Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 23, 2010

ALGUMAS ESTÓRIAS INFANTIS

 

            Todo pediatra tem suas estórias engraçadas, e eu também tenho as minhas. Vou aproveitar este espaço para contar algumas.

            Estória um:

            Fui chamado para atender uma criança em casa. Terminada a tarefa, ficamos conversando um pouco. Nesse momento a filhinha da minha cliente passou pelo corredor, e a mãe, disfarçadamente, retirou a chinela do pé, escondeu-a na mão direita, estrategicamente colocada atrás do corpo, e chamou-a com fingindo delicadeza:

            – Luciana, vem cá, querida.

            A garota voltou sorridente em direção à mãe, achando que iria receber um beijo ou um abraço. A mãe segurou-a firmemente, e, com ar furioso, mostrando-lhe a chinela, e falou trincando os dentes:

            – Ah, agora você me paga!

            E deu-lhe algumas chineladas, que, de fato, não foram fortes.

            Sabe do que me lembrei? Do mesmo jeito, as pessoas põem milho na mão, chamam a galinha – ti-ti-ti, ti-ti-ti… e, quando a galinha se aproxima para comer o milho, é agarrada e tem o pescoço torcido ali mesmo. Não sei por que me lembrei disso.

            Estória dois:

            O pré-adolescente chegou para a mãe, na tarde de sábado, e falou:

            – Mãe, eu vou com meus amiguinhos para o shopping. Já combinamos tudo. O pai do Luizinho vai nos deixar e buscar. Tá?

            – O que foi que eu lhe falei ontem, Fernando? Falei que hoje e amanhã você não iria a lugar algum, em vista daquilo que você fez ontem, lembra? Disse carinhosamente.

            Mas Fernando não se dá por vencido. E começa a esbravejar, espernear, empurrar a mãe.. E abre o berreiro. O pai, lá da varanda, disse:

            – Qual é o problema do Fernando ir ao shopping? Pode ir, meu filho.

            E continuou lendo o jornal.

            Várias coisas ocorreram neste episódio: falta de respeito, quebra de autoridade, disputa de poder e muita confusão na cabeça da criança.

            Estória três:

            Um casal estava conversando na cozinha, logo após o jantar, quando entrou seu filhinho de quatro anos. Pede água, a mãe lhe entrega o copinho cheio e lhe dá um beijo na cabeça.

            – Obrigada, mãe, responde o menino.

            – Meu filho, venha cá que a mamãe vai lhe ensinar uma coisa. As mulheres dizem obrigada porque é uma palavra feminina, e todas as palavras femininas terminam em “a”; já as palavras masculinas, terminam sempre em “o”, entendeu?

            O garotinho nada respondeu. Pegou seu copo com água e saiu da cozinha, deixando a porta aberta.

            A mãe pediu que ele fechasse a porta. Ele deu meia volta e a fechou, e saiu calado. Já estava na copa quando a mãe, a título de exemplo, e para reforçar o que dissera, falou em voz alta:

            – Obrigada, meu filho – disse, fazendo bastante distinção no “a”.

            O garoto voltou, abriu a porta, pôs somente a cabeça dentro da cozinha e falou, destacando o “o”:

            – De nado!

            E foi para o seu quarto com ar de vitorioso.

            Estória quatro:

            Esta aconteceu com o Lucas, meu filho mais novo. Aos cinco anos, retornando da escolinha, esperto como sempre, sentado no banco traseiro do carro, acompanhava atentamente minha conversa sua irmã mais velha, de nove anos, quando esta perguntou:

            – Pai, o que quer dizer Belzebu?

            Buscando encontrar uma resposta compatível com a idade dos dois filhos, e até como forma de ganhar tempo, demorei um pouco a responder. Mas Lucas, com a cara mais natural deste mundo, respondeu:

            – Alice, Belzebu é a representação mitológica do demônio.

            Estória cinco:

            Estava eu, pediatra experimentado, atendendo uma criança que não comia “quase nada”, quando perguntei, dirigindo-me diretamente à criança:

            – Fale pra mim uma coisa que você gosta de comer.

            E ele respondeu na bucha:

            – Bife com casca.

            Era bife à milanesa.

            Estória seis:

            Dois irmãos, um com oito anos, Felipe, e sua irmã de seis, Aline, foram visitar os tios em um fim de semana. Era um sábado, e o fim de semana tinha todos os ingredientes para uma excelente farra. A recepção foi agradável, e o primo Eduardo, de seis anos, foi logo chamando os dois para conhecerem os seus brinquedos. Estavam todos arrumadinhos, e ele não gostava que fossem deixados fora do lugar, o que dificultava as brincadeiras. À noite, nada de guerra de travesseiros.

            No dia seguinte, após o café da manhã, os dois irmãos, já com a roupa toda suja, aprontavam as suas, ora mexendo com as galinhas, ora tirando o sossego do único cavalo da chácara. A tia, mãe de Eduardo, fazia questão de fazer referência ao asseio e cuidados do seu filhinho, numa menção subliminar às peraltices dos visitantes, que, no ambiente familiar, eram conhecidos como dois pestinhas.

            No final da tarde, mais uma vez no quarto dos priminhos, os dois contemplavam a montanha de brinquedos de Eduardo, e percebia-se, sutilmente, um cheiro desagradável, logo percebido por sua tia, o que tornou o final da visita num momento de tensão.

            No caminho de volta, Aline cochicha ardilosamente no ouvido do irmão:

            – Você sentiu o cheiro daqueles quatro ovos que eu coloquei debaixo do colchão do Eduardo ontem à noite?


Responses

  1. A estória dois é história atualíssima.
    Ela se concretiza em muitos lares.
    Evaldo, tempos bons aqueles que quando criança, fazendo travessuras, meu pai só me olhava. Quando nossos olhares se cruzavam eu entendia que estava falando alto, ou fazendo algo errado. Corrigía-me só naquele olhar, sem precisar ser chamado à atenção, ou levar umas palmadas.
    Autoridade dos pais é algo esquecido atualmente.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: