Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 26, 2011

O MENINO, O RIO, A IGREJINHA

Desde pequeno aquele menino tinha um sonho: conhecer uma igrejinha branca que ficava do outro lado do rio. Próximo à Rampa, do patamar da igreja, do lado de cá, ele ficava fascinado com a ideia de um dia entrar naquela igrejinha que era menor que a das Pedrinhas, onde ia com sua mãe, uma vez ao ano, assistir a uma missa. Passava o resto do ano esperando chegar o mês da festa para novamente ir a Pedrinhas.

Mas, ali, o desafio era outro. Para chegar à igrejinha branca, teria de atravessar o rio, de canoa, e isso era muito caro. Seu limite de conhecimento de moeda era quinhentos réis, e não dava para ir e vir, e ainda tinha a tentação do cuscuz do mercado público, e tinha a cocada de rapadura com pedacinhos de coco. Não dava. Ele sabia ser muito difícil realizar esse sonho.

Naquele dia, novamente, foi para o patamar da igreja , e sentou-se em um degrau. Mirou Tibau –, que não passava de um ligeiro brilho na linha do infinito, voltou o olhar por Pernambuquinho e ficou pensando em um modo de ir a Barra, que sabia esconder-se atrás do manguezal. Se soubesse nadar igual a Macaco, que um dia vira atravessando o rio nos dois sentidos, seria muito fácil. Iria pela manhã, ficaria rezando um pouco na igrejinha e voltaria na hora do almoço. Mas sabia que seu fôlego de criança não resistiria a essa empreitada.

Olhou para a Rampa. A maré cheia formava um platô tremelicante que terminava bem depois do manguezal; portanto, perto da igrejinha. Havia uma canoa ancorada. Criou coragem e pediu ao canoeiro que o deixasse ir até a Barra, e que retornaria quando outro passageiro fizesse o itinerário contrário. O canoeiro sorriu, passou a mão em sua cabeça e concordou. Fique aqui, pois aquele senhor vai embarcar. Logo estavam se afastando do cais, e seu coraçãozinho transbordava de emoção.

Olhou a água de pertinho, deitou-se no banco da frente e pôs a mão para fora, tentando fazer cócegas no rio. O suspensório da calça rompeu. Deu um nó e continuou. Viu alguns peixinhos passando, e ficou imaginando se eles moravam em Barra ou em Areia Branca. A canoa foi deslizando altaneira, tocada pelo vento do final da manhã, virou um pouco para um lado, a água quase entrou, e se equilibrou novamente. Não sentiu medo. À esquerda, distante, o esqueleto enferrujado de uma embarcação sujava a beleza do manguezal. Talvez, quem sabe, algum fantasma more ali, pensou o menino. Ele já ouvira falar de alma de gato e de passarinho. Será que peixe não tem alma?

Finalmente, a canoa encostou a barriga na areia do outro lado, e o menino viu a igrejinha a uma certa distância. Quando se preparava para se encaminhar para o pequenino templo, foi chamado de volta pelo canoeiro. Havia um passageiro retornando. Hora de voltar. Não fora de dessa vez.

Passados mais de cinquenta anos, o ex-menino ainda não satisfez seu desejo perdido no tempo.

Talvez em dezembro próximo, quem sabe, eu vá à igrejinha de Barra. De canoa.


Responses

  1. Evaldo,
    Sobre a Barra, tenho um fato a lembrar: a última casa dessa praia era de vovô e a primeira de Pernambuquinho era a nossa. Passávamos as férias pelas praias brincando no tempo ao qual se refere. Poucas vezes, estive por lá nesses úimos tempos e tudo está muito diferente. Nem as cabras, que eram muitas e delas tirávamos o leite como brnncadeira, não se encontram mais por lá, mas a igrejinha ainda existe. É bom revê-la
    Sônia


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: