Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 9, 2010

CONSULTA MÉDICA, HISTÓRIA E ARTE

 

 Ficava em Epidauro, a 180 quilômetros de Atenas, o primeiro centro de cura da Grécia antiga, supostamente criado por Asclépio, o deus da Medicina. Destinava-se ao tratamento dos enfermos e à formação de iniciados, evoluindo da medicina mágica e sacerdotal para técnicas que levaram à criação de uma Medicina bem mais científica. Asclépio teria vivido no século VIII a.C.

A estátua de Asclépio em Epidauro era de marfim e ouro, e o representava sentado num trono, ostentando em uma das mãos um cajado em torno do qual se enrolava uma serpente, e um cão a seus pés. Além da serpente havia também o galo, ligado a Asclépio por sua vigilância. A serpente é uma representação antiga das forças do submundo, e um sinal sagrado do deus de cura entre as tribos semitas da Ásia Menor, escreveu Roberto Margota em seu livro História Ilustrada da Medicina.

No Evangelho de João, o cajado e a serpente têm um só simbolismo: Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna.

Alguns historiadores, entretanto, alegam ser a serpente adorada por seu domínio sobre a vida e a morte, em virtude do seu veneno. Em algumas civilizações, a serpente representava o feminino e a arte de amar. Esse paradigma foi mudado, transformando o feminino em uma força ameaçadora, e isso foi associado à serpente desde Eva.

Na asclépia, ponto principal da consulta chamava-se ritual da incubação. As pessoas que se sentiam doentes eram adormecidas com chás à base de ervas, no interior do templo sagrado, na esperança de que elas mesmas, à noite, descobrissem as razões que as fizeram adoecer, e o deus – Asclépio – viesse ter com elas em seus sonhos, e, aí sim, prescrevesse a cura para sua doença. O próprio doente recebia a orientação para sua cura. O lugar onde o doente adormecia era chamado de kemiterio – as pessoas pareciam mortas. Daí, cemitério. Após a cura, o paciente escrevia seus sintomas e a forma de cura determinada por Asclépio em uma tábua, colocava na sala das tábuas votivas, matava um galo em sinal de agradecimento e retornava para sua casa.

Estaria aí uma das representações da egrégora? Egrégora provém do grego, e representa uma força gerada pelo somatório de energias físicas, emocionais e mentais de duas ou mais pessoas, quando se reúnem com determinada finalidade.

Depois de Epidauro, a asclépia mais famosa era a de Cós, na ilha grega do mesmo nome. Situava-se em local sagrado, em meio a fontes minerais de águas ferruginosas, lembrando uma estância hidromineral.

Hipócrates, no século IV a.C., devolveu à asclépia de Cós todo o seu prestígio, elevando-a à categoria de maior centro de cura da Grécia.

Hoje, agendamos a consulta pela Internet, somos chamados por microfones, analisados por aparelhos sofisticados, nosso sangue é decodificado por aparelhos ultrassensíveis, e o médico a nos inquirir.

Mas não deixa de ser uma arte. E ainda exercida com respeito e ética.

Matemos um galo, pois.

Evaldo Alves de Oliveira, médico e escritor


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