Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 23, 2022

A BRUTALIDADE QUE SE AGIGANTA NO GARIMPO

Médico em Marabá, pelos idos de 1982, Dr. Claudio trabalhava, de forma alternada, trinta dias na cidade e trinta dias na Unidade de Saúde de Serra Pelada, entidade pertencente à Fundação SESP, do Ministério da Saúde. Com o garimpo em plena efervescência, no interior do Pará, a equipe de saúde lidava com casos cada vez mais frequentes de malária, tuberculose e hepatite A.

Em uma tarde quente de uma segunda-feira atribulada, em pleno agosto movido a ventania, um senhor de cinquenta e cinco anos, aparentando mais de sessenta, chegou em um táxi, conduzido por uma comitiva.

Na linguagem local, táxi consistia em uma vara comprida e forte, onde se armava uma rede de uma extremidade à outra. Comitiva era um conjunto de oito a dez homens, que se revezavam em duplas, conduzindo a vara nos ombros, pois os pacientes eram homens pesados, e a distância entre o garimpo e a unidade de saúde era grande.

Examinando o paciente, logo o Dr. Claudio chegou ao diagnóstico: hepatite A, forma fulminante. O homem, mesmo com os sintomas debilitantes da doença, continuou trabalhando até cair prostrado. A ânsia pelo ouro, a luta pela sobrevivência, além do medo de abandonar o barranco, faziam com que os doentes chegassem à unidade de saúde já em estado avançado de seus males.

O paciente, em estágio final da hepatite, resistiu por mais duas horas, e faleceu. Os filhos do morto foram convocados para acompanhar o corpo até Marabá, para liberação pelo IML. No final da tarde os dois rapazes chegaram. Eram dois jovens fortes, um com vinte e dois e o outro com vinte e quatro anos. Informados de que um dos dois teria que ir para Marabá, assim um deles se expressou:

– Nós avisamos para esse velho cabeça dura que o trabalho aqui era pesado, e ele não nos escutou. Dizia que queria juntar dinheiro para construir uma casa lá onde nossa família mora, para dar mais conforto para nossa mãe. Nós não vamos abandonar nosso barranco. Doutor, mande o corpo sozinho para Marabá, pois nós não iremos.

– Lá em Marabá – ponderou o médico – ele vai ser enterrado como indigente.

– E qual é o problema? Aqui, doutor, somos todos indigentes. Era só isso que o senhor queria com a gente? Até logo. Vamos embora!

Ao perceber que os filhos do morto haviam se retirado, um senhor mais velho, com cara de espanto, e que havia participado da comitiva, aproximou-se do Dr. Claudio e assumiu que era muito amigo do morto, e que não permitiria que ele fosse enterrado como indigente. Iria, sim, acompanhar o corpo do amigo até Marabá e providenciar seu traslado para a cidade de origem daquela família.

No calcanhar do mundo, um pai de família consumido por um sonho.

Dois filhos afetados por uma animalesca indiferença. Embrutecimento.

Um amigo. Tudo o que a vida lhe deixou.

EvaldOOliveira 

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Texto já publicado neste blog, com outra formatação.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 15, 2022

FANTASMAS E ALMAS PENADAS

Desde pequeno, dormindo com mais oito irmãos, em redes, vestindo um chambre branco, aprendi a ter medo de fantasmas, lobisomens e de almas penadas. As tais almas perdidas que fugiram do Purgatório. Nas noites escuras, quantas vezes ouvi seus passos de algodão, seus  sussurros; barulhos de almas. 

Lembro de Haroldo, um menino que morava ao lado da nossa casa. No dia de Natal, trazendo na mão o presente que Papai Noel trouxera, ele quase gritava ao descrever como vira o velhinho descendo pela parede. E insistia em que as marcas da descida estavam impressas na pintura do seu quarto.

Não há como esquecer o medo da alma dos gatos que morriam. “À noite elas vão te pegar”, diziam os mais velhos. Lembro, até, de uma missa que algumas crianças encenavam no quintal em homenagem a um gato ou passarinho que morrera.

