Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 16, 2012

DE CRACÓVIA AO RN, O SAL COMO TEMPERO

Fica em Wieliczka, cidade ao sul da Polônia, na área metropolitana de Cracóvia, a maior e mais famosa mina de sal gema do mundo. Fundada em 1290, é constituída por um conjunto de escavações dispostas em nove níveis, que vão até 327 metros de profundidade, e possui mais de 300 quilômetros de galerias. Sua origem remonta a treze milhões de anos, e se deve à cristalização do sal diluído na água do mar.

É no interior dessa mina que se respira o ar mais puro do mundo, com uma temperatura constante de 14°. Em um dos níveis mais profundos da mina funciona um hospital de haloterapia – terapia de sal -, procedimento indicado para tratamento de doenças pulmonares.

Esta mina foi visitada por Nicolau Copérnico, Goethe, Bill Clinton, João Paulo II e por mim, em 2010, quando tive o privilégio de pôr meus pés naquelas terras igualmente salitradas. Mas é um sal diferente, de cores variadas.

Durante a segunda guerra mundial, as minas de Wieliczka – que ficam próximas dos campos de concentração de Auschwitz e Birkenau -, foram ocupadas pelos alemães, que as transformaram em armazém para fábricas de produtos militares.

O ar salitrado dessas cavernas pode atuar na mucosa respiratória como um alívio ou um bem-estar no respirar das pessoas, explica o chefe do setor de Alergia e Imunologia do Hospital do Servidor, Dr. Carlos Loja.

Em Londres, foi construída a primeira clínica de haloterapia da capital britânica e, como não há uma dessas cavernas naturais de sal, suas paredes e mobiliários foram cobertos por uma camada de sal.

Ao expulsar Caim do Paraíso, Javé teria dito: Andarás errante e perdido pelo mundo. Caim, então, foi para as terras de Nod – terras da fuga ou terra dos errantes, com a marca indelével do Éden. Milhões de anos depois, o jornalista francês Henri Bernier completaria esse entendimento, ao dizer: Um homem anda pelo mundo e sua terra viaja com ele, na sola de seus sapatos.

Nasci e cresci nas terras naturalmente salitradas de Areia Branca, a maior produtora de sal marinho do Brasil. Sentada em sua cadeira de falésias, bem na esquina do mundo, ela assiste a seu ar puro, que emana das salinas, mover cataventos da terceira idade. Vento que, travestido de assobio em si bemol, ainda hoje corre pelas madrugadas quentes dos  manguezais, atrapalhando o namoro noturno dos caranguejos. No contraponto, refresca as manhãs ensolaradas, ressoando pelas gamboas. Maçaricos e berduelgas, aí, curtem sua sauna matinal. Para aqueles que não pisaram as várzeas salitradas, o Wikipédia  informa que gamboa corresponde a um remanso no leito dos rios, dando a impressão de um lago.

Esse vento, juntamente com as águas de alta salinidade que abraçam a cidade, impregnaram de salitre a sola dos nossos sapatos, como marca benfazeja e indelével que, qual um ímã espiritual, nos liga a esse belo recanto do Rio Grande do Norte, e sinto que o contato com esse ecossistema nos confere uma qualidade de vida física e espiritual, mesmo que distantes desse Éden estejamos.

Recentemente, pesquisadores aventaram a hipótese de o consumo de batata-doce na infância e adolescência ser o responsável pela melhoria da performance dos corredores jamaicanos. Doping?

Quanto a nós, da esquina do mundo, temos o ar que respiramos e o salitre na sola dos nossos sapatos.

Não vão querer dizer que isso seja doping.

 

 


Responses

  1. Evaldo. teu texto, meu licor do sábado com sabor do domingo.
    “Um homem anda pelo mundo e sua terra viaja com ele, na sola de seus sapatos.”
    Este trecho, presente em teu relato, muito bem pode ser aplicado a ti, com um acréscimo intercalado, (peço licença ao francês Henri Bernier onde quer que se encontre) : “… viaja com ele, desde seu prodigioso intelecto, passando pelas (artérias) coronárias… até na sola de seus sapatos.”
    Texto belíssimo, conhecimento profundo de quem realmente viveu o momento e guardou para, depois, nos presentear, pelo que sou grata.

    Destaque para:
    ” …mover cataventos da terceira idade. Vento que, travestido de assobio em si bemol, ainda hoje corre pelas madrugadas quentes dos manguezais, atrapalhando o namoro noturno dos caranguejos. No contraponto, refresca as manhãs ensolaradas, ressoando pelas gamboas. Maçaricos e berduelgas, aí, curtem sua sauna matinal. ”

    ISTO É DEMAIS, menino… faz-nos apaixonarmos sempre mais pelo que escreves e pela forma inimaginável como o fazes.
    Um abraço.

  2. Sônia, nesta manhã de domingo, estava eu escrevendo uma crônica, onde pergunto: Lembra de mim, Areia Branca? Terminei de escrevê-la, e fui ler seu comentário. Citado por você, com sua emoção e sensibilidade, fico em dúvida se fui eu que escrevi estes textos. Como ficaram bonitos com seu foco poético. Obrigado. Quando me for permitido, colocarei essa crônica da qual lhe falei.

  3. Excelente, .Sonia ja disse tudo que eu gostaria de dizer, mas nao tenho o talento da escrita. Dr Evaldo o senhor e um poeta nato.
    abracos


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: