Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 15, 2010

CONFUSÃO NO CÉU, vamos evitar

 

Na casa dos Ferreira de Lima o clima era de abatimento e tristeza. A irmã mais velha, Quitéria, encontrava-se bastante enferma. Sua doença era o assunto de todas as discussões em família. O clima em casa, em Brasília, que já era pesado, piorou ainda mais com a evolução desfavorável de seu estado de saúde.  Os dias iam passando e dona Quitéria não apresentava qualquer sinal de melhora. Na verdade, o seu estado de saúde era considerado muito grave pelos médicos.

De Natal chegou a notícia de que a irmã do meio, Adelaide, fora acometida de uma doença do coração, e estava hospitalizada. A aflição da família só aumentou. Agora eram duas irmãs gravemente enfermas.

As duas eram muito amigas, e desde pequenas tinham jurado amizade eterna, em uma festa de São João, em Natal, em meio ao colorido das bandeirolas, ao calor da fogueira crepitante, ao som da sanfona e ao estalar de fogos, e isso as levou a uma cumplicidade quase absoluta. Segredos não existiam entre elas.

Quitéria piorava dia a dia, e a instabilidade emocional tomava conta de todos em casa. Para complicar, de Natal chegava a informação de que Adelaide entrara em coma, alternando com momentos de discreta lucidez – quando chegava a conversar com as pessoas -, para depois mergulhar novamente nas trevas da incomunicabilidade.

Na quinta-feira o estado de saúde de Quitéria chegou ao seu pior momento, e a morte já mostrava seus dentes cariados e seu olhar de catarata total. À noite veio o desfecho: Quitéria já não constava da lista de beneficiários do INSS.

Os familiares, aflitos, discutiam as providências a serem tomadas. O atestado do médico, a certidão de óbito, o velório. O destino dos bens que deixara seria discutidos depois.

Afrânia, a irmã mais nova, secretária do coral do grupo católico das Filhas de Maria, reuniu a família para acertar uma última providência: determinar que avisassem à irmã Adelaide – que entrava e saía do coma -, da morte de sua irmã Quitéria. Foi uma comoção. O irmão Otomar, assumindo as rédeas dos acontecimentos, não acreditava naquela proposta. Como avisar da morte de uma pessoa a outra que está na iminência de morrer? Afrânia, com ar de seriedade, foi contundente:

– Temos que avisar, sim! Já pensaram se Adelaide morre e encontra com Quitéria lá em cima, sem saber que ela morreu? Será que vocês não percebem o impacto que esse encontro vai trazer para nossa irmã Adelaide, que é doente do coração?

E na mesma noite alguém avisava à moribunda que sua irmã havia morrido. Adelaide apenas abriu os olhos e esboçou seu último e pálido sorriso.

No dia seguinte aconteceu o enterro das duas, em Fortaleza.


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