Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 16, 2012

NÃO SEI SE DEVEMOS

 

Não sei se devemos liberar o emaranhado de sonhos ainda não sonhados. Suspeito de que, alhures, haja ruelas ainda não transitadas, portais de labirintos que se bifurcam, desafiando nosso discernimento. Não sei se, ao final, minotauros famintos suplantem nossa capacidade de mantê-los saciados, nós nem Teseu nem Ariadne.

Não sei se devemos repensar episódios sedimentados na água lodosa do passado, quando a resolubilidade era pequena e as questões ganhavam corpo e força desproporcionais.

Não sei se devemos remexer o fundo desse rio que passava entre montanhas que também se foram, tocadas pelo tempo, com o risco de toldarmos suas águas hoje inexistentes.

Não sei se devemos conduzir à mesa assuntos que ainda abastecem nossos pesadelos, ecoando nos grotões escurecidos de nossa consciência, alimentando inúteis infortúnios.

Não sei se devemos aguçar o que nos resta de audição, hoje carente de detalhes, numa tentativa de perscrutar sussurros mal compreendidos, ecos do passado, que ainda ribombam nos desfiladeiros da incompreensão.

Não sei se devemos, auscultando passos de então – que hoje sabemos serem claudicantes -, redefinir ritmo e intensidade de passadas, no esforço de identificar pisadas que trouxeram perplexidade e medo.

Não sei se devemos remexer baús e caixotes repletos de segredos, e acomodados em sótãos há décadas intocados.

Não sei se devemos, com os rastros do tempo impressos no rosto, retornar no oco do tempo, e, a montante, no contra fluxo, tentarmos reinterpretar estorvos de meninos.

Não sei se devemos, enfim, despertar agouros ancorados em antigos rancores, onde proliferam teias, hoje centenárias pucumãs.

Melhor será apenas viver.


Responses

  1. Bom dia,cá estou!Q.seja mais um domingo lindo! Assim seja todos os domingos e dias. Legal o texto,ñ achei tão ´louco´e como conversamos ontem,só vale a pena se esclarecer maus entendidos e coisas e tais.Se ñ deixa quieto??Há inquietações???Melhor pagar um psicoterapeuta,né?
    Bom,depois leio + e quem sabe tecer algum palpite!Como lhe disse:sou dolente p/ escrever e nesta máquina?pior ainda!!!!
    Segue meu e-mail.Agora estamos conectados,sei como fala?eletronicamente??ou virtualmente???Sei lá,entende??
    Um grade bjo a todos.

  2. Entendo que há coisas que, em uma pessoa despojada de ranços, não deveriam mais fazer parte de suas arestas. Rancores, sentimentos de vingança e outros sentimentos paralelos nada resolvem, e mantêm nosso sistema imunológico em desarmonia. Um abraço.

  3. Dr. Evaldo,
    Imaginei ser um outro texto perfeito, antes de ler este. Todos são perfeitos!
    Incrível tua capacidade!!!.. A cada escrito, uma lição de vida.
    Tens razão. Sabes que não se deve esclarecer o ininteligível ou, quem sabe,o incognoscível (nem sei se devo usar este termo p/ quem é médico), considerando, o tempo em que se vive em relação ao tempo p a s s a d o.
    As justificativas nítidas são respostas à questão.
    Agora, o que fazer com tudo que corrói à alma “humana” ?
    A cada um, o prêmio ou o castigo merecido. É isto?

  4. Caro Evaldo,

    mexer no passado, devemos mexer quando for necessário, como nos ensinou Dr. Freud. Se não temos nenhum contencioso mais sério com o nosso passado, vivamos o presente, nos preparando para o futuro, na medida do possível.

    Mas o nosso passado, a nossa história de vida, que nos construiu, estará sempre lá, consciente ou inconsciente, a nos determinar. Dela não podemos fugir jamais.

    Um abraço e parabéns pela crônica limpa e bonita.

    Um abraço,

    Omar

  5. Sônia, realmente, as coisas do passado deveriam servir para orientar nossos rumos, não de bucha para canhões recheados de rancores. Sei de famílias que se degladeiam em confusões da época das Cruzadas. Não levam a coisa alguma. Só desgastam e magoam.

  6. Queridíssimo Omar. Que bom encontrá-lo na rede (net). Você, que quase é amigo pessoal de Freud – de tanto estudo – sabe bem do que falamos. Um abraço.

  7. Passado.,presente e futuro.
    Nunca sabemos interpretar, a razao com que ficamos sempre presos ao passado.
    Algunhas pessoas nao gostam de olhar para traz e outras vivem tirando as reliquias do bau.

    Quando o passado foi bom, devemos relembra-lo.Quando nao ,devemos esquece-lo
    Presente.
    A maioria das pessoas estao sempre reclamando do presente.Mas nao esquecam, que em poucos anos vamos olhar para traz, com saudade deste presente, que hoje parece sem encantos

    Futuro. Quem o conhece?
    A incerteza do que sera o amanha e que nos faz, sonhar , com o passado, desejando que o futuro nos traga as alegrias anteriores.
    Viva o Presente.Vamos celebra-lo com vinho e Gorgonzola.
    Um abraco

  8. Dodora querida,

    Agora, tenho a certeza de que também tens a poesia no sangue! E, falaste muito bem. Mais tarde, num futuro bem próximo, este presente será passado e sentiremos saudade dele.
    Mesmo não nos encontrando na Itália, celebremos a vida, com gorgonzola e um bom vinho.
    “A NÓS…”

    Um abraço.

  9. Inicialmente, peço perdão. Na resposta a Sônia, falei degladeiam. Jamais. A forma correta é digladiam, do verbo digladiar.
    Vocês duas – Dodora e Sônia – bem que poderiam formar uma dupla de comentaristas, avaliando falas e descrições. A forma e o conteúdo são bonitos. Parabéns.

  10. Dr Evaldo , eu sempre gostei de ler e escrever.Infelizmente nesta altura do campeonato, com tantas preocupacoes nao da para comecar nada.
    A vida (que vou sentir saudade no futuro) esta muito louca.
    Parece incrivel ,que esta blog e o de Areia Branca, me faz da uma pausa e por alguns momentos , abandonar toda esta loucura, Encontrar e conversar com voces, meus amigos., e muito gratificante
    O que me faz escrever e a experiencia da vida, que ninguem aprende na escola. So vivendo
    Aprendemos a dar valor as coisas simples da vida ,principalmente quando se ler o que se passa no mundo .
    Vamlos brindar mais uma vez.
    A nos

  11. Evaldo: você está oferecendo auto-ajuda da melhor qualidade. Assis Câmara


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