Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 25, 2022

UMA COROA, UM TRONO E UM BERÇO

Em 1831, em meio a forte crise política, dom Pedro I abdicou em favor de Pedro de Alcântara, então com seis anos de idade, filho de seu primeiro casamento com dona Leopoldina. Foi obrigado a deixar o Brasil com a segunda mulher, dona Amélia de Leuchtenberg, e, na madrugada de 7 de abril daquele ano, noite da partida, ela, que estava com 19 anos e amava os enteados, deixou esta carta ao menino e futuro imperador dom Pedro II.

De Amélia de Leuchtemberg para D. Pedro II.

Rio de Janeiro, [abril de 1831]

Meu filho do coração e meu imperador,

Adeus, menino querido, delícias de minha alma, alegria de meus olhos, filho que meu coração tinha adotado. Adeus para sempre.

Quanto és formoso nesse teu repouso! Meus olhos choro­sos não se puderam furtar de te contemplar! A majestade de uma coroa, a debilidade da infância, a inocência dos anjos cingem tua fronte de um resplendor misterioso que fascina.

És o espetáculo mais tocante que a terra pode oferecer! Quanta grandeza e quanta fraqueza a humanidade encerra, representadas por ti, criança idolatrada: uma coroa, um trono e um berço!

A púrpura ainda não serve senão para estofo, e tu, que comandas exércitos e reges um Império, ainda careces de todos os desvelos e carinhos de mãe.

Ah! querido menino, se eu fosse tua verdadeira mãe, se meu ventre te tivesse concebido, nenhuma força te arran­caria dos meus braços!

Mas tu, anjo de inocência e de formosura, não me perten­ces senão pelo amor que dediquei a teu augusto pai. Ape­nas sou tua madrasta, embora te queira como se fosses o sangue do meu sangue. Um dever sagrado me obriga a acompanhar o ex-imperador no seu exílio, através os mares, em terras estranhas… Adeus, pois, para sempre! Mães brasileiras, vós que sois meigas e carinhosas para com vossos filhinhos, supri minhas vezes: adotai o órfão coroado, dai-lhe, todas vós, um lugar na vossa família e no vosso coração.

Mães brasileiras, eu vos confio este preciosíssimo penhor da felicidade de vosso país e de vosso povo: ei-lo tão belo e puro como o primogênito de Eva no Paraíso. Eu vo-lo entrego: agora sinto minhas lágrimas correrem com menor amargura.

Dorme criança querida, enquanto nós, teu pai e tua mãe de adoção, partimos para o exílio, sem esperança de nunca mais te vermos… senão em sonhos.

Brasileiros! Eu vos conjuro que o não acordeis antes que me retire.

Adeus, órfão-imperador, vítima de tua grandeza antes que a saibas conhecer. Adeus…

Carlos Sarthou. Relíquias da cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica Editora, 1961, pp. 111-112. Retirado da internet.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

“A segunda mulher de d. Pedro l, a bela e refinada nobre alemã Amélia de Leuchtenberg, parente de Napoleão Bonaparte, viveu um ano e meio no Brasil. Chegou à Corte com dezessete anos e, antes de completar dezenove, partia de novo para a Europa, ao fim da crise política que levou seu marido a abdicar do trono. O breve tempo de permanência no país não a impediu de, segundo todos os relatos, desenvolver um afeto genuíno-/e correspondido -pelos cinco enteados e em especial pelo pequeno Pedro de Alcântara, futuro imperador, naquele momento com apenas cinco anos. A carta de despedida que escreveu ao menino, que a chamava de mãe, é tocante. Os dois continuaram a se corresponder por toda a vida”. Do livro Cartas Brasileiras; autor/organizador: Sérgio Rodrigues, editado pela Companhia das Letras.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 19, 2022

CONVIDADOS PARA O SÃO-JOÃO na mansão das máscaras

De passagem pela mansão das máscaras, fui instado a conhecer a lista dos convidados para a grande festa junina que se aproxima. Ali, todos os nomes das pessoas a serem convidadas, e não eram poucas. Percebi vários nomes conhecidos, e todos tiveram a minha total aprovação.

Porém eu estava de olho era em um outro grupo de convidados que eu sabia estarem em um local reservado, para uma surpresa na noite festiva deste mês de junho. Parece que meu amigo não gostou muito da ideia de expor seus convidados especiais, mas eu fiz questão, e fomos conhecê-los.

