Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 30, 2010

OS GARGAREJOS MATINAIS DE MEGRIV

 

            É tempo de baixa umidade relativa do ar em boa parte deste imenso Brasil. Os incêndios florestais tomam conta do noticiário, e todos ficamos apreensivos com as consequências da fumaça para nosso sistema respiratório. Quando se fala de vias aéreas, há que se ter em conta um sistema complexo, que vai do nariz aos alvéolos pulmonares, com suas peculiaridades funcionais e de estrutura.

            Megriv era estudante de fisioterapia, e andava preocupado com os agravos que a poluição e a baixa umidade pudessem trazer aos seus bem cuidados pulmões. Precavido, não fumava, não bebia e tinha o hábito de, pela manhã, fazer gargarejos com infusões de ervas especiais, lambedores, medicações prescritas e cuidadosamente preparadas por seu amigo Aberutan, fitoterapeuta que costumava encontrar no restaurante de comida natural.

            E todas as manhãs Megriv, no banheiro de seu pequeno apartamento de primeiro andar, emitia o seu tradicional berro rouco, gutural, desafinado como tenor em fim de carreira – Arrghrraaarrerrrlbrrr! – que, reverberando nos corredores ainda vazios, irritava toda a vizinhança com seu despertador matinal. Em seguida, Megriv gritava por uma pequena janela:

            – Desculpem. É o meu gargarejo matinal. Estou limpando as vias aéreas!

            E retornavam impropérios grosseiros, berrados dos apartamentos. Dava até para identificar a voz de Rodatam, um policial prematuramente aposentado.

            Porém naquele dia o estudante de fisioterapia estava pensativo. Iniciara a leitura do livro O Símbolo Perdido, de Dan Brown, e ficara impressionado com a capacidade do autor em usar uma forma rebuscada e de difícil entendimento para dizer algo simples e corriqueiro. Não conseguia tirar da mente este quadro: Langdon, durante uma palestra na Universidade de Harvard, quando questionado quanto ao fato de, ainda hoje, existirem rituais pagãos demoníacos, disse:

            – Não contem para ninguém, mas, no dia em que o deus-sol Rá é venerado pelos pagãos, eu me ajoelho aos pés de um antigo instrumento de tortura e consumo símbolos ritualísticos de sangue e carne.

            A turma toda fez uma cara horrorizada. Langdon deu de ombros.

            – E, se algum de vocês quiser se juntar a mim, vá à capela de Harvard no domingo, ajoelhe-se diante da cruz e faça a santa comunhão.

            “Pronto, acabo de encontrar a expressão perfeita para o meu gargarejo matinal” – pensou o estudante, com cara de menino travesso. Com ar de riso e relembrou a época em que morava na Casa do Estudante em Natal.

            Bem cedinho, naquela segunda-feira que se anunciava quente e abafada, mais uma vez Megriv berrou do seu banheiro – Arrghrraaarrerrrlbrrr! -, e pôs a cabeça na janela e gritou com veemência:

            – Desculpem, mas estou fazendo minha toalete orofaringotraqueobrônquica!

            Aguardou um pouco. Não se ouviram impropérios. Rodatam não esbravejou. Nos corredores era só silêncio.

            E Megriv riu com cara de safado.


Responses

  1. Mas uma vez ficou provado, que NAO E O QUE VOCE DIZ.
    MAS COMO VOCE DIZ

    • Cara Dodora, você tem razão. Este caso aconteceu no interior de Minas. Um vereador levantou-se e disse:
      – Vossa Excelência não passa de um BEÓCIO.
      O opositor respondeu:
      – Se a palavra pela qual V.Exa. me nominou for adulativa, muito obrigado. Mas se for atacativa, beócio é a sua mãe.
      Um abraço.

  2. Evaldo, numa certa época de minha vida morei uns tempos em um ap. de um quarto na 407 Norte. Vez por outra eu escutava um som de voz feminina parecido com “Arrghrraaarrerrrlbrrr! “, mas era seguido de um “vai, vai!”, e, em seguida “não para!” e, finalmente, “ai, que bom!”. O que parecia ser, a princíoio, um gargarejo, era (como diria Maguila) saliência mesmo.

  3. Gostei da resposta ao vereador mineiro.

  4. Caro Guilherme, sua experiência nas onomatopeias orgasmatórias deve ser ampla, porém eu fugiria de um “Arrghrraaarrerrrlbrrr! “ entre quatro paredes, a dois. Veja que o pobre do Megriv morava sozinho. Ninguém merece…


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