Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 18, 2009

Eu vivi aqui…

UMA FOTOGRAFIA, UMA CAMA…

Uma viagem a minha infância

 

            Amigos da internet quase todo mundo tem. Mas amigos que se comunicam via internet é outra coisa. A gente sempre recebe ou encaminha o que há de melhor na rede. São fotos de lugares históricos, pontos de destaque, produções literárias de qualidade, citações que incitam a pensar.

            Há poucos dias recebi a indicação de um site onde encontraria fotos de interiores de casas maravilhosas, que certamente estão entre as mais bonitas deste país. Acessei o site – www.flarefotografia.com.br – e pus-me a curtir as belas fotos. De fato, as casas são maravilhosas, um calmante para os olhos do corpo e um alimento para a carente gastronomia da alma.

            Mas uma foto em particular não me sai do pensamento. É de uma cama simples, antiga, arrumada de modo casual, coberta com um filó branco. Aquela foto teve o condão de me transportar para a infância, com as brincadeiras nos quintais e as cantigas de roda à noite, nas ruas sem asfalto da minha meninice.

            Logo imaginei tratar-se de uma daquelas fazendas do interior de São Paulo, que ainda resistem ao rolo compressor do progresso e da especulação imobiliária. Ledo engano. Ao final, após contatos, fiquei sabendo que a foto daquela cama fora feita no interior do Rio Grande do Norte, mais precisamente em Areia Branca.

            Areia Branca, a terra salitrada da minha meninice. Relembrei as brincadeiras das crianças, à noite, a entoar cantigas de roda. Uma delas dizia mais ou menos assim: Lagarta pintada, quem foi que te pintou? Foi a velhinha do tempo da areia, puxa lagarta na minha orelha. Relembrei antigas visões da infância, onde, em uma noite distante, no horizonte escuro, uma estrela cadente rasgou o céu, e, argonauta, imaginei-me parte da Expedição dos Argonautas, viajando entre os cinquenta deuses olimpianos e não olimpianos, ao encontro de Jasão e Medeia, e minha imaginação voou solto rumo a Cólquida, em busca do Velocino de Ouro.

            Lembrei-me de algumas músicas meio bregas que permearam as noites da minha infância, escapando pelas frestas de bares nunca visitados, com suas luzes vermelhas, ar nevoento pela fumaça dos cigarros, que falavam de amores vãos, mulheres perdidas, esperanças findas… o som indo e vindo, ondulando ao sabor do vento que namorava as noites quentes da praia de Upanema.

            Visões da infância, redemoinho de emoções antigas, histórias do interior. Tudo devido a uma cama com uma coberta de filó branco, pertencente a uma moradora de vida simples e alma forte, fotografada na cidade da minha infância, e exposta em um site de São Paulo.

 

Evaldo Alves de Oliveira, médico e escritor

evaldooliveira@brturbo.com.br


Responses

  1. Bom-dia Dr. Evaldo.

    Muito legal esta retórica, lembro-me de também cantar esta música da velhinha caxingueira no meu tempo de infância, dá um saudosismo bastante melancólico.
    Um forte abraço.

    Obs. tenha dó de pessoas como eu, que não entende muito bem o inglês.

  2. Caro Evaldo
    Em primeiro lugar gostaria de parabenizá-lo pela bela iniciativa de criação deste blog. Qualidade e motivação não lhes faltam para mantê-lo sempre atualizado, nos presenteando com belos textos..
    Grande Abraço…Marcelo Dutra

    • É a terceira vez que tento…
      Li os textos. Fiquei orgulhosa de ti. Conheci um menino meio introvertido num passado distante que queria ser médico e tinha teu nome. Tornaste um escritor fantástico pela forma como abordas os variados temas com seriedade e muito humor. Não esqueceste a terrinha de onde herdaste o dom, quem sabe, fruto das águas cristalinhas de uma península formada por areias brancas e salgadas. Quero ver outros escritos…
      Parabéns e um grande abraço.

      • Amei os textos, como também o livro. Conheci, num passado distante, um menino meio introvertido que tinha teu nome e queria ser médico… Tornaste um escritor fantástico, pela forma como abordas os variados temas, com seriedade e boa dose de humor; não esquecendo a terrinha onde nasceste e de onde herdaste o dom, quem sabe, fruto das águas cristalinas e salgadas de uma península de areias brancas. Parabéns e um grande abraço. Sonia

      • Caríssima Sônia, um abraço.
        A vida, quando somos crianças, nos brinda com alguns roteiros, que poderão ser desenvolvidos ao longo da vida… ou não. Mas o roteiro que substituiu nossos sonhos infantis também é muito bom, e nos completa a todos. Os filhos de todos nós são uma prova disso. Evaldo

    • Caríssimo Marcelo, o material psicofísico, além da educação recebida, o credenciam a altos voos, com o piloto automático ligado. Um abraço. Evaldo

  3. Dr. Evaldo, me parece que fiz o comentario sobre a cama, no lugar errado. Caso isto seja confirmado, por favor desculpe. Um grande abraço.

    • Amigo Miranda, seus abalizados comentários são válidos onde quer que estejam postos. Obrigado pela visita. Um abraço. Evaldo

  4. Caro Evaldo,

    parabéns pelo blog!
    É muito interessante mesmo como certas imagens, canções ou fatos podem, de repente, nos arrastar para longe no tempo, para dentro da nossa história de vida. Essa é a verdadeira máquina do tempo…
    Aproveitem a Europa e depois digam o gosto prá nós.
    Um beijo na Jô e um abração prá você.

    Omar

    • Prezado Omar, ao ler seu comentário, lembrei-me daquela estória do seu amigo jornalista que, no interior de Goiás, perguntou, quase morto de fome, em uma pequena venda na estrada poeirenta:
      – O que o senhor tem para comer? – Nada. – O senhor tem pão? Tenho. – Tem manteiga? – Tenho. – Então Racha e bréia (ainda com acento agudo).
      Um abração. Evaldo

  5. Dr. Evaldo.
    Parabéns pelo blog.
    Fiquei muito feliz de ler teus textos no blog ” Era uma vez em Areia Branca’ e saber que tem mais um areiabranquense que não esqueçe suas raizes, como vc. mesmo disse no seu livro: “somos um povo que muito pouco valoriza suas potencialidades, seus feitos, sua história”.
    Eu estive no lançamento do seu livro ” Escritos Menores” aqui em Areia Branca através de seus amigos que são minha famíla “Cirilo” e na dedicatória vc. escreveu assim: Marta Cirilo, saiba que este sobrenome influenciou muito as atuais gerações que estão por aí a batalhar. Em 10/12/03. Lembra? claro que não, só conheçe minha família, mas saiba que eu guardo com muito carinho o seu livro. E serei uma leitora do seu blog.
    Um grande abraço.
    Marta Cirilo.

    • Sra. Marta, que bom que gostou das crônicas. Agradeço o elogio ao meu segundo livro. Realmente, os Cirilo (família de seu José Cirilo e dona Mariinha), seus filhos José, Chico, Maria Laís, Anália e Chico fizeram parte de toda a minha infância em AB. São, todos, ouro de lei, como se dizia antigamente.


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