Na mitologia grega, quando a pessoa morria, Hermes vinha apanhar sua alma para guiá-la até o Mundo Subterrâneo. Para se chegar ao mundo dos mortos, era necessário atravessar o rio Estige. Havia o barqueiro dos mortos, de nome Caronte. Ele exigia uma moeda (óbolo) como pagamento. Contudo, ele apenas conduzia o barco, e era a alma que teria todo o trabalho de remar. Se a alma não tivesse o dinheiro para pagar o serviço, era obrigada a vagar depois da linha do oceano por cem anos, para, depois, ganhar o direito de entrar no barco.

Após ser recebido por Caronte, o morto tinha que passar por Cérbero, o cão de Hades, antes de entrar pelos portões do Mundo Subterrâneo. O cão tinha três cabeças, e adorava comer carne fresca. 

Nas noites escuras, na cidade onde fui criança, os ruídos vindos do rio tomavam corpo de sussurros estranhos, no timbre exato do sobrenatural. Era o ranger da vela de um barco, o movimento de alguém que passava pela Rua da Frente ou o vai e vem das árvores do quintal obedecendo à dança dos ventos. Para nós, crianças, era o som que vinha das trevas. Em especial se fosse naquelas noites em que a cruviana assobiava pelos becos, depois que a usina de luz fazia sua pausa diária depois das dez.

Ainda hoje, só vou ao fundo do meu quintal, à noite, tendo a companhia de Beiçola e de Ressaca, meus dois guardiões caninos. Mas isso sempre me intrigou. Como pode um homem da minha idade ter medo de fantasma e de almas penadas? Confesso que durante o dia eu não acredito em fantasmas nem tenho medo de almas perdidas. Isso só acontece depois das dezenove horas, ou no escuro.

Ao reler o livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, reencontrei-me com Fabiano, forte, rude, com a aspereza do mandacaru, confessando abertamente seus temores – Estava diante dos juazeiros. Fabiano apressou-se. Sabia lá se a alma de Baleia andava por ali, fazendo visagem? Chegou-se em casa, com medo. Ia escurecendo, e àquela hora ele sentia sempre uns vagos terrores. Ultimamente vivia esmorecido, mofino, porque as desgraças eram muitas. Precisava consultar sinhá Vitória, combinar a viagem, livrar-se das arribações, explicar-se, convencer-se de que não praticara injustiça matando a cachorra. Necessário abandonar aqueles lugares amaldiçoados.

Obrigado, Fabiano, pelo apoio. Unidos no mesmo temor.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 8, 2022

NÃO ADIANTA INSISTIR, NÃO FAÇO MAIS!

Criança, vivendo em uma pequena cidade do interior, logo aprendi a encarar uma provocação. Era a dicotomia: enfrentar ou arranjar uma forma disfarçada de escapar. Ao longo da nossa vida, vitórias e derrotas. Movimentos visando à sobrevivência, a juventude impondo soluções muitas vezes arriscadas.

Porém desde que completei 70 anos tomei uma decisão unilateral com relação a tarefas que até então realizava sem qualquer contestação. Assim, decidi que não mais farei algumas atividades eventuais da vida diária:

