Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 13, 2019

UM CAVALO PODE SER SENADOR? E CÔNSUL, PODE?

No início da era cristã (37 a 41 d.C) o Império Romano teve como Imperador um homem impiedoso – Calígula. Ele tinha um cavalo de estimação – Incitatus -, que dispunha de dezoito criados pessoais, andava enfeitado com um colar de pedras preciosas e dormia sobre mantas de cor púrpura, a cor dos trajes imperiais. O cavalo de Calígula foi eternizado com uma estátua de mármore, em tamanho real.

Calígula – Caio Júlio César Augusto Germânico – foi o terceiro imperador romano, e nasceu em 31 de agosto do ano 12 da era cristã. Calígula foi descrito por historiadores como um demente irascível, um assassino frio, caprichoso, doente sexual e esbanjador.

As extravagâncias e o comportamento insano de Calígula incitaram a ira do povo e do Senado. No dia 24 de janeiro do ano 41 d.C., o jovem Imperador foi atacado e morto com dezenas de facadas por um grupo de guardas, quando tinha apenas 28 anos.

Assassinato de Calígula

Incitatus teve seu nome incluído no rol dos senadores, e Calígula teria ponderado a hipótese de fazê-lo cônsul.

Um cavalo pode ser senador. E cônsul, também.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 6, 2019

O CÉREBRO HUMANO ESTÁ DIMINUINDO?

No homem atual, o cérebro equivale a 2% a 3% do peso corporal, mas consome 25% da energia do corpo em repouso. O cérebro de outros primatas não requer mais de 8% de energia em repouso. Os homens desviaram energia dos músculos para os neurônios. Por mais de dois milhões de anos as redes neurais dos humanos continuaram se expandindo.

Os humanos, mesmo com um cérebro de maior volume, continuaram a ser criaturas fracas e marginais por dois milhões de anos. Somente há 400 mil anos várias espécies de homens começaram a caçar animais grandes de maneira regular, e somente com a ascenção do Homo sapiens. Há 100 mil anos esse saltou para o topo da cadeia alimentar (Yuval Noah, em Sapiens).

Há indícios de que o tamanho médio do cérebro de um sapiens efetivamente diminuiu desde a era caçador e coletor de vegetais. A sobrevivência naquela época requeria de cada indivíduo habilidades mentais sofisticadas. Com o surgimento da agricultura e da indústria, as pessoas puderam contar cada vez mais com a habilidade de outros para sobreviver. Hoje, para realizar uma conta simples de matemática, as pessoas utilizam uma calculadora. Nem estou falando de uma regra de três simples. Em uma linha de montagem, um operário participa com uma pequena parte, repetida e cansativa.

Nos últimos 20.000 anos o volume médio do cérebro humano do sexo masculino diminuiu de 1.500 centímetros cúbicos para 1.350 centímetros cúbicos, o que equivale a uma redução de um volume equivalente a uma bola de tênis. Esta redução é equivalente nas mulheres. Nossa inteligência está diminuindo? Alguns estudiosos entendem que, como o cérebro encolheu, levando-nos a pensadores mais ágeis.

Lendas, mitos, deuses e religiões apareceram pela primeira vez  com a Revolução Cognitiva, 70 mil anos a 30 mil anos atrás. Antes disso, muitas espécies animais e humanos foram capazes de dizer: Cuidado! Um leão! Graças à Evolução Cognitiva, o Homo sapiensadquiriu a capacidade de dizer: O leão é o espírito guardião da nossa tribo. Essa capacidade de falar sobre ficções é a característica mais singular dos sapiens. A ficção nos permitiu não só imaginar coisas como também fazer isso coletivamente (Yuval Noah, em Sapiens).

Alguns cientistas apontam o aquecimento da Terra, que também aconteceu há 20 mil anos, como possível causa da diminuição do volume do nosso cérebro. Outra teoria atribui esse fenômeno ao surgimento da agricultura que, paradoxalmente, teve como resultado inicial o agravamento da nutrição. Em contraposição a essa teoria, alguns firmam que a revolução agrícola não chegou à Austrália ou à África do Sul até  os tempos quase contemporâneos, porém o volume  do cérebro diminuiu desde a Idade da Pedra nesses lugares também.

O cérebro dos humanos aumentou de volume para dar conta de habilidades mentais sofisticadas.

