Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 24, 2011

BARCACEIRO, DOMADOR DE RIOS E MARES

Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania

Depende de quando e como você me vê passar.

Clarice Lispector

Não sabia quantas velas tinha uma barcaça. Não sabia qual o seu calado médio, como também não sabia quantos eram seus tripulantes, e suas funções. Os nomes de suas velas? Também não sabia. Mesmo criado na Rua da Frente, esses detalhes não passavam pela rua onde moravam os interesses de uma criança.

Quantas vezes, voltando da escola, fiquei a contemplar a movimentação das barcaças e suas velas gris com cheiro  de maresia. Olhando do patamar da igreja, quase encobriam o manguezal do outro lado do rio. Vez por outra tínhamos a visão de três ou quatro delas passando ao mesmo tempo, parecendo imensos cágados marinhos disputando uma corrida à centopeia. A centopeia é um bichinho esquisito. As pessoas acham que ela tem cem pares de pernas, mas na realidade esse número é variável, entre 15 e 191, e sempre ímpar. Jamais tem cem. Por quê? Não sei. Mas sei da emoção que a visão de uma barcaça distante trazia ao meu coração de criança, inseguro dos sentimentos, analfabeto funcional na descrição de algo que é corpo e vida de minhas lembranças mais antigas.

Criança, também não imaginava que aquelas velas haviam sido içadas por braços fortes e rudes, com a cor marcada por um laser-sol abrasador, surdo a todas as vozes de comando. Também não sabia que os movimentos das   cordas e das velas, orientados por uma rotina de suores, medos e atos de bravura, deixavam lonas em desalinho sobre um convés lavado pelas águas de todas as marés, em conluio com o mar que as espreita.

Hoje, tentei relembrar os termos técnicos de navegação, mas infelizmente não consegui. Acho até que não precisa, pois o Comandante Antonio Miranda está sempre de plantão, e nos socorre nos momentos difíceis, quando a memória se esconde por trás do esquecimento. Mas, sinceramente, como entendo pouco de embarcações, nascido que fui em Areia Branca, a maior produtora de sal marinho do Brasil.

Também hoje, sem qualquer esforço, consigo imaginar o rio Ivipanim de minha meninice sendo retalhado por quilhas de todas as procedências, por iates de todos os calados, oriundos de portos distantes, com suas velas diferentes, e a maioria com histórico de vitórias sobre grandes tempestades, ventos fortes, ondas ameaçadoras, muitas vezes observados de longe por gaivotas displicentes e famintas, apenas preocupadas com o jantar dos filhotes.

Não sabia da subordinação e obediência das embarcações  à ditadura das boias, com suas mensagens codificadas em seus olhos de vagalume, piscando na escuridão das noites em que a vontade de chegar, sob o império da maré cheia, encobria a saudade que pulsava em corações comprometidos. Outros, ansiosos por futuros e fortuitos encontros na penumbra de uma luz vermelha,  embalados pela voz de um cantor brega que ribombaria na madrugada praieira, sob o ritmo de coqueiros loucos e descabelados, agitados pelo impiedosos ventos de agosto.

Sentado em minha escrivaninha, degustando um vinho português da região do Minho, tendo gravado na mente o playback de Menino Guerreiro, reedito com emoção os versos de Gonzaguinha, imortalizados na voz de Fagner: guerreiros são pessoas, são fortes, são frágeis; guerreiros  são meninos no fundo do peito. Precisam de um descanso, precisam de um remanso, precisam de um sonho que os tornem perfeitos.

Hoje, aprendi muito sobre barcaças, ao ler a crônica do Comandante Antonio Miranda, e cheguei a mais uma constatação: os barcaceiros de Areia Branca-RN foram domadores de rios e mares, condutores da riqueza de nossa cidade.

O sal por testemunha.

 

 


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