Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 17, 2012

DE UM NADA, FESTA E RECORDAÇÕES DA INFÂNCIA

Apenas alguns dias de férias, na última semana de 2011, bastaram para um reencontro com as alegrias da minha infância. Fui convidado para visitar um amigo , que mora em um pequeno sítio na entrada de Monte Alegre, pertinho de Parnamirim, parede e meia com Natal.

Logo na entrada do sítio Asa Branca, seguimos por uma estradinha de terra ladeada de cajueiros exibidos, com seus frutos vermelhos querendo se sobressair sobre os amarelos, ao lado, como se fosse a Diana do cordão encarnado a provocar o cordão azul. Os passarinhos, indiferentes à disputa, preferiam os dois. O cheiro os guiava, não a cor.

Conheci frutas exóticas, como a lichia, que se esforçava em sua peleja por espaço contra as frutinhas do campo. As mangas, todas lindas, fossem amarelas, verdes ou vermelhas, banhavam-se desnudas ao sol abrasador de dezembro. Sem falar nos cocos, nas pinhas e nas mangabas, que nos olhavam de longe.

Aqui e ali, calangos se exibiam sem temor, recompensando, com seu bailado, o respeito dos moradores. Porém de olho em dois enormes gansos que os espreitavam de soslaio. Conheci um berçário com uma infinidade de filhotes de palmeiras sendo banhadas por minichuveiros que formavam minúsculos arco-íris quase no nível do chão que, molhado, exalava frescor de meninice.

No final da tarde, com o olho da noite a nos espreitar, percebi, sobre uma lona, um monte de castanhas de caju. Lembrei-me de que, criança, jogava castanhas na calçada da Rua do Meio, atrás da minha casa, ao lado do sobradinho dos padres. As crianças  das famílias abastadas não conheciam essa brincadeira.

O caseiro, ao perceber nossa aproximação – e mais uma vez sendo gentil -, ofereceu-se para assar algumas castanhas para o visitante, que imagino julgar ilustre. Logo o fogo tomava conta dos gravetos, na areia, soprando suas labaredas fugidias. Um tacho abarrotado de castanhas foi colocado sobre o fogo e o espetáculo teve início. As castanhas bailavam e explodiam, empesteando o ar com o cheiro de seu óleo fumegante. Vira, revira, pula para um lado, esquiva-se do outro, cuidado com os olhos, o fogo a nos amedrontar com seu bafo ameaçador. Meu filho, Lucas, fotógrafo profissional em São Paulo, deslumbrava-se com aquele ritual stonehengeano, e os disparos da máquina se sucediam.

Ao final, o melhor. Quebrar as castanhas com uma pedra, e comê-las. Na verdade, não as comemos; degustamo-las sem pudor, quase queimando a boca. O puro gosto da natureza, com a cinza quente a nos enegrecer mãos e unhas. Gormets do interior, pobres comedores de castanhas caipiras. Crianças de cabelos gris.

Foi aí que entendi – já imaginando um próximo convite – os belos versos de Fagner, que sentenciam:  de uma coisa fique certa; a porta vai estar sempre aberta; o meu olhar vai dar uma festa na hora que você chegar.

Pura pretensão, a minha.

Uma autêntica festa no interior… do meu coração.


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