Com o avanço da tecnologia, não haveria mais necessidade de tanto cérebro?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 30, 2019

GOBEKLI TEPE, O PRIMEIRO TEMPLO?

Os altares sagrados de Stonehenge, erguidos pelos celtas dois mil anos a.C., com empilhamento de blocos de pedra, alguns pesando dezenas de toneladas, eram considerados os primeiros e mais importantes templos já construídos pelo ser humano, na ilha de Grã Bretanha. Esta aventura humana levou o escritor Bernard Cornwell a escrever o sucesso editorial Stonehenge, onde retrata a aventura surreal da devoção daquele povo.

Em Stonehenge as comunidades eram bastante primitivas, e suas preocupações vitais eram agradar os deuses, oferecendo sacrifícios humanos, providenciando víveres para subsistência, cuidando de seus problemas de saúde e construindo templos. Para isso, faziam seus vizinhos de escravos, e tinham o extermínio do desafeto como marca de respeito e poder. Quantos mais inimigos um guerreiro fosse capaz de matar, mais respeitado e temido.

stonehengeFoto pessoal

Na década de 1990 foi descoberto o que se considera o berço dos deuses. Pilares de calcário em forma de T foram encontrados em escavações realizadas em um pico das montanhas Taurus, na Turquia – ao norte da fronteira com a Síria. De fato, trata-se de um complexo de templos de pedra – Gobekli Tepe.  Esse conjunto de templos é o local de culto mais antigo já descoberto até hoje. Os monólitos são decorados com figuras de animais esculpidos em alto relevo, representando leões, raposas, touros, serpentes, gazelas, burros, répteis, insetos, aracnídeos e pássaros.

Gobekli Tepe 1Fotos internet

Gobekli Tepe 2

Gobekli Tepe 3Gobekli Tepe foi construído há 12 mil anos, quando os seres humanos viviam em pequenos grupos nômades que sobreviviam da caça de pequenos animais e da coleta de vegetais. Eram os caçadores-coletores. Como, então, foram capazes de cortar, moldar e transportar pedras de 15 a 20 toneladas sem dispor de animais para tração, já que ainda não havia a roda? Naquele tempo não havia escrita e não se conheciam a cerâmica e o metal.

Em Stonehenge, pedras trabalhadas, mas sem inscrições, dispostas em círculo.

Em Gobekli Tepe, pedras trabalhadas, em forma de T, com figuras em alto relevo, oito mil anos antes de os celtas construírem Stonehenge.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 25, 2019

UM ROSTO DE MULHER

Viagem a São Paulo. Uma visita. Um amigo. Na sala, do lado direito, em meio a outros quadros, um rosto de mulher. Fixei o olhar naquele rosto sereno, quase vivo, enigmático.

Esperei ficar sozinho. Uma foto. Rápido, de forma sorrateira. Um furto-, pensei. No meio da nossa conversa, mais um olhar para aquela parede branca, de forma dissimulada. O dono da casa percebeu, e se dispôs à apresentação: Esta é Silene. Adoro esta foto-, falou enquanto olhava para o quadro.

Nesse momento, chegou mais um amigo. A conversa ganhou novos rumos, ou se perdeu. Falou-se do seu trabalho como fotógrafo e das perspectivas para o futuro de seus projetos. Também se especializara em gastronomia, e planejava dedicar-se mais a esta área. Boa parte da conversa viajou por temperos, doces e os modos de preparação.

E eu de olho em Silene. Analisei de longe sua testa, sobrancelhas, seu nariz altivo de modelo, sua boca sensual, seu queixo fino. Na foto não aparecem os cabelos, que logo imaginei forma e cor. Naquela parede, apenas um rosto misterioso e provocador.

Na saída, aperto de mão e mais uma olhada. A última-, pensei. E logo veio o fato real, exposto em tom de despedida: Silene é uma cabeça de manequim que eu comprei em uma loja de perucas especiais -, falou o meu amigo com certo orgulho. Essa cabeça fez parte dos meus primeiros ensaios fotográficos, e eu a mantinha nesta sala. Mas um dia desses um amigo esbarrou forte em minha modelo e ela se partiu. Joguei fora a cabeça danificada -, encerrou com ar de tristeza.

image1Foto: Lucas Fonseca

Um rosto altivo, um belo nariz, um olhar sem ponto futuro.

