Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 18, 2009

A SAÚDE, A VERDADE E A NUDEZ

O gymnasium, na Grécia, originou-se da palavra gymnós, que significava desnudar-se, dizer a verdade, revelar-se. Portanto, é onde se inicia a transcendência, a etapa inicial para se tornar verdadeiro, pois ter algo a esconder, na Antiguidade, era motivo de vergonha. Assim nos ensina Viktor D. Salis – terapeuta e estudioso das sociedades arcaicas – em seu livro Ócio Criador, Trabalho e Saúde, da Editora Claridade, de onde se originam os conceitos aqui expostos.

            Hoje, a nudez ganhou uma conotação de erotismo vulgar, centrado em uma sexualidade banal. Damos uma conotação moral e sexual à nudez, como se todos os problemas da humanidade estivessem nos genitais… quando a real questão está em aprender a ser verdadeiro e não iludir nem enganar, nem a si próprio nem aos outros, e quem souber lidar com a verdade nunca terá problema sexual algum.

            E Viktor Salis enfatiza: Os doze trabalhos de Hércules estavam voltados justamente para mostrar as doze tarefas que o homem deveria realizar se quisesse evoluir em direção à verdade e tornar-se criador. É emblemático que ele fosse um homem fortíssimo e que, no entanto, em todos os trabalhos, sua força física se revelasse inútil. Ou seja, o mais forte dos mortais teria de realizar tarefas dificílimas, abrindo mão de sua força física. Em outras palavras, teria que aprender a trilhar, não o caminho da brutalidade, mas da iluminação e da sensibilidade.

            Hércules era um herói nacional para os gregos, um modelo de conduta para os jovens. Por ser filho de uma mortal com Zeus, era um semideus. E, em todos os seus trabalhos, contou com a ajuda de um deus, seja Atená (sabedoria), Eros (amor) ou Hermes (inteligência e sensibilidade).

            Desse modo, Hércules venceu – por sufocação e não pelas armas – 1. o leão de Neméia, que devastava a cidade de Neméia, próxima a Micenas, significando que a violência desgovernada tem que ser contida através do exercício diário de sufocá-la; 2. a hidra de Lerna, que tinha nove cabeças e uma delas era imortal, e se cortasse uma nasceriam duas em seu lugar, simbolizando nossos vícios, que costumam se multiplicar quando tentamos governá-los, ou renascer com força renovada; 3. o javali de Erimanto, ao norte da Arcádia, um animal que devastava tudo por onde passava, e representa nosso instinto desgovernado, que não respeita as fronteiras dos outros e daquilo que não nos pertence; 4. conquistou, sem o uso da força, a corça Cerinita, um animal consagrado à deusa Ártemis, que vivia no monte Cerineu, e capaz de atravessar um bosque inteiro sem resvalar num único galho, tal é sua agilidade e leveza, e representa um ideal de domínio do corpo e de respeito à natureza; 5. limpou os estábulos de Augias, rei da Élida, onde havia esterco há muitos anos acumulado; Augias era um rei que usou adubo em excesso, na ânsia de obter mais colheitas, e esse adubo ficou acumulado; significava o aprendizado das artes da higiene; 6. enfrentou os terríveis pássaros do lago Estínfalo, cujos bicos, penas e pés eram de bronze, e atiravam suas penas como flechas, matando suas vítimas, e representavam o perigo de voarmos alto demais, em nossos delírios e sonhos de conquista.  

            Hércules também venceu – 7. o touro de Creta, que representava a brutalidade e a violência que tudo devasta para satisfazer seus instintos. Esse touro seria o pai do Minotauro, monstro com corpo humano e cabeça de touro, que se alimentava de carne humana; 8. enfrentou os cavalos de Diomedes – que eram antropófagos – e representavam o instinto sexual desgovernado, gerando amores desastrados; 9. conquistou o cinto de Hipólita, a mais nobre das mulheres, e rainha das Amazonas, que viviam perto do mar Negro. O cinto, símbolo do amor na Antiguidade, teria de ser entregue por sua livre e espontânea vontade, e assim aconteceu; 10. resgatou os bois de Gerião, que tinham o pelo de ouro, significando posse e riqueza, e era guardado por um cão de duas cabeças; 11. resgatou os pomos de ouro dos jardins das Espérides, que pertenciam à deusa Hera, para entregá-los para Atená, deusa da sabedoria, demonstrando que a fecundidade estava destinada à sabedoria e não à mera reprodução sexual; 12. capturou Cérbero, o cão de três cabeças que guardava a soleira da morte. O cão pertencia a Perséfone, esposa de Hades, o deus da escuridão, do submundo, dos mortos. Foi o mais árduo trabalho de Hércules.

            Os doze trabalhos de Hércules sinalizam que devemos vencer nossa brutalidade e barbárie original, e conquistar a espiritualidade e a sabedoria através da prática da nobreza, da beleza e da bondade.

            Dessa visão e desse conceito de moral é que se originou a nudez das estátuas gregas, sem qualquer significado erótico. Por nada terem a esconder, sua beleza residia no fato de que tudo que víamos no exterior – a nudez – significava a limpidez do interior, a verdade, a saúde.


Responses

  1. Dr Evaldo.
    estou gostando imensamente de todos os artigos do blog.
    Inteligentes,instrutivos e muito bem escritos.
    Parabens pela sua capacidade e inteligencia.
    Orgulho dos areiabranquenses.
    Um abraco.
    Dodora

    • Dodora, a nudez dos gregos correspondia beleza da alma, e para conseguir esse intento foi que Hrcules se submeteu queles doze incrveis trabalhos. Que bom que voc gostou.


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