Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 12, 2018

UMA PSIQUIATRA EM APUROS

Um serviço de emergência psiquiátrica exige dos profissionais que ali trabalham, além dos conhecimentos técnicos específicos, um potencial envolvimento com a verdade do ser humano. A presente estória foi vivenciada por uma psiquiatra de Brasília que, recém-saída de sua especialização, trabalhou como plantonista em um hospital psiquiátrico no interior de São Paulo. Esta estória já foi contada aqui.

Certa noite, por voltadas onze horas, o hospital psiquiátrico foi avisado de que uma ambulância estava conduzindo um paciente bastante conhecido daquela unidade hospitalar. Jorjão era seu nome fictício; um sujeito forte, medindo um pouco acima de dois metros, portador de transtorno bipolar, que desenvolvera um surto maníaco. Em casa, descontrolado, batera muito no pai e destruíra quase todos os móveis.

A enfermeira chefe e o pessoal de apoio do hospital foram avisados. Em poucos minutos, uma ambulância adentrava o portão do estabelecimento, conduzindo o paciente. O veículo dirigiu-se para a entrada de um grande corredor, em um local construído para receber pacientes agressivos. O veículo parou, e a Dra. Lúcia logo percebeu o tamanho da encrenca. O paciente era tão grande que, do lado de fora da janela, somente se conseguia ver parte do ombro e do tórax . Então, iniciou-se um diálogo difícil e demorado:

– Oi, Jorjão, vamos descer para tomar um café?

– Se eu descer, vou quebrar tudo, inclusive a doutora!

E a conversa prosseguiu, com pequenos avanços e retrocessos difíceis de serem recuperadas. Uma hora e dez minutos depois, um acordo: Jorjão concordou em descer para tomar um cafezinho e conversar, porém com uma exigência: todos deveriam se afastar e ficariam apenas ele e a doutora, em cuja companhia ele entraria na copa. E mais ninguém. Proposta aceita. Já fora da ambulância, Jorjão gritou, com sua voz de trovão:

– Somente eu e a doutora!

O paciente e a médica caminhavam pelo corredor, cujas luzes iam se acendendo à medida em que os dois passavam. Nesse momento, a Dra. Lúcia arrependera-se do que estaria para acontecer, mas já haviam atravessado o Rubicão – alea jacta est,imaginou a psiquiatra. Ato contínuo, membros da enfermagem surgiram e aplicaram uma injeção especialmente preparada para aquele caso, composta de quatro tipos de medicação. Muita agitação. O paciente era forte em demasia, e difícil de ser contido. Aguardaram alguns minutos e a medicação não fez efeito. A médica reavaliou o caso e prescreveu mais um dos medicamentos. Em alguns minutos o paciente havia se acalmado.

Jorjão foi internado, permanecendo no hospital por cerca de três meses. Nesse período, falava com insistência no nome da Dra. Lúcia com os companheiros de quarto. A médica só atendia pacientes da emergência, e apenas em seus plantões noturnos. Por esse motivo, só soube da alta de Jorjão através do pessoal de apoio.

Passaram-se seis meses. A médica, na fila do Banco do Brasil, distraída enquanto conferia alguns papéis a serem pagos em seguida, ergueu o olhar e contou: havia duas pessoas à sua frente. Percebeu que, atrás, a fila crescera.

De repente, uma pancada forte e decidida em seu ombro. Dra. Lúcia virou o rosto e constatou a presença desconfortável de cinco dedos enormes e uma palma de pele áspera fazendo peso em sua pele. Assustada, virou-se para trás.

– Oi, Jorjão, como vai?

– Escapando, feito gás de cozinha! Por falar em cozinha, a senhora me enganou. E não se engana uma pessoa daquela forma, doutora! Eu saí da ambulância para tomar um cafezinho e conversar. Fique sabendo que eu nunca consegui esquecer o que aconteceu naquela noite.

Logo, um senhor ao lado apresentou-se como o pai de Jorjão, e a conversa ficou um pouco mais amena. A médica respirou aliviada quando foi chamada pelo caixa do banco.

