Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 5, 2010

DIVAGAÇÕES DE UM EX-DIRETOR

Dois anos depois de ter se desligado, a pedido, da Coordenação Geral da empresa Informações Voltaicas Ltda, Odafne finalmente decidiu: voltaria a trabalhar em outra empresa, como empregado. É que ele havia se aventurado na prestação serviços de assessoria a empresas de grande porte, porém o negócio evoluiu de forma insatisfatória, e ele estava retornando ao mercado de trabalho.

Admitido como Assistente Técnico, apresentou-se e iniciou suas atividades com disposição de estagiário. Sua estação de trabalho era a última, no final da sala, próximo à copiadora, mas isso não o desestimulou. Apenas lembrou-se de que, antes, tinha uma sala imensa só para si, com dois telefones sobre a mesa e dois celulares corporativos, além de uma secretária.

 No segundo dia, ao assumir de fato o trabalho, percebeu que seu computador era tão antigo que tinha até janela para disquete. Entrada para pen drive? Nem pensar. O telefone tocou, e alguém lá na frente gritou: “Atende aí, Odafne”! Sentiu sede, e teve que ir buscar água no bebedouro, que ficava na copa. E o copo era de plástico. Foi aí que percebeu que alguns colocavam água em uma embalagem de refrigerante, pois assim demorariam mais tempo sem ir à copa para reabastecimento.  

A copa era ponto de aglomeração dos funcionários que iam lanchar, beber água e bater papo. A visita à copa era uma festa. No primeiro dia, estranhou o mecanismo que acionava a descida do copo, em frente ao bebedouro. Assustou-se, pois achou que o copo ia cair no chão, e ele, o copo, se postou acrobaticamente na parte de baixo, em posição de uso.

Na copa havia um verdadeiro festival de comidas, e as conversas não fugiam a dois itens básicos: futebol e mulher, para os homens, e receitas de pratos, com as últimas fofocas da televisão para as mulheres. Não valiam as antigas. Fora disso, o papo era sinistro. Falavam da alta chefia da empresa, e não se importavam com sua presença. Quando era diretor, os funcionários ficavam mudos ao perceberem sua aproximação. O lanche era oferecido pela empresa, e de excelente qualidade, servido em uma sala reservada à Diretoria.

O desconforto com o crachá pendurado no pescoço era evidente, assim como o constrangimento quando da colocação do indicador na máquina de ponto no início e no final do expediente.

Mas por essa ele não esperava. Na segunda semana de trabalho, recebeu um e-mail pedindo dinheiro emprestado. No início achou que fosse brincadeira. Mas seu colega, na entrada da sala,  erguia o polegar direito, confirmando a veracidade do texto,  ao perceber que ele estava lendo a correspondência eletrônica. E ele quase não conhecia o pretenso tomador do empréstimo. Mal o cumprimentara na copa. Sabia apenas seu primeiro nome: Anacas que, veio saber depois, era resultado da junção do nome da mãe – Ana – com o do pai – Castilho. E Odafne perdeu cem reais antes de receber o primeiro pagamento.

À noite, em casa, com o corpo cansado e a mente fervilhando, o ex-diretor chegaria a uma peremptória conclusão: era um orelha seca.


Responses

  1. Realmente a vida de um “orelha seca” não é nada fácil!!! E o pior de tudo é já ter tido a oportunidade de ter sido chefe e saber tudo o que foi perdido… mas todos temos os nossos dias de “orelha seca”…
    Excelente!
    Alice Carolina

  2. O pior é saber que independentemente do cargo, sempre somos orelhas secas, ora por sermos subordinados, ora por achar que estaremos sempre por cima.


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