Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 8, 2010

CAIURÉ IMANA, O TUXAUA INDOMÁVEL

Segunda parte.

Final do resumo do livro CAIURÉ IMANA, O CACIQUE REBELDE, do historiador OLÍMPIO CRUZ.

Notícias do acontecimento chegaram às grandes cidades do Brasil, causando grande consternação. O Papa, Sua Santidade Leão XII, assim se expressou: “São as primícias do século XX”.

            A essa altura, o rebelde Cauiré estava de posse de barris de pólvora, sacos de chumbo e caixotes de espoletas, duas dúzias de espingardas lazarinas e alguns rifles calibre 44.

            No dia 9 de abril de 1901 chegava de São Luís do Maranhão o alferes Manoel Gonçalves com um reforço de soldados, para se apresentar ao Tte. Cel. Pedro José Pinto, que havia chegado da cidade de Picos, hoje Colinas, com uma tropa de 62 praças de infantaria, 2 oficiais, 5 paisanos e 42 índios da tribo Canela, inimigos tradicionais dos guajajaras.

            Assim, a tropa bem organizada, composta de 111 combatentes, sob o comando daquele coronel, partiu de Barra do Corda na direção de Alto Alegre no dia 14 de abril.

            A tropa marchou devagar, e o ataque foi marcado para o dia 20, antes que o dia clareasse. Vindo de Grajaú, descia o Cap. Raimundo Ângelo Goiabeira, trazendo um reforço de 40 homens, na intenção de sufocar aquele grupo de índios.

            Para evitar o extermínio daquela tribo, que por princípio de aculturação ignorava e rejeitava os ensinamentos da religião cristã pregada pelos missionários, o comandante Pinto mandou que os índios canels, seus aliados, tocassem as suas honhis ou buzinas, e que o som atroante cobrisse de terror os guerreiros de Cauiré, fazendo com que esses fugissem e nem todos morressem. E muitos dos guajajaras, ao ouvirem o som estridente das buzinas dos canelas, ficaram assombrados e fugiram:

            – Agora, tudo piorou. Temos os cristãos de barra do Corda, os de Grajaú e ainda esses compridos nhambiquarasa (orelhas furadas, os canelas) contra nós.

            Cauiré dava instruções e ordens para os seus homens, encorajando-os a resistir:

            – Coragem, meu povo! Temos muitos homens, pólvora, chumbo, espoleta, espingardas e até alguns rifles carregados de balas. Os orelhas furadas, os tais canelas, aquelas guaribas de beira de brejo, nada valem! Coragem, muita coragem e pontaria certa!

            Os guajajaras, com o alto comando entrincheirado no convento, por ordem de Cauiré, que acrescentara:

            – Assim será melhor! Vamos esperar esses brancos, pobres macacos ruivos, daqui mesmo de dentro das casas, à sombra, livres do sol e da chuva! Eles, os cristãos, e os índios canelas não têm poder para retirar a gente daqui. Somente Tupã tem forças para isto.

            A tropa do Cel. Pinto, depois de cercar a pequena povoação de Alto Alegre e desfechar um cerrado tiroteio contra Cauiré e seus guerreiros, obrigou muitos índios a fugir. Na fuga, esses índios se depararam com as forças do Cap. Goiabeira, que se vingou bastante de sua primeira derrota, quando descia pela primeira vez de Grajaú.

            Cauiré, com seus principais caciques, aliados e auxiliares, provando pela primeira vez o amargor de uma derrota dramática, juntou seus últimos guerreiros e foi entrincheirar-se noutras aldeias, depois da lagoa do Jacaré.

            O Cel. Pinto tomou a resolução de mandar o Cap. Goiabeira seguir com parte da tropa à aldeia Canabrava, onde estava o tuxaua Cauiré, na esperança de, pelo menos, salvar a sua vida e a de sua gente, e ao mesmo tempo disposto a perdê-la em troca da liberdade da própria tribo. A tropa chegou àquela aldeia no dia 6 de maio, cercando-a no dia 7, entre cinco e seis horas da manhã.

            E foi travado intenso tiroteio, com fases de arrefecimento, dando tempo para que o oficial pudesse falar com Cauiré, aconselhando-o a entregar-se..

            Cauiré, tarde demais, compreendeu que a vitória pendia para o lado da tropa do Governo, pois se via sozinho e desarmado. A maior parte dos seus guerreiros, inclusive alguns dos caciques aliados, havia fugido, evitando a morte, ao considerar que não poderiam mais continuar aquela luta. Todas as espingardas já estavam sem pólvora, chumbo e espoleta.

            Sem que fosse ouvido qualquer disparo por parte dos índios, o capitão Goiabeira falou:

            – Soldados, entremos na aldeia!

            Aquele oficial e seus comandados mal puseram os pés nos terreiros dos casebres, ouviram a voz de Cauiré:

            – Malvado capitão Goiabeira, não preciso mais de viver! Vou sair na tua frente… Mata-me, se é esse o desejo de todos os brancos malvados! Mas fica sabendo que eu não tenho medo de ti, nem do Cel. Pinto, nem de Tomé, nem de Gonçalves.

