Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 2, 2010

O HOMEM QUE CONVERSAVA

 

             Jacinto espalhara pela redondeza que seu vizinho era meio maluco, ruim dos miolos. Quase todos os dias ele ouvia o seu vizinho, que morava sozinho, conversando no quintal:

            – E aí, como passou a noite? E as formigas deixaram você em paz? Qualquer coisa me avise que eu acabo com elas.

            E, alguns minutos depois, Jacinto ouviria o vizinho falar:

            – Não adianta. Vai ficar umas duas semanas sem receber água. Não pense que eu esqueci a desfeita. Só falo com você daqui a uns sete dias.

            A curiosidade foi tanta que Jacinto pôs um caixão sobre um carrinho de mão para descobrir com quem falava o seu vizinho de modos estranhos. E lá estava Angelino com uma mangueira na mão, regando as plantas. Finalmente, Jacinto descobrira: seu vizinho falava com as árvores.

            Logo toda a vizinhança sabia de mais uma esquisitice de seu Angelino. Quase não saía de casa, falava pouco, morava sozinho. Aposentado, certamente.

            Na cidade havia um pequeno horto florestal que era freqüentado pelas pessoas que praticavam caminhadas. As folhas acumulavam-se no chão, o que causava um barulho característico quando se andava sobre elas.

            – Slash, slash, slash…

            Era  Angelino visitando o horto pela segunda vez, e agora caminhando em uma plantação de mangueiras. Naquele setor só havia mangueiras. O cenário era bonito. Os pequenos frutos brotavam das pontas dos galhos, e o velho serralheiro – essa havia sido a sua profissão – percebia que cada árvore parecia caprichar, exibindo-se na apresentação de seus frutos, que balançavam ao vento de setembro.

            Caminhou sem pressa entre aquelas árvores de grossos troncos, percebendo as diferenças entre os diversos tipos de mangas ali existentes. E sentiu saudade de sua infância no sítio dos pais, quando a vida era bem mais prazerosa.

            Parou em frente a uma árvore frondosa, de tronco mais grosso, casca mais espessa. Logo percebeu a diferença, e ficou tentando descobrir o que fazia aquela árvore no meio das mangueiras.

            – Por que fica olhando para mim desse jeito? Não vê que eu nasci com um defeito, que sou uma mangueira doente?

            Assustado, Angelino olhou demoradamente para aquela árvore. Ficou com uma dúvida: ela havia falado com ele ou fora sua imaginação? Abriu os olhos e aguçou os ouvidos. E com ar paternal correu os olhos pela árvore desde o solo, passando pelo seu belo tronco, passeou pelos seus galhos e admirou suas folhas.

            E num misto de pai e cientista, falou:

            – Não vejo nenhum defeito em você.

            E teve a impressão de ter ouvido de volta:

            – Se você olhar direito, verá que todas as outras árvores têm mangas em seus galhos. Eu não. Nascem uns calombos ou polipos junto ao meu tronco todos os anos, e tenho que fazer o maior esforço para fazê-los murchar e cair, impedindo o seu desenvolvimento. Eu não sei mais o que fazer. Até minhas folhas são diferentes. As flores, nem se fala. São horríveis.

            Angelino alisou carinhosamente seu tronco, pegou na mão o que ela chamava de calombos e logo percebeu:

            – Minha filha, você é uma jaqueira. Uma linda jaqueira, e esses calombos que você diz ter no tronco são seus frutos, com certeza entre os mais gostosos deste pomar inteiro. Apenas você está no meio das mangueiras e pensou ser uma delas. Suas folhas são diferentes porque são coriáceas (consistência do couro) e oblongas, isto é, têm o comprimento três ou mais vezes superior à largura, enquanto que as folhas da mangueira são lanceoladas, ou seja, semelhantes à ponta de uma lança. Até sei o seu nome: Artocarpus heterophylla, e sei que é da família das moráceas, e que veio da Ásia. Regozije-se. Você é linda! – dizia eufórico, quase gritando.

            À noitinha Angelino foi despertado pelo guarda do parque, que saiu pensativo:

            “Com que estivera sonhando aquele homem, que passou boa parte da tarde dormindo debaixo daquela mangueira esquisita? E por que sorria enquanto dormia?”


Responses

  1. Se não estivesse determinada a autoria desse texto e me fosse atribuída a missão de descobri-la, ficaria em dúvida entre Oscar Wilde e La Fontaine.
    Muito bom!

  2. Guilherme, que bom ouvi-lo. As evidências do patinho feio que existe em cada pessoa têm que ser identificadas e usadas como vantagem competitiva, como se diz em planejamento estratégico.


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