Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 16, 2010

SESSENTA MINUTOS DE UMA VIDA. VIDA?

…abro os olhos olho em volta não sei onde estou em minha frente uma fotografia vejo que é de um homem e uma mulher passeando em frente a dois prédios muito altos um ao lado do outro tendo duas enormes conchas em suas laterais uma virada para baixo e outra para cima não sei por que mas eu não os conheço será que estou em minha casa será manhã tarde ou noite será que estou acordando olho para o lado e vejo um banheiro sim é um banheiro será que eu já tomei banho será que já tomei café não sei acaba de entrar uma moça no meu quarto parece que é a moça que cuida de mim mas eu esqueci seu nome ela me dá bom dia e me leva para tomar banho e depois veste minha roupa e me chama para tomar café e eu fico esperando no sofá onde me sento sem encostar as costas, apoiando nos punhos já me preparando para levantar em seguida eu levanto vou à cozinha olho a pia vejo que a água está no fogo e que o pão está sendo assado do jeito que eu gosto com queijo e manteiga por fora então retorno ao sofá onde sento sem encostar as costas em seguida me levanto e vou à cozinha o café está quase pronto e o pão quase torrado vejo que há frutas e retorno para o sofá onde sento sem encostar as costas na televisão à minha frente aparece um homem atirando dinheiro para as pessoas que estão sentadas, mas logo a imagem muda acho que é propaganda e me levanto vou à cozinha, percebo que estão levando os alimentos para a mesa e retorno ao sofá logo a moça me chama à mesa onde o café já está posto eu digo que quero aquela fruta e aponto com o dedo sem saber direito que fruta é e depois ela põe café com leite e pão integral com queijo e me dá um monte de comprimidos todos os dias eu tomo esses comprimidos pela manhã e à noite antes de me deitar tento me levantar para ir à cozinha alguém toca a campainha entra um rapaz bonito e risonho que me beija no rosto com carinho e me chama de mas eu não sei seu nome sei que tenho muitos netos mas às vezes não os reconheço ajudei a criar quase todos eles mas eles não me visitam mais acho que é porque eu não faço mais bolinhos nem os presenteio com dinheiro é que meus filhos não me deixam mexer com meus rendimentos confiscaram tudo nesse momento entra um homem que também não conheço ele diz que vem consertar a antena da minha televisão e eu nem sabia que a antena da minha televisão estava com problema mas eu não chamei ninguém para esse serviço deve ter sido alguém que chamou e nem me avisou em seguida me sento no sofá sem encostar as costas apoiado nos punhos já me preparando para levantar logo me levanto e vou à cozinha olho para a pia e retorno ao sofá onde me sento sem encostar as costas já me preparando para me levantar olho para um aparelho de televisão que percebo estar ligado onde algumas pessoas estão falando mas não sei qual o programa que está passando e me levanto vacilo um pouco sinto que meus braços estão fracos e tremem vou à cozinha olho a pia e o filtro d’água e retorno ao sofá onde me sento sem encostar as costas na televisão onde aparece  um homem muito chato colocando as mãos sobre a cabeça de uma mulher muito magra e agitada falando sobre o capeta não sei se é sobre ele mesmo e o homem diz algumas palavras fecha os olhos dá uns gritos e a mulher fica calma acho que é fingimento mas as pessoas batem palmas e o homem se levanta com os braços abertos não sei se é um show ou um espetáculo de mágica as pessoas ao meu lado continuam falando e eu me levanto com dificuldade vou à cozinha olho a pia e o filtro d’água vejo que a janela está aberta e retorno ao sofá onde me sento sem encostar as costas já me preparando para levantar o jovem que me beijou no rosto e que diz ser meu neto me abraça novamente e vai embora eu sei que ele não veio me visitar pois só vem aqui quando tem alguém de fora logo em seguida eu me levanto vou à cozinha olho a pia e o filtro d’água percebo o relógio na parede mas não sei que horas são antigamente eu sabia ler a hora marcada por esses dois ponteiros mas já me acostumei ao meu relógio de números, sem ponteiro e retorno ao sofá onde me sento sem encostar as costas percebo uma árvore de natal mas será que já é natal faço de conta que sei e fico calado agora as pessoas não se dirigem mais a mim perguntam meu nome e quantos anos tenho à pessoa que está ao meu lado sem falar comigo e  novamente me levanto vou ao corredor e à cozinha olho a pia e noto que a janela continua aberta e retorno para o sofá onde me sento sem encostar as costas me lembro da minha mãe e dos meus irmãos e sinto saudade de quando morávamos no interior e íamos ao grupo escolar fazendo algazarra logo me levanto vou à cozinha olho a pia e a janela, percebo que há frutas em cima da geladeira retorno e me sento no sofá sem encostar as costas ameaço levantar mas a pessoa ao meu lado me pede para esperar um pouco e eu volto à posição anterior semi-sentado mas logo em seguida me levanto vou à cozinha vejo que estão preparando comida deve ser para o almoço mas eu não sei se já tomei café deve ser o café mas a comida é muita parece ser um almoço e retorno ao sofá onde sento sem encostar as costas e mais uma vez me levanto e vou mais uma vez à cozinha mas para que tanta comida aqui só existe eu e a moça mas percebo que tem outras pessoas em minha casa não sei quem são parece ser minha filha que mora fora com o seu marido mas eu não lembro de seus nomes e faço de conta que sei só para não dar moleza senão vão dizer que estou ficando sem memória e eu não quero isso retorno ao sofá onde me sento sem encostar as costas levanto e vou à cozinha e percebo que estão colocando a comida na mesa será que já é hora do almoço mas eu não tomei café deixa pra lá eu devo estar enganado e isso é o café e me levanto vou à cozinha olho a pia e a janela e retorno ao sofá a moça que se diz ser minha filha tem o maior cuidado comigo mas não interfere nos meus afazeres nem na minha rotina eu me levanto vou à cozinha e ando pelo corredor retorno e me sento sem encostar as costas olho a árvore de natal que está com as luzes apagadas mas o ventilador está ligado e o ventinho vem direto no meu rosto eu me levanto vou à cozinha olho a pia e a janela, abro as  panelas uma por uma vejo que a comida é bonita e cheirosa mas não sei o que é antigamente era eu que fazia a comida retorno ao sofá onde me sento sem encostar as costas levanto a cabeça e percebo que as janelas da sala são amplas e têm uma tela de proteção que eu ainda não havia notado novamente me levanto vou à cozinha olho a pia e a janela e retorno ao sofá tropecei  e quase caio desta vez e as pessoas fazem movimento para me segurar sinto que já estou com os braços doídos de tanto me levantar mas me levanto mais uma vez e vou à cozinha, olho a pia e a janela e percebo que já estão colocando a comida na mesa e me sento no sofá sem encostar as costas mas logo em seguida me chamam para almoçar a moça ao meu lado me pega pelo braço e me leva à mesa pergunta o que eu quero comer eu digo que como qualquer coisa e ela coloca um pouco de cada alimento como à vontade e me oferecem suco de fruta depois do almoço me servem um pouco de doce de leite e eu peço mais um pouco porque está muito gostoso sei que deixei cair um pouco de comida sujei a toalha e o piso da sala a moça limpa minha boca e retorno ao sofá onde me sento e dessa vez encosto as costas e me sinto bem melhor acho que foi devido ao almoço não tenho vontade de deitar e fico em frente à televisão onde passa outro programa chato de esportes eu que sempre gostei de esportes e hoje não suporto mais todos os programas que passam na televisão são chatos não gosto de nenhum mas sei que já gostei a moça que diz ser minha filha me leva para o quarto liga o ar condicionado e fica contando estórias que tenho certeza já conhecer em alguma dimensão de minha vida e fico aguardando o almoço será que hoje não se almoça nesta casa…

