Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 13, 2012

TIRANIA

O jornal O Correio Braziliense do dia 7 de outubro estampava, em chamada de capa, algumas observações pertinentes sobre o comportamento infantil: Lidar com a autoestima é uma questão delicada. Se confiar excessivamente no próprio taco pode fazer com que sentimentos de superioridade subam à cabeça, não acreditar em si meso também não é a melhor receita para uma vida equilibrada. …Aos pais, resta o desafio de impor limites – a si próprios e às crianças. Precisam aceitar que nem tudo o que seu filho faz é lindo apenas por que foi ele quem fez. Também não podem passar aos pequenos a ideia de que o mundo é um campo de batalha, em que tudo de bom que se realiza não passa de mera obrigação.

Tomás Pablo Paschero, psicanalista e homeopata argentino, enfatiza: “O rancor, o ódio, a agressão, o desejo de destruição e o sentimento de culpa que oprimem o homem de hoje são a reação direta ao sentimento de minusvalia e angústia suscitados pela avaliação pejorativa dos pais e adultos que fizeram aflorar a sensação de ser mau, feio, disforme e incapaz à criança de ontem”.

Originada do grego, tirano significa senhor absoluto, usurpador do poder, injusto, cruel ou opressor que abusa de sua autoridade. A tirania vem assumindo lugar de destaque nas discussões sobre o comportamento infantil, e todo Pediatra conhece bem esse pequeno personagem de que falarei.

A criança se acha onipotente, e talvez por isso imagine-se Dédalo, capaz de voar, vencer os monstros, ficar invisível, desaparecer as pessoas, até matá-las, mas logo se arrependem e as ressuscitam. Vão a outro planeta, sentem medo e retornam.

Se o menino ou menina não tiver, perto de si, alguém equilibrado, que imponha os limites necessários, que lhe aponte os caminhos, que saiba cobrar comportamentos, que lhe indique as regras da boa convivência, já estaremos a meio caminho do caos.

Falar a verdade já é um bom começo. Discutir com a criança as dificuldades para se conseguir determinadas coisas, o valor do respeito, que começa pelos exemplos do dia a dia, com seus riscos e perigos reais, sem aumentá-los ou inventá-los. A criança não precisa obedecer por medo.

Veja este exemplo real: estava de plantão no pronto-socorro quando chegou uma avó com seu netinho com um ferimento no rosto. Quando ela me viu, de jaleco, falou para a criança:

– Meu filho, esse aí é o barbeiro, que vai cortar seu cabelinho.

E eu, com ar de riso, respondi:

– Eu sou um médico, e vou examinar o seu ferimento. Se for necessário, daremos alguns pontinhos para fechá-lo. Está certo?

O garoto, calmamente, deixou-se examinar sem relutância. Perceber-me verdadeiro, e mantendo a calma, foram fundamentais para sua aceitação.

No segundo ano de vida  aumenta a complexidade das emoções infantis, em que se destacam o medo e a timidez, a agressividade e o ciúme, o egoísmo, a ternura e, mais tarde, a compaixão. Se frustrada em seus desejos, terá crises de birra. Esta fase será ultrapassada pela adaptação social da criança.

Sabemos que a criança necessita de segurança afetiva para expandir-se, expressar-se, exteriorizar seus impulsos, sobrepondo-se ao medo e à ansiedade, com a ajuda de pessoas que intervêm em seu desenvolvimento, no sentido de aprender a caminhar por si.

O tudo permitir, o não estabelecimento de limites ou, no contraponto, a superproteção, podem, como segurança fictícia, estancar o desenvolvimento de suas próprias possibilidades.

Muitas famílias, embora os pais almocem em casa, estão separadas. Um almoça no quarto, outro na frente da televisão, outro na cozinha. O pai diz sim, a mãe diz não; o tio, o avô, a avó interferem; um faz, outro desfaz; um proíbe, outro permite; a criança chuta um dos pais, todos riem; o pai fala, a criança não escuta. O pai dirige a cem por hora, e indica para o filho quais os pardais não funcionam.

Um pouco maior, por volta dos doze anos, dirige o carro do pai; aos quinze anos ganha um automóvel de presente. “Pode dirigir. Se houver problema eu resolvo”. E resolve.

A conduta pessoal é dependente direta do ambiente. E aí, mais uma vez, entram os pais, a família, a escola, o exemplo dos políticos, dos magistrados, a mídia, especialmente a televisão, a qualidade de vida, as experiências – felizes ou não – que irão estruturar, junto com a herança, a constituição psicofísica de cada um. Por essa razão, cada ser é único em sua forma de se relacionar e de reagir

Menciono advogados que transportam drogas e celulares para os presídios, médicos que desrespeitam seus pacientes,  pessoas que só vivem de enganar, ludibriar, juízes que vendem sentenças e habeas corpus, a poluição sonora nos supermercados, pessoas que buzinam na porta dos outros, quando poderiam simplesmente tocar a campainha.