  • Empurrar carro velho. Não importa quem seja o dono
  • Apanhar moedas no chão. Não vale o risco de uma lesão na coluna
  • Cortar grama, mesmo com a máquina mais moderna
  • Carregar criança nos braços, a partir dos três anos
  • Praticar atividade física diferente de Pilates, natação e caminhadas
  • Arrastar ou carregar objetos pesados, como malas grandes em viagens
  • Subir em escadas, mesmo naquelas de copa
  • Entrar em sótão no alto da casa. Nada me diz respeito, ali
  • Apartar briga dos outros. Sempre vai sobrar algo para nós
  • Provar pimentas que não ardem
  • Chegar perto de animais silvestres, e até de alguns domesticados. Já atendi pacientes mordidos pelo próprio cavalo ou cão
  • Falar mal dos outros por escrito ou gravado
  • Tentar subir em coqueiro
  • Levantar bujão de gás, nem pensar
  • Andar de montanha russa
  • Andar naqueles carrinhos de teleférico, subindo ou descendo montanha
  • Discutir sobre política partidária no Brasil
  • No empolgamento de uma noitada, subir em mesa para se exibir
  • Fazer churrasco. Sempre há alguém melhor nesse quesito
  • Tomar mais de duas caipiroscas (caipivodka)
  • Atitudes de enochato. Vinhos, tomo quase todos, mesmo sem conhecê-los
  • Trocar pneu do carro
  • Pedir dinheiro emprestado a um amigo. Nem de brincadeira
  • Fazer susto em alguém
  • Assumir como meus os desafetos dos outros; bastam os que já tenho
  • Servir de avalista ou fiador 
  • Assumir prestações que ultrapassem dois anos
  • Permitir a presença de gatos ou cachorros dentro de casa. Tenho dois, ora no quintal ora no canil
  • Estimular uma criança a descrer em Papai Noel. Aqui, um viva a todos os duendes, piratas e sacis. Deixemos as crianças livres para sonhar
  • Fazer simpatia no final do ano, dando pulinhos, vestindo determinada cor ou guardando sementes de frutas, como maçã, romã e uva. Hoje, sei que somente o conhecimento e o esforço levam ao sucesso
  • Confundir liberdade de imprensa com o escárnio a qualquer religião. Os pseudohumoristas daqui jamais ousaram destratar Maomé. 
  • Prestar desserviço ao meu corpo, para me mostrar moderno

Na juventude, a empolgação pelo mundo que desabrochava.

Na evelhescência, a sensatez e a sinceridade. Calmaria, Pilates e caminhadas. E o trabalho, até quando puder.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 1, 2022

O DESENCANTO DE JUDAS

“O desencanto tomou conta do meu coração!”

Culpa, remorso e desespero. Nesse episódio histórico, somos instados a perquirir a causa do desencanto de Judas, que era judeu e acreditava na vinda de um messias, tal como anunciavam as Escrituras.

A Palestina estava submetida ao jugo romano. Essa dominação, sempre contestada, representava insuportável violência contra aqueles que se autodenominavam “povo de Deus”. O exemplo de resistência, em passado próximo, dos Irmãos Macabeus, sustentava a possibilidade de uma nova reação, uma insurreição, sob uma firme liderança. Seria esse papel do messias, ansiosamente esperado?

O apóstolo Judas Iscariotes alimentava a esperança de um grande movimento de libertação. E Jesus de Nazaré, que fazia milagres, ressuscitava mortos, caminhava sobre as águas, multiplicava peixes e pães e atraía multidões, parecia incorporar, sem nenhuma dúvida, o perfil desse libertador. Judas estava encantado. Ecce homo! – Eis o homem!

O convívio, porém, trouxe-lhe decepções: o messias prometido, o salvador, o libertador, não dava sinais de ser um líder revolucionário. Usava seu tempo em gestos de misericórdia, ensinava o perdão como prática amorosa (Atire a primeira pedra…), elevava os humildes, exaltava a caridade, o respeito a todos, sem distinções de etnias.

Dai a César o que é de César! Ora, vejam só! Obedecer, pagar tributo a quem nos tiraniza? Tudo isso culminou com a surpreendente e desalentadora afirmação, para ele, Judas, do Mestre de Nazaré: – Meu reino não é deste mundo.

Não! Esse não pode ser o messias, o libertador. A frustração matou a esperança e, em seu lugar, alojou sentimentos inferiores. É preciso fazer alguma coisa. Na sequência, trinta moedas e um beijo. Estava em curso sua predestinação. 

O resultado foi desesperador. Judas não compreendera que o caminho do messias seria percorrido sob o pesado fardo de uma cruz, e que sua trajetória, em direção ao Gólgota, seria uma via sagrada. Também não se convencera de que o amor perdoa e salva; basta uma palavra, mesmo não se considerando digno (Domine, non sum dignus).

Distanciou-se do grupo e nem pôde observar que Pedro, após a fraqueza da tríplice negação, foi perdoado (Tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a minha igreja); já não presenciou a promessa feita ao “bom ladrão”, cujo arrependimento o levaria ao Paraíso.

