Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 23, 2010

UM GÊNIO DA MEDICINA ESTUDA UM USURPADOR

O cuco é um pássaro  migratório de comportamento estranho. A fêmea, em vez de construir seu próprio ninho, deposita os ovos nos ninhos de aves de outras espécies que, sem se dar conta, cuidam dos filhotes do cuco até que se tornem independentes. Quando há ovos no ninho, a mãe cuco retira um ovo e coloca o seu no lugar, podendo fazer isso em até doze ninhos diferentes. Pode acontecer que duas fêmeas de cuco coloquem ovos no mesmo ninho. Os cucos sáo encontrados desde o sul da Espanha e Portugal, até a Escandinávia, além do norte e centro da África e na Ásia.

Um detalhe de sua biologia ainda ajuda o cuco na preservação de sua espécie: como o cuco tem pouco tempo de gestação, seus filhotes nascem antes dos outros ovos. A ave hospedeira, para ganhar espaço, espulsa seus ovos do ninho, e continuam alimentando os filhotes do cuco sem darem pela diferença. Quando em condições de voo, e por serem maiores que seus pais adotivos, os cucos deixam o aconchego do ninho. Enfim, os cucos são gerados e criados em lares estranhos, por pais de outra espécie.

Até hoje os cucos continuam usurpando o sagrado ninho de outras espécies, e as famílias dessas aves continuam aceitando cuidar dos ovos e filhotes do cuco.

Porém a causa e a sequência dos eventos pareciam não ser estas exatamente estas.  Edward Jenner (1749-1823), médico inglês criador do método de vacinação, estudou o ciclo migratório do cuco, e descobriu que, ao contrário de outros pássaros que visitavam a Inglaterra, o cuco só aparecia por lá depois da metade do mês de abril, e não botava ovos antes de meados de maio. Os ovos precisavam de, pelo menos, duas semanas de incubação para poder eclodir. Os filhotes ficavam então no ninho por duas ou três semanas, até tentarem voar e procurar a própria comida.

Jenner descobriu que, por volta de primeiro de julho, todos os cucos já haviam migrado da Inglaterra. Os filhotes de cuco eram abandonados por seus pais verdadeiros antes de aprender a voar e prover seu próprio sustento. O médico descobriu, após exaustivas observações, que os ovos e os filhotes do pássaro hospedeiro desapareciam do ninho pouco menos de um dia depois de chocado o ovo do cuco. Para sua surpresa, Jenner notou que uma hora depois de o cuco eclodir, e apesar de sua fraqueza e total cegueira, ele começava a procurar outros filhotes ou ovos no ninho. Ele ficou ainda mais intrigado quando observou que o filhote de cuco usava as pontas das asas como instrumento de busca. Se um outro filhote ou ovo ainda não chocado era detectado por uma ponta de asa tateante, investigadora, o filhote de cuco se aproximava lentamente do ovo ou filhote localizado e se enfiava debaixo dele. Tendo acomodado a presa numa peculiar depressão que existe em seu dorso, o jovem cuco a levantava até a borda do ninho e, com um movimento convulsivo, lançava para fora o ovo ou filhote. Várias vezes Jenner recolocava o filhote no ninho, mas a ponta da asa investigadora detectava o filhote devolvido e o atirava pra fora de novo (As Dez Maiores Descobertas da Medicina, Editora Companhia das Letras).

Certo dia, Jenner encontrou um ninho onde dois filhotes de cuco tinham acabado de nascer. Poucas horas depois, os filhotes iniciaram  uma disputa pela posse do ninho, que continuou indeterminada até a tarde seguinte, quando um deles, o mais forte, expulsou o outro. Jenner, então, examinou o dorso dos filhotes de cuco para descobrir a naureza da depressão que havia ali, e viu que, ao contrário do dorso de outros filhotes, o espaço da escápula para baixo era muito largo, com uma depressão no meio. Quando o cuco está com cerca de doze dias, a cavidade já está preenchida, e seu dorso assume a forma do de filhotes de outros pássaros.

Um mistério esclarecido. Uma grande contribuição à ornitologia, feita por um médico que amava sua vocação de bem servir.

De quebra, Jenner deu mais uma grande contribuição à ciência, com a descoberta dos restos fósseis do Plesiossauro, um réptil marinho pré-histórico.

 

 

 


Responses

  1. Maravilha de texto, Evaldo. Nenhuma novidade nisso, apenas confirmação do seu talento!

  2. Caro professor, um abraço. Este texto serve para mostrar que os gênios têm outros interesses, e se saem muito bem em qualquer área em que decidam atuar. Você sabe o que estou dizendo…


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