Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 10, 2021

DESPACHOS/MACUMBAS EM BRASÍLIA

Despacho, nas religiões afro-brasileiras, é a realização de oferendas como pagamento antecipado a Exu pela realização de favores. Os despachos são depositados em lugares como encruzilhadas, cruzeiro das almas, matas, rios, descampados. Se, por algum motivo, algo não possa mais ser usado, deve ser despachado. Comidas rituais são alimentos específicos ofertados a cada orixá, cujo preparo requer o uso de ritual.

Macumba. Esse nome passou a ser utilizado pra nomear as oferendas feitas aos Orixás, sendo considerada por muitos como magia negra. Trata-se de um presente a uma energia divina, para que ela auxilie no direcionamento de uma causa. 

Graças à macumba, muitos escravos fugitivos conseguiam se alimentar enquanto fugiam da senzala. Por terem medo das oferendas deixadas em encruzilhadas, muitos caçadores de escravos e a população de origem europeia no geral não mexiam na comida, que era na verdade uma oferenda de escravos já estabelecidos aos seus companheiros que estavam em fuga. A macumba era, na verdade, uma forma de oferecer alimento para aqueles que estavam enfraquecidos na fuga.

Desde cheguei a Brasília, pelos idos do início de 1972, percebo que, aqui, esse tipo de manifestação é muito comum, especialmente no plano piloto, em toda a extensão dos eixos rodoviários norte e sul, colocados entre as árvores que ali existem.  

Em Stonehenge, livro de Bernard Cornwell que narra a história dos celtas que viveram no interior da Inglaterra dois mil anos antes de Cristo, há uma cena em que o principal feiticeiro de uma tribo responde, quando perguntado se realmente ele teria colocado mijo na barriga dos inimigos, e que o céu iria queimar seu inimigo, e a terra recusaria seus ossos, e até os animais iriam se afastar do fedor de sua morte; que até os vermes e as larvas iriam recusar sua carne pútrida e que iria secar até virar uma casca amarela, e os ventos o carregariam para os pântanos envenenados do fim do mundo, conforme gritara de forma tresloucada para o inimigo.

– Aprendi que a feitiçaria está nos nossos medos, que os nossos medos estão na nossa mente e que só os deuses são reais – respondeu o feiticeiro, baixinho, com voz pausada.

Em três ocasiões estive de frente para um despacho: 1. No centro de saúde, quando puseram um despacho de amarração atrás da cadeira do chefe, um médico boa pinta; 2. No meio da estrada que dava para minha chácara, cerca de 10 galinhas depenadas, prontas para assar, foram colocadas em um círculo, ladeadas por grandes abóboras com um líquido amarelado no seu interior, fechando completamente a estrada. Os carros iam parando na estrada de terra, de um lado e do outro; 3. No retorno que leva à 109 Sul, rua do Beirute, composto por alimentos e cerca de sete ampolas grandes, com um líquido branco dentro (soro glicosado?). Em todos os casos, o final foi feliz. Todos foram desfeitos pelas pessoas em volta.

A feitiçaria está nos nossos medos, e os nossos medos estão na nossa mente. 

Fecho com o voto do relator de Stonehenge.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 3, 2021

O CARVALHO E O JUNCO

Conversando certo dia, disse o carvalho ao junco:
“Você tem bons motivos para reclamar da natureza.
Até um passarinho é um fardo pesado para você.”

“Um ventinho à toa que faça
A superfície da água enrugar,
Obriga você a cabeça baixar.
Por outro lado, minha fronte,
Não contente em segurar os raios do sol,
Enfrenta bravamente a tempestade. 
Para você tudo é vento violento,
Para mim, brisa suave.
Se você nascesse abrigado pela folhagem
Com que eu cubro a vizinhança,
Não iria sofrer tanto: Eu defenderia você da chuva.”

“Mas vocês costumam nascer
Nas bordas úmidas do reino do vento.
A natureza, apesar de tudo,
Com você parece injusta.”

– “Sua compaixão”, respondeu o arbusto,
“É sincera, eu sei, mas não se inquiete:
Para mim, os ventos não são tão terríveis:
Eu me curvo e não me quebro.
Você tem esse corpo grande
E resiste sem entortar,
Mas espera o fim chegar.”