Ignorando que o amor abre os braços, em forma de cruz, e o perdão, sem limites, acolhe o arrependimento, Judas, desesperado, faz seu corpo balançar sob a árvore do destino, pois o desencanto, na tortura do remorso, penetrara em seu coração. Seus ouvidos já não puderam escutar o último perdão:

– Pai, perdoa-lhes; não sabem o que fazem.

Francisco de Assis Câmara, no livro Sob o Signo do Invisível

Integrante dos quadros do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Nota do blog: Os Macabeus lideraram o movimento que levou à independência da Judeia, e que reconsagrou o Templo de Jerusalém, que havia sido profanado pelos gregos. Após a independência, os hasmoneus deram origem à linhagem real que governou Israel até sua subjugação pelo domínio romano em 37 a.C. Wikipedia.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 18, 2021

NUANCES DE UM BLOG INDEPENDENTE

Esta semana fui ao pequeno ateliê de costura de uma senhora, apanhar uma roupa que levara para ser reformada. Eram os retoques finais em um terno que coparticipou de várias festas de casamento, encontros solenes e de outros nem tanto.

A senhora me recebeu, mostrou-me o que havia feito no paletó e na calça, puxando e repuxando até o limite do tecido, e pediu para que eu provasse em casa. Quando já me preparava para sair, ela fulminou: “Por que o senhor me bloqueou no Whatsapp?  Não consegui ler sua última crônica. Eu adorei todas as que li. Por favor, me desbloqueie e me mande as crônicas. Quero ler todas”.

Logo me lembrei de um comentário postado no blog. Publiquei uma crônica intitulada “Os Gargarejos Matinais de Megriv” (virgem ao contrário) e uma senhora retrucou com o peso da grosseria: “Me chamo Megriv, e sou muito mulher. Não gostei da sua referência ao meu nome como se fosse eu um homem”. Jamais imaginei haver alguém com esse nome, que eu imaginava haver criado. E pedi desculpas.

Outra mulher sentiu-se ofendida por eu ter, por engano, encaminhado uma crônica por duas semanas seguidas para o seu Whatsapp. Ela vociferou: “Não me mande mais esse tipo de coisa! Não gosto!”.

Em um grupo de vizinhos, sem querer enviei uma crônica, causando muitos estragos nas relações pessoais. Ali não era local para essas colocações. Mas havia comentários elogiando os políticos atualmente no poder. Somente mentiras, Fake News. Isso podia.

Outro dia encaminhei minha crônica semanal para uma amiga. Houve um problema e o texto foi parar na caixa de uma senhora, que me xingou e exigiu que eu não mais voltasse a fazer aquilo, pois ela não gostava. Uma ofensa.

Uma pessoa que eu pouco conheço me deixou feliz, ao dizer que ficava esperando o final de semana para ler minha crônica, e que com os meus textos ela estava ficando “muito sabida, aprendendo coisas que desconhecia, inclusive dicas de português”.

Difícil elaborar uma crônica. Fácil massacrar, destruir, ignorar.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 11, 2021

CINQUENTA TONS DE UMA VIDA

Cinquenta anos de formatura dos alunos de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, turma de 1971. Ali, a história da vida em cada um de nós, com as marcas das alegrias, dos momentos felizes, das tristezas, dos desencantos. Cinquenta anos de formatura. Quando pequeno, eu imaginava não chegar aos quarenta anos de idade.

Um encontro. Na chegada ao hotel, a ansiedade de encarar colegas que não víamos há exatos cinquenta anos, sem contar os catorze que se perderam nesse labirinto a que chamamos de vida. E o tempo inteiro as indagações: “Quem é aquele de corpo arqueado e olhar distante? E aquele de andar arrastado, os olhos no chão? Aquela é fulana, a garota mais bonita da turma?