Quando a psiquiatra, na saída, se aproximava da porta giratória, Jorjão, agora no balcão de atendimento, virou-se para trás e lançou, qual flecha mortal, um olhar 121 na direção da médica, que quase congelou, pois conhecia muito bem o seu sentido. Instintivamente, lembrou-se do Código Penal.

Não se engana uma pessoa daquela forma. Esta frase, proferida no interior de um banco, em uma tarde quente, ribombaria nas lembranças de uma hoje experiente psiquiatra.

Um paciente. Uma aprendizagem. Uma mudança radical. A verdade, sempre.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 5, 2018

CRIANÇAS EM RISCO

Encontrava-me na área de alimentação de um grande supermercado, lanchando tranquilamente, quando uma moça chegou com uma criança de cerca de um ano em um carrinho, à minha frente. Parou, retirou a criança do carrinho e a colocou sobre a mesa. Fixei os olhos naquele quadro que me parecia surreal. De repente, ela se afastou para fazer o pedido no balcão, e deixou a criança sobre a mesa da lanchonete. Quando ia se afastando, dei um grito e ordenei que ela retornasse e colocasse a criança de volta no carrinho. Ela assim o fez, e me agradeceu quando saiu. Um acidente quase certo, evitado a tempo.

Em um plantão, atendi uma criança com a boca queimada por fora e por dentro. A mãe estava dando banho no menino quando ele colocou o chuveirinho na boca e soprou. Tomou um forte choque na boca, o que quase lhe custou a vida.

Dados da Sociedade Brasileira de Pediatria nos mostram que, no Brasil, cerca de 37 crianças e adolescentes sofrem de intoxicação pelo contato inadequado com medicamentos. Em 18 anos, 245 mil casos de intoxicação ocorreram nessa faixa etária.

 

Estados Total
Amazonas 910
Bahia 7.510
Ceará 2.794
Distrito Federal 7.782
Espírito Santo 16.806
Goiás 6.011
Mato Grosso 588
Mato Grosso do Sul 3.334
Minas Gerais 13.315
Pará 1.540
Paraíba 2.088
Paraná 5.592
Pernambuco 4.271
Piauí 248
Rio de Janeiro 11.602
Rio Grande do Norte 384
Rio Grande do Sul 47.342
Santa Catarina 6.980
São Paulo 88.582
Sergipe 2.525
Total 245.402

Os números mostram que o risco de intoxicação é maior entre crianças de um a quatro anos, com um número total de 130 mil, correspondendo a um percentual de 53% dos casos. O segundo grupo mais atingido vai de 14 a 19 anos (42.614 casos), seguido daqueles com idade entre cinco e nove anos (32.688 registros) e, por fim, as de 10 a 14 anos (24.282).

Tabela 1 – Casos Registrados de Intoxicações Humanas pelos Centros de Intoxicações, por Agente Tóxico e Faixa etária, Brasil, 2006, de 0 a 20 anos de idadeTotal de casos: 480481
Faixa Etária (anos) < 1 1 a 4 5 a 10 11 a 15 15 a 19
Agente no no no no no
Medicamentos 1099 8290 2288 1736 3201
Agrotóxicos/Uso Agrícola 46 402 108 167 569
Agrotóxicos/Uso Doméstico 176 1174 165 157 253
Produtos Veterinários 9 337 57 54 90
Raticidas 93 1119 127 173 574
Domissanitários 267 5245 685 371 611
Cosméticos 84 827 67 32 43
Produtos Químicos Industriais 120 2193 363 175 311
Metais 32 187 40 19 19
Drogas de Abuso 15 28 19 134 612
Plantas 58 701 300 122 73
Alimentos 30 162 171 137 158
Animais Peç./Serpentes 15 140 338 451 543
Animais Peç./Aranhas 27 262 240 272 308
Animais Peç./Escorpiões 33 411 515 503 576
Outros Animais Peç./Venenosos 52 543 638 444 446
Animais não Peçonhentos 41 396 392 356 359
Desconhecido 97 836 476 334 370
Outro 35 404 126 71 277

Fonte: MS / FIOCRUZ / SINITOX, 200611

Choques elétricos podem ser evitados, assim como a ingestão inadvertida de medicamentos e de produtos de limpeza, que ficam à disposição da meninada em embalagens dos mais variados tipos e com os mais diversos rótulos.

