Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 6, 2010

A DOENÇA, A POESIA E AS SUTILEZAS DA MENTE

Procuro um unicórnio azul; pastando o deixei, e desapareceu. Não sei se fugiu ou se extraviou, e eu não tenho nada além de um unicórnio azul. Pago por qualquer informação; as flores que deixou não me querem falar. Pago cem mil ou um milhão. É que meu unicórnio e eu fizemos amizade, um pouco com amor, um pouco com verdade. Com seu chifre de anil pescava uma canção. Mesmo que eu tivesse dois, eu só quero aquele.

É desse modo que Silvio Rodriguez, poeta e cantor cubano, descreve o sofrimento de um homem que, nos momentos mais dramáticos da ditadura de seu país, perdeu sua única calça jeans, mas não podia dizer que era uma calça americana, por conta da perseguição política a que se exporia. E procurava desesperadamente por seu unicórnio azul desaparecido.

Brasília, ano de 1999, democracia plena, consultório de doenças sexualmente transmissíveis. Um homem procura atendimento, referindo, com ansiedade, que seu negócio estava muito ferido. No consultório, contou que era solteiro, morava em um barraco, e que na noite anterior, devido ao forte calor, dormira no chão, sobre folhas de papelão. Pela manhã, ao se levantar, percebeu que seu negócio havia entrado no buraco da fivela do cinto, e que, em função dos movimentos durante o sono, estava muito ferido. Logo imaginei um traumatismo local, com possível necessidade de resolução cirúrgica. Ao exame, verifiquei que se tratava de uma gonorréia aguda, com farta e espessa supuração amarela a escorrer pela uretra. Após a ingestão da medicação, ali mesmo, na minha presença, seguida das devidas orientações, despediu-se e partiu. Segui-o com o olhar, de longe, e observei que saía abraçado a uma mulher acompanhada de duas crianças, que o esperavam fora da unidade de saúde. Ao que me pareceu, era casado e tinha dois filhos.

Foi desse modo que um cidadão procurou atendimento médico em um Centro de Saúde para se tratar de uma DST.

Em ambos os casos, o devaneio, o sonho, a fuga, a criatividade, a mente a construir imagens. No primeiro, arte, a veia poética, o temor da perseguição política; no segundo, um pobre e rude homem a procurar, em seu onirismo – quando o espírito, em vigília, viaja em sonhos e fantasias -, uma forma de fugir do preconceito e da discriminação.


Responses

  1. Pesquisando no Google vi que Areia Branca possuiu um outro Evaldo Oliveira, importante chargista com atuação inclusive fora do RN. Gostaria de saber se existe alguma relção entre o blogueiro e chargista.

  2. Caro Antonio, conheci esse Evaldo Oliveira através do livro de Deífilo Gurgel, Areia Branca, A Terra e a Gente. Sei que é um excelente chargista. Somente isso.


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