Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 10, 2012

TANTAS VEZES JÁ FALEI

Que a lua cheia, brilhando na imensidão do céu, não está ali por acaso. Ela já minguou, foi nova, passou por desconhecidas escuridões, foi ao outro lado do mundo, ganhou força, apareceu pequenina, no cantinho do céu, cresceu, agigantou-se para, então, e somente aí, ressurgir majestosa.

Que Ícaro não construiu seu par de asas, e que desobedeceu às determinações de seu pai, o maior artesão da Antiguidade – Dédalo -, e se espatifou nas pedras do mar.

Que etiqueta deriva de ética, e que a materialização deste comportamento só depende de nós, de nossa postura, irmã siamesa do bom senso. Aí entram aquelas esfarrapadas artimanhas do dia-a-dia, como cortar uma fila de carros pelo acostamento, estacionar em vaga de idoso e, imagine, ocupar espaço destinado a deficiente.

Que a desgraça própria, vista no depois do ontem, no calor de uma discussão entre amigos, em torno de uma bancada repleta de chope, quanto maior mais risos provoca.

Que não devemos falar de coisas que não entendemos. Lembremo-nos de que o sommelier pode levar nossa leviana reclamação a sério, e exigir do produtor uma investigação profunda no processo de fabricação daquele vinho do qual reclamamos de que o frutado não correspondia, de que o buquê não estava perfeito, assim como o retrogosto, que não teve a persistência esperada para aquele vinho, causando frustração.

Que devemos, sempre, ser pontuais em nossos compromissos. Afinal, nossa importância não é tanta que possamos macular a responsabilidade e o respeito.

Que o pessoal do marketing ainda não entendeu algo muito simples: quando se escreve SEJAM BEM VINDOS ou VOLTEM SEMPRE, de fato está se  falando com ninguém, porque os leitores estão sempre no singular, diferentemente dos ouvintes.

Que para que algo seja considerado excelência é necessário um endosso superior, sem o qual não há obra de arte, sucesso editorial ou música nas paradas.

Que, definitivamente, fantasmas não existem, não passando de especulações e fantasias criadas por nossa mente. Por oportuno, informo que somente faço tal afirmação durante o dia, até às dezenove horas, e com pessoas em volta.

Que jamais conseguirei realizar duas acrobacias modernas: colocar os óculos de sol na cabeça e, pior, na nuca.

Que não consigo entender como um torcedor, em um estádio de futebol, com a aba do boné virada para trás, insiste em colocar a mão na frente do sol que o ofusca. Afinal, para que serve a aba?

Que também não compreendo adolescentes que amarram o agasalho na cintura e tilintam de frio a caminho da escola.

E quantas outras há que não compreendemos, especialmente no campo político.


Responses

  1. Fantástico o que escreveste, Evaldo; especialmente este último item. Dá-nos vontade de encontrarmos mais para refletirmos sobre essas verdades.

    • Na vida, Sônia, temos incontáveis momentos de aprendizagem, mas geralmente passam desapercebidos. E é justamente esse tipo de aprendizagem que nos fará falta nos momentos que exigem uma decisão criteriosa. Por exemplo: um dia desses, levei uma trancada de um taxista. Quando reclamei, ele respondeu: eu dirijo desse jeito há 40 anos. Respondi: pois, é, amigo, há quarenta anos fazes a coisa errada e não percebeste.
      Nem todas as pessoas percebem que estão fazendo algo de forma equivocada, e continuam do mesmo modo. Devemos ser críticos de nós mesmos, e aprender com nossas próprias avaliações. E MUDAR, quando preciso for. No meu texto, cito um fato: quando se escreve SEJAM BEM VINDOS e VOLTEM SEMPRE está-se falando com quem? Quando escrevo SEJA BEM VINDO e VOLTE SEMPRE, aí sim, estou falando com quem está lendo. Mas o pessoal do marketing não entendeu essa coisa tão simples.

  2. Tantas vezes já falei… Há dois mil anos ALGUÉM já anunciava: eu sou a voz que clama no deserto. Temos olhos e não vemos, ouvidos e não escutamos. Nossa desgraça leva ao deboche. Antes e depois do ontem. Perfeito! Não é à toa que a Tragédia grega predomina sobre a Comédia. Você costuma citar três grandes trágicos (Ésquilo, Sófocles e Eurípedes) e apenas um grande comediógrafo (Aristófanes). Por que as famílias costumam ser mais solidárias na tristeza do que na alegria? Os velórios são mais frequentados do que as comemoraçōes, seja lá do que for. Meu caro Evaldo, com suas primorosas indagaçōes filosóficas você parece mais próximo de Sócrates do que de Esculápio. Assis


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