As novas tomadas ajudam a prevenir os choques elétricos. Aqui, a importância de não improvisar nas instalações. A vigilância é que faz a verdadeira diferença.

Ingestão de medicamentos e produtos que causam intoxicação também podem ser prevenidos. Nesse sentido, a guarda responsável desses produtos é essencial.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 28, 2018

HONESTINO, UM NOME, UMA PONTE

Pessoas do Brasil inteiro que vêm a Brasília atravessam uma ponte que ostenta um nome até pouco tempo desconhecido. Brasília, no entanto, conhece bem esse nome – Honestino Guimarães. Quer saber quem foi Honestino? Então, vamos à Wikipédia.

Por ironia, a atual ponte Honestino Guimarães chamava-se Costa e Silva, como podemos perceber nesse inconformismo anônimo.

ponte_honestino

Honestino Monteiro Guimarães era um jovem de 26 anos, nascido em Itaberaí, no estado de Goiás. Estudava Geologia na UnB – Universidade de Brasília e era presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília. Por conta de sua forte militância, foi preso quatro vezes, não mais retornando depois de sua quarta e derradeira prisão. Seu atestado de óbito só foi entregue à família em 1996, vinte e três anos depois, e sem constar a causa da morte.Ponte H. Guimarães

Com a edição do AI-5, Honestino passou a viver na clandestinidade, com Isaura, em São Paulo. Em 10 de outubro de 1973, foi preso no Rio de Janeiro por agentes do Centro de informações da Marinha (Cenimar), quando desapareceu aos 26 anos, sem deixar vestígios.

Nos bares de Brasília, fosse no Beirute ou no Gilberto Salomão, jovens estudantes cantavam músicas quase em sussurro, e recitavam poemas de artistas, o que, de alguma forma, ajudava a manter aceso o sonho da liberdade.

Entre os versos mais repetidos naqueles encontros, era recitado um soneto cuja autoria era atribuída a Honestino: Punhais Alabastrinos. Somente esta semana tomei conhecimento de que este soneto pertence a Liônio Guerra, que o publicou em seu livro O Doce Cárcere das Rimas, com o título de Amor a Três.

AMOR A TRÊS

Amei Maria, gente. Amei de fato!

Não por seus olhos lúbricos, ardentes,

Nem pelo toque de seus lábios quentes

Nem por seu corpo de infernal contato;

 Nem mesmo pelos ares insolentes

De um queixo fino e um narizinho chato.

De Maria, do amor que aqui relato,

Acreditem, irmãos, amei os dentes.

 Sim, os dentes! Punhais alabastrinos,

Alvíssimos, brilhantes, purpurinos,

De brancura mais branca que Deus fez!

 Eram pérolas, joias, diamantes,

Perfeitos, divinais, esfuziantes.

Os dentes de Maria… Todos três!!!…

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 21, 2018

REVOLUÇÃO DE 1930, vamos entender

Nós, brasileiros comuns, que estudamos em escolas públicas, não tivemos a oportunidade de conhecer e discutir os fatos históricos que aconteceram em nosso país, em especial quando se referiam ao envolvimento do Exército, ou melhor, das Forças Armadas. Quando muito, nos bancos escolares, havia uma referência aqui e ali sobre o tema, sem o  tempero da discussão.

Em busca de alguma informação, passei a me interessar pela leitura de  textos que tratavam do movimento tenentista Os Dezoito do Forte, que tentava derrubar a República Velha, e teve como motivação a vitória do candidato governista Arthur Bernardes à presidência da república nas eleições de 1º de março de 1922.