Enquanto diziam essas palavras,
Lá no horizonte furiosamente surgiu
A mais terrível das tempestades
Que os ventos do norte podiam trazer.
A árvore tentou resistir, o junco se curvou.
O vento redobrou seus esforços.
E tanto fez que destruiu
Aquele que tinha o céu como vizinho de cima
E as raízes no andar de baixo.

O Carvalho e o Junco, fábula de Jean de La Fontaine (1621-1695).

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 27, 2021

CALANGOS COLORIDOS DESAFIAM PSIQUIATRA

Lázaro andava macambúzio, desconfiado, sorupembático, escalafobético, colicocéfalo. À noite, no colégio, sem conseguir se conter, mais uma vez desabafou com seu amigo: 

– Cara, estou passando por um período muito ruim da minha vida. Aquelas visões têm piorado dia a dia. Parece que estou sendo vítima de uma ilusão reptiliforme. Acho que é devido ao exagero naquilo que estou fazendo todos os dias, no banheiro; você sabe.

– Nada disso. Se aquilo produzisse confusão mental, não haveria um estudante com a cabeça equilibrada nesta sala.

– Hoje foram cinco -, continuou Lázaro. Um azul, dois vermelhos, um amarelo e um branquinho. Verifiquei com todo cuidado. Eram calangos de verdade. Passaram pelo meu quintal, quando estava estudando debaixo da mangueira.

– Tem certeza? Pode ser impressão sua.

Por isso é que estou preocupado. Pode ser uma alucinação visual, uma visão de espectros, e isso é grave. Tenho que diminuir aquele negócio que faço no banheiro. Acho que estou ficando fraco, com esgotamento nervoso.

Por que você não conversa com Salatiel, que é psiquiatra, meu amigo. Posso marcar um encontro de vocês. Converse com ele.

O doutor Salatiel morava na rua de cima, e conhecia quase todos os moradores da redondeza; ouviu atentamente as alegações de Lázaro. No dia seguinte estavam os dois no quintal dos calangos, e ficaram observando a movimentação das folhas secas, as frutas caídas, a ramagem das pequenas plantas. Logo surgiram os calangos. Todos coloridos. O primeiro era branco; o segundo era amarelo, mais simpático, parecendo convocar a turma para um passeio. Em seguida passaram outros: um vermelho, um verde e outro azul. 

O psiquiatra, recostado em uma jaqueira, pensou um pouco, franziu o cenho e falou:

– Vou ali à casa do Jaime e já volto.

Meia hora depois retornou com um sorriso maroto, e deu a devida explicação para o fato que transtornava a vida de Lázaro.

Jaime morava em uma casa próxima à de Lázaro, e era pintor. Todos os dias usava sua pistola para dar cores a carrinhos, caminhões e outros brinquedos que eram vendidos na feira. Quando estava pintando, com a pistola na mão, passava um calango e ele pintava o pequeno animal. Foi assim que a fauna colorida foi aumentando.

Explicado o mistério dos calangos coloridos, o estudante sentia-se liberado para suas práticas desajeitadas de fisiculturismo que andava fazendo no banheiro, escondido de sua família. Era um jovem raquítico, e precisava melhorar sua aparência.

Aliviado, olhou de forma dissimulada para seu muque à Olívia Popeye.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 20, 2021

TRÊS ESTÓRIAS PARA LERMOS NA QUARENTENA

Deslize, gafe, descuido ou mancada pode acontecer com qualquer pessoa. E de nada adianta tentar corrigir. Cada tentativa pode gerar nova gafe. 

O casamento seria no dia seguinte, no Rio de Janeiro. Várias vans foram alugadas para transporte do pessoal que viria de fora, e as pessoas se revezavam na ida à rodoviária  e ao aeroporto. A acomodação na casa dos parentes era tarefa de outro grupo, que se esmerava para bem desempenhar sua missão. Dona Orminda, que viera dias antes de Lisboa, ansiosa, naquele calor carioca infernal, coordenava a recepção e a hospedagem do grupo que estaria para chegar de Portugal.

Andrade, tio da noiva, percebendo a aflição de dona Orminda, providenciou um copo com água gelada. A parente lusitana, um pouco aliviada, falou com seu sotaque forte:

– Eu vou ter muito trabalho, porque vai me chegar uma besta completa. – Andrade, sem se dar conta, e tentando agradar, interveio:

– Pode deixar que a gente dá um jeito nela, dona Orminda.

