Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 6, 2012

ACOTOVELAMENTO DE IDEIAS

Oimorca frequentemente se valia de sua origem inca para se dizer mais inteligente e sagaz que as crianças da sala de aula. Sempre que se sai bem nos trabalhos de classe, utiliza esse jargão para justificar sua veia literária e sua sensibilidade artística voltada para as letras.

Naquela quinta-feira, buscava inspiração para o roteiro de uma história de amor. No dia seguinte teria que entregar um trabalho de classe sobre um caso amoroso de sucesso, onde, ao final, prevalecesse a harmonia entre o casal. De todas as formas procurou, porém a vulgaridade das ideias que surgiam impediam sua redação final.

À tarde, Oimorca compareceu ao pronto-socorro com sua mãe, que se encontrava com fortes dores de cabeça. Ao entrar no consultório, o jovem teve uma ideia: com o canto do olho, flagrou três palavras e as escreveu em um papel que carregava de forma dissimulada, junto com um pequeno lápis. Sentado, vislumbrou a primeira: Olécrano.

Olécrano, pensou o adolescente, seria um cavaleiro forte, surgido de várzeas distantes e que, com sua espada cor de ouro, salvaria a mocinha. O garoto virou a cabeça para um lado, puxou o corpo, mirou no rumo da folha de papel sobre a mesa e conseguiu a segunda palavra: Ulna.

Ulna, um bonito nome para uma linda mulher, que vivia nas proximidades de um rio, e que se envolveria em um romance com Olécrano. No canto da folha sobre a mesa, conseguiu ler: fossa olecriana. Desilusão.

Em casa, Oimorca tentava formatar sua redação. Olécrano, vigoroso e apeixonado; Ulna, frágil, singela e bela. Ao final, a fossa olecriana. O jovem não conseguia concluir seu trabalho escolar. Como falar de um caso de amor com o protagonista entrando na fossa, ao final?

Saindo do plantão, o médico do pronto-socorro trazia na mão o laudo da tomografia do cotovelo que se encontrava sobre sua mesa: fratura do cotovelo, com lesão da ulna ao nível do olécrano, próximo à fossa olecriana.

Seria um caso cirúrgico? – pensava.

 

EVALDO ALVES DE OLIVEIRA

Médico Pediatra e Homeopata

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 


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