O candidato governista venceu a eleição com 56% dos votos válidos, e a oposição insistia na existência de fraudes. As oligarquias e o latifúndio, atrelados ao poderio dos fazendeiros, se opunham a um ideal de democracia idealizado por setores das forças armadas, em especial tenentes, sargentos, cabos e soldados. Na manhã do dia 5 de julho de 1922 o forte sofreu bombardeio da Fortaleza de Santa Cruz da Barra, que fica do lado oriental da barra da Baía de Guanabara. Dezessete militares e um civil saíram pelo calçadão da praia de Copacabana. Logo à frente, os 18 revolucionários foram derrotados em frente à Rua Barroso, atual Siqueira Campos, na altura do Posto 3 de Copacabana. Saldo do embate: do lado dos revoltosos, 14 mortos e 4 feridos.

Por se encontrarem os dois textos muito próximos, em seguida me dispus à leitura do segundo, que tratava de outro movimento armado, conhecido como Revolução de 1930, culminando com o Golpe que depôs o presidente da república, Washington Luís. O intervalo entre os dois eventos foi de apenas oito anos.

Veja como estas estórias são muito semelhantes. No ano de 1930, lideranças da oligarquia paulistana romperam a aliança com os mineiros (política do café-com-leite) e lançaram a candidatura de Júlio Prestes à presidência da República. Minas Gerais, como forma de reação, deu apoio ao canditado dos gaúchos, Getúlio Vargas, que tinha como candidato a vice o paraibano João Pessoa.

O Brasil continuava sendo governado pelas oligarquias de Minas Gerais e São Paulo. Essas oligarquias mantinham-se no poder através de eleições fraudulentas. Somente políticos que representavam seus interesses eram colocados no poder. Com isso, foi-se gerando descontentamento entre alguns setores militares

Nas eleições de 1930 houve um conflito político entre as oligarquias de Minas Gerais e São Paulo. Aquela era a vez de Minas Gerais indicar o candidato à presidência, porém os paulistas não abriram mão da candidatura de Júlio Prestes (que era fluminense, mas fez carreira política em São Paulo). Este comportamento causou descontentamento entre os políticos mineiros, que passaram a apoiar o candidato da oposição, o gaúcho Getúlio Vargas, governador do RS, que tinha como candidato a vice o paraibano João Pessoa. Júlio Prestes, apoiado pela elite de São Paulo, ganhou a eleição, mas havia indícios de fraude.

João Pessoa nasceu na cidade de Umbuzeiro, na Paraíba,  era sobrinho de Epitácio Pessoa, que fora presidente da República no período de 1919 a1922. O assassinato de João Pessoa por João Dantas, ocorrido em Recife no dia 26 de julho de 1930, no interior da Confeitaria Glória, por questões pessoais, foi usado como gatilho para pôr em marcha os entendimentos que culminariam com a deflagração da Revolução de 1930.

Washington Luiz, que seria o último presidente da República Velha, e então no poder, viu-se desprestigiado, mas não dava sinais de que renunciaria. Frente ao impasse, chefes militares do Exército e da Marinha depuseram o presidente, instalaram uma junta militar que em seguida transferiu o poder para Getúlio Vargas. Com isso, terminou o domínio das oligarquias no poder, e Getúlio Vargas governou o Brasil de forma provisória entre 1930 e 1934. Em 1934 o próprio Getúlio foi eleito presidente constitucional do Brasil pela Assembleia Constituinte, com mandato até 1937. Porém, através de um golpe que teve apoio de setores militares, permaneceu no poder até 1945, encerrando assim o período conhecido como Estado Novo.

Em 1951 Getúlio Vargas retornou à presidência da República, agora por meio do voto popular. Candidato pelo PTB, venceu o pleito de 1950 com 48,7% dos votos. Com a crise política e social solapando as bases do seu governo, o presidente redigiu uma carta-testamento e, no Palácio do Catete, suicidou-se com um tiro no peito no dia 24 de agosto de 1954.