– Mas eu estou a falar de um autocarro, disse a senhora.

– Pensei que estavas a falar de uma sobrinha!

Constança fora convidada para o lançamento de um livro em Brasília, que aconteceria em um restaurante na 104 Sul. Ao chegar, ficou atordoada com o barulho do grupo de pagode que animava a festa.

Muita gente chegando ao mesmo tempo, congestionando o portão de entrada, que dava para um grande pátio. Logo, viu algumas amigas, e isso deixou-a mais calma. Do jeito que entrara no pátio, percebeu uma pessoa com a mão estendida em sua direção.

E as amigas gritavam:

– Constança, vamos! Constança! Oh, não!

Foi quando Constança se deu conta de que estava com a mão estendida à espera de um aperto. À sua frente estava uma estátua de um homem, em tamanho natural, que ela imaginava ser o escritor recebendo os convidados. 

Um grupo de amigos viajava pela Alemanha, e tomaram um trem que seguia para a Itália. Ana Maria, olhar no horizonte, admirando a bela paisagem, smartphone ligado, fones nos ouvidos.

De repente surge o cobrador, com ar de bonachão e com aquele habitual bom humor dos alemães. Para em frente a Ana Maria e, quase gritando, fala:

– Itali?… Itali?… Itali?

Ana Maria retira os fones dos ouvidos e, desligada como sempre, olha para cima e responde:

– Não, é Rod Stewart. – Recolocou os fones nos ouvidos, voltou a abaixar a cabeça e continuou balbuciando alguns trechos da música.

Os amigos conversaram com o cobrador, mostraram o tíquete da passagem e ele se retirou com seu passo pesado. Ana Maria, nesse instante, levanta a cabeça e pergunta para o grupo à sua volta:

– Como esse cobrador sabe que eu conheço Rita Lee?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 13, 2021

DOIS TÍMIDOS NAS NOITADAS

Em Natal dos anos 1970 a vida social era muito intensa, com bailes nos diversos clubes da cidade, bem como festinhas chamadas de assustados, que consistiam de eventos realizados em casas de amigos e conhecidos, organizados de modo quase informal. Cada convidado podia convidar um amigo ou amiga, desde que levasse algo para beber ou degustar. 

Uma figura que circulava nas noites natalenses daquela época era Restinho. Não sei seu nome. Restinho era um rapaz de poucos modos, mas falastrão e exibido junto às rodas de conversas no Grande Ponto. 

Restinho tinha esse codinome porque, nas festas dos clubes ou em assustados, ele ficava de pé, acompanhando o andamento da música, escaneando com o olhar as moças que estavam sentadas. Ao perceber que a melodia já estava perto do fim, o rapaz se dirigia a uma das moças e, com seu jeito à James Dean, jogava seu charme: Vamos dançar esse restinho? E rodopiava não mais que trinta segundos.

Olha a Faca era um rapaz excessivamente tímido, e um ser especial. A primeira namorada; o primeiro encontro junto à janela da casa da moça, em uma noite de total escuridão. Para complicar, a iluminação local era reduzida, devido ao galho de uma árvore ao lado. E ficaram os dois ali, sem sequer se olharem de frente. Lá se foram duas horas de total silêncio. Na despedida, ele falou duas palavras em tom forte: Olha a Faca! A donzela tomou um susto e se afastou. Foi uma tentativa desesperada do rapaz para puxar conversa. Aquela foi a última vez que os dois se encontraram.

Restinho e Olha a Faca. Figuras hoje quase sem representantes nos modernos escaninhos sociais. 

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 6, 2021

LILICA, CONFRONTO E AMEAÇA

– Parte I – Lilica e sua turma invadem minha cozinha para sugar o açúcar que se formou sobre a bancada, após o uso do álcool em gel, e se embriagaram.

– Parte II – Com o uso de uma solução diluída de água sanitária na bancada, Lilica e seu grupo se armaram com placas e faixas para protestar, entoando cânticos de revolta.

– Parte III – Lilica e seu grupo passam por um processo de corrupção interna, face ao grande volume de dinheiro (K5 – cada unidade equivale a cinco porções de comida) gerado pela monetarização de suas mídias sociais. Houve dispersão dos componentes, com formação de grupos menores. 

