Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 4, 2010

A MÃO ESTENDIDA E O FILME DA HISTÓRIA

 

                Esta aconteceu no consultório de Doenças Sexualmente Transmissíveis. O paciente, após a história clínica, expõe o órgão afetado pela gonorreia. Supuração espessa e abundante, amarelo-esverdeada, chegando a escorrer pelos dedos que o expõem, respingando no chão.

            Confirmado o diagnóstico, discutido e ministrado o tratamento específico, medicamento entregue e tomado na minha frente, defronto-me com um aperto de mão armado em minha direção, sinal de puro agradecimento.

            Aquela mão simples, calejada, sincera, afetuosa – e contaminada -, que se oferecia a um aperto cordial, fez-me voltar no tempo, em um passeio pela história da Medicina.

             Ocorreu-me que somente em 1875 John Tyndal descobriria a ação bactericida do Penicillum notatum (penicilina) ao estudar culturas de bactérias em tubos de ensaio, e que foram necessários cinquenta e oito anos para que Fleming, em 1928, pudesse finalmente fazer a relação entre a penicilina produzida por seus fungos e sua ação antibacteriana, inclusive contra o gonococo. E mais catorze anos se passariam para que a penicilina fosse produzida e utilizada como tal, em 1942. E lembrei-me de que Fleming, o maior especialista no tratamento da sífilis na Inglaterra, não fez o mesmo teste com os espiroquetas que causam esta doença. A história da evolução da sífilis teria sido outra, com certeza.

             Lembrei-me também do velho paradigma que sustentava não ser uma bactéria capaz de causar doença em animais ou em seres humanos, que vigorou até 1882, quando Robert Kock conseguiu provar o contrário, ao demonstrar ser a tuberculose causada por um bacilo.

            Até 1930 a ciência médica era incapaz de conceber que uma droga de qualquer tipo fosse capaz de curar uma infecção sistêmica. Essa idéia era tão arraigada que Fleming, no início, achava que a penicilina tinha ação limitada, servindo apenas como unguento ou um líquido para lavar.

            E fiz ar de riso, ao lembrar que apenas uma pequena parte das bactérias são capazes de causar doenças. Sabemos que são as bactérias da pele que ajudam a degradar as células mortas e destruir os resíduos eliminados pelos poros e glândulas. O que existe é um estado de equilíbrio entre as bactérias e o hospedeiro. Um estafilococo ou um estreptococo que esteja na garganta há meses pode, de repente, tendo o organismo enfraquecido, fazer eclodir uma infecção; do mesmo modo, um pneumococo que habite tranquilamente o pulmão pode capitanear uma pneumonia se a resistência do organismo fraquejar. Pois não é desse modo acontecem as infecções oportunistas na SIDA/AIDS?

            Foram segundos de meditação, nesse passeio pela história da humanidade, e aquela mão continuava oferecida para um aperto fraternal.

            Apontei para a pia e para o sabão líquido. Feita a devida assepsia, o aperto fluiu sincero e forte.

            E o perfeito entendimento deste ato somente foi tornado possível há apenas sessenta e nove anos (tempo em que a penicilina existe entre nós).

            ¹ Crônica baseada em fato real

Evaldo Alves de Oliveira, médico e escritor


Responses

  1. Como sempre Dr Evaldo a sua cronica nos da conhecimentos que nao temos, e nao se aprende no dia a dia.
    Obrigada por esclarecer o que aquele aperto de mao, sem a hegiene necessaria, poderia transmitir.
    Na verdade todos os dias seguramos em corrimoes,apertamos botoes de elevadores, rodamos massanetas de portas e carros, sem termos a menor ideia, quem tocou os mesmos lugares, antes de nos.
    Um abraco.
    Dodora

  2. Dodora, sua visita a este blog sempre traz boas informações, como essas dos cuidados que temos que ter, sempre entendendo que nossas mãos estão, potencialmente, sempre contaminadas por esses contatos com vasos sanitários, transporte público, puxadores de portas, apertos de mãos, espirros contidos com as mãos etc. Volte sempre.


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