Da morte de João Pessoa à Revolução de 1930, um pretexto fabricado.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 15, 2018

TRABANT, UM REGIME, UMA ERA

Com a queda do Muro de Berlim, no ano de 1989, muitos moradores da antiga Alemanha Oriental abandonaram seus automóveis nas ruas, com vergonha de aparecer dirigindo um carro que se tornara símbolo do atraso.

Era o Trabant – em alemão, companheiro de viagem– um automóvel com cara de tiozão que tinha uma carroceria de plástico parecido com fibra de vidro, porém mais barato, e não reciclável. Com suas características, o Trabant poderia partir-se em dois se fosse colocada uma carga além de sua capacidade.

O carro tinha fama de lento – desenvolvia uma velocidade máxima de 100/km/h e somente em vinte segundos acelerava de 0 a 80 km. Nos anos de 2009 e 2010 o governo alemão lançou um programa para renovação da frota de veículos, e mais alemães se desfizeram de seus Trabant. Hoje, uma empresa de Berlim organiza passeios de grupos de turistas dirigindo Trabant pelas ruas da cidade, formando um belo espetáculo visual.

Visitando Berlim, vale a pena conhecer a East Side Gallery, uma galeria de arte ao ar livre situada em uma sequência de 1.113 metros no lado leste do antigo muro que dividia a cidade, e foi preservado da demolição. Consta de 105 pinturas de artistas convidados de todas as partes do mundo, e foram iniciadas em 1990.

A galeria representa a apropriação de um muro até então intocado. A opressão de suas paredes passaram a exprimir a euforia da liberdade em face de um novo horizonte político para o mundo.

Uma das pinturas mais emblemáticas é o Beijo da Morte, quando o russo Brejnev cumprimenta o presidente da Alemanha Oriental em Berlim, 1979. Nessa pintura, Brejniev cumprimenta o presidente da Alemanha Oriental, Erich Honecker, em Berlim Oriental, 1979.

Beijo da Morte

Em outra  imagem, um Trabant parece atravessar o muro em direção ao desconhecido, apesar de seu simbolismo de atraso e subdesenvolvimento, por ser campeão de poluição sonora e emissão de gases tóxicos.

Trabant

O Beijo da Morte. O Trabant. Dois ícones que arregimentam milhares de pessoas no rumo da East Side Gallery todos os dias.

Não sei por que, lembrei-me do nosso Fiat 147.

EvaldOOliveira

Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 6, 2018

UM DIA DE CRIANÇA

Se eu pudesse, nem que fosse somente por um dia, poria minha vida em ordem, no que tange às reminiscências da infância. Hoje, já próximo ao fim da minha jornada, faria o mundo parar, retornaria no tempo e viveria um dia especial, com duas exigências prévias: gosto de cajarana e cheiro de oró. Ah!, e em plena maré de sizígia.

Pela manhã, vestiria uma calça curta, sustentada por suspensórios e, sem camisa, retornaria à Praia do Meio, bem no início da manhã, sentindo o toque da brisa em  meu corpo magricela, sob o intenso sol de março, com o cheiro de chuva trazido pelo vento que brinca de surfar sobre as ondas, fazendo a alegria de tainhas madrugadeiras. Na volta, caminharia pelas salinas de antigamente, com a visão distante de cataventos hoje espectros na paisagem de várzeas salitradas.

Ainda pela manhã, em frente à igreja, embarcaria em uma canoa e, aí sim, tomaria o rumo de Barra e Pernambuquinho, só para fazer inveja a um tal de Evaldo que hoje habita em mim. Na volta, passaria pela boca da barra para ver o mar de perto, fazer cócegas em sua barriga e fugiria, para que ele sequer suspeitasse de que fora eu quem o tirara do seu cochilo na sesta da preamar.

img_9842Foto Lucas Fonseca

À tardinha, usaria minha roupa de domingo, pensando em alugar uma bicicleta mequetrefe e passear pela Rua do Meio, até o final, na outra ponta, sem esquecer de passar brilhantina Glostora no cabelo, então farto e quase loiro. Na volta, passaria ao lado da igreja e visitaria a casa onde morei, revivendo a figura do meu pai atrás do balcão de sua bodega, e com certeza já imaginando coisas para a longa conversa à noite, em uma roda de cadeiras na calçada.

