Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 19, 2012

A DIGNIDADE EM UMA BELA EXPRESSÃO

Estudante do sexto ano do curso de medicina, fui mandado para estágio obrigatório no CRUTAC – Centro Rural Universitário de Treinamento e Ação Comunitária, na cidade de Santa Cruz, interior do Rio Grande do Norte, juntamente com alguns colegas de turma.

Quase médico, acostumara-me às expressões e costumes potiguares, com suas variáveis interioranas, em especial de Areia Branca, minha cidade natal. Porém tais expressões tinham, sempre, um tempero popular, em que o que era dito escorria pelos tímpanos e não encontrava tradução convincente, tipo estou com uma dismornência entre o couro e a carne, para exprimir um mal estar, ou o fácil entendimento de Como vai, fulano? Escapando, feito gás de cozinha.

Voltemos ao estágio em Santa Cruz, e ao hospital em que trabalhávamos. Certo dia atendi uma senhora na faixa dos sessenta anos, com o ar  da dignidade em cada expressão, traduzido por um semblante de seriedade e respeito.

Ao ser chamada, cumprimentou-me, entrou na sala e sentou-se. Ao ser perguntada sobre sua queixa, assim se expressou:

– Doutor, quando me abaixo, a mãe do corpo aparece; quando me sento, ela se encanta.

Foi a mais bela forma de se referir a um prolapso uterino, em seguida confirmado.

Jamais ouvi algo tão bonito, dito por uma pessoa simples, no interior do Rio Grande do Norte, na cidade de Santa Cruz, no ano de 1971.

Uma queixa, digo, um poema. Uma orquídea em plena região da caatinga.

 

EVALDO ALVES DE OLIVEIRA

Médico Pediatra e Homeopata

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Evaldo, ouvi esta expressão MÃE DO CORPO, uma (ou duas vezes) durante uma conversa de mamãe com uma amiga. Coisa difícil de acontecer, numa época em que não nos era permitido presenciar conversas de adultos.
    Realmente a forma como essa senhora expressou foi de uma delicadeza surpreendente, em se tratando de uma interiorana.
    O fato levou-me a um outro, adverso a este, quando na minha adolescência, ouvi de um jovem conhecido a seguinte frase: __`não namoro você por causa do seu sotaque… você fala cantando.` E quem disse que eu queria namorá-lo? Sou areia-branquense, sou potiguar e vou continuar assim, aqui ou em qualquer outra região.
    Enquanto essa senhora representou uma bela flor em plena caatinga, aquele jovem espetou-me com seu espinho…
    É assim a vida, existem muitas orquídeas em busca de pessoas que as reconheçam para colhê-las e admirá-las.

    Que bom que tenhas tantas boas estórias para nos contar.

    Pelo DIA DO MÉDICO, 18 de outubro, deixo-te um abraço de Parabéns.

  2. Sônia, como sempre, excelentes comentários e algumas lições de vida. O sotaque é uma coisa interessante, que regionaliza as expressões e os costumes, em todos os lugares do mundo. Cada povo deve tentar, na medida do possível, manter suas tradições e seus modos peculiares de se expressar. Um abraço.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: