Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 3, 2010

O QUE? Onde? Quando?

Era um dia de sábado, com almoço acertado com o marido. Moqueca de badejo. Dava até para imaginar os camarões misturados ao molho, acompanhado daquele arroz branco neve.

            Beatriz, satisfeita e de paladar exigente, preparava-se para o almoço. Mas, antes, foi ao salão de beleza, perto de casa, fazer uma escova no cabelo. Quando o marido foi apanhá-la, a cabeleira fez sinal de que algo estava errado com sua cliente. É que Beatriz insistia em pagar novamente a conta, que já havia sido quitada. Odlave chegou e ela, de supetão, perguntou:

            – Onde está Fernando?

            – Foi almoçar fora – Responde o marido.

            – E Ecila?

            – Foi almoçar fora, também.

            – E Pedro? 

– Foi almoçar fora, como você sabe.

            Beatriz olha novamente para Odlave e pergunta:

            – Onde está Fernando?

            – Foi almoçar fora – Responde pacientemente o marido.

            – E Ecila?

            – Foi almoçar fora, conforme já disse.

            – E Pedro?

            – Também foi almoçar fora.

            Meu Deus, o que está acontecendo comigo?! – Pergunta Beatriz a si mesma, com as mãos no rosto, já desconfiando de que algo estranho estava acontecendo. E, mais uma vez, pergunta:

            – Onde está Fernando?

            – Foi almoçar fora, já falei.

            – E Ecila?

            – Também foi almoçar fora.

            – E Pedro?

            – Os três foram almoçar fora. Aquela feijoada que combinaram desde ontem, lembra? – Pergunta o marido já preocupado.

            O marido, então, bastante ansioso, liga para uma neurologista sua amiga, que, após tomar conhecimento do modo como tudo acontecera, perguntou:

            – Ela reconhece as pessoas?

– Sim, reconhece todos os familiares.

– Ela se lembra do que fez pela manhã?

– Sim, lembra de tudo até entrar no salão de beleza e dobrar a cabeça para a lavagem do cabelo. Daí em diante não lembra de nada.

E a neurologista foi incisiva:

– Acho que Beatriz, ao dobrar o pescoço por muito tempo, para lavagem dos cabelos, comprimiu – como se dobrássemos uma mangueira de jardim, bloqueando a passagem da água – a artéria vertebral, que passa pela face anterior pescoço. Vamos esperar quatro horas. Se for o que eu estou suspeitando, a memória logo voltará ao normal. Na segunda-feira leve-a ao meu consultório, mas me ligue daqui a quatro horas. Certo?

E, em casa, as perguntas se sucediam, sempre nesta ordem:

– Onde está Fernando? E Ercila? E Pedro?

Enquanto isso, Beatriz, deitada na cama, por indicação do marido, perguntava:

– Por que eu estou em casa hoje?

– Porque hoje é sete de setembro.

– Por que eu estou deitada a essa hora do dia?

E as perguntas se sucediam, numa repetição cansativa e aparentemente sem nexo.

Eram quatro horas da tarde, quando Beatriz pergunta:

– Os meninos já voltaram do almoço?

E sua memória foi, aos poucos, readquirindo aquele perfil coerente que sempre caracterizou aquela inteligente mulher. Na segunda-feira, no consultório, a neurologista, de posse de um mapa anatômico das artérias do cérebro, explicava em detalhes o que acontecera:

– Veja aqui. A artéria vertebral passa pela face anterior pescoço, atravessando esses orifícios das vértebras cervicais superiores e penetra no crânio. O pinçamento da artéria, quando ela dobrou o pescoço para trás, suspendeu o fornecimento de sangue a uma parte do cérebro, e o organismo, para poupar estruturas vitais, desviou o sangue que fluiria para a região do cérebro responsável pela memória recente, retornando ao fluxo anterior quando o pinçamento foi desfeito, com a volta do pescoço à sua posição normal. Durante esse período de tempo, nada ficou registrado em sua memória. Daí essas perguntas repetidas sobre fatos recentes, porque os fatos passados já estavam arquivados em sua mente.

Preparando-se para deixar o consultório, marido e mulher foram alertados pela neurologista:

– Esperem. Vamos fazer uma ressonância magnética do crânio para confirmar tudo isso.


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