Caminharia despreocupado pelo Beco da Galinha Morta, na tentativa de dar de cara com um Zorro subnutrido e sem estilo que costumava aprontar uma zorra na saída que dá para a igreja, dar seu grito de guerra e em seguida desaparecer por onde surgira; o grande mistério de então. O herói mascarado só atacava à noite, lembrei agora.

À noite, andaria devagar, da pracinha até o Cine Coronel Fausto, pelo lado direito, curtindo cada fisionomia conhecida, e dando boa noite para todos, coisa que jamais fiz.

No cinema, qual o filme em exibição? Seria o que menos importaria. Compraria um ingresso colorido (azul, vermelho ou amarelo, naquela noite?) e esperaria a parada no meio do filme, onde uma bandinha tocava músicas de antigamente. Meu pai era um dos componentes daquele conjunto. No reinício do filme, um chicletes Adams na boca, guardando a caixinha para uma coleção sem futuro.

Pertinho das dez horas da noite, uma passada pela pracinha só para encontrar os retardatários conversando em pequenos grupos, aí incluídos os estudantes da Escola Técnica de Comércio, identificados por usarem uma calça cáqui com uma listra cor de vinho de cada lado da perna. Um charme. Mais adiante eu estudaria ali.

Voltaria para dormir em casa, agora em Brasília, porque já avisaram que a luz vai apagar.

É que já são dez e meia, e aparenta ser noite de cruviana.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 31, 2018

CASTELO DI BIVAR, EL CID NO SERTÃO

Viajando pelo Rio Grande do Norte, em minha romaria/peregrinação anual, ao  deixarmos a cidade de Acari, onde comemos cocada na quenga, dirigimo-nos a Carnaúba dos Dantas, município com fortes arrojos turístico-religiosos.

Uma das atrações de Carnaúba dos Dantas fica a um quilômetro dos limites da cidade, por onde se chega através de uma estrada vicinal. De longe, vislumbra-se um castelo de forma arredondada, cuja construção foi inspirada no castelo em que se ambientou o filme El Cid. Neste filme é contada a história da vida do maior herói do Reino de Castela, na Espanha, o cavaleiro Don Rodrigo Diaz de Bivar, chamado El Cid.Cast. El Cid

Mesmo com uma visão à distância, somos tomados pelo sentimento de respeito e admiração, em vista do árduo trabalho exigido para sua construção. O castelo fica fora dos limites da cidade, em área de difícil acesso, e a sequidade daquela região tem o condão do desencorajamento.

Castelo Di Bivar

O Castelo Di Bivar – este e o seu nome – foi construído por um seridoense com fama de roqueiro (José Ronilson Dantas), no sítio arqueológico Xique-Xique, que fica próximo do Monte do Galo, um dos principais pontos no roteiro do turismo religioso no Rio Grande do Norte. Naquele local os fiéis contam com uma capela, um cruzeiro, a estátua do galo e a sala dos ex-votos, além dos 12 passos de Cristo ao longo da subida.

Na aspereza do sertão nordestino, a beleza de um castelo evocando as bravuras de um herói espanhol.

El Cid revisitado.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 24, 2018

VIAGARISTAS SÃO OUTROS QUINHENTOS

A palavra vigarista envolve um golpe praticado com o envolvimento ou a citação de um vigário. Sua origem latina vem de vicarius, com o significado de “substituto, o que está em lugar de outro”. O vigário era um padre que substituía outro temporariamente em sua paróquia.

Portanto, a palavra vigarista origina-se da expressão conto do vigário, que significa alguém burla outra pessoa. Mas aí já são outros quinhentos.

E de onde teria surgido a expressão aí são outros quinhentos? Contam que em uma cidade do interior, onde não havia banco para as transações com o dinheiro, quem guardava as economias da população era o padre. Tudo na confiança, escrito em uma caderneta.