Silene, uma cabeça de manequim, sem um fio de cabelo sequer, com dois velcros para prender as perucas.

A foto veio comigo, escondida em meu smartphone.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 9, 2019

QUANDO A MÚSICA VIRA SONHO

Rodrigo é um médico clínico que ainda trabalha para o Ministério da Saúde, em avaliação de projetos. Formou-se em Belém do Pará; trabalhou como médico em Serra Pelada, onde enfrentou a bruteza da exploração do garimpo determinando  o comportamento do ser humano.

Sua vida profissional está recheada de eventos inusitados. Em Serra Pelada, foi chamado pelo dentista para testemunhar uma barbaridade: o pai de uma garota de 15 anos fora ao seu consultório pela manhã, pedindo que fossem extraídos todos os dentes de sua filha, que adorava uma chapa(prótese) na boca, como sua avó, e o pai havia prometido esse presente no dia dos seus 15 anos. A proposta foi veementemente rechaçada, e naquele momento o pai havia retornado para mostrar a adolescente com todos os dentes extraídos.

Em Serra Pelada o Dr. Rodrigo viveria uma das maiores comoções de sua vida. É que, sem jamais ter feito um procedimento cirúrgico (ali, havia participado de algumas cirurgias auxiliando o cirurgião). Naquele domingo o clínico geral viu-se obrigado a realizar a primeira e única cesariana de sua vida, em uma tentativa de salvar a vida do bebê e de sua mãe, em um plantão de final de semana, contando com a ajuda de um hematologista que chegara à unidade de saúde há dez dias. Auxiliando os dois, uma competente enfermeira e uma auxiliar de enfermagem.

Ao final da cirurgia, foram tomados por forte emoção ao ver o rostinho bonito do garoto, que descansava ao lado da mãe. Uma experiência única na vida daquele médico,  forçada por uma emergência obstétrica no meio da selva.

Porém foi em Brasília que o Dr. Rodrigo viveria sua maior emoção. Sua esposa estava em fase final de um câncer de mama. Decidiu levar seu violão para o hospital, onde à noite tocava e cantava baixinho músicas para passar o tempo. Sua esposa ficava calada, envolvida com a melodia e a voz do marido.

O quadro clínico foi ficando mais crítico, e a paciente já dava sinais de falência de suas funções vitais. No final da semana, pouco antes da meia noite, quase sem forças, ela sussurrou para o marido:

– Cante algumas músicas que marcaram a nossa vida -, pediu com dificuldade.

Rodrigo, embora cansado, iniciou cantando as músicas que embalaram o começo do namoro. Na sequência, cantou as músicas que ela adorava. Aqui e ali ela abria os olhos e sorria. Logo ela estaria em sono profundo.

No dia seguinte Rodrigo se deu conta de que sua esposa estava morta, com uma expressão de tranquilidade no rosto.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 2, 2019

ABLAÇÃO DE FOCO ARRITMOGÊNICO

Em seu consultório no Hospital de Base, o eletrofisiologista recebeu uma senhora de 78 anos que fora encaminhada para o serviço de arritmologia. Apresentava crises de taquicardia, com histórico pessoal de algumas internações.

Após detalhado exame clínico e realização do estudo eletrofisiológico, o médico cardiologista, acompanhado de um médico residente, explicou para a paciente, que viera à consulta sozinha:

– Dona Cândida, o seu caso necessita de uma ablação. Ablação de foco arritmogênico.

Em seguida, explicou pacientemente o que era uma ablação, e finalizou:

– Fique tranquila, dona Cândida, pois de cada cem pacientes que fazem a ablação apenas um poderá ter necessidade de um marcapasso depois do procedimento. Entendido?

– Entendido – respondeu a paciente.

No dia seguinte, ao chegar para o atendimento ambulatorial, o médico percebeu que havia um grande número de pessoas junto à porta do consultório, inclusive duas crianças. Ao perceber a aproximação do médico, o macho alfa já acionara seus romboides e aproximara suas escápulas, visando a um aumento da estatura, que já era avantajada; logo, um corredor polonês estava formado. O profissional foi cercado pelo grupo, e um deles assim se expressou:

– Doutor, como é que o senhor quer realizar um procedimento na minha avó em que apenas uma pessoa em cada cem escapa com vida?

