Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 24, 2009

VIAGEM SEM VOLTA

UMA VIAGEM SEM VOLTA¹

Bruno era um menino de nove anos; seu pai, um oficial do exército nazista. O pai de Bruno foi transferido para um local distante de Berlim, por força das circunstâncias. Bruno foi junto, com a família. Iriam morar em uma fazenda, no interior da Alemanha. Ao chegar ao novo local de moradia, o menino não entendia como naquela fazenda, ao lado de sua casa, não havia animal algum. Deveria haver vacas e porcos e ovelhas e cavalos. Para não falar nos patos e galinhas – pensava ele. E Bruno insistia: E se eles cultivassem alguma comida aqui, como você sugeriu, então acho que o solo teria de ser um aspecto bem melhor do que esse, não acha? Nessa sujeira não deve dar para plantar nada. Pela janela, observava, a menos de cinquenta metros, os rolos de arame farpado ou o chão estéril para além deles, as cabanas e os pequenos prédios.
Olhando de longe, de sua casa, o menino achou o local estranho, onde viviam pessoas altas e baixas, velhas e jovens, todas perambulando. Algumas ficavam imóveis, em grupos, as mãos ao lado do corpo, tentando manter a cabeça erguida, enquanto um soldado marchava diante delas, abrindo e fechando a boca com rapidez como se estivesse gritando alguma coisa.
Certo dia, caminhando do lado de fora da cerca, Bruno conheceu Shmuel, um garoto polonês de nove anos, que se encontrava sentado, com cara triste e olhar perdido, do lado de dentro da cerca. O pequeno alemão não entendia como uma criança nascida na Polônia podia estar ali, naquela fazenda ao lado de sua casa. Mas aqui é a Polônia, disse Shmuel. E Bruno descobriu que seu pai os levara para a Polônia, e não para o interior da Alemanha.
“Shmuel”… disse Bruno – gosto de como soa o seu nome quando eu o digo. Parece o som do vento soprando. “Bruno”… disse Shmuel, acenando com a cabeça alegremente. É, acho que gosto do seu nome também. Parece alguém esfregando os braços para se aquecer.
Certo dia Bruno conseguiu passar por debaixo da cerca que os separava, e saíram a caminhar pelo campo, à procura do pai de Shmuel, que havia desaparecido. Fora trabalhar e não voltara. E, levados por uma multidão de pessoas de pijama listrado que acabara de ser reunido pelos soldados, os dois meninos ficaram no centro do grupo, no meio da chuva. Shmuel sabia que quando aquelas pessoas eram reunidas para marchar, nunca mais eram vistas. No meio da multidão, seus pés o levaram a um lance de degraus, e, ao prosseguir marchando, percebeu que não estava mais chovendo, e que estavam todos em um cômodo absolutamente hermético. Shmuel poderia ter aberto a boca para responder alguma coisa, mas Bruno não teria escutado porque neste instante ouviu-se o alto ruído de todos os que haviam marchado para dentro engolindo em seco, enquanto a porta da frente foi subitamente trancada e um forte barulho metálico ecoou vindo de fora. E então o cômodo ficou escuro e de alguma maneira, apesar do caos que se seguiu, Bruno percebeu que ainda estava segurando a mão de Shmuel entre as suas e nada no mundo o teria convencido a soltá-la. Nada mais se soube de Bruno depois disso. Nem de Shmuel.
A infância perdida, sem destino, sem futuro. A saúde frágil, a desesperança. Uma realidade entre nós, também. Dentro ou fora da cerca.
¹Do livro O Menino do Pijama Listrado, de John Boyne, Editora Companhia Das Letras


Responses

  1. Parabéns pelo lançamento deste blog.
    Todos os textos lidos, reporto-me ao “O Menino do Pijama Listrado”, posto que há duas semanas assiste à adaptação para o cinema. Estava eu em Paracatu-MG, quando retirei de uma locadora o DVD com mesmo título do livro. A aventura do pequeno Bruno impressionou-me muito, pois trata de problemas da 2a. guerra, a partir da ótica de alguém que desconhecia totalmente o que ocorria em sua volta. Dois inocentes – ele e Shmuel – vítimas da ensandecida e lamentável escalada de violência perpetrada pelos nazistas.

    Abraços
    Dorini

  2. Caro Dorini, você, como professor de Esperanto, sabe muito bem das coisas do mundo. Um abraço. Evaldo.


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