Certo dia o pai de uma criança me falou, durante uma consulta:

– Filho pequeno, é hora de brincadeiras em casa, camaradagem. E a verdade, sempre a verdade, além do respeito. Jogo de botão, de dominó, de dama, e risadas sem compromisso. À noite, televisão desligada, filho no aconchego do colo. E estórias inventadas na hora, de improviso, como aquela da formiguinha da perna bamba, que eu contava com os dedos passando pelas costas da criança, imitando os passos atrapalhados do bichinho.

E continuou: Chegará o dia em que você se surpreenderá quando seu filho, homem de vinte e cinco anos, já com diploma universitário, em uma noite qualquer, deitado na cama, falar com aquela voz que só os filhos possuem:

– Pai, você ainda se lembra daquela estória da formiguinha da perna bamba? Vem, conta novamente. Mas só se for com os dedos correndo pelas costas, senão não vale.

E você se descobrirá, cinquentão, ocultando uma lágrima solitária que ameaça escorrer pelo rosto, na penumbra do quarto.

Por aí, talvez, passe o antídoto da tirania.

 

EVALDO ALVES DE OLIVEIRA

Médico Pediatra e Homeopata

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Excelente texto, que me ajudara na educacao do meu neto que agora com 5 anos. E incrivel a inteligencia de uma crianca
    .Antigamente pessoas pensavam que crianca nao entendia, ou nao sabia o que se passava em volta, quando os adultos conversavam Agora sei que nao e assim. Que uma crianca, comeca a se desenvolver, muito antes do que gostariamos e observam todos os nossos movimento.
    Atualmente meu neto esta na idade da birra. Mas agora depois desta leitura, tenho bastantes ferramentas para lidar com ele. \
    Obrigada Dr Evaldo

  2. Dodora, quando a gente vê uma criança caída no chão, aos gritos, ciscando com os pés, basta sair silenciosamente daquele local, e ir para outro. A criança vai olhar em volta, e se levantar. Já vi uma criança parar de chorar e dizer: mamãe, por que eu estava chorando? A mãe respondeu: porque você bateu com o braço na mesa. Ah, é! E começou a chorar novamente, aos berros. Se ela tivesse dito NÃO SEI, ele iria procurar sua turma, e ficaria calado. Um abraço.

  3. O assunto é, sem sombra de dúvida, bastante polêmico. As crianças, hoje, já nascem bem diferentes do nosso tempo…eles nascem de olhos abertos e, o seu desenvolvimento, em todos os sentidos, acontece rapidamento; enquanto, para nós e.demais contemporâneos o processo era outro. A explicação desconheço mas tenho a curiosidade de saber as causas.
    Evaldo e Dodora, realmente.este artigo é mais uma proveitosa lição de conhecimento real sobre os comportamentos infantis e suas consequências..
    Concordo quando dizes,Dodora, que a criança observa tudo a seu redor…
    Lembro-me bem que, com 4 ou 5 anos, perguntei a uma tia sobre algo que estava em sua mão, ela respondeu-me: ” = É risco misturado com feitiço.” Aquilo me marcou tanto que, mesmo hoje, sofrendo de amnésia, ainda não esqueci o acontecido.
    Evaldo, sinto muito receio de errar com meus 3 netinhos. Procuro agir como a mãe que ainda sou para meus três filhos. Este artigo ficará bem guardado em minha mente como guia norteadora nos procedimentos para com neus netos e não me exceder nos mimos dispensados a eles, que representam a minha cura e a. razão maior do meu viver.
    .
    Que bom que estou aqui a me comunicar com vocês, meus queridos. Já estava sentindo falta.

  4. Desculpem: Quis dizer – ELAS (as crianças) nascem e Guia NORTEADOR; bem como o excesso de pontinhos soltos no meu comentário. Obrigada.

  5. Sônia, um dos pontos principais é coerência. Não exigir das crianças o que ele/ela não faz. Dizer algo e fazer o contrário. Dar sempre razão à criança, mesmo que ela esteja errada, seja na escola ou com os amiguinhos. Desrespeitar a criança na frente de outros; um dos pais diz algo e o outro desfaz; os pais exigem determinados comportamentos e, mal saem de casa, os avós determinam o contrário; brigas dos pais; comportamentos discriminatórios, sejam com empregados ou com prestadores de serviços; desrespeitar as autoridades e as normas. Em suma, é a síndrome do vidro quebrado (do carro). Se não conhece esta síndrome, falarei sobre ela. Um abraço. Que bom que nos reencontramos.


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