Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 4, 2012

SESSENTA MINUTOS DE UMA VIDA – II

 

Levantou-se às onze horas. Veio pelo corredor, agora um homem mais magro, com aquele  olhar sem brilho e sem ponto futuro, num sem destino quase infinito. A cuidadora dera-lhe um banho, trocara-lhe as fraldas, penteara seus cabelos e vestira-lhe uma roupa.

Do corredor, vislumbrou algumas pessoas. Um ar de riso quase automático, sem expressão, tomou conta de seu rosto magro. Viu, próximo de si, uma pessoa que não conseguia identificar. Era seu genro. Olhou fixo, fez novo ar de riso e passou em direção à mesa da sala. Sentou com o olhar voltado para baixo. Olhou o café que lhe era servido, respondeu a uma pergunta da cuidadora. Comeu mamão e iogurte, porém de olho no inhame, que pediu em seguida. Comeu o inhame de olho em umas torradas, ameaçando alcançá-las com a mão. Ele mesmo pôs a comida na boca, mas demorou, em sua  mastigação lenta, com o olhar voltado para as guloseimas expostas sobre a mesa.

Manteve o olhar fixo, no rumo do nada, as mãos sobre a mesa. Movimentos lentos; apenas mastigava, e demorava a engolir. Pediu mais inhame, e exigiu mais torrada. Ele está assim – fala a cuidadora -, esquece que comeu, e quer repetir a comilança.

Ao seu lado, o filho mais velho, sua nora e sua neta chamaram por seu nome. Riu um riso desinteressado. Não reconheceu os seus familiares. Virou a cabeça para a mesa, e perguntou se não vão lhe trazer o café. O filho, brincando, perguntou de que cor era a bolinha que lhe era mostrada, e a pôs em sua mão. É azul, respondeu. Acertou, e todos riram. Sentiu um pouco de náusea, um mal estar nos gorgomilos, sintomas de um antigamente já esquecido. Resistiu, e continuou à mesa, apesar do refluxo gastroesofágico.

O filho pôs  um boné em sua cabeça; ele riu, e permitiu passivamente aquela brincadeira. Fez nova ameaça de se levantar, mas continuou sentado. Na sala, risos grosseiros e conversa alta, mas ele continuava com seu olhar perdido, fixo em um horizonte curto. Meio metro, talvez.

Não emitiu uma só palavra, de forma espontânea. Quando provocado, respondia com monossílabos e retornava ao seu silêncio. Continuou segurando a bolinha azul, agora rolando-a sobre a mesa, na direção de sua filha, que a devolvia de forma carinhosa. Ele riu e abaixou o olhar. Levantou-se com dificuldade, e partiu lentamente no rumo do sofá. Sentou-se de forma automática, as feições sem expressão, os olhos fixos na televisão desligada. Perguntado, indicou que o aparelho fosse ligado.

Mas insistiu em seu olhar perdido, agora na direção da tv. Uma hora havia se passado.

No móvel da tv, na prateleira de baixo, um manual sobre a doença de Alzheimer.

Evaldo Alves de Oliveira é médico pediatra, com formação em Homeopatia. Sócio-

Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.


Responses

  1. Dr Evaldo, li e reli o seu texto. O senhor naturalmente deve ver muitos casos iguais ao que descreveu se nao diariamente , talvez mensalmente.
    Fiquei MATUTANDO, sobre o que li.
    A velhice, se nao saudavel e uma coisa muito triste.
    Um ser humano , batalha tanto na vida para conseguir o seu objetivo e no final ficar praticamente em estado de vegetacao e um sofrimento enorme para a familia, ja que para ele, tanto faz, porque nao tem mais a capacidade de raciocinar, com nitidez.
    Tenho fe em Deus que um dia , se descobrira, se nao a cura, mas pelo menos uma forma de aliviar esta doenca terrivel.
    Um abraco.

  2. Evaldo e Dodora.
    Até me assusta esse texto!
    Nós que convivemos com a invalidez de um irmão, que, com 7 anos, ainda em Areia Branca, tornou-se paraplégico e depois de um violento sarampo, epiléptico, sabemos como é difícil lidar com a situação depois da partida de nossos pais. A preocupação maior deles era deixá-lo aqui neste Mundo, sob a nossa responsabilidade já que todos trabalhávamos muito.
    Porém, diante do exposto por Evaldo, creio ser muito mais difícil suportar um caso assim, com ausência total da valiosa lucidez.
    Gileno conta com uma memória invejável, é feliz com seus sessenta e cinco anos; é evangélico e possuidor de uma Fé inabalável.
    Um abraço.

  3. Dodora, essa pessoa foi por mim observada há algum tempo, quando fiz o SESSENTA MINUTOS DE UMA VIDA. VIDA?, que está no blog.
    Agora, retornei tempos depois e percebi as mudanças em suas atitudes, bem mais lentas e desligadas de quase tudo.

  4. Sonia, imagino como deve ter sido difícil lidar com esses problemas, mas há uma satisfação pessoal, na alma do cuidador. Sei também que nem todos da família se envolvem do mesmo modo.


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