Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 22, 2010

DOM CASMURRO e o perequito do Roberto

 

Apesar da insistência da mãe, Roberto fugia do livro, estrategicamente colocado por dona Cândida em sua mesinha de cabeceira. No fundo, no fundo mesmo, sua mãe queria influenciá-lo com a desdita de Bentinho e seus ciúmes, infundados ou não.

E a pergunta da semana:

– Já começou a ler Dom Casmurro?

E a resposta de sempre:

– Ah, mãe, eu ando muito ocupado.

E andava mesmo. Além das aulas e dos treinamentos de judô, quase não sobrava tempo para cuidar de Árgus, o periquito que sua namorada lhe dera. Era o xodó do Beto.

José Roberto Centeio era um rapaz forte, estudante do último semestre do segundo grau, e campeão de judô, categoria meio-pesado. Brincalhão, bonachão, virava uma fera no tatame.

Mas veio uma tosse aborrecida, febre diária, dores de cabeça, cansaço fácil e indisposição para tudo. De tão fraco, quase não conseguia levantar-se da cama. Os primeiros exames revelaram uma pneumonia que, apesar do tratamento adequado, não apresentava remissão. E Roberto só piorava. Eram tosse e picos febris o dia inteiro.

Assustados, os pais o levaram a um infectologista, que, após examiná-lo detalhadamente, perguntou franzindo o cenho:

– Você tem algum pássaro em casa?

– Tenho, sim. O Árgus.

Roberto fez ar de riso e continuou:

– Desculpe. O Árgus é um periquito que ganhei da minha namorada, e fico boa parte do tempo brincando com ele, que adora ficar no meu ombro. A todo momento fico roçando o nariz em suas penas amarelinhas.

– Era o que eu queria saber – falou o Dr. Orni. Vou solicitar alguns exames de sangue apenas para confirmação, mas a minha suspeita diagnóstica é Psitacose.

Percebendo a cara de espanto de todos, o médico apressou-se em explicar:

– A psitacose é uma doença produzida pela Chlamydia psittaci, e é transmitida pelos papagaios e periquitos, além dos pombos, e ocorre com mais frequência em tratadores de viveiros, podendo causar complicações graves.

Após a solicitação dos exames, saíram todos dali com um certo alívio. Finalmente sabiam o que Roberto tinha: psitacose.

Em casa, na internet, dona Cândida ficou sabendo que nos anos de 1929/1930 ocorreu uma pandemia – enfermidade epidêmica amplamente disseminada – atingindo a Europa, América do Norte e América do Sul, trazida por papagaios infectados importados da América do Sul.

Em casa, alguns dias depois, já apresentando melhora, e cedendo aos olhares dissimulados de sua mãe, Roberto encarou Dom Casmurro, até para esquecer o amigo Árgus, misteriosamente desaparecido.

A melhora acentuava-se à medida que o tempo passava, e a mãe de Roberto percebeu que o marcador de páginas do livro não evoluía. Há dias estacionara no capítulo LV, que tratava do primeiro soneto que Bentinho tentara produzir em toda sua vida. Bentinho, no seminário, e angustiado com a saudade de Capitu, ensaiara um soneto, – composição poética composta de catorze versos, e cujo último verso concentra a idéia principal do poema – do qual dispunha apenas do primeiro verso e de um esboço do último:

Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!

Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

Depois de muito meditar, Bentinho teria, enfim, a versão definitiva do último verso:

Ganha-se a vida, perde-se a batalha!

E disse Bentinho, diante da impossibilidade de construir os doze versos que restavam:

– dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser.

– Beto, – falou sua mãe carinhosamente – você não vai concluir a leitura do livro?

– Sabe, mãe, eu estou tentando concluir o soneto do Bentinho, mas não consigo. Parece um desafio, um enigma que ele plantou naquele capítulo, a fim de despistar os seus ciúmes de Capitu. Seria aquele soneto o seu panegírico?

Hoje, passados alguns meses, Roberto está totalmente curado da psitacose. Sabe-se que ele não conseguiu construir um verso sequer dos doze que faltavam. O que se sabe é que ele não terminou a leitura de Dom Casmurro. O marcador de páginas continuava no capítulo LV, Um Soneto. Embaixo estava escrito com sua letra: “procurar o significado de panegírico”. Sua mãe, então, escreveu: Panegírico – discurso em louvor de alguém – e exemplificando: “elogiou o enterro, e por último fez o panegírico do morto, uma grande alma, espírito ativo, coração reto, expressara-se o agregado José Dias ao deixar o cemitério, no enterro de Escobar” (Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulo CXXVI).

“Continue lendo” – escreveu sua mãe.


Responses

  1. Evaldo só você para fazer eu ficar com saudades da minha adolecência, li Dom Casmurro para fazer trabalho escolar com obrigação de aluno, depois de alguns anos li novamente, aí sim a leitura foi maravilhosa, foi gostoso curti bastante a leitura. Um grande abraço da sua amiga Elizete

  2. Elizete, já li Dom Casmurro algumas vezes, e a cada leitura me defronto com situaçoes emblemáticas do nosso escritor maior. Esse caso do Roberto aconteceu, era meu cliente – sou Pediatra.


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