No almoço solene, exibíamos com orgulho a camisa dos cinquenta anos, dourada como foi a nossa juventude. E mais apresentações, mais descobertas, mais surpresas. E a música a nos envolver. O som ao vivo tomava conta do imenso refeitório, e uma música de Geraldo Azevedo e Fausto Nilo ecoou. Sem querer-querendo, duas meninas da nossa turma iniciaram um bailado encantador ao som de “toda paixão recomeça quando ela dança, dança”. Os volteios, o vai e vem das saias girando, a mágica do sonho. E rodopiavam no salão feito os piões da nossa meninice. “Toda paixão recomeça” me levou de roldão ao tempo das cantigas de roda, com os grupos de adolescentes passando o anel de mão em mão. 

Severino, com seus 74 anos, tocado por essa aura renovadora, sassaricou feito um dançarino de frevo, elevando o calor e a emoção do encontro. E restaram esquecidas as mazelas da idade, a alegria borbulhando em alguns, o gosto azedo da desesperança em outros. E a felicidade, tal qual um zigue-zigue, ziguezagueava sobre cabeças gris, algumas com o disfarce da tinta. E foram esquecidos os resmungos e os estragos que a solidão sempre deixa em nós.

Um dos que mais envelheceram chamou-me em um canto para dizer que os colegas estavam muito velhos, e que ele se assustara com a aparência de alguns. Em seguida, seu cuidador familial viria resgatá-lo. Imagino que ele não sabia retornar à sua cadeira.

E surgiram histórias de medo e superação. Problemas graves de saúde foram vencidos, diagnósticos sombrios foram jogados por terra. Ali, apenas a lembrança de obstruções coronarianas, acidentes vasculares, rescaldos de artroses, cabeleiras que se foram, carecas que despontaram, aneurismas cerebrais desmascarados por nova tomografia.

Cinquenta jovens que estudaram juntos, muitas vezes fugindo da tirania da ditadura, que conhecemos logo no início do nosso curso, em 1966. 

Cinquenta setentões que se reencontram para celebrar a vida. Cinquenta tons de cinza, azul, negro, verde, azul, amarelo. E vermelho também. Todas as nuances de uma vida.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 27, 2021

O MENINO FARAÓ E O MENINO IMPERADOR

Nascido em 1341 a.C. e falecido em 1323 a.C., aos dezenove anos, Tutankamon, filho do faraó Aquenaton, foi o faraó do Egito Antigo entre os anos de 1332 a 1323 a.C. Tutankamon foi o último faraó da décima oitava dinastia. Tinha apenas dez anos de idade quando assumiu o reinado.

Akhenaton tentou instaurar o monoteísmo no Egito, dentro de uma cultura politeísta, fato inédito na Antiguidade. O faraó transferiu a capital do Reino para Amarna, onde rendia culto ao novo deus, Aton, identificado como o sol pelos egípcios. Esta mudança trouxe perturbações sociais e políticas no Egito. 

Após a morte de Aquenaton, Tutankamon restaurou o antigo culto aos deuses. Por ter sido considerado um herege pelos seus sucessores, Aquenaton teve seu nome riscado da lista de faraós egípcios.

Há uma corrente que afirma que Tutankamon foi assassinado com uma forte pancada na cabeça. Exames de tomografia computadorizada, feitos em 2005, descartam essa hipótese. Ele morreu de complicações associadas a uma fratura da perna direita, que teria acontecido quando participava de uma caçada.

A importância atribuída a este faraó está relacionada ao fato de sua tumba, situada em uma pirâmide no Vale dos Reis, ter sido encontrada intacta. Nela, o arqueólogo inglês Howard Carter encontrou, em 1922, uma grande quantidade de tesouros. O corpo mumificado de Tutankamon estava na tumba, dentro de um sarcófago, coberto com uma máscara mortuária de ouro. O caixão onde estava a múmia do faraó também é de ouro maciço. 

Na tumba de Tutankamon foram encontradas mais de cinco mil peças, como joias, utensílios pessoais, ornamentos, vasos, esculturas, armas etc.

Algo parecido aconteceria no Brasil. D. João VI, rei de Portugal, quando retornou a Lisboa deixou seu filho mais velho, Dom Pedro, como Príncipe Regente do Brasil. A independência do Brasil aconteceria um ano depois, tendo como marco o grito às margens do riacho do Ipiranga em 7 de setembro de 1822 e a aclamação de D. Pedro imperador do Brasil no dia 12 de outubro daquele ano. 

