com 48,7% dos votos. Com a crise política e social solapando as bases do seu governo, o presidente redigiu uma carta-testamento e, no Palácio do Catete, suicidou-se com um tiro no peito no dia 24 de agosto de 1954.

Da morte de João Pessoa à Revolução de 1930, um pretexto fabricado.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 15, 2018

TRABANT, UM REGIME, UMA ERA

Com a queda do Muro de Berlim, no ano de 1989, muitos moradores da antiga Alemanha Oriental abandonaram seus automóveis nas ruas, com vergonha de aparecer dirigindo um carro que se tornara símbolo do atraso.

Era o Trabant – em alemão, companheiro de viagem– um automóvel com cara de tiozão que tinha uma carroceria de plástico parecido com fibra de vidro, porém mais barato, e não reciclável. Com suas características, o Trabant poderia partir-se em dois se fosse colocada uma carga além de sua capacidade.

O carro tinha fama de lento – desenvolvia uma velocidade máxima de 100/km/h e somente em vinte segundos acelerava de 0 a 80 km. Nos anos de 2009 e 2010 o governo alemão lançou um programa para renovação da frota de veículos, e mais alemães se desfizeram de seus Trabant. Hoje, uma empresa de Berlim organiza passeios de grupos de turistas dirigindo Trabant pelas ruas da cidade, formando um belo espetáculo visual.

Visitando Berlim, vale a pena conhecer a East Side Gallery, uma galeria de arte ao ar livre situada em uma sequência de 1.113 metros no lado leste do antigo muro que dividia a cidade, e foi preservado da demolição. Consta de 105 pinturas de artistas convidados de todas as partes do mundo, e foram iniciadas em 1990.

A galeria representa a apropriação de um muro até então intocado. A opressão de suas paredes passaram a exprimir a euforia da liberdade em face de um novo horizonte político para o mundo.

Uma das pinturas mais emblemáticas é o Beijo da Morte, quando o russo Brejnev cumprimenta o presidente da Alemanha Oriental em Berlim, 1979. Nessa pintura, Brejniev cumprimenta o presidente da Alemanha Oriental, Erich Honecker, em Berlim Oriental, 1979.

Beijo da Morte

Em outra  imagem, um Trabant parece atravessar o muro em direção ao desconhecido, apesar de seu simbolismo de atraso e subdesenvolvimento, por ser campeão de poluição sonora e emissão de gases tóxicos.

Trabant

O Beijo da Morte. O Trabant. Dois ícones que arregimentam milhares de pessoas no rumo da East Side Gallery todos os dias.

Não sei por que, lembrei-me do nosso Fiat 147.

EvaldOOliveira

Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 6, 2018

UM DIA DE CRIANÇA

Se eu pudesse, nem que fosse somente por um dia, poria minha vida em ordem, no que tange às reminiscências da infância. Hoje, já próximo ao fim da minha jornada, faria o mundo parar, retornaria no tempo e viveria um dia especial, com duas exigências prévias: gosto de cajarana e cheiro de oró. Ah!, e em plena maré de sizígia.

Pela manhã, vestiria uma calça curta, sustentada por suspensórios e, sem camisa, retornaria à Praia do Meio, bem no início da manhã, sentindo o toque da brisa em  meu corpo magricela, sob o intenso sol de março, com o cheiro de chuva trazido pelo vento que brinca de surfar sobre as ondas, fazendo a alegria de tainhas madrugadeiras. Na volta, caminharia pelas salinas de antigamente, com a visão distante de cataventos hoje espectros na paisagem de várzeas salitradas.

Ainda pela manhã, em frente à igreja, embarcaria em uma canoa e, aí sim, tomaria o rumo de Barra e Pernambuquinho, só para fazer inveja a um tal de Evaldo que hoje habita em mim. Na volta, passaria pela boca da barra para ver o mar de perto, fazer cócegas em sua barriga e fugiria, para que ele sequer suspeitasse de que fora eu quem o tirara do seu cochilo na sesta da preamar.

img_9842Foto Lucas Fonseca

À tardinha, usaria minha roupa de domingo, pensando em alugar uma bicicleta mequetrefe e passear pela Rua do Meio, até o final, na outra ponta, sem esquecer de passar brilhantina Glostora no cabelo, então farto e quase loiro. Na volta, passaria ao lado da igreja e visitaria a casa onde morei, revivendo a figura do meu pai atrás do balcão de sua bodega, e com certeza já imaginando coisas para a longa conversa à noite, em uma roda de cadeiras na calçada.

Caminharia despreocupado pelo Beco da Galinha Morta, na tentativa de dar de cara com um Zorro subnutrido e sem estilo que costumava aprontar uma zorra na saída que dá para a igreja, dar seu grito de guerra e em seguida desaparecer por onde surgira; o grande mistério de então. O herói mascarado só atacava à noite, lembrei agora.

À noite, andaria devagar, da pracinha até o Cine Coronel Fausto, pelo lado direito, curtindo cada fisionomia conhecida, e dando boa noite para todos, coisa que jamais fiz.

No cinema, qual o filme em exibição? Seria o que menos importaria. Compraria um ingresso colorido (azul, vermelho ou amarelo, naquela noite?) e esperaria a parada no meio do filme, onde uma bandinha tocava músicas de antigamente. Meu pai era um dos componentes daquele conjunto. No reinício do filme, um chicletes Adams na boca, guardando a caixinha para uma coleção sem futuro.

Pertinho das dez horas da noite, uma passada pela pracinha só para encontrar os retardatários conversando em pequenos grupos, aí incluídos os estudantes da Escola Técnica de Comércio, identificados por usarem uma calça cáqui com uma listra cor de vinho de cada lado da perna. Um charme. Mais adiante eu estudaria ali.

Voltaria para dormir em casa, agora em Brasília, porque já avisaram que a luz vai apagar.

É que já são dez e meia, e aparenta ser noite de cruviana.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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