Em um canto, um grupo de maracatu completo. Um índio ladeado pelos elementos que vieram abrilhantar a festa, com seus instrumentos de percussão. Pela alegria das pessoas do grupo, o sucesso da festa está garantido.

Ao lado, em um lugar especial, quase sem chamar a atenção, estavam o rei, a rainha, a dama-de-honra da rainha, a dama-de-honra do rei. O ministro e o embaixador não puderam viajar. Estão com Covid-19.

Em outro ponto, quase sem fazer barulho, desenvolvia-se um casamento, com um soldado, o escrivão o fotógrafo e duas testemunhas. 

Luiz Gonzaga, todo engalanado, expunha sua sanfona para a festança. Ao seu lado, Michael Jackson nos cumprimentou de forma cordial. Percebi um ar de riso por baixo da máscara, como a dizer: O que eu vim fazer aqui?

Convidados especiais chegaram. Só falta a festança.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 18, 2022

FATOS E EXPRESSÕES SABOR NORDESTE

Em um jogo de futebol, o locutor gritava: Com elegância, matou no catarro, jogou no solo pátrio; sassaricou, fez o caqueado e chutou para a defesa do arqueiro. Nisso, um cronista social falou para os que estavam ao seu lado: Vou descer e comemorar com a plebe ignara!

O vendedor de remédios populares nos arredores das feiras e dos mercados públicos, falando sobre um velho rádio que tentava empurrar para os que o cercavam: Com este rádio vocês ouvirão as grandes estações do Brasil, como eu ouvi e ouço: Olhava para o rádio e dizia, com voz de cemitério: ”Esta é a rádio Papafigo Pé de Calçada, transmitindo em ondas médias, curtas e esticadas de um poste para o outro, com duzentos e cinquenta quilos de lixo na antena”! Risada geral. E o rádio continuava lá.

Quando alguém olhava fixo para uma pessoa: O que é que óia, eu não sou joia. O que é que espia, eu não sou jia! E ficava encarando.

De uma senhora no interior de Pernambuco, sendo acusada de algo que não havia feito, discutindo na calçada: Catitas me mordam se eu fiz isso! Quero que minhas munhecas caiam pelo tronco!

De uma senhora, quando eu fazia estágio pelo CRUTAC, em Santa Cruz-RN: Qual é a queixa da senhora? -, perguntei. – Ah, doutor, quando eu me abaixo a mãe do corpo aparece; quando eu me levanto, ela se encanta.Foi a mais bela expressão que já ouvi de alguém para se referir a um prolapso uterino. O diagnóstico já estava feito.

Rua da Frente, mercearia repleta de pessoas, a maioria bebendo pinga. Um senhor no canto do balcão tomava uma dose de Conhaque de Alcatrão de São João da Barra, e contemplava o rio que passava em frente, silente, como a cumprimentar o manguezal ao fundo. Entrou alguém e comentou:

– João Beá espalhou pela cidade que recebeu uma boa herança de um parente, e até pagou bebida para os amigos. Um senhor veio de Mossoró e foi à casa dele cobrar uma conta antiga, de valor elevado. Coitado, a herança foi toda embora.

O cidadão do conhaque falou, como se conversasse com seus botões:

– Pois é, quem tem cabeça de cera não anda no sol!

O cidadão do conhaque pagou a conta e foi embora. Foi visto pegando o ônibus que ia para Mossoró, levando um pacote na mão.

Certa madrugada, uma senhora, ao perceber que havia alguém forçando a porta de sua casa, falou alto, simulado confiança:

– Manoel, acorda! Tem um homem forçando a porta com uma chave de fenda! Anda, Manoel, Acorda!!!

O ladrão, com a tranquilidade de quem comia uma bolacha em seu barco, em alto mar, respondeu:

– Dona Joana, para com isso. Eu acabei de passar pelo Manoel, no cais, e ele ia trabalhar no rebocador. Vamos, passe logo a tarrafa dele pela janela do lado, que eu vou embora. Mas jogue a tarrafa sem olhar para fora. Era um ladrão amigo.