Parte IV

Depois de algum tempo ausente, três elementos do grupo da Lilica surgiram sobre a bancada da minha cozinha, montados em Ubermosq (mosquitos para transporte de passageiros de pequeno peso, como as formigas-faraó).

De pé, encarando-me de frente, demonstraram toda a revolta do grupo pela utilização continuada da solução diluída de água sanitária sobre a bancada da cozinha, todas as noites. Os três soldados-mensageiros exigiam a urgente suspensão do uso da solução, sob pena de uma paninvasão, com milhares de elementos atacando a um só tempo, pela madrugada, fora horário do movimento da cozinha. Todos utilizavam máscara do tipo F-1 (formiga-faraó), com filtragem especial para gases e eflúvios indesejados.

Fiquei rindo, porque sabia da reação tóxica que essa solução provoca, podendo levar à morte por envenenamento. Sentindo-me fortalecido, ameacei-as de usar a solução naquele momento, o que exterminaria com os três representantes do grupo. Deixei claro que não estava disposto a qualquer acordo. Rapidamente elas se afastaram. Um pouco à frente, várias formiguinhas-faraó, escondidas atrás de um vaso, se juntaram aos três soldados-mensageiros, e se afastaram gritando em uníssono: Mitrídates! Mitrídates! Mitrídates! Ao final, uma delas gritou: Aguarde-nos!

Decidi desvendar aquela mensagem, e descobri que Mitrídates VI viveu entre os anos 120 e 63 a.C. Depois de conquistar a Anatólia ocidental (atual Turquia), Mitrídates ordenou a execução de cem mil homens, mulheres e crianças romanas, tornando-se um dos maiores inimigos de Roma. 

Naquela época era comum o envenamento, inclusive por familiares, de pessoas ligadas à nobreza, ao poder. Por precaução, Mitrídates começou a tomar doses crescentes dos venenos mais utilizados, até que fosse capaz de tolerar uma dose letal. Esta técnica de dessensibilização é hoje conhecida como mitridificação. 

No ar, uma dúvida. O grupo da Lilica estaria tentando uma dessensibilização à solução de água sanitária pela técnica de Mitrídates?

Acho que não conseguirão essa façanha, ao menos em grupo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 26, 2021

UM CONTO DO VIGÁRIO EM 1964

Você, que é jovem, que tal fazer uma busca na internet com a frase ouro para o bem do Brasil? Você descobrirá coisas sinistras, de pura enganação, como as que serão mostradas a seguir, também obtidas na internet.

Poderia dar certo uma campanha em que a população doaria ouro para o bem do Brasil, com o objetivo de ajudar o país a reduzir sua dívida externa, com o intuito de equilibrar as finanças do estado brasileiro? Pode parecer estranho, mas isso aconteceu logo após o golpe militar de 1964.

A campanha foi liderada por jornalistas dos Diários Associados, sob a tutela de Assis Chateaubriand, e teve início em São Paulo no dia 13 de maio de 1964. E assim era anunciada ao povo:  A Campanha “Ouro para o Bem do Brasil” será uma contribuição patriótica do povo brasileiro em todos os quadrantes da nossa amada Pátria para o Tesouro Nacional, objetivando o fortalecimento do lastro-ouro e maior valorização da nossa moeda… com a entrega de suas alianças ou quaisquer outros objetos em ouro. 

Muitos fizeram isso, e houve ainda quem doasse colares, brincos e outros objetos de ouro e até dinheiro do próprio bolso, para ajudar nossa terra a se levantar dos infortúnios vividos no período que antecedeu o golpe militar. 

Veja este relato de um jornalista: Em junho de 1964, eu fui com o meu pai entregar um anel de ouro e rubi e duas alianças de seu casamento para os militares que recolhiam as doações numa bandeira do Brasil, estendida em frente ao Museu Histórico da rua Barão de Jundiaí, SP. Era a campanha do Chatô: Ouro para o Bem do Brasil. Quem dava ouro, ganhava um anel de latão. Não sei até hoje o que foi feito com o montante de ouro, que chegou a uma tonelada e meia só em São Paulo, nem com o dinheiro, pedras preciosas e até veículos que foram doados em muitas cidades do Brasil

Em São Paulo havia três cofres para receber as doações. Uma destinado ao dinheiro em espécie, outro para cheques e um outro para os objetos de ouro. Os doadores podiam entregar suas alianças de casamento, de ouro, e em troca receber uma aliança símbolo de latão com os dizeres Dei Ouro para o bem do Brasil. Segundo os números oficiais, foram entregues quase dois milhões de anéis símbolo.