            E continuou:

            – Capitão Goiabeira, faze como eu, aprende a ter coragem! Aqui estou desarmado… Aproveita e dispara as tuas armas!

            E saindo de uma cabana que começava a pegar fogo, e imitando a suçuarana ferida, de repente, como louco, avançou rumo aos soldados e falou que sabia morrer como um verdadeiro homem da tribo Guajajara! Pediu para ser morto.

            Nesse instante, do lado das tropas, ouviu-se uma voz forte e pausada que assim dizia:

            – Valente chefe Cauiré, não queremos tirar-te a vida. Desejamos apenas levar-te a Barra do Corda e a São Luís do Maranhão, onde o Governador tem poder para perdoar tudo e logo de mandar de volta a esta mesma região, onde nasceste e tens vivido até agora. Ele poderá te dar uma grande faixa de terra demarcada, onde quiseres escolher e ainda viver feliz com a tua gente!

            – Não! Não me interessa conhecer Torreão da Costa mais de uma vez!… Nem também me interessa ganhar de homem algum aquilo que já é nosso, e que Tupã deixou para os seus filhos. Não quero nada. Apenas quero morrer!…

            Cauiré, mal acabando de falar, foi rapidamente dominado pelos soldados. Afinal, estava preso e algemado o perigoso Cauiré, o general da selva, ou o diabo das aldeias.

            O chefe índio Manoel Justino, algemado, caminhava entre os soldados, triste, pensando como iria chegar a Alto Alegre ou a Barra do Corda, distantes poucos quilômetros dali. De repente, parou e falou bem alto:

            – Gonçalves, fica sabendo que não seguirei daqui para frente nem mais um palmo!

            Um soldado o empurrou. Outro tentou arrastá-lo e logo recebeu um forte pontapé. Embora houvesse recomendação para ser conduzido vivo, aquele soldado se sentiu desfeiteado, desfechou-lhe dois tiros de pistola no peito, fazendo tombar, sem vida, aquele rebelde da selva, cuja inúbia (tipo de trombeta de guerra) nunca mais ressoaria naquelas paragens.  

            No final do mês de maio, pela manhã, a corneta e os tambores anunciavam a chegada do capitão Goiabeira, conduzindo à sua frente, montado num cavalo baio, o cacique Cauiré. Parecia receber tratamento honroso como prisioneiro de alto valor.

            A tropa, por onde passava, escutava os vivas dos sertanejos em gratidão àqueles homens agora considerados como verdadeiros heróis. Muita gente comentava cenas dantescas, que nunca tinham acontecido; outros insultavam os índios, dizendo:

            – Taí, agora queremos ver esse diabo velho, esse tal de Cauiré, poder praticar malvadeza contra os padres, freiras e cristãos!

            Algumas pessoas, ao avistarem aqueles índios, benziam-se três vezes, como se estivessem vendo a figura de satanás.

            Ao chegar a Barra do Corda, na ponte, ao entrarem na cidade, ouviu-se a banda de música executar o Hino Nacional e diversos dobrados cívicos. O velho canhão deu diversos disparos. Os foguetes pipocavam por toda parte, enquanto o povo abria alas para que os oficiais, soldados e os índios, após atravessarem a ponte, pudessem alcançar a cadeia pública, defronte da qual o povo se aglomerava.

            Cauiré e seus índios foram encarcerados. Os curiosos fervilhavam em volta da prisão.

            Instaurado o inquérito, Cauiré Imana foi o mais acusado. Já condenado, depois de mais de dois anos preso, o chefe guajajara, com o corpo todo inchado e as faces arroxeadas pelas sevícias, não resistiu e morreu na cadeia pública da cidade de Barra do Corda.

            Fala-se em 400 o número de pessoas mortas pelos índios, mas um boletim do IBGE afirma ter sido 200, entre elas os padres, as freiras, as professoras e as internas do Colégio da Missão.

            No dia 22 de março de 1901 os padres capuchinhos, em sua Mensagem Fúnebre, escreviam: “Tremenda e fulminante nos chegou, a nós, pobres padres Capuchinhos, a notícia da tragédia cruel e nefanda de  que foram vítimas os nossos caros confrades no Alto Alegre, comarca de Grajaú, onde há seis anos se dedicavam à regeneração civil e religiosa das crianças indígenas! Bárbaras mãos, correspondendo ao benefício, com a crueldade de quem não sabe aquilatar a elevação, nobreza e valor do sacrifício, cedendo à brutaliedade, ao vil instinto e deixando-se vencer pelo gênio malfeitor, na noite de 13 para 14 do corrente, traiçoeiramente assaltaram e sem piedade assassinaram a dupla “Familia Religiosa”, constante de 4 Capuchinhos – Padres Reinaldo, Zacarias, Victor e Fr. Salvador e de 7 irmãs também Capuchinhas…”


Responses

  1. Excelente leitura, muito obrigada Dr Evaldo.
    Continue a nos premiar com historias como estas.
    Um abraco.
    Dodora


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