O desgaste na relação de D. Pedro I com a elite econômica e política fizeram com que o imperador abdicasse do trono em favor de seu filho, que tinha apenas cinco anos de idade. Com a morte de D. Pedro I, providenciaram a antecipação da maioridade de D. Pedro II, e pouco antes de completar 15 anos assumiu o trono, em 1840, tendo seu reinado terminado em 1889, quando a Proclamação da República determinou o fim da monarquia do Brasil.

Tutankamon, faraó aos dez anos de idade, pai autoritário. Teve que desfazer algumas decisões erradas do governo anterior.

D. Pedro II, imperador do Brasil aos 14 anos, pai autoritário. Teve que assumir atitudes opostas às do governo anterior.

Tutankamon e D. Pedro II.  Ambos fizeram um bom governo, com cerca 3.216 anos entre eles.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 20, 2021

QUANTAS VEZES

Quantas vezes paramos para tentar ouvir, no redemoinho do tempo, frases de carinho, falas de conforto. E buscamos refúgio em algum momento de nossa meninice; a vida correndo sem freios no rumo das incertezas.

Quantas vezes, nas noites mal dormidas, quando a preocupação e os temores de adulto assolam nossa mente, recordamos um colo de amor que nos acolheu com firmeza, e nos faz retornar à infância.

Quantas vezes, em momentos de desespero, logo imaginamos aquelas mãos repletas de zelo e amor que nos livraram de tantas ameaças, trazendo conforto e aconchego.

Por quantas vezes, quando a vida corria célere para o desfecho definitivo, aquela voz surgida dos rincões da alma nos advertindo e nos guiando, liberando-nos do perigo. No momento seguinte, livre do terrível acidente, em meio ao choro e aos tremores, a lembrança de um rosto que certamente nos acompanhará até que a vida desista de nós.

Quantas vezes, em meio a terríveis pesadelos, gritávamos por ela, para logo em seguida sentirmos sua presença suave como um anjo. 

Quantas vezes, nas noites em que a cruviana tinha encontro marcado com a serração, suores inundando nossos rostos de crianças, sua mão de pluma tinha o condão de nos acalmar, afastando fictícias tempestades, monstros imaginários.

Quantas vezes, tremendo com medo do bicho-papão ou do papafigo, em madrugadas sem fim, aquele sussurro de paz no ouvido: “Fique calmo, filho, eu estou aqui”! 

Quantas vezes, em nossas diabruras de criança, quando tudo parecia caminhar para um desfecho desagradável, aquela voz de calmaria pôs sua mão abençoada na nossa frente, puro escudo e proteção.

Ao final, a certeza de que para cada um de nós existe uma Lady Laura.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 13, 2021

O VENTO QUE SOPRA NA ESQUINA DO MUNDO

Nasci e cresci em uma cidade que fica bem na esquina do mundo. Aqui, o vento bate primeiro. Sopra suave, depois de sua passagem pelo oceano que nos separa da África. Surge limpinho, com ares de viajante, depois de passar rodopiando, atiçando ondas, tangendo embarcações, brincando de dono dos mares.

Ao chegar, o vento que soprava em minha meninice trazia consigo resquícios de ondas, a visão do infinito, restos de luares. Passava serelepe pelas salinas, abençoava coqueirais e alvoroçava cajueiros esquecidos no chão seco e salitrado. Resvalando nas falésias, refrescava grotões anônimos, pequenos cânions que pensavam ser desfiladeiros em uma terra sem montanhas.

Em Upanema, cedo chegado, acomodava-se com a tardinha e, nesse conluio, arrastava-se pelas noites, espargindo seus nanocristais com cheiro de mar, em seus rolés por dunas assanhadas, resvalando em suas barrigas de dinossauro, desnudando pequenos seres ctônicos em suas andanças invisíveis. Foi aí que certa vez tentei escrever meu nome na barriga do vento, mas acho que ele se esquivou.

