Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 16, 2010

AH, O BAR…

 

            O bar nunca fez parte das minhas paragens, nem foi trajeto alternativo nos meus momentos de lazer. Mas, queiramos ou não, é um lugar especial. Desde os botecos nos bairros mais afastados, onde a iluminação pública já não chega, até os bares mais badalados,  há em todos algo que une, que enleva, como se os momentos, felizes  fossem fortalecidos e os tristes amenizados. Aqui, a lágrima costuma fazer visita, bem vinda ou não.

            Há alguns dias, passando por uma rua de calçamento esburacado e cheio de quebra-molas, fui forçado a parar, atraído pelo som que saía de um boteco onde o som estridente berrava uma música que era acompanhada pelos freqüentadores em coro desafinado, ao tempo em que remexiam os quadris em pantomimas quase bestiais:

            – Pocotó, pocotó, pocotó… A eguinha pocotó…

            O que seria aquilo? – pensei. Homens e mulheres dançavam e cantavam algo que eu não conhecia, mas sentia-o sem graça, em especial aqueles desajeitados trejeitos de uma dança esquisita.

            E pus-me a pensar nos bares da minha juventude, onde, vitrola ligada, nas intermináveis noites enluaradas a boa música corria solta e bela, expressão de uma época em que o romantismo tinha cadeira cativa onde quer que dois ou mais boêmios se reunissem. Sem esquecer o cheiro gostoso da cerveja e do aroma gorduroso do sarapatel, no Nordeste, ou do arroz de puta pobre nos botecos do interior de Minas e Goiás.

            Não é difícil recordar as músicas que rolavam naquelas madrugadas quase sem violência, onde notívagos choravam suas mágoas ou comemoravam suas conquistas, e as serestas esquentavam corações naquelas noites, madrugadas e dilúculos de tempos não distantes. 

            Como esquecer esta pérola do nosso cancioneiro – Sertaneja se eu pudesse,/ se Nosso Senhor me desse/ o espaço pra voar,/ eu corria a natureza,/ acabava com a tristeza/ só pra não te ver chorar/ Sertaneja, por que choras quando eu canto,/ sertaneja, se esse canto é todo teu. Ou esta: A lua vem surgindo cor de prata/ no alto da montanha verdejante/ Ó linda imagem de mulher que me seduz, ai se eu pudesse tu estarias num altar. Ou ainda esta: Acorda minha bela namorada,/ a lua nos convida a passear/ seus raios iluminam toda a estrada/ por onde nós havemos de passar.

            Parecia haver uma sintonia entre a música e a noite, abençoando a merencória madrugada que acolheria os sentimentos das pessoas com uma poesia implícita, univitelina, siamesa até.

            Mas não poderia terminar estas citações sem lembrar uma estrofe, quase oração, que se encaixa direitinho na sensibilidade de qualquer pessoa, boêmia ou não: Tu és/ divina e graciosa,/ estátua majestosa/ do amor/ por Deus esculturada/ e formada com o ardor/ da alma da mais linda flor/ do mais ativo olor,/ que na vida/ é preferida pelo beija-flor. E imaginar que esta música foi composta em 1917 por Pixinguinha, e a letra foi feita vinte anos mais tarde por um obscuro mecânico carioca chamado Otávio de Souza. Mas uma coisa puxa outra, e sou obrigado a recordar esta pérola do cancioneiro popular: Se Deus um dia/ olhasse a terra e visse o meu estado,/ na certa compreenderia/ o meu trilhar desesperado.

            E como se poderia relembrar esse tempo sem uma cerveja do lado? E, quase sem perceber, faço sinal para o garçom. Mais uma.


Responses

  1. Existe uma outra musica que define muito bem Um bar.
    Nao lembro quem cantava, mas creio que era dos anos 1960.

    Bar estranho sindicatos, dos socios da mesma dor/Bar que um recanto barato, dos fracassados do amor.

  2. Dodora, somente você para me fazer procurar essa letra:

    Nora Ney – Bar Da Noite
    Bidu Reis E Haroldo Barbosa
    Garçom, apague esta luz
    Que eu quero ficar sozinha
    Garçom, me deixe comigo
    Que a mágoa que eu tenho é minha
    Quantos estão pelas mesas
    Bebendo tristezas
    Querendo ocultar
    O que se afoga no copo
    Renasce na alma
    Desponta no olhar
    Garçom, se o telefone bater
    E se for pra mim
    Garçom, repita pra ele
    Que eu sou mais feliz assim
    Você sabe bem que é mentira
    Mentira noturna de bar
    Bar, tristonho sindicato
    De sócios da mesma dor
    Bar que é o refúgio barato
    Dos fracassados do amor


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