Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 29, 2010

O GREGO É MUITO COMPLICADO (*)

Pathophilophobo estava assombrado. Deixe-me explicar quem é esse rapaz, e os motivos do assombro. É grego de nascimento, mas brasileiro por opção. Veio pequeno para o Brasil, e jura que jamais sairá destas terras igualmente banhadas pelos raios de todos os sóis.

O fato é que Pathophilophobo encontrava-se acabrunhado, macambúzio. Como diriam as pessoas da minha terra, estava surupembático e escalafobético. Em síntese, estava descontrolado. Acabara de sair de uma consulta médica, e, curioso, anotara o nome da doença – escrito pelo médico na solicitação dos exames, e procurou o seu significado: eflúvio telógeno.

– Meu Deus! – exclamou. Que coisa horrorosa! Como fui pegar essa doença? Será grave? Será contagiosa? É viral? É bacteriana?

A noite foi longa, e o sono agitado. Acordou com o pijama molhado de suor. Fora uma noite difícil de ser esquecida, com pesadelos terríveis.

No dia seguinte, nem quis tomar o café da manhã no trabalho, junto com os colegas. Foi direto para sua mesa de trabalho. Ansioso, com as mãos geladas, procurou um dicionário. Eflúvio significa emanação sutil que exala dos corpos organizados; miasma. Mas ali, naquele dicionário, não havia explicação para a segunda palavra – telógeno. Encontrou o prefixo grego tel(e), que significa longe, e também tel(e), do grego thel(é), que significa mamilo. E aprendeu que telalgia corresponde a dor no mamilo. Mas o que seria eflúvio telógeno? Estaria ele com emanações pelos mamilos? E essa dúvida tomava conta de sua mente. Já se considerava um efluvioso (que lança eflúvios), palavra nova que também conhecera naquele momento.

Nesse dia quase não trabalhou. Não escutava o que os outros diziam. Aquelas duas palavras esquisitas ocupavam sua mente, e o pânico já dava sinais de sua incômoda presença. Como passaria mais uma noite sem saber qual o mal de que padecia? Como comunicar à família? Seria melhor tirar umas férias?  Mas como tirar férias com aquele pesadelo tomando conta de sua vida?

Aí veio a idéia. Como não havia pensado nisso antes? Era tão simples. Iria a uma livraria perto do seu trabalho, onde teria oportunidade de ler alguns livros de medicina. Saiu direto do trabalho para um shopping center, tomou café com pão de queijo e foi para a livraria, direto para o setor de livros técnicos. Medicina. Pronto, era o que estava procurando. Leu o índice de um livro, e nada. Procurou em um compêndio de psiquiatria, e nada. Outro de reumatologia, em vão. Um vade mecum, sem resultado. Procurou em um Organon, e continuou sem resposta. Já estava quase desistindo quando deu de cara com um tratado de dermatologia, pesquisou no índice, pelo nome da doença, como fizera com os outros livros, e lá estavam as duas palavras mágicas, causadoras de tantos transtornos.

Pathophilophobo, entre temeroso e feliz, foi consultando as páginas que antecediam a que estava procurando: 122. Era sua tática para relaxar um pouco. O capítulo era cabeça. Não gostou. Finalmente, sorriu e saiu em busca dos amigos para uma cervejada. Estava lá, na página 122: Eflúvio telógeno – entidade nosológica caracterizada por uma diminuição homogênea e global do número dos fios de cabelo em toda a superfície do couro cabeludo.

Foi assim que Pathophilophobo tomou conhecimento de que estava ficando careca, pois a estranheza do seu nome ele conhecia desde pequeno.

(*) Crônica baseada em fato real.


Responses

  1. Evaldo, os sentimentos do Patho, “acabrunhado, macambúzio, surupembático e escalafobético”, me fizeram lembrar uma empregada da casa de meus pais, nos anos sessenta, que certo dia chegou pra minha mãe e disse: D. Iacy, tou sentindo um “infaro”. – E o que é “infaro”, Terezinha? – É assim um “intédio”. – O que é “intédio”, mulher? – É um “arripuno”…sei lá! Resumindo, a bichinha tava prenha e não sabia como dizer. Moral da história: Nordestinês é mais difícil do que grego.

  2. Guilherme, você é rápido no gatilho. Há uma outra expressão que eu adoro: Dismornência entre o couro e a carne. E esse ditado lá de Natal: – Sérgio, como vai? – Escapando, feito gás de cozinha. Um abraço.

  3. Meu Deus!
    A quanto tempo nao escutava ou lia a palavra escalafobetico.
    Quando estava no Rio de Janeiro, tinha um amigo na minha classe, que era meio “escalafobetico” .
    Pelo menos era assim que todos da turma o chamavam.
    Diziam:Este cara e meio escalafobetico.

    Um abraco.
    Dodora

  4. Dodora, há palavras que a gente passa anos sem ouvir. Exemplo: estrambólico, parangolé, pereba, varapau, argueiro (cisco no olho), pirangueiro, aperreio, mangar, confeito, troncha, papeira, roncha (mancha escura na pele), acochar, cabreiro, xexeiro, amojada (animal prenho) e destrocar (quando se queria trocar dinheiro.

  5. Dr Evaldo, hoje lembrei de uma palavra que minha avo Zefa , usava quando nao se sentia bem.
    Ela dizia:
    Estou com uma “GASTURA”. creio que era bem usada em AB de outrora.

  6. Você tem toda razão. Em CONVERSA NA CALÇADA, está colocado: “Para chalerar o pessoal da prefeitura, foi dar pitaco sobre a programação da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, e o pessoal ficou infezado com suas sugestões, que chegaram a dar até gastura nos organizadores”. Obrigado pela lembrança desse termo puramente nordestino.


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