Esta aconteceu comigo. Por volta de oito anos de idade, chegando aos arredores do mercado público, percebi um aglomerado de pessoas. Ao me aproximar, o vendedor de remédios falou, com um microfone ao pescoço: Pronto, o menino chegou! Fique aqui, segurando esse saquinho vermelho. Esse garoto, no final de nossa conversa, botará um ovo, que aparecerá no saquinho que ele tem nas mãos. – E começou sua propaganda do remédio milagroso para ganhar energia e vigor sexual. Falou, falou, e ao final alguém perguntou: E o ovo? – Ele respondeu: Alguém já viu criança botar ovo? – Arrumou suas coisas e sumiu. E eu esqueci do que ia comprar. Voltei e tomei uma bronca da minha mãe, que me obrigou a voltar e comprar o coentro e a cebolinha.

Povo simples, inteligente, criativo, explorado por políticos e mandatários.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 11, 2022

O POMO ESTÁ MADURO: COLHEI-0, disse dona Leopoldina a D. Pedro I

Dona Leopoldina, arquiduquesa austríaca da casa de Habsburgo, casou-se com o príncipe português Pedro de Alcântara em 1817, por procuração, e meses depois desembarcaria no Brasil. Mais culta que bela, foi publicamente infeliz no casamento até morrer deprimida, com apenas 29 anos, em 1826.

“Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1822

Pedro, o Brasil está como um vulcão. Até no Paço há revolucionários. Até portugueses são revolucionários. Até oficiais das tropas são revolucionários. As Cortes portuguesas ordenam a vossa partida imediatamente, ameaçam-vos e humilham-vos. O Conselho de Estado aconselha-vos para ficar. Meu coração de mulher e esposa prevê desgraças, se partirmos agora para Lisboa. Sabemos bem o que têm sofrido nossos pais. O rei e a rainha de Portugal não são mais reis, não governam mais, são governados pelo despotismo das Cortes que perseguem e humilham os soberanos a quem devem respeito. Chamberlain vos contará tudo o que sucede em Lisboa. 

O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com o vosso apoio ou sem o vosso apoio ele fará a sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrecerá.

Ainda é tempo de ouvirdes o conselho de um sábio que conheceu todas as cortes da Europa, que além de vosso ministro, se não quiserdes ouvir o de vossa amiga. Pedro, o momento é o mais importante de nossa vida. Já dissestes aqui o que ireis fazer em São Paulo. Farei, pois. Tereis o apoio do Brasil inteiro e, contra a vontade do povo brasileiro, os soldados portugueses que aqui estão nada podem fazer”.

Obs: O sábio a que Leopoldina se refere é José Bonifácio.

Carta escrita em 02 de setembro de 1822. Nesse dia, D. Leopoldina assinou o ato de independência do Brasil. Cinco dias depois, o grito às margens do Ipiranga.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Do livro Cartas Brasileiras; autor/organizador: Sérgio Rodrigues, editado pela Companhia das Letras.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 4, 2022

O RÁDIO EM MINHA INFÂNCIA

Quando eu era criança, na década de 1950, poucas pessoas dispunham de um rádio em suas casas. Amigos e vizinhos iam para a casa de alguém que tivesse um rádio para ouvir as últimas notícias. Lembro com detalhes que, na transmissão da morte de Getúlio Vargas, em 1954, ficamos todos, em casa, em volta de um rádio cujo som era baixo. Era nesse aparelho que papai escutava, à noite, o programa de Alziro Zarur, da Legião da Boa Vontade.

Porém, antes do rádio, havia um aparelhinho de grande simplicidade que reproduzia o som de algumas emissoras de fora, e esse pequeno aparelho foi parar em nossa casa. Era uma galena. 

Esse aparelhinho esquisito apareceu na mercearia do meu pai, que logo descobriu tratar-se de uma galena. Esse equipamento simples era composto de uma bobina, um capacitor e um cristal de galena. Para funcionar, necessitava de uma antena e de um fio terra, e dispensava o uso de corrente elétrica. Galena, o mineral, é o sulfeto de chumbo, principal componente do chumbo. O som era o de um gato novo rosnando. 

A partir do início da década de 1950, algumas pessoas adquiriram os primeiros rádios na cidade, e o aumento das emissoras propiciou a sua quase universalização.

