Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 26, 2012

MAÇARICO E CARRAPICHO, DEUSES NÃO OLIMPIANOS de nossas várzeas salitradas

Na paisagem dos nossos campos, sempre áridos, mesmo nos períodos de chuva, destacam-se duas figuras pequenas, quase sem expressão. Uma, do reino animal, pequenina, de canelinhas finas, e sem canto. Pelo menos não conheço. A outra, do reino vegetal, utilizada geralmente para designar lugares depreciativos, como os antigos cabarés ou bairros pobres e afastados.

O maçarico é designado como ave caradriiforme, da família dos caradriídeos – de bico alongado e fino e unha do dedo posterior alongada -, e pernas longas. Essas aves vivem nas praias marítimas, margens de rios  e de lagoas, com as espécies maçarico-d’água-doce, maçarico-de-bico-torto, maçarico-de-coleira, maçarico-pequeno, maçarico-preto e maçarico-real.

O maçarico tem um parente bem mais ilustre: o tetéu ou quero-quero, ave que aparece nas transmissões esportivas atrapalhando os jogadores de futebol nos mais diferentes lugares do Brasil.

Em Areia Branca, os maçaricos tentam escapar do solo inóspito e salgado, com seu voo a encantar aqueles que se aventuram pelos campos, praias, manguezais e áreas das salinas, com seu jeitinho bonito de voar e beliscar alguns vermes que se atrevem a dividir com eles a suprema glória de ali sobreviver.

O carrapicho é um subarbusto – nem chega a ser um arbusto – da família das leguminosas e gramíneas, cujos pequenos frutos, que são vagens, se dividem em articulações, com pequenos espinhos ou pelos que aderem facilmente à roupa do homem e ao pelo dos animais, e penetram nos pés descalços.

O carrapicho – junto com a rosa-cera, entre outros – divide a supremacia da sobrevivência do reino vegetal em um local onde o salitre impera, o solo é árido e salgado, e quase sem vida.  O carrapicho tenta escapar de seu habitat, e se prende na calça, na blusa, em qualquer lugar, querendo ir com a gente, grudadinho. Conta-se que um cientista arrancou dois carrapichos que estavam grudados em sua blusa, colocou-os em um microscópio e descobriu por que seu mecanismo de aderência era tão forte. Esse estudo resultou na criação do velcro.

Há outras plantinhas e outros animais que, como o maçarico e o carrapicho, desdobram-se para se manter vivos em locais inóspitos, secos, salgados ou com qualquer outra característica nada convidativa, mas o prazer de observar o voo acrobático dos maçaricos, seu pouso ligeiro sobre os carrapichos, beliscando aqui e ali, criam e recriam, há séculos, a beleza do visual de nossas várzeas salitradas e de nossos campos, onde o verde é desgastado por um robusto sol mais que vermelho e pelo vento quente que foge do mar.

Pequenos seres. Minúsculos encantos da Natureza.

 


Responses

  1. mais uma bela cronica

  2. Evaldo, aprendo muito contigo… mais uma crônica engrandecendo pequeninos seres tão ignorados por nós. (Agradeço em nome deles: maçaricos e carrapichos)
    Só mesmo tu, com a sensibilidade típica dos poetas, para despertar em nós a proeza do voo dos maçaricos. Mais uma beleza a ser admirada por nós, quando de visita à terrinha de lembranças inesquecíveis. Quero crer nisso…
    Um abraço.

  3. Sônia, como você, preocupo-me com esses bichinhos. Sabemos que, a cada dia, eles diminuem na natureza, ficam escassos. Ninguém liga para eles. Na minha crônica de amanhã – Era Uma Vez em Areia Branca – toco novamente nesse tema. E o maçarico sequer tem canto. É quase mudo.


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