O montante arrecadado no estado de São Paulo foi de mil e duzentos quilos de ouro e um pouco mais de dois bilhões de cruzeiros. Nas semanas seguintes, muitas outras cidades brasileiras aderiram a essa campanha. As pessoas fizeram filas para doar dinheiro e joias da família, além de suas alianças de casamento. O valor total de todo o país nunca foi divulgado.

O tempo passou, e anos mais tarde começaram a surgir dúvidas sobre o verdadeiro destino desses recursos. Ao final, Brasil quebrado, e os militares promoveram um arrocho sem precedentes, enquanto a desigualdade social aumentava.

A campanha entrou para a história como uma picaretagem. Na década de 1980, Ruy Gouveia (PB) foi denunciado pela Lei de Segurança Nacional por afirmar que o então ministro Delfim Neto havia usurpado todo o ouro doado em 1964.

Ouro para o bem do Brasil. Somente em São Paulo, mil e duzentos quilos de ouro e dois bilhões de cruzeiros. Qual o valor total levantado? O que aconteceu com esse dinheiro?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 20, 2021

ERA UMA VEZ UMA MANGUEIRA FEIA

Jacinto espalhara pela cidade que seu vizinho era ruim dos miolos. Ele percebera que o novo morador da casa ao lado falava com as árvores do quintal. Todos os dias ele ouvia elogios às árvores, e apenas uma vez escutou um grande esbregue, aos gritos, em uma jabuticabeira.

Na cidade havia um pequeno horto florestal, que era visitado por poucas pessoas. As folhas acumulavam-se no chão, e causavam aquele barulho característico quando se andava sobre elas – slash, slash, slash. Naquela tarde, era Angelino visitando o horto pela segunda vez, e caminhava em uma área repleta de mangueiras. Naquele setor só havia mangueiras, e o cenário era bonito. Os frutos brotavam das pontas dos galhos, e o velho bibliotecário – esta havia sido sua profissão – logo percebeu que cada árvore parecia caprichar na apresentação de seus frutos, e os exibia com orgulho. 

Caminhou lentamente entre aqueles grossos troncos, percebendo as claras diferenças entre os diversos tipos de mangas ali presentes, e sentiu saudade de sua infância no sítio dos pais. Parou em frente a uma árvore frondosa, de tronco grosso e casca mais espessa, e percebeu uma diferença, e ficou tentando descobrir o que fazia aquela árvore no meio das mangueiras.

– Por que você fica olhando pra mim desse jeito? Não vê que eu nasci com defeito, que sou uma mangueira doente?

Assustado, Angelino olhou demoradamente para aquela árvore, com uma dúvida: ela havia falado com ele, ou teria sido apenas imaginação? Aguçou os ouvidos, e com ar paternal, correu os olhos por toda a árvore, desde o solo, passando pelo seu tronco; examinou seus galhos e folhas. E, num misto de pai e cientista, falou:

– Não vejo nenhum defeito em você -. E teve a impressão de ter ouvido de volta:

– Se você olhar direito, verá que todas as outras árvores têm mangas em seus galhos, e nos meus há uns calombos ou pólipos junto ao meu tronco. Todos os anos tenho que fazer um grande esforço para que esses calombos murchem e caiam, impedindo o seu desenvolvimento. Não sei mais o que fazer; até minhas folhas são diferentes; as flores, nem se fala!

 Angelino alisou carinhosamente o tronco daquela árvore triste.  Pegou na mão o que ela chamava de calombos e logo percebeu que ali havia um mal entendido.

– Minha filha, você é uma Jaqueira! E uma linda Jaqueira. Esses calombos que você diz ter no tronco são seus frutos que, se você os deixar crescer, estarão entre os mais gostosos deste pomar. Você nasceu e cresceu no meio das mangueiras, o que a levou a pensar ser uma delas. Perceba que suas folhas são diferentes, porque são coriáceas, com consistência de couro, enquanto as folhas das mangueiras são lanceoladas, parecidas com a ponta de uma lança, embora também tenham consistência coriácea, dizia Angelino quase gritando, de tanta euforia. 

