Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 21, 2012

VIDA DE MÉDICO

 

Corria o ano de 1989. A juventude, com o fogo natural da idade atiçado pelas músicas de Belchior e Fagner, agitava da vida noturna de Fortaleza, que, nos finais de semana,  fervilhava de modo especial. O prenúncio de uma nova década contribuía para um natural acirramento dos hormônios de secundaristas, universitários e recém-formados. Fosse nas praias ou nos clubes, os embalos noturnos varavam noites e madrugadas.

Era noite de sábado. Após uma semana estafante, igual a outras tantas que a antecederam e a sucederiam, o Dr. Paulo, Médico em início de carreira, Coordenador e Instrutor do GSU-Grupo de Socorro de Urgência de Fortaleza,  que cuidava  da assistência pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros/Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, saiu de casa com a esposa para participar de uma confraternização na casa de uns amigos.

Reunião agradável, muita conversa jogada fora, o cheiro gostoso de whisky, mascarado pela fumaça dos cigarros, espraiava-se pelos espaços, em um frenesi capitaneado pelo som de uma vitrola, em que os sucessos de Roberto e Erasmo e de Beto Barbosa, além dos hits de Lionel Richie, comandavam ritmo e temperatura da animação.

Quando o embalo acenava para atingir o clímax, a campainha tocou. Era uma senhora aflita, resfolegante, que desejava falar com o médico. A jovem senhora – mais gesticulando que falando – pediu àquele jovem que a acompanhasse, pois na esquina da rua logo abaixo houvera um gravíssimo acidente, e a ocupante do banco do carona gritara desesperadamente, pedindo para que ela fosse até aquele endereço e chamasse o médico. Ela saiu repetindo alto o endereço, pois não havia papel para anotação.

Os dois saíram em disparada na direção do acidente. De longe, o médico avistou uma multidão em volta de um fusca virado de cabeça para baixo, preso entre dois postes que sustentavam um transformador. Confuso, dirigiu-se às pressas para o veículo, e identificou seus ocupantes: eram seus pais.  O motorista – seu pai – perdera os sentidos, e a senhora estava com as pernas presas às ferragens.

Tomadas as providências de isolamento do local, chamada uma ambulância e comunicado ao Corpo de Bombeiros, o médico passou a dar assistência aos acidentados. A ambulância não podia atender ao chamado. As poucas que existiam estavam em serviço de socorro. Com todo o cuidado, os bombeiros conseguiram resgatar o senhor, desacordado. A passageira tinha um parafuso de dez centímetros encravado no meio da coxa, o que dificultava o seu resgate. Mais tarde, seria confirmada uma fratura cominutiva da bacia com mais de cinquenta fragmentos.

Os dois foram colocados na parte traseira de uma Caravan – um dos poucos veículos cujo banco traseiro podia ser rebaixado – e conduzidos ao Pronto Socorro.

Na sala de espera do centro cirúrgico, o médico foi comunicado de que o acidente fora provocado por um veículo em alta velocidade, que disputava um racha. Passando  o sinal vermelho, um dos carros chocou-se de forma violenta com a lateral do fusca. O outro fugiu em disparada.

Eram três horas da madrugada. O cirurgião ortopedista comunicou ao Dr. Paulo que a cirurgia da sua mãe fora um sucesso, e que seu pai passava bem.

Suspirando fundo, o médico caminhou pelo corredor, em busca de ar fresco. Sentou no meio-fio e chorou convulsivamente, contemplando a madrugada quente da capital do Ceará.

Ao longe, dois amantes trocavam beijos na penumbra.

No alto, um pedacinho de lua tentava cesariar a escuridão do céu.


Responses

  1. Ser medico e uma grande responsabilidade e surpresas desagradaveis como aconteceu com o medico de Fortaleza

  2. Pois é, Dodora. Muitos não teriam atendido ao chamado; alguns não sairiam no meio de um embalo para atender ao chamado de um desconhecido; outros, diriam para ligar para o Corpo de Bombeiros. Apenas poucos fariam o que fez o médico deste texto. Verídico.

  3. Dr.Evaldo e Dodora
    O que acontece hoje, na maioria dos que escolhem essa nobre profissão, é a irresponsabilidade, advinda, quem sabe, da usura que domina os que assim procedem.
    Aconteceu comigo. Recentemente acometida de uma forte dor no olho que passou a lacrimejar incessantemente; procurei o oftalmologista que havia feito um procedimento cirúrgico no referido órgão. Apesar da insistência pelo pronto atendimento, pelo plano ou particular, a atendente foi incisiva na resposta: só tem vaga para 15 do próximo mês, ou seja, ficaria esperando um mês para ser atendida. Procurei outras clínicas e as respostas foram semelhantes.
    Enfim, tive que me deslocar para outra cidade, a fim de resolver o caso, o que me causou indignação por mais um descaso na saúde.

  4. Não retino um ponto de suas considerações, Sônia. De fato, a geração que aí está, em especial os que chegaram a partir dos anos 1990, tratam a profissão como um negócio, e puramente um negócio. Imagina um paciente da rede pública, que foi meu cliente na pediatria e hoje tem trinta anos, somente aceita ser atendido por mim. Em 2005 um oficial de carreira me procurou no Centro de Saúde, todo fardado, com pistola na cintura. Tomei até um susto. Era um cliente meu da Pediatria, que fazia questão de ser atendido e tratado por mim. Hoje, isso não existe mais. A consulta dura de 3 a 5 minutos, e uma chuvarada de exames complementares é solicitada, em boa parte das vezes sem qualquer justificativa, se o paciente fosse atendido com base nas melhores evidências científicas. É triste dizer isso, mas é a mais pura verdade. MAS AINDA HÁ BONS MÉDICOS. Vez por outra eu dou de cara com algum, e fico surpreso.

  5. No alto, um pedacinho de lua tentava cesariar a escuridão do céu…
    Este final é espetacular. É a poesia que emoldura o texto, criativo e trágico. Parabens. Assis Câmara

  6. Não conhecia esse episódio na vida do amigo Montenegro, mas não me surpreende.
    Dr. Montenegro é uma daquelas pessoas que se mantêm fiéis aos seus princípios e demonstram no dia a dia os seus valores.

    • Caro Assis, você garimpou meu momento poeta. Como disse um entendido, é preciso chuva para florir. É preciso sensibilidade para sentir, digo eu. Um abraço.

  7. Adriane, obrigado por acessar o blog. Tenho o privilégio de trabalhar com ele, e sei perfeitamente o alcance de seu comentário. Obrigado.


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