Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 1, 2010

O MENINO E A CHUVA

            Pela primeira vez inicio uma crônica negando algo. Portanto, chuva não é (só) um fenômeno meteorológico que consiste na precipitação de gotas d’água no estado líquido sobre a superfície da Terra. Até porque há chuvas que nem caem no solo. É que as gotas são evaporadas enquanto ainda estão no ar, fenômeno este chamado virga. Portanto, virga é uma chuva que se evapora – trazida de volta, cancelada – enquanto ainda está a cair, num fenômeno que acontece principalmente em períodos ou locais de ar seco.

            As gotas de chuva têm diâmetro entre 1 a 4 milímetros, enquanto as gotículas das nuvens medem em torno de 15 micra (um micron equivale à milésima parte do milímetro), e podem ficar suspensas no ar por muito tempo. Por serem bem maiores e mais pesadas, as gotas de chuva não ficam suspensas no ar e se precipitam.

            Repito: chuva não é (só) isto. Quando se é criança – especialmente quem nasceu e cresceu em cidade praiana, com rio desaguando no mar,  pequena, no interior do Nordeste -, sabe-se muito bem o significado de uma chuva, especialmente aquelas demoradas, que assumiam a imponência de um aguaceiro, com os relâmpagos que, acompanhados por seus trovões, rasgavam o escuro céu que encobria os manguezais, ribombando nas gamboas, ecoando nas águas do rio e do mar, perdidos e atônitos na escuridão, o rio desamparado, procurando o amparo e o carinho do mar, e a maré baixava. O rio dormiria aquela noite nas profundezas do mar.

             Nessa época eu não sabia a diferença entre relâmpago e raio, e, na dúvida, procurava amparo. Hoje sei que o relâmpago é uma descarga elétrica que ocorre entre nuvens, enquanto o raio é uma descarga elétrica que se origina do contato de nuvens de chuva com a terra. O trovão é filho dos dois.

            Há um raio na história da Medicina. Asclépio, então apenas um dedicado e competente médico, foi acusado por Hades, o deus das trevas, de estar ressuscitando os mortos; portanto, intrometendo-se em seu reino. Hades pediu a Zeus que aniquilasse aquele médico intrometido, e foram convocados os ciclopes produtores de raios, que, com extrema habilidade, fulminaram Asclépio com um raio certeiro. O pai de Asclépio, Apolo, exigiu que Asclépio fosse ressuscitado por Zeus, e agora como um deus. E até hoje Asclépio reina absoluto como o deus da Medicina.

            Nas chuvas noturnas, a cidade assumia ares de festa, e as crianças corriam para vestir seus calções de banho (não eram shorts), gritando para os amigos da vizinhança, e saíam em disparada, promovendo uma algazarra benfazeja, em busca das bicas mais grossas, com jatos que doíam na moleira. Era uma festa. Muitas pessoas na rua, a correr de bica em bica, aos risos, rosto voltado para o céu, sentindo as gotas na testa, em torno dos olhos, no peito, no coração, em um festejo de típica euforia juvenil.

            As portas das casas se abriam, e surgiam rostos conhecidos e felizes, em perfeita harmonia com o clima que reinava debaixo do temporal. Aqui e ali, vindas da porta dos fundos, ouviam-se vozes que clamavam aos céus, dizendo “Abaixa a mão, mãe de Deus!”, ao tempo em que cinzas de velhos fogões eram lançadas ao vento, clamando por parcimônia e clemência. Nesses momentos, também Santa Bárbara e São Jerônimo eram convocados à luta por velhos rostos marcados pelo tempo.

            Claro que algumas crianças se escondiam debaixo do lençol ou corriam para o quarto dos pais, e, ancoradas em um par de costas quentinhas, pedia ao seu Anjo da Guarda que fizesse parar aquela ameaça da natureza.

            O raio de ação das crianças da Rua da Frente se estendia à Rua do Meio, passava pela pracinha e tinha como limite o Cine Coronel Fausto. E atenção ao horário, pois às vinte e duas as luzes se apagariam. Em seguida, era retornar para casa com a alma lavada, enxugar-se e curtir, da cama ou da rede, aquele barulhinho a nos embalar até o sono nos arrastar para os sonhos que até hoje aconchegamos no fundo do peito.

            No dia seguinte, as ruas ofereciam seu solo molhado à brincadeira das crianças.

            As crianças, de novo.


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