Planalto Central, 2014. Por que agora falo do vento que passa aqui? De passagem pela Chapada dos Veadeiros, em Alto Paraíso, Goiás – conhecido como o paraíso do centro oeste -, caminhando por trilhas feitas de pedras brancas e cristais de rocha, ao lado de uma legítima vegetação do cerrado, ouvindo ao longe o barulho de nascentes de água límpida, abafado pelo ronco das corredeiras, fui tocado por um vento que imaginei conhecido. Um vento com um pequeno rabisco na barriga.

Daí, minha suspeita de que esse vento seco, que cruza a imensidão deste cerrado oculto no ventre de um Goiás desnudado por Brasília, refrescando cachoeiras e berrando no chão seco, é o mesmo que passou por minha terra, lá na esquina do mundo. Pelo rabisco em sua barriga, concluo que é ele, sim, embora desfigurado. Percebo meu nome que nele escrevi quando criança, bem próximo ao seu umbigo.

É que, aqui, despido de seus elementos marinhos, o vento corre ligeiro, aquecido e quase sem umidade. Aqui, conhece pássaros diferentes; não mais maçaricos. Aqui, aera e refresca plantas distintas. É o pequi em vez do caju; plantações de soja em vez de várzeas salitradas.

Um vento com ares diferentes, mas conhecido desde minha infância.

Um risco na barriga do vento. Coisas de criança. Devaneios de adulto.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 6, 2021

O ABORTAMENTO DA CHUVA

Naquela noite era certo, a chuva viria. Todos os sinais para sua chegada foram sendo pouco a pouco apresentados. Céu escuro, nuvens matreiras se aglomerando. No quintal de sua casa, Jacinto andava de um lado para outro, com as mãos atrás do corpo, olhando para o céu. Certeza. Choveria à noite. Sua plantação precisava de chuva.

E a noite chegou, mais escura por causa das nuvens da chuva, que se anunciava. Já eram dez e meia; a usina de luz já avisara que ia desligar seu motor barulhento, e ela, a chuva, não chegava.

No dia seguinte, com as ruas cheias de calor e carentes de chuva, as conversas mais desencontradas fluíam pelos cantos da cidade. Afinal, choveu ou não? Em uma bodega da Rua da Frente, um senhor – que não lembro quem -, falou, quase parando o copo a meio caminho entre o balcão e boca, referindo-se aos trovões e relâmpagos que naquela noite assustaram as crianças em suas redes com cheirinho de quarador:

– Choveu, sim!

– Mas como, se ninguém viu cair uma gota d’água sequer? – falou alguém.

– Mas choveu, tenho certeza! – falou o homem que não lembro quem.

– Mas como pode ter chovido, se a água não caiu sobre a terra? – falou alguém.

– E o homem que não lembro quem arrematou:

– Essa chuva foi como uma ejaculação ao contrário, com o conteúdo sendo jogado de volta para dentro da bexiga. Já li que isso existe.

E outra pessoa respondeu:

– Existe, sim. Chama-se ejaculação retrógrada.

– Isso mesmo – respondeu o homem que não lembro quem.

E outra pessoa respondeu, complementando:

– Esse tipo de chuva chama-se Virga, também conhecida por Chuva Invisível ou Chuva Fantasma.

A questão estava equacionada. Chovera, sim, mas a água não atingira a superfície da terra; fora evaporada.

O bodegueiro coçou a cabeça com ar de desconfiança. Chuva ao contrárioAí tem! E voltou para o interior do estabelecimento. Do fundo da mercearia, resmungava baixinho: Chuva ao contrário! Hã! De onde esse pessoal tirou essa estória?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Em meteorologia, Virga, também conhecida por “Chuva Invisível” ou “Chuva Fantasma”, é um tipo de precipitação que cai de uma nuvem, mas evapora-se antes de atingir o solo enquanto está ainda a cair, num fenômeno que acontece principalmente em períodos/locais de ar seco. Wikipédia

Ejaculação retrógrada é o nome dado ao fenômeno da ejaculação na qual o sêmen, que normalmente sai através da uretra, flui em direção à bexiga urinária. Wikipédia.

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