Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 9, 2011

NOITE DE SERRAÇÃO

Era uma noite que se prenunciava escura, percebia-se pelo céu pesado, cerrado. Por algum motivo, as estrelas foram chamadas de volta ao aconchego do infinito, e a cobertura do mundo ficou um pouco densa, sem lua nem estrela D’Alva. No ar, um clima carregado. As barcaças pareciam se agrupar, procurando proteção. No rio, apenas o movimento de pequenas marolas. O vento iniciava uma sopração com assobio de fantasma.

Dez horas da noite. Um aviso familiar – a luz apagou e retornou, e em seguida a cidade ficou sem energia elétrica. Todos para dentro. Domínio da escuridão.

Havia algo de estranho no ar seco e quente daquela noite de quarta-feira. Crianças, vamos deitar que hoje é noite da cruviana, avisou a avó. As mães cuidaram de cantar o Santo Anjo do Senhor com a meninada, tentando afastar o clima de velório que pairava no ar.

O menino não conseguiu dormir. Puxando pela audição, imaginava ouvir vozes distantes, barulhos estranhos, como de pessoas se esgueirando junto às paredes da frente das casas, em cochichos ininteligíveis. Algo estaria sendo armado naquela madrugada, e o local seria para os lados do Grupo Escolar, um pouco mais adiante. Um grupo estaria sendo formado, dava para perceber. Agora, as vozes eram muitas, em tom de sussurro. Uma cruz de carvão foi riscada na parede da frente da casa escolhida, no nível da janela.

Estávamos na quaresma. Quarta-feira de trevas. Tempo de não se tomar bebida alcoólica e de não comer carne; tempo de falar baixo e de dar esmolas. Noite quente, madrugada escura. Breu total.

A cruviana foi chegando devagar, trazendo consigo um gemido fino e arrepiante, que ecoava fundo, furando o coração do menino, qual uma ortotripsia silenciosa. No manguezal, pequenos caranguejos se movimentavam inquietos. Fogos fátuos – boitatás – pipocavam ali e acolá, deixando os bichinhos do mangue ainda mais agitados. Ao longe, no fim da rua, gemidos aterradores e agourentos foram surgindo em crescente, e o som de um serrote fez-se ouvir junto a um alarido de velório, e o menino ouviu perfeitamente:

– Serra o pau e toca o sino. Serra a cacunda do véio Virgino.

Era assim que o menino entendia. E a cantilena se repetiu, junto a gemidos horrorosos, e o som do serrote a confundir os seus sentidos. Alguém abriu a janela ao lado, proferiu algumas palavras sem compromisso com o respeito, e jogou o conteúdo de um penico sobre o grupo. Gritaria, confusão, xingamentos, excomungos e correria.

A serração havia terminado.

Noite de cruviana. Noite de serração, de agouro.

 

Serração – Resumo histórico (fonte: Internet)

A serração da velha surgiu na Europa por volta dos séculos XV e XVI. Em Portugal, era encenada na noite de quarta-feira que precedia o terceiro domingo da Quaresma. Durante o evento, um jovem do sexo masculino erguia o instrumento de suplício – o serrote – sobre um pedaço de madeira, de tábua ou um espantalho de pano e, mediante o vai-e-vem do braço, fazia de conta que serrava uma velha, enquanto os demais participantes cantavam:

Esta velha tem malícia

Esta velha vai morrer.

Venha ver serrar a velha

Minha gente, venha ver.

 

Serra, serra a velha

Puxa a serra, serrador,

Que esta velha deu na neta

Por lhe ouvir falar de amor.

 

As pessoas que assistiam ao folguedo repetiam: serra velha, serra a velha, serra a velha. Às vezes a folia terminava em tragédia, quando os jovens decidiam serrar determinada senhora, e seus familiares reagiam jogando água quente no grupo.

No Brasil, segundo Câmara Cascudo, a serração da velha, no Nordeste, no final do século XIX, o folguedo fazia parte do calendário religioso da Qaresma, e era utilizado, inclusive, com intenções políticas, em demonstração de desagrado ou para algum candidato derrotado em eleição.

De acordo com o folclorista, um grupo de foliões serrava uma tábua, aos gritos estridentes e prantos intermináveis, fingindo serrar uma velha que, representada ou não por algum dos vadios da banda, lamentavam-se através de um berreiro ensurdecedor. Câmara Cascudo assinalou que, em fins do século XIX, o Código de Posturas de Papari – atual Nísia Floresta-RN – já proibia a representação naquela localidade.

 


Responses

  1. Ah, essas histórias de criança, como elas crescem e ganham mais vida com o tempo, que valor elas têm, Evaldo.
    Uma beleza!

    • Caro Omar, só quem foi criança em cidade pequena poderá entender o medo que fluía das conversas dos adultos sobre esse tipo de acontecimento. Medo de alma de gato, de comunista, de buzuoco, de fantasmas depois das dez, quando a luz se apagava. Um abraço.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: