Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 20, 2009

ANTONIO CONSELHEIRO & EMPREENDEDORISMO

Das cicatrizes da infância ao empreendedorismo
Ao tempo em que conheci esse menino, o pai há havia casado pela segunda vez e todos o tinham como uma vítima da madrasta, mulher de gênio mau, que não lhe poupava maus tratos. É assim que João Brígido dos Santos descreve o amigo à época em que o conheceu, ainda criança.
Apesar de ter conhecido, desde cedo, a dor, o infortúnio e a injustiça, seu pai analfabeto, que o queria sacerdote, levou-o a estudar português, latim e francês. Aos 25 anos de idade, com a morte do pai, assumiu a administração dos negócios da família, e no ano seguinte a madrasta louca faleceu. No mesmo ano, a casa da família foi hipotecada como garantia da dívida de dois contos de réis, contraída pelo seu pai na compra de gêneros para o armazém. No fórum de Ipu, no sertão do Ceará, passou a atuar como solicitador e requerente, além de professor. Ainda em Ipu, sua esposa se tornou amante de um policial.
Conhecendo a força da paixão, a dor da traição, o sofrimento de seu povo sobrevivente das secas cíclicas, crianças sem escolas e seus clientes demandadores de justiça nos fóruns de Campo Grande e Ipu, Justiça essa viciada pela ordem autoritária dos coronéis do sertão, Antonio Conselheiro e seus seguidores construiriam, em junho de 1893, no povoado de Canudos, uma das mais agrestes e estéreis regiões do sertão da Bahia, não uma cidade, mas o sonho de reinventar o sertão e a utopia de uma sociedade mais justa.
O professor Flávio José Simão Costa (HSM-Management nº 61, volume 2, março/abril 2007), rechaça o diagnóstico de delírio crônico de Magman, psicose sistemática progressiva de Garnier e paranóia primária, afirmando: Antonio Conselheiro não foi um anormal psíquico (aspecto psicológico) se analisada a estrutura de sua personalidade, relacionada com a realidade onde viveu, sofreu e se fez mártir. Seu comportamento, sua manifestação psíquica, sua personalidade ao fim da vida, integralmente compatível com o papel de místico, não são evidências de loucura, mas, ao contrário, representam a expressão de uma readaptação do esquema vivencial, surpreendentemente bem sucedida.
Paschero, homeopata e psicanalista argentino, enfatiza que a criança necessita de amor protetor, segurança afetiva, que é indispensável para ajudar na solução de sua incapacidade de adaptação à realidade objetiva. …A criança necessita expandir-se, expressar-se, exteriorizar seus impulsos… Para isso, tem que se sobrepor ao medo e à ansiedade que lhe produz a interdição do ambiente, e lutar pela sua própria valorização, por manter a sensação de que é capaz, de que é útil, de que pode ser, como os demais, autossuficiente para afirmar-se na vida. Conselheiro teria tentado resolver sua minusvalia com um afã reativo de maisvalia, uma afirmação de sua personalidade, por via de uma verdadeira hipertrofia de seu eu, como é possível acontecer nesses casos, como afirma Paschero?
Seria Antonio Conselheiro um louco? Ou seria um empreendedor, um visionário que resistiu a meio Exército brasileiro na Guerra de Canudos, ergueu cidades e reinventou o sertão, como defende Paulo Emílio Matos Martins, da FGV-Ebape (HSM-Management nº 61, volume 2, março/abril 2007)?
Antonio Conselheiro – um problema médico, ou alguém que deveria ser estudado por acadêmicos, homens de negócios, de marketing e estudiosos do empreendedorismo?

Evaldo Alves de Oliveira, médico e escritor


Responses

  1. Caro Evaldo. Eis um bom questionamento. Quem teria sido Conselheiro? Na mesma linha de raciocínio poderíamos perguntar quem foi Virgulino, Robin Hood e tantos outros idealistas que a história oferece. Abraços, Carvalho.

    • Caro amigo Carvalho, você, como oftalmologista, tem olhos, mas também ouvidos e cabeça, cérebro. Lampião, por exemplo, é considerado como um grande estrategista de guerrilha. Certa vez, seus homens utilizaram chocalhos para se aproximar de um lugarejo, escondidos no mato. Os moradores pensavam que era um grupo de cabras a pastar, e logo em seguida se defrontaram como grupo de Lampião. Mas o que motivou o cangaceiro a agir de forma sanguinária e cruel?

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