Areia Branca entrou em contato com o rádio portátil de forma inusitada: Certa manhã, Tututa, um jovem que servia à Marinha em Natal, desfilava pela Rua da Frente com um rádio portátil gigante, carregado na cabeça por um adolescente. Era uma grande novidade. Foi uma festa. Como um rádio podia funcionar sem estar ligado à energia elétrica? – Perguntavam as pessoas controlando a emoção. Eu tinha entre 6 e 8 anos.

A galena. O rádio, a televisão em preto e branco e em cores, o gravador de rolo e de cassete, o Walkman, o Videocassete, o videodisco, o DVD, o celular, o Blue Ray, o MP3. O Spotify. Hoje, uma criança de dois anos já domina algumas facetas do smartphone. 

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Wikipedia: O rádio galena é um receptor de modulação AM que utiliza as propriedades semicondutoras do mineral galena. Ele demanda uma antena de grande extensão (15 metros de fio cru, uma bobina e um capacitor, em que um deles é variável) sintonizado na frequência AM, passando por um circuito retificador (formado pelo diodo de galena}. Dispensa o uso de eletricidade para funcionar.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 28, 2022

BICICLETA, SONHO IMPOSSÍVEL DA MINHA INFÂNCIA

Areia Branca foi uma das primeiras cidades brasileiras a conhecer a bicicleta, na década de 1930. De forma displicente, um marinheiro anônimo que trabalhava em um navio ancorado tumultuava a Rua da Frente montado em um equipamento estranho, deixando as pessoas em estado de euforia. 

Era a bicicleta, que surgira no Brasil no ano de 1898, aproximadamente 32 anos antes. A bicicleta, pois, chegou a Areia Branca de forma antecipada, trazida por um navio ancorado no porto. Logo, um alvoroço se formou na principal rua da cidade, todos querendo testemunhar aquela novidade.

Nos anos 1950, a bicicleta se tornaria uma febre entre as crianças de melhor situação financeira. Quem não tivesse uma bicicleta – hoje, bike ou magrela – ficaria sem os passeios pela Rua do Meio, em volta da pracinha ou na Rua da Frente. A Rua do Meio, pavimentada com carago, era o local preferido para um passeio no fim da tarde, do Cine Coronel Fausto até a pracinha.

Havia uma nítida carência de bicicletas na cidade. Nesse contexto, surgiram os irmãos Popõe e Chiá, que tiveram a ideia de gerenciar o setor de aluguel de bicicletas, que seriam alocadas na pracinha, com modelos para meninos e meninas. Os meninos menores gostavam dos modelos femininos, pela facilidade de pedalar sem trauma na barra do meio. E aí começava uma guerra das crianças, pressionando os pais para conseguir quinhentos réis para ter o privilégio de dar algumas voltas em torno da pracinha, passar pela frente da igreja ou ir até a Rua das Almas, passando em frente ao Cine Coronel Fausto. O dinheiro só dava para financiar um roteiro.

Os irmãos Popõe e Chiá gerenciavam também um carrinho de refrigerantes e doces. Popõe é uma corruptela de dois tostões, pois era assim que ele falava.

Quando a molecada atrasava a devolução da bicicleta, ganhava uma destemperada refrega de Chiá, com a recomendação quase ordem de que, se aquilo voltasse a acontecer, o menino não teria mais crédito para sair com a bicicleta. Poucos repetiam aquele grave deslize. Popõe e Chiá foram dois dos primeiros empreendedores da cidade, dois visionários que durante muitos anos dominaram o ramo de aluguel de bicicletas. Hoje, a empresa familial poderia ostentar o nome Irmãos Popõe Rent a Bike.   

Bicicleta. Sonho. No contraponto, os primeiros movimentos do empreendedorismo criativo na cidade. Oportunidades de negócio.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 21, 2022

UMA LUTA DE VALE TUDO, mas tudo mesmo

No ano de 1961 foi anunciada uma luta de vale tudo envolvendo um lutador de Natal, que não lembro o nome, e um lutador de uma cidade do interior. Estou em dúvida se essa luta, de fato, aconteceu em Areia Branca-RN ou em Macau-RN, mas vale a pena ser contada, pelo inusitado do desfecho.

Naquela época, era comum que alguns espertalhões inventassem uma luta contra alguém da região, sem qualquer preparo ou formação para esse tipo de evento. No tatame – se é que podemos chamar assim aquele ringue improvisado -, alguns sopapos, bofetões de araque, chutes na pleura, o forasteiro vencia e levava o dinheiro dos incautos.

