Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 24, 2012

SE EU SOUBESSE

Se eu soubesse que aquela decisão de partir traria as mudanças que trouxe, e causaria os transtornos que mudaram o rumo de toda a minha vida, mesmo assim eu partiria.

Se eu soubesse que aquelas palavras – lampejos da verdade -, ditas em local e hora porventura inoportunos, traumatizariam sentimentos e modificariam projetos de futuro, mesmo assim eu as proferiria.

Se eu soubesse que aquela pequena alteração nos propósitos da minha vida traria incertezas e incompreensões, mesmo assim eu os alteraria.

Se eu soubesse que minha vontade de vencer causaria tantos desentendimentos e rancores, mesmo assim eu não desistiria.

Se eu soubesse que o aquele não traria mudanças de rumo de vidas tão distintas, quebrando antigos compromissos, mesmo assim eu o diria.

Se eu soubesse que palavras proferidas quando se discutia o malfadado inventário do meu parente endinheirado geraria desconfortos e rugas, mesmo assim eu as repetiria.

Se eu soubesse que meus atos, qual redemoinho, desvendariam antigos segredos – intrigas e dissabores de hoje – conturbando estabilidades e desfazendo laços, do mesmo modo eu agiria.

Se eu soubesse que meu comportamento provocaria dores e lágrimas, e tumultuaria relacionamentos pessoais já instáveis, provocando mais desacertos, noites mal dormidas, ânsias e sofrimentos, mesmo assim eu o faria.

Se eu soubesse que aquela rosa vermelha, inocentemente atirada sobre um ataúde, no final de uma tarde chuvosa, traria suspiros e indignações, mesmo assim eu o faria.

Porque a vida é assim, feita de transformações.


Responses

  1. Dr Evaldo.
    Todo ser humano, no decorrer dos anos, comete erros, com atos , palavras e pensamentos
    Gostei imensamente do seu poema.Sim porque o senhor escreveu uma poesia.
    No caminho por mim percorrido, cometi atos que depois me arrependi , mas uma coisa tambem aprendi(porque de tudo se aprende)Que a maior arma do mundo e a lingua(palavras de vovo Zefa)\
    Os ferimentos que podemos causar verbalmente, podem ser muito mais profundos do que os que causamos com uma arma.
    Quando somos feridos por uma faca, ou um tiro de revolver, conseguimos com os tratamentos adequados da medicina nos recuperar e ate esquecer o fato.
    Mas quando somos feridos com palavras, as marcas ficam presas no nosso coracao e nunca conseguimos delas nos livrar.
    Podemos perdoar, tentar nao pensar ou lembrar. Mas nao tem jeito.
    Um dia quando menos se espera , aquelas palavras ecoam novamente ,como se nos perseguice toda a nossa existencia
    Nao sou uma pessoa rancorosa e nem carrego comigo a arrogancia, de dizer: Perdo ,mas nao esqueco.
    Mas nao e que nao se queira esquecer . E impossivel
    Portanto temos que ter cuidado, com o que proferimos
    Eu me policio o tempo todo, pois sei que sor humana e cometo pecados.
    Acredito que a vida e um aprendizado e procuro, aprender o maximo possivel, embora tenha meus deslizes.
    Um forte abraco.
    Dodora

  2. Evaldo, quando li ” Não sei se devemos” quis comentar, mas “não sabia se devia”. Daí li “Se eu soubesse” e me vi em no meio de um emaranhado de situações que você descreveu nas duas crônicas, correlacionadas como se fossem dois parágrafos de um mesmo capítulo ou, talvez, duas páginas de um mesmo livro. Não sei se sou esperto (quero dizer, “espertalhão”), mas se me fosse dada a oportunidade de voltar no tempo daria umas belas pinceladas aqui e ali. Em alguns outros episódios de minha vida, repintaria o quadro de maneira totalmente diversa. Mas Deus não dá asas à cobra.
    Saudaçóes potiguares.

  3. Dodora, ao longo de nossa vida, cometemos erros, pegamos veredas erradas, caminhos tortos, desencontros. Se voltássemos no tempo, e tomássemos novas atitudes, novos erros, muitos outros desencontros. Porque a vida realmente é assim. Tem que ser vivida.

  4. Prezadíssimo Guilherme, sempre queremos retocar nossos quadros do passado, consertar escritos, refazer fotos antigas, corrigir expressões. A intenção é muito boa, mas, no fundo, novos episódios surgiriam, novas mágoas ecoariam. Porque a vida é assim. Um abraço. Bom revê-lo. Sempre acesso aquele seu blog.

  5. Evaldo,
    Além do talento excepcional para o que fazes aqui, tua imaginação, a verve, fonte inesgotável que te move como escritor e poeta, te capacita a produzir estas duas obras-primas tão bem correlacionadas, provindas de tua parte mais íntima, o cerne.
    Os comentários acima falam, com precisão, sobre os escritos.
    Resta-me a meditação.
    Parabéns pelos textos.

  6. Observação vinda de você engrandece qualquer comentário. O meu trabalho é fruto de uma observação que engloba a forma de pensar de todos nós do blog, via comentários e discussões.

  7. Evaldo: das nove crônicas postadas em seu blog, nesta primorosa ediçao, esta foi a que mais me agradou, pela profundidade do conteúdo e pela identificação com iguais sentimentos que alimento. Com muita qualidade, você vem cumprindo um bom papel de provocador, levando os amigos a refletir sobre temas essenciais, vitais, de forma leve e envolvente. Parabéns por mais este serviço de utilidade pública. Assis Câmara

  8. Apenas uma palavra ao meu amigo Assis Cãmara: emocionado.


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