Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 24, 2012

CELSIUS ROTAIME, O PÉ-QUENTE

Nascido no interior do Ceará, Rotaime sempre se notabilizou pela facilidade que tinha para aprender. Nas aulas de alfabetização, sobressaía-se pela destreza em lidar com as letras do alfabeto, formando palavras com desenvoltura.

Terminado o Curso Científico em Fortaleza, no Liceu, logo seria aprovado no vestibular de medicina, curso que concluiria com louvor. No dia da formatura, uma surpresa: fora agraciado com a Medalha do Mérito Universitário, o desejo de dez entre cada dez dos universitários de todo o Brasil.

Porém Rotaime tinha um sonho. Jamais tinha visto um floco de neve. Sonhava – e isso era quase uma obsessão – ter nas mãos aquela espuminha branca, talvez gelada. Em sua cidade, a menor temperatura ambiente acontecera em sua adolescência. A cidade inteira vibrou. À noite, a população foi para a praça, as crianças bem agasalhadas, e lá estava Rotaime vestindo pela primeira vez um casaco. Desse modo, conseguiu suportar os vinte e oito graus daquela noite gelada. No clube da cidade foi servido um fondue especial, preparado por um chef que viera de Garanhuns.

Nas casas mais simples, as crianças foram avisadas de que aquela seria uma noite em que a cruviana correria solto. Os moradores da cidade conheciam muito bem as quatro estações do ano: Calor, Quentura, Mormaço e Inferno.

No ano de 2011, já pós-graduado e professor universitário, o médico tomou uma decisão. Levaria toda a família para passar o natal em Nova York, a grande metrópole, conhecida como a capital do mundo. A televisão insistia em propagandas convidando os brasileiros para conhecerem a neve e assistir à festa em Times Square. Finalmente, a neve. Exaltação.

As crianças adquiriram botas apropriadas para a neve, luvas especiais, segunda e terceira peles, gorros siberianos, óculos especiais de proteção UVA-UVB. Chegaram até a ensaiar uma guerra de bolas de neve. Fanfarra.

Rotaime viajou na terceira semana de dezembro, justo no período previsto para os primeiros eflúvios da neve. Cauteloso, fizera reserva em um hotel próximo a Times Square, como sugeriam os anúncios da televisão. Queria ficar no foco do bochicho de Manhatthan. Ao chegarem, a temperatura local oscilava entre um e dois graus, sinalizando neve para os dias que se aproximavam. Euforia.

No dia seguinte, o tempo esquentou um pouco. Na terça-feira, aumentou um pouquinho mais. Na última semana de dezembro a temperatura não atingiu nível abaixo de seis graus. Decepção.

Desalentada, a família retornou na primeira semana de janeiro. Pela janela do avião, Rotaime e as crianças vislumbravam um céu branquinho. Embaixo, montanhas cobertas de gelo se despediam do médico cearense.

A prefeitura da megalópole, entre incrédula e desiludida, avaliava por que somente começou a nevar a partir da segunda quinzena de janeiro. Há muitas décadas não se tinha notícia de um mês de dezembro sem neve em Nova York.

Algumas autoridades meteorológicas matutavam com seus botões: teria havido uma alteração passageira do eixo da terra?

Rotaime, entre cabreiro e amedrontado, nunca tocou neste fato com seus amigos. Neve? Nem tão cedo.

Arre égua!

Evaldo Alves de Oliveira

Médico Pediatra e Homeopata

Sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Evaldo amigo: A história de Rotaime e família deveria terminar assim: “E foram felizes para sempre…” Mas, nem tudo é perfeito. Quase vivi essa frustração, não fosse a descoberta de que no Central Park há um centro de patinação no gelo. Não toquei em flocos de neve mas quase viro pinguim. Gostei muito das quatro estações (Calor/Quentura/Mormaço/Inferno) e da “cruviana”. Vivaldi retomaria a inspiração. Abraços, Assis Câmara, diretamente do salão de embarque do Aeroporto de São Paulo

  2. Caro Assis, obrigado pelo comentário. Lembraria, em Nova York, o Rockfeller Center para uma terapia, vendo a patinação que lá ocorre nessa época. Estive em NY há alguns anos, no início de dezembro, e em um certo dia nevou durante um minuto. Foi a única vez que vi e toquei em neve durante toda a minha vida. Nesse ano, um mês depois, a cidade ficaria coberta de branco, com muitos centímetros de altura.

  3. Dr Evaldo
    Gostei das quatro estacoes e tambem da cruviana, uma das minhas palavras favoritas.
    Cruviana em NY e muito mais que cruviana. E frio de matar mesmo.
    Vivi nesta cidade 29 anos e posso lhe dizer que ja passamos invernos sem cair neve, nesta cidade.. Uma ocasiao, levei amigos brasileiros para as montanhas pois ja iam embora sem conhecer a branquinha.Foi no mes de fevereiro
    Dirigimos 4 horas para la chegarmos, e valeu a pena, pois as criancas se divertiram muito.Eu ja tao cansada de ver neve , so queria era um chocolate quente.Bem , na volta, depois de dirigirmos outras 4 horas , deparamos com uma imensa tempestade de neve, na estrada.
    Quando chegamos em casa, tivemos que pegar uma pa e limpar a calcada e a frente da casa. Ai ja nao foi tao mais divertidos.
    A neve e linda, para quem nao tem que viver com ela,.
    Mas fiquei com pena da decepcao de Dr Rotaime e sua familia.


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