Doança de Alzheimer


Responses

  1. Excelente artigo. Já o havia lido na publicação que foi feita no Jornal de Hoje, aqui de Natal.
    O assunto é momentoso, desafiador e próprio de uma época de transformações revolucionárias, característica da pós-modernidade.

  2. Fiquemos atentos, pois, é uma donça que convivemos com a mesma, e muitos dos nossos amigos e próximos, convivem com ela.
    Um bom começo é ver o histórico familiar como precaução.
    Parabéns Evaldo pelo alerta, e uma crônica espetacular, peculiar da sua maravilhosa pessoa.

    • Caro Othon, este relato foi feito conforme aconteceu, sendo observado e anotado por mim durante uma hora ao lado dessa pessoa maravilhosa, hoje entregue ao esquecimento e à inquetude. Como você falou, cabe a cada um de nós fazer um esforço para reagir do melhor modo possível às intempéries do tempo sobre nossos sistemas orgânicos, em especial à mente.

  3. Prof. Josoniel, sua avaliação de um trabalho literário tem o peso de um selo do SIF para os alimentos de origem animal. Sem ele, não vale.
    SEI QUE VOCÊ SE REFERE À NANOMEDICINA.

  4. Mas uma vez voce me da uma licao.
    Nao estou falando do que aprendi ,sobre a doenca, porem sobre os sentimentos e pensamentos que atravessam o celebro humano
    Alzheimer e uma doenca terrivel, por ainda nao ter cura e todos nos temos que tentar nos proteger, embora, nada ser garantido
    O amor,carinho e dedicacao sao importantes para se lidar com o ser humano que carrega esta doenca.
    Muito obrigada ,por escrever .
    Dodora

    • Dodora, realmente, depois que a pessoa atinge um certo estágio na evolução dessa doença, a vida fica como se ela fosse um fantoche, sem passado ou futuro. Só existe o agora, o que está acontecendo, e, mesmo assim, a pessoa não sabe o que ocorre, como se estivesse num fosso de esquecimento. Obrigado pelas observações.


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