Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 5, 2011

DOIS AMIGOS NA ESBÓRNIA

Trazíbulo e Epaminondas estavam – ao menos aparentemente – macambúzios, com forte sentimento de perda. Suas esposas viajariam no dia seguinte, e os dois amigos ficariam uma semana sozinhos. Só que, para Pulquéria e Leocádia, a dupla ficaria entregue à esbórnia e às delícias do nós sozinhos.

É que dona Pulquéria, quase sem querer, escutara um telefonema entre Epaminondas, seu marido, e Trazíbulo, em que falavam que, nessa semana, fariam aquilo que precisava ser feito, e sem as mulheres seria bem mais fácil, pois poderiam dispor livremente das tardes e das noites durante uma semana. Logo ela telefonou para dona Leocádia, esposa de Trazíbulo, pondo-a a par das conversas entre os dois, que indicavam uma semana inteira de farras e desvarios.

As amigas guardaram segredo quanto às suspeitas, porém combinaram que ficariam ligadas, com telefonemas frequentes e sugerindo almoços e jantares dos dois em casa dos filhos, de tal modo que todos os dias da semana eles estariam sendo vigiados.

Os dois saíam sempre à tarde, bem vestidos, sem que os familiares soubessem para onde. Os filhos nada perguntavam, e eles nada revelavam. Só retornavam na hora do jantar, depois das oito horas. E assim aconteceu de segunda a sexta-feira.

No sábado as duas mulheres estavam de volta, e nada perguntaram, fingindo total confiança nos dois amigos. É que mais tarde iriam ter um relatório detalhado fornecido pelos filhos de um e do outro.

Em casa, fingindo naturalidade, dona Pulquéria percorreu o olhar pelos diversos cômodos, tentando descobrir alguma irregularidade na arrumação, por mínima que fosse. Nada. Tudo no mesmo lugar, e bem arrumado.

No quarto de hóspedes – antigo quarto dos filhos -, a surpresa: uma bengala nova, com cabo de prata, um envelope com chapas de ressonância magnética do ombro – lesões no manguito rotador, constatou ao ler o laudo -, outro com tomografia do abdome superior e da pelve, com a justificativa do médico: propedêutica para cálculos urinários. Em um envelope menor, vários exames de laboratório – glicemia, hemograma, lipidograma, enzimas diversas. No canto, duas molduras envolvidas em papel de presente. Eram ampliações de fotos antigas dos dois, reproduzidas e emolduradas.

Dona Leocádia foi mais discreta. Entrou em casa calada, deixou a mala na cozinha e foi direto para o quarto. Em um canto, encostada à parede, uma bengala novinha, com o cabo em forma de cabeça de cavalo. Ao lado, um boné tipo europeu, que vira em um filme francês, alguns pijamas modernos – enfim, ela veria os velhos pijamas listrados de Trazíbulo serem substituídos – e alguns frascos de xampu e condicionador para cabelos grisalhos. Um taboleiro de gamão, envolto em uma bela embalagem, despertou sua atenção. Finalmente, os amigos não precisariam mais trazer aquele trambolho para sua casa toda semana.

As duas mulheres descobriram mais tarde, no guarda-roupa, um pequeno pacote. Curiosas, abriram-no com cuidado. E descobriram tratar-se de medicamento para disfunção erétil. Na caixa. Sem uso.

A farra, enfim, começaria.

 

EVALDO ALVES DE OLIVEIRA

Médico Pediatra, com especialização em

Homeopatia. Articulista da Revista do

Sindicato dos Médicos do DF

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e

Geográfico do RN.


Responses

  1. Desculpe. Relendo o texto, percebi que escrevi TABULEIRO de forma errada.


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