Aqui, a clara percepção de um mal entendimento. E da falta de um acompanhante.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Arritmia cardíaca é uma irregularidade no ritmo cardíaco que indica um mau funcionamento do coração, manifestando-se com palpitações, dificuldades respiratórias, dores no peito, tonturas e desmaios.

Ablação é um método de tratamento de arritmias cardíacas com a cauterização dos seus focos, após a localização pelo estudo eletrofisiológico. A cauterização é feita com utilização de radiofrequência, forma de energia semelhante ao bisturi elétrico.

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 27, 2019

DEGUSTAÇÃO DE VINHOS, evento imperdível

Os dicionários, de modo geral, conceituam degustação como a ação de saborear, avaliar ou apreciar através do paladar. Concordo, desde que a isso se acrescente a ideia de conhecer, aprofundar, instruir-se.

A degustação de vinhos é o exemplo mais completo do conceito esperado para definição do verbo degustar. Ali, além de curtir o sabor de cada garrafa, com os detalhes das regiões onde é produzido cada vinho, somos submetidos a um tipo especial de emoção: o prazer da convivência e as informações que fluem de cada garrafa, com suas histórias sempre ricas de conhecimentos.

Participei de algumas degustações, mas três delas se destacam por seu conteúdo de informações relevantes em torno dos tipos de solos, das temperaturas de cada região e da forma de cultivo. Aqui, a importância dos acompanhamentos, sejam as harmonizações com queijos, pães ou embutidos.

Minha primeira degustação especial aconteceu na vinícola da Cartuxa, na cidade de Évora,  próximo à cidade de Lisboa, em Portugal. Ali, excelentes vinhos foram servidos tendo como pano de fundo a técnica de produção, a importância de cada safra e o zelo pelo produto nobre da casa: o Pêra Manca.

A segunda aconteceu em Buenos Aires, em uma adega, e teve como elemento de destaque a origem de cada vinho de acordo com a altitude em que são cultivadas as parreiras. Aqui, a importância do clima e do terreno na definição das castas.

A terceira ocorreu em Santiago, capital do Chile. Ali, em uma vinícola que produz vinhos orgânicos, entramos em contato direto com as plantações, com detalhes que envolvem uma forma de cultivo sem utilização de produtos químicos nem de  agrotóxicos. Ali também conhecemos as características das plantas que, de uma forma ecológica, produzirão os melhores vinhos orgânicos de toda a América do Sul.

Degustação de vinhos. Experiência que agrega conhecimentos que diversificam e enriquecem nossa cultura. Tim-tim.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 19, 2019

MINAS DE SAL GEMA, a importância de Wieliczka

Há cerca de um mês circulou pelos jornais brasileiros a notícia bombástica da criação de um resort para tratamento da saúde na Bielorrússia. Afirmam que o estabelecimento não é um spa, mas uma clínica de tratamento – espeleoteraia – para alergias e reforço do bem estar das pessoas, além do alívio das dificuldades respiratórias.

A Bielorrússia ou Belarus, cuja capital é Minsk, é um país sem saída para o mar, localizado na Europa Oriental, que faz fronteira om a Rússia, com a Ucrânia, com a Polônia, a Letônia e a Lituânia.

Formada por duas raízes de palavras gregas – espeleio= caverna e terapia– que representa o tratamento, este método utiliza o benfazejo ambiente das cavernas como elemento de cura.Foto internetFoto internet

Visitei a mina de sal gema de Wieliczka, na área metropolitana de Cracóvia, na Polônia, próximo aos campos de concentração de Auschwitz e Birkenau. Fundada em 1290, a mina de Wieliczka é Patrimônio Mundial da Unesco.

Esse conjunto de minas remonta a treze milhões de anos, alcançando 327 metros de profundidade. São trezentos quilômetros de galerias, e ali se respira o ar mais puro do mundo, a uma temperatura constante de 14 graus Celsius.

Por conta dessa oxigenoterapia natural, que propicia uma ação benéfica sobre a mucosa respiratória e um bem-estar no respirar das pessoas, em Wieliczka foi construído um hospital de haloterapia– terapia do sal -, indicada para pessoas com doenças respiratórias.