O dia da luta se aproximava, e na cidade só se falava disso. Foram colocados avisos dessa luta nas paredes das lojas, no muro da prefeitura e nos arredores da pracinha. A cidade se preparou para o grande evento. Também não lembro o nome do lutador de Natal. Sei que havia dois lutadores famosos, de verdade: Aderbal e Bernardão. Obviamente, não era nenhum dos dois. Mas era um lutador famoso.

No dia do evento, muitas pessoas se dirigiram para o local do embate. O tatame, que fora improvisado com algumas cordas cercando o quadrilátero, era forrado com uma camada de serragem de madeira colocada sobre o cimento e coberta com uma lona, em uma alarmante e perigosa improvisação, patente em cada detalhe, assim como o desconhecimento das regras de segurança. 

As pessoas, de pé e espalhadas em torno do tatame improvisado, aguardavam com grande ansiedade o início da luta. Aguardaram cinco minutos depois da hora marcada (19hs), e o lutador local não aparecia. Ao lado do tatame, o lutador de Natal se exibia junto do seu empresário, com movimentos provocativos. E o lutador local não dava as caras por ali.

Decorrido um bom tempo do horário marcado para o início da luta, e o lutador local não aparecendo, as pessoas presentes começaram a se irritar, e a gritaria tomava conta do ambiente. É marmelada!!! É enrolação!!! Quero meu dinheiro de volta!!! E o clima de hostilidade foi se elevando.

A certa altura, tendo passado meia hora do horário previsto, um homem sacou de uma faca e, aos gritos, obrigou o lutador a entrar no tatame e lutar com seu empresário. Apesar das desculpas do empresário, os dois foram forçados a lutar. Bofete pra lá, chute pra cá, queda de um lado, desvio do outro. O lutador, depois de algum tempo, perguntou se a plateia estava satisfeita, e a resposta foi não. Depois de muitas bofetadas e do empresário bastante machucado, a luta foi encerrada. 

Uma luta de vale tudo. Um embuste que terminaria de forma inusitada. Um empresário com o rosto amassado. E as pessoas satisfeitas com a pancadaria desigual.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 14, 2022

A CARTOMANTE E O SAPO CURURU

A noite chegara junto com o alvoroço herdado da tarde que se fora. Era uma noite quente do mês de julho de 1958. O ambiente era de pura tensão; o apurado da bodega estava na gaveta, e ninguém conseguia encontrar a chave do cofre.

Era um cofre antigo, quase mudando de cor. Era verde claro na frente e verde escuro dos lados. Parecia um velho sapo cururu com o disco do segredo e a entrada da chave em seu peito achatado, parecendo rir daquela confusão.

Procura aqui, retorna ao balcão; vê se está em uma dessas gavetas! Sim, eu sei que já procuraram duas vezes, mas tentem outra vez -, gritava o dono do estabelecimento. Já procuraram na calçada, pros lados do cais? Fechem as portas! Vamos procurar essa chave apenas aqui dentro, resmungou o dono do sapo cururu, digo, do cofre.

A noite já se instalara naquela sauna improvisada, e não havia mais nenhum local da bodega isento de acurada procura. Surgiu então uma voz feminina, vinda da porta entreaberta: o jeito é consultar dona Porciúncula, a cartomante. Sei que ela mora pros lados da Ilha, indo pela Rua dos Calafates. E logo alguém disse que conhecia o local. 

O bodegueiro, apressado, separou cinco mil réis para gratificar a cartomante, juntou um pedaço de fumo de rolo enrolado em papel embrulho, puxou as calças bem acima do umbigo, apertou o cinto e partiu em busca da adivinha.

Ao chegar, o comerciante ficou diante de uma mulher com cara de maracujá da semana passada, usando uma peruca feita de rabo de cavalo, o que lhe dava a aparência de uma habitante das cavernas. Sem nada perguntar, ela disse, de olhos fechados, com voz de cemitério: o que o senhor procura está bem no fundo, no escurinho do olho do furacão, onde se esconde o fogo da libido. Fique tranquilo que o que foi perdido aparecerá com o clarão do novo dia. 