Já era quase noite quando Angelino foi despertado pelo guarda do parque, que saiu pensativo. Com quem estivera sonhando aquele homem que ele descobrira dormindo debaixo daquela mangueira esquisita, e por que sorria enquanto dormia?

– A gente se depara com cada cristão nesse mundo! – resmungou o velho guarda.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Texto já publicada neste blog, em outro momento, outra formatação e outro título.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 12, 2021

COCA-COLA, O ACASO GERANDO REQUEZAS

No dia 8 de maio de 1886, o farmacêutico americano John Pemberton preparou um xarope de extrato de folhas de coca, cafeína e água. Pemberton era distribuidor da French Wine Coca, uma mistura de vinho Bordeaux com extrato de coca. Naquele ano de 1886, ele teve a ideia de produzir uma bebida não alcoólica para venda nos EUA.

Para melhorar o sabor da mistura de folha descocainizada de coca e extrato de nozes de cola, Pemberton acrescentou óleos aromatizantes de limão, laranja, noz-moscada, lima, cássia (canela chinesa), coentro e baunilha. Em seguida, adicionou ácido fosfórico para estabilizar quimicamente o produto. 

No início, o xarope caramelizado era vendido em farmácias para tratamento da dor de cabeça e distúrbios do sistema nervoso. Em 1887, Pemberton vendeu a fórmula para Asa Candler que, em 1892, registrou no estado da Geórgia a Coca-Cola Company. Três anos depois, a Coca-Cola há havia conquistado os Estados Unidos, logo chegando ao Canadá, Inglaterra, Cuba e Porto Rico.

Michael N. Smith e Eric Kasum, em seu livro As 100 Piores Ideias da História, dão outra versão para o negócio. Contam que um fã de refrigerantes na Jacob’s Pharmacy acrescentou por acaso água carbonada a um copo do espesso xarope de Pemberton. O sabor desse engano era tão bom que os fregueses começam a pedi-lo. Pemberton, desprezando as possibilidades não medicinais do seu produto, vende os direitos da receita a outro farmacêutico local, Asa Griggs Candler, que explora seu potencial como bebida festiva.

No Brasil, a Coca-Cola chegaria em 1939, através de Getúlio Vargas, quando baixou um decreto modificando o uso de aditivos químicos em refrigerantes no país. A permissão para o uso do ácido fosfórico gerou discussão, pois pode se combinar com o cálcio no organismo das pessoas e, assim, provocar a descalcificação dos ossos e dentes.

Vasilhames

Coca-Cola. Hoje, esta marca vale mais de 180 bilhões de dólares. O que era para ser remédio, virou a bebida mais popular do mundo. 

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 6, 2021

COMO É QUE UM SCHETTINO DESSES CHEGA A CAPITÃO?

Esse é o título da matéria de Michel N. Smith e Erik Kasum, à página 224 do seu livro As 100 Piores Ideias da História, edição Valentina, sobre Francesco Schettino, o todo poderoso comandante do navio Costa Concordia, no dia 13 de janeiro de 2012.

O navio começou a se desviar do seu curso, rumando em direção às rochas sob as águas que cercam a ilha de Giglio, no litoral da Toscana, Itália. Os passageiros não percebem essa manobra, comum nessas aproximações que o comandante executa para exibir sua maravilhosa embarcação aos habitantes do lugar, ao tempo em que demonstra suas habilidades à plateia em terra.

Nesse perigoso procedimento, o casco do navio esbarra nas rochas e encalha. Pouco tempo depois, começa a fazer água e aderna, ficando quase submerso. O preço dessa irresponsabilidade: 30 mortos a bordo.

Na sequência, o comandante esconde das autoridades o que realmente acontecia no navio, inclusive que o navio estava afundando. Para piorar, abandona a embarcação, descumprindo a primeira diretriz marítima. Segundo informações dele junto à comunicação social internacional, ele justificou que fora arremetido na hora do choque e caíra no mar, e que já havia outro comandante (o imediato) em seu lugar.

O comandante Francesco Schettino foi condenado, em fevereiro de 2015, a 16 anos de prisão efetiva pelos homicídios, abandono do navio e naufrágio, pena confirmada por um tribunal de recurso em maio de 2016.

A irresponsabilidade e a necessidade de aparecer, quando juntas, podem levar ao caos, como neste caso.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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