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Wieliczka, Patrimônio da Humanidade, um hospital de haloterapia.

Belarus, espeleoterapia – um spa para os que têm muito dinheiro.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 12, 2019

UM CASO DE AMOR

Conheci Londres, Espanha, Itália, Bruxelas, Turquia, Croácia, Nova York, Berlim, Paris, Suíça, Luxemburgo, Holanda, além de outros. Perceba que misturei capitais com países. É para demonstrar aqueles que tive oportunidade de conhecer várias cidades de um mesmo país.

E conheci Portugal. O que tem esse pequeno país de tão especial? São tantas as boas lembranças de Portugal que tenho dificuldade de citar as que mais tocaram minha sensibilidade. Poderia justificar citando Coimbra, Porto, Évora, Guimarães, Lisboa.

Vou iniciar pelo idioma, que é um pouco diferente do nosso modo brasileiro de falar palavras e construir frases. Os portugueses têm um sotaque especial, de tal modo que somente eles, ou talvez pessoas que residem no país há muitos anos, conseguem assim se expressar. O modo todo especial como o português canta é muito difícil de ser igualado. E eu adoro isso. Em Portugal, a ausência do gerúndio é quase regra absoluta. Estás a pensar? – dizem os portugueses. O tu no lugar de você é outro detalhe charmoso.

A forma meio melancólica de se comunicar é bastante diferente do nosso modo, porém no dia a dia chega a nos encantar. Sente-se uma amargura que flui da alma das pessoas. Percebe-se que os portugueses são muito objetivos, e isso pode ser confundido com má vontade.

Vou citar uma vivência pessoal. Chegando com um grupo a um restaurante de Lisboa, dirigi-me a uma garçonete e perguntei:

– Onde vamos sentar?

– Nas cadeiras! – Respondeu, e retornou ao serviço.

No Brasil, a resposta poderia ser:

– O grupo pode sentar nas mesas do lado de dentro, porque aqui fora está frio.

Se você perguntar a um português se ele sabe que horas são, ele responde que sabe, e vai embora. Esse é um dos modos de ser do português, que muita gente não é capaz de entender, mas eu gosto e divulgo.

No Brasil, pessoas sem compromisso com a realidade pregam que o português é burro. É que eles levam tudo ao pé da letra. Tirei este exemplo da internet: Fui a uma loja de roupa, perguntei se podia ver a camisa e a atendente respondeumas é claro que podes ver.A pessoa pegou a roupa e a mulher gritou: Falei que podias ver, mas não tocar!

 Um amigo meu, em Lisboa, perguntou a um barbeiro se ele começava a atender às oito horas. Ele respondeu: Não, às vezes eu começo às 7:57, outras vezes às 8 horas e muitas vezes inicio às 8:03. Depende do transporte. Claro que esta frase foi pronunciada usando seu sotaque especial e com palavras que somente os portugueses conseguem encaixar. No final, o palavreado flui bonito.

 A sinceridade é outro ponto forte nos portugueses. São sinceros, e percebemos não terem vocação para a mentira. Aqui, a palavra tem maior valor. Isso nos leva a confiar mais nas pessoas.

Portugal, não há como não gostar de ti.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 5, 2019

TITO, MEU FILHO!

Tito Flávio Vespasiano foi o imperador romano que ocupou o poder em 69 d.C., logo depois do suicídio de Nero. Foi proclamado imperador pelos seus próprios soldados em Alexandria.

Decorridos dois anos, no dia 22 de junho do ano 79 d.C., o imperador Vespasiano escreveu esta carta a seu filho Tito:

Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões e os jornalistas. De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colesseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória.

Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis(nádegas): numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro.

Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma por omnia saecula saeculorum, e sempre que o olharem dirão: Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou. Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão. Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas.

Vel caeco appareat (Até um cego vê isso). Portanto, deves construir esse estádio em Roma. Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase: Ad captandum vulgus, panem et circenses (Para seduzir o povo: pão e circo). Esperarei por ti ao lado de Júpiter.

Vespasiano morreria no dia seguinte. Tito inaugurou o Coliseu com cem dias de festa. Tanto o pai quanto o filho foram deificados pelo senado romano.

Pão e circo. Distribuição de recursos públicos aos amigos. Roma, ano 79 d.C.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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