Certo dia, na saída da igreja, o padre caminhava cercado pelos paroquianos, quando um estranho se aproximou e disse:

– Padre, eu quero que o senhor guarde esses quinhentos contos de réis.

E entregou ao religioso um pacote de notas que, após serem contadas, foi levado para a casa paroquial e colocado no cofre.

Dois dias depois, o forasteiro foi à casa do padre e pediu seu dinheiro de volta, sem que alguém servisse de testemunha.

Na semana seguinte, novamente na saída da igreja, o estranho pediu ao padre que devolvesse seus quinhentos contos. O padre estranhou aquele pedido, pois já havia devolvido o dinheiro ao forasteiro, em sua casa.

– Mas eu já lhe devolvi esses quinhentos lá na casa paroquial, – falou o padre.

Um comerciante, colaborador da igreja, percebendo o mal estar do religioso, falou para o forasteiro:

– Foi comigo que o senhor deixou esses quinhentos contos. Vamos em minha loja que eu lhe devolvo.

– Não, esses aí são outros quinhentos. Eu pego com você mais tarde. Agora eu quero receber os quinhentos que eu deixei com o padre.

Esperteza em outras eras.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 10, 2018

A GRANDE FLOR DE AÇO E ALUMÍNIO

Depois de uma visita ao cemitério da Recoleta, você caminha por alguns minutos até à Praça das Nações Unidas e vai se encantar com uma imensa flor. No meio do parque, uma flor de aço e alumínio exibe-se ao vento e ao sol da capital da Argentina desde o ano de 2002, com suas seis pétalas, pesando 18 toneladas e com uma altura de 23 metros.

Localizada sobre um espelho d’água, a flor gigante de Buenos Aires abre suas pétalas às oito da manhã, como se por encanto, e se fecha ao anoitecer, girando conforme o dia passa. Todos os movimentos são controlados por um sistema elétrico que abre e fecha automaticamente as pétalas, a depender da hora do dia. À noite a flor fecha e de seu interior sai uma luz vermelha; pela manhã ela se abre novamente.

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Depois de caminhar pelo cemitério da Recoleta, uma flor nos espera.

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Com bom gosto, brilho e movimentos.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 3, 2018

UM RESTAURANTE, UM JOGO AMERICANO

Em nossa viagem ao Chile, em abril deste ano, além da demonstração de um bom nível civilizatório, alguns eventos ficaram marcados pelo bom gosto e pela qualidade dos serviços, fosse no metrô ou nos cafés, estes bonitos e agradáveis.

Em Santiago, um restaurante simples nos recebeu de forma surpreendentemente agradável, como eram seu ambiente e suas mesas. O cardápio anunciava uma comida trivial, que depois saberíamos com gosto de comida de verdade.

Ao entrarmos, percebemos um ambiente de simplicidade, porém a clientela nos dava a garantia de um bom aval em uma duplicata. Não lembro o nome daquele  lugar, mas o gosto e a satisfação com que as pessoas saboreavam suas iguarias, fosse o prato do dia ou algo um pouco mais elaborado, nos encheu de confiança. Sentamos, pedimos um vinho e não nos arrependemos.

Nas mesas próximas, estudantes, pequenos empresários e trabalhadores do comércio riam e discutiam assuntos pertinentes. Ao lado da nossa mesa, um casal de mulheres conversava sobre coisas da vida, o dia a dia eviscerado em um papo de restaurante. No contraponto, riso e descontração.

Sobre as mesas, um jogo americano de papel reciclado trazia  em seu falar uma provocação que nos fez pensar; o choque que desperta:

Jogo americano

Escuta, respeita, diverte-te

Ama, canta, confia, viaja

Sonha, sorri, arrisca-te, confia

Compartilha, luta, deixa-te levar

Ri, manifesta-te contra, fala, ri

Descobre, arrisca-te, vive

Sê feliz

 …

Sê feliz, a mensagem. E nós o fomos.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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