Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 7, 2011

BRINDES À FAMÍLIA BRASILEIRA

Era um ano qualquer, nos meados da década de 1950. A cidade da minha infância estava em polvorosa. E não era sem motivo. O governo federal realizaria, na pracinha em frente ao Palacete Municipal, uma vasta distribuição de brindes ao povo. O motivo? Foi anunciado que o governo distribuiria presentes a pessoas carentes, já cadastradas em  programas sociais de amparo às famílias com grande número de filhos; quem sabe um incentivo à reprodução descontrolada.

Nessa época, quase todas as famílias carentes tinham mais de três filhos. Daí a mobilização da cidade inteira. Uma verdadeira euforia coletiva, com direito a avisos na sonora da prefeitura.

No sábado, desde cedo as pessoas começaram a se aglomerar na pracinha, e os grupinhos foram se formando em torno dos bancos e na calçada da igreja. Era uma euforia total. Por volta das dez horas, começou o retetê. Um locutor, um serviço precário de som, um grupo musical com pandeiro, zabumba e triângulo, e a festança teve início.

Logo teve início a distribuição dos brindes, com a euforia natural dos locutores. As pessoas recebiam o presente e saíam felizes, exibindo sua prenda.

Por volta do meio-dia, uma senhora exausta pediu água na mercearia do meu pai. Trazia nas mãos o seu presente, sem disfarçar seu desencanto.

– A senhora recebeu seu presente? Gostou? – Perguntou meu pai.

– Gostei – falou a senhora com desalento. Só não sei o que é isso.

E mostrou o conteúdo de seu pequeno pacote: uma bolinha redonda, do tamanho de uma pequena maçã, com um furinho no meio.

Meu pai olhou, pegou na mão, examinou.

– É um sabão de lavatório, que fica preso por esse buraquinho a uma corrente.

– Um sabão? – Falou a senhora com ar de irritação. E ainda por cima com esse cheiro horrível? Eu saí cedo de casa para ganhar um sabão que nem serve para tomar banho?

Saiu descontrolada, segurando uma criança faminta pelo braço.

Naquela época não existia o Chacrinha para nos orientar, nem uma bola vermelha para colocar no nariz.

 


Responses

  1. Essa era a Areia Branca da vovó Vanja (minha bisavó Evangelina). Grande (pequenina) Areia Branca do Cais do porto, rua da frente, rua do meio, rua de trás e beco da galinha morta.

  2. Guilherme, você tem razão. E esse povo que aprontava essas e outras antigamente está se replicando por todos os lados. Vide DNIT, Ministério A, B, C… Partidos A,B, C, D, E, F… É só ter chance.

  3. Essa Areia Branca, testemunha real da pureza de corações de tantos em tempos idos. Amores descobertos, perdidos, antes mesmo de perecerem. Saudades que doem…

  4. Sônia, sei de amores de AB em que jamais um pegou na mão do outro. Quantas estórias de amores secretos, sofridos, alimentados pelo simples olhar de longe. Sei de alguns que criavam motivos para passar na rua da amada, para forjar um encontro acidental. Tempos bons aqueles. Mas bons mesmos, embora sofridos.


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