Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 30, 2009

TUBERCULOSE, O EU DOENTE?

Sabe-se que, no Brasil, a infecção pelo bacilo da tuberculose acontece geralmente na infância; que nem todas as pessoas expostas ao bacilo se infectam; que, nos idosos, as reativações de infecções antigas são comuns. Sabe-se, também, que há uma variedade de graus de imunidade natural entre as pessoas. Há uma corrente que discorda de que haja imunidade natural, alegando haver uma imunidade adquirida mais rápida e eficaz, capaz de propiciar o controle da infecção, numa fase precoce.

No Brasil ocorrem cem mil novos casos todo ano, com cinco a seis mil mortes. Estima-se que 95% a 98% (2,8 milhões) das mortes causadas pela doença ocorram nos países em desenvolvimento. Os homens adoecem duas vezes mais do que as mulheres, com maior prevalência em áreas de grande concentração populacional.

A escritora norte-americana Susan Sontag, citada por Moacyr Scliar em A Paixão Transformada, editado pela Companhia das Letras, assim se expressa: O papel terrorífico da tuberculose, antes do advento da quimioterapia eficaz, passou ao câncer. As descrições da tuberculose e do câncer falavam, ambas, de um processo capaz de consumir o corpo; e ambas eram descritas como doenças da paixão – da paixão reprimida. …A tuberculose é a doença do eu doente; o câncer é uma doença alienígena, a invasão do corpo por células mutantes, estranhas, poderosas.

Tomás Pablo Paschero, homeopata e psicanalista argentino, em um estudo da constituição mais profunda do ser acometido de tuberculose, concluiu: todo o problema da enfermidade assenta no sentimento básico de insegurança, de incapacidade, de minusvalia, nascidos da solidão que se apodera do homem desde que se separa da mãe ao nascer, com o primeiro e angustiado choro, ou tem que ir à escola ou enfrentar a puberdade, a adultícia, a menopausa, a velhice, todos os momentos críticos de seu processo de maturação que implicam sempre a angústia de enfrentar o mundo hostil e estranho, e sempre marcado por afecções físicas, com que o homem expressa somaticamente seu dilema vital: afirmar sua personalidade, sobre a base do instinto de poder, o domínio, a força, a capacidade para competir e impor sua personalidade, ou redimir-se da culpa que isso lhe prepara, regressando à vida indiferenciada que vivia no seio materno e à infância, ou buscando a realização de seu eu transcendente, já num plano superior e espiritual de sua consciência. Dilema de insegurança e culpa representado simbolicamente pelo mito de Prometeu, que, por haver roubado o fogo de Zeus, este o condena a que uma águia lhe coma o fígado.

Este sentimento de insegurança, de minusvalia, constitutivo de todo ser humano, decreta a inferioridade orgânica sob a forma de uma deterioração hereditária, configurando o quadro do tuberculinismo… Ao nascer tuberculínico, inferiorizado, diminuído, insuficiente, a criança desenvolve uma personalidade com um sentido nitidamente compensatório. Trata de resolver sua minusvalia fisiológica e orgânica com um afã reativo de maisvalia, uma afirmação de sua individualidade, por via de uma verdadeira hipertrofia de seu eu, que o leva, no nível biológico, à hipercinesia de suas células. Por trás do câncer se acha, quase sempre, o tuberculinismo ou a tuberculose, o sabem os patologistas, e por trás do adulto imaturo, com uma perversão hipertrófica de sua personalidade, que o mantém em uma atitude autista, reclamando um insaciável afeto e uma gratificação de poder ambicioso que jamais satisfaz, se acha latente o sentimento de inferioridade e desvalia tuberculínico próprio da etapa infantil. Chega-se, assim, à conclusão de que na determinação da tendência à morbidade existem outros fatores e outras causas de ordem emocional e psíquica, finaliza Paschero.

Laënec, o criador da técnica auscultatória, dizia, em meados do século XIX, que a tuberculose pulmonar é mais frequente nas grandes cidades porque as contrariedades morais são, nelas, maiores e profundas.  William Osler (1849-1919) afirmava que a morte de um tuberculoso depende mais do que ele tem na cabeça do que tem no pulmão.

Para nossa reflexão: o adulto poderia ficar estancado em etapa infantil de sua vida, e a ela regressar, quando as contrariedades da vida o exijam. Do ponto de vista fisiológico e orgânico, haveria um correspondente: um adulto que não evolui satisfatoriamente desenvolveria um tônus diminuído e anérgico, produzindo um minus fisiológico que serviria de base para o acometimento da tuberculose. Em ambos, a resposta hipertrófica; no primeiro caso, com hipertrofia do seu eu; no segundo, uma hipercinesia de suas células.

Mais uma luz sobre a abordagem desta questão.

evaldooliveira@brturbo.com.br


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