No meio da consulta a porta atrás da mesa foi forçada por fora. A cartomante olhou de lado sem mexer a cabeça e, com o pé, ela a abriu. Era Fiapo, um velho e comprido cão, que deu uma olhada para o cliente, mirou em sua canela, rosnou baixinho e saiu. O comerciante quis pagar, ela não aceitou. Depois mandaria alguém à bodega pegar umas meiotas de cachaça. O fumo ficou em cima da mesa. Seria utilizado em algum trabalho futuro. Terminou virando chiclete.

Mais calmo, o velho comerciante voltou para casa, dormiu o sono dos justos e no dia seguinte foi para a bodega com uma ansiedade difícil de disfarçar. Onde estaria aquela chave? E que estória mais esquisita era aquela da cartomante? Até esquecera o que a mulher com cara de maracujá da semana passada lhe dissera.

No meio da manhã, ao revirar um velho chifre de bode que mantinha escondido como talismã afrodisíaco em um canto da prateleira, a chave do cofre caiu a seus pés. Aos gritos, correu para o sapo cururu, digo, o cofre, e enfiou a chave na fechadura. Rodou o segredo e pronto. Contou os trocados ali depositados, respirou fundo. A paz estava de volta.

Falava-se que a cartomante era um pouco magra; outras vezes ela parecia ser gorda. Depois, descobriu-se que, quando ela estava em Mossoró, era substituída por uma prima. Como ela nunca saía de casa, ninguém conhecia suas reais feições.

Um sapão, digo, um cofre. Uma chave perdida. A cartomante. Tudo resolvido.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Já publicado neste blog, com outro título e outra formatação.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 7, 2022

VIXE! A ÉGUA MUDOU DE COR

Seu Quinquim era um velho esperto, que morava em um sítio, logo que a placa indicava a mudança dos domínios de Mossoró para Areia Branca, no ponto em que a maresia começa a se apresentar às nossas narinas. Sua propriedade – à época, falavam granja – ficava à margem da estrada que ligava as duas cidades.

Corria o ano de 1951. Por ali passava, com certa frequência, um grupo de ciganos, que sempre parava para descansar e tirar uma prosa. Certo dia, logo depois do almoço, seu Quinquim fez uma proposta para Aristeu, o chefe do mais antigo grupo de ciganos que periodicamente visitava Areia Branca, e que estava de passagem para Mossoró.

– Aristeu, vamos fazer uma troca?

– Vamos, respondeu o cigano, mesmo sem saber do que se tratava.

Seu Quinquim, fazendo-se de desinteressado, foi direto ao assunto:

– Eu troco aquele lindo cavalo bege, o Falcon, que está ali, pastando, por essa sua égua de cor cinza escuro. O cigano pediu para ver o cavalo. Afastou-se um pouco, olhou de um lado, do outro, abriu a boca do animal e falou:

– Negócio fechado, mas eu quero aquele porco na troca, porque o meu animal é muito melhor que o seu.

O sitiante pensou, fez ar de quem não gostou, passou a mão no bigode, já quase todo branco, deu uma puxada no rapé, espirrou e respondeu:

– Negócio fechado!

E os ciganos se foram, levando o cavalo bege e o porco. Sumiram no horizonte. Era uma sexta-feira, e Quinquim ficou imaginando mostrar sua égua cinza, muito elegante, aos amigos, na feira do dia seguinte. No outro dia, o velho acordou cedo e pediu para o fiel Sizenando selar a égua recém-adquirida. Estava tomando café quando o capataz gritou, com ar de espanto:

– Seu Quinquim, venha ver o que aconteceu com a égua do cigano! Ela desbotou, com a chuva que caiu pela madrugada.

O velho turrão não acreditava no que seus olhos viam. A égua fora pintada, e restos de tinta marcavam no chão o cinza escuro que escorrera do animal. Observando melhor, descobriu que o cigano amarrara um arame em cada uma das patas do animal, no tornozelo, forçando a égua a andar na ponta dos pés, com aquela aparência elegante. Cortou os arames das quatro patas e a velha égua arriou, e passou a caminhar desajeitada. Quinquim ficou furioso. Não admitia ser enganado. E ainda mais por um cigano.

Os meses se passaram. Em uma tarde quente de outubro, sob o império do cheiro dos cajueiros floridos, Quinquim viu os ciganos despontando no início da longa curva, de onde avistava, ao longe, à direita, a placa de Areia Branca. “É agora”! – pensou ele. E se dirigiu – arrastando uma velha e encardida chinela – para o portão da granja, esfregando o bigode. Pitoco, o cão da casa, cuidou de se entocar debaixo do armário da sala, recolhendo o rabo e escondendo a cabeça entre as patas, sonhando com um bom osso no jantar. Os ciganos foram se aproximando, cumprimentando com a cabeça, e o velho logo atacou:

– Aristeu, seu velhaco imprestável, você me enganou! Você bem que merece uns cocorotes. Sua égua era pintada, e tinha as patas amarradas com arame.

O cigano, sem perder a calma, respondeu:

– Tudo bem, eu concordo que a égua foi pintada. Mas o seu cavalo tem ataques de epilepsia quase toda semana. Há uns quinze dias, quando eu passava no alto da serra de Martins, ele teve uma convulsão violenta, e me jogou longe, e eu quase caí na ribanceira. Se o senhor quiser destrocar, tudo bem. Mas o porco eu já comi.

– Vamos deixar como está, porque eu já me acostumei com essa égua desbotada e peidona. Vamos entrar e tomar um café com bolacha.

A égua, à distância, parecia alheia àquela discussão, porém ligada nos olhares libidinosos do cavalo Eulálio. Os ciganos tomavam café na varanda da casa quando ouviram relinches estridentes. Era o cavalo que, de forma atabalhoada, e depois de semanas transportando tralhas pelos rincões da região oeste do estado, chamava a égua Faísca para um acerto particular, bem depois das touceiras de bananeiras.

Todos estavam felizes. Todos.

Evaldo Alves de Oliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Crônica publicada neste blog com outro título e outra formatação

Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 30, 2022

EINSTEIN INDICOU UM PRÊMIO NOBEL PARA O BRASIL

O físico alemão Albert Einstein nos deu a honra de uma visita ao Rio de Janeiro, no mês de maio de 1925. A visita deixou impressões contraditórias no espírito do gênio da teoria da relatividade. 

Einstein registrou em seu diário o encantamento com o Jardim Botânico (“supera o sonho das mil e uma noites”) e com a mistura étnica do povo, mas também a decepção com o público de sua palestra no Clube de Engenharia – “uns tolos”, no dia 6 de maio. Não cabia mais uma alma dentro do auditório quente e abafado. E, para completar, não eram cientistas que lotavam aquele recinto. mas militares e políticos com seus cônjuges e filhos. Não podia mesmo ter gostado. 

Isso me lembra o amontoado de políticos que se espremiam no centro cirúrgico onde Tancredo Neves seria operado, antes de tomar posse como Presidente da República. “Quando se iniciou a operação, havia dentro da sala 25 pessoas. Um show, ruinoso para os médicos e para o paciente”. Deu no que deu.

O que deixou de anotar ali, mas sabemos por meio desta carta, é que Einstein ficou impressionado com os relatos sobre o trabalho humanitário do Marechal Cândido Rondon. Mesmo sem o ter encontrado, indicou o nome do sertanista brasileiro ao Prêmio Nobel da paz. Não foi atendido. Eis a carta:

Hamburg-Südamerikanische Dampfschiffahrts-Gesellschft 

Cap Norte 22.5.25

Ao presidente do Comitê Nobel da Noruega

Prezado Senhor!

Permita-me chamar sua atenção para a atividade o general Rondon, do Rio de Janeiro, porque em minha visita ao Brasil tive a impressão de que este homem seria um digno merecedor do prêmio Nobel da paz. Seu trabalho consiste na integração de tribos indígenas aos meios civilizados sem uso de armas nem qualquer forma de coerção. Minhas informações foram passadas por professores da Universidade Técnica do Rio de Janeiro, que se pronunciaram de forma muito calorosa sobre o homem e seu trabalho. Também me foi mostrada alguma coisa em filme. Não conheci pessoalmente o general Rondon.

Sendo do seu interesse, posso fornecer mais detalhes, mas seria melhor se o senhor – por meio dos seus enviados noruegueses – buscasse diretamente a informação.

Com a mais alta estima

Prof. Dr. A Einstein

Haberlandstr, 5, Berlim

Einstein, entre o encantamento e a decepção. 

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Baseado no livro Cartas Brasileiras; autor/organizador: Sérgio Rodrigues, editado pela Companhia das Letras.

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