Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 8, 2012

A MÃO ESTENDIDA, A HISTÓRIA, A SAÚDE PÚBLICA

Gonorreia, doença hoje relegada ao esquecimento,  deixou sequelas em boa parte de homens e mulheres de todas as gerações. Junto com a sífilis, fazem parte da História da Humanidade, com  roteiro no Velho Testamento. Há citações de que as doenças sexualmente transmissíveis tenham influenciado nas decisões de Moisés junto a seu povo.

No consultório do Centro de Saúde, após a história clínica, o paciente expôs o órgão afetado. Ao exame, supuração espessa e abundante, amarelo-esverdeada, escorreu pelos dedos do paciente.

Diagnóstico confirmado, ministrado o tratamento especifico; medicamento entregue e tomado na minha frente, em dose única. Nesse momento, defrontei-me com algo inusitado, porém cordial e acolhedor: u`a mão calejada oferecia-se para um sincero aperto de agradecimento.

Aquela mão simples, de um trabalhador,  estendida-se em minha direção, convidando para um aperto afetuoso, estava contaminada. Tomado por uma emoção, viajei  no tempo, em um passeio pela História da humanidade.

Lembrei-me da cara de espanto de Leeuwenhoek (1632-1723), um holandês dono de um armarinho, ao ver, pela primeira vez na história, algumas bactérias com um microscópio por ele criado para examinar a trama dos tecidos que comprava. Foi o primeiro ser humano a ver um espermatozoide mexer-se um uma porção de esperma.

Ocorreu-me que somente em 1875 John Tyndal descobriu a ação bactericida do Penicillum notatum (penicilina) ao estudar culturas de bactérias em tubos de ensaio, e que foram necessários 58 anos para que Fleming, em 1928, pudesse finalmente fazer a relação entre a penicilina produzida por seus fungos e sua ação antibacteriana, inclusive contra o gonococo. E passar-se-iam mais 14 anos para que a penicilina fosse produzida e utilizada como tal, em 1942.

Lembrei-me do velho paradigma que sustentava não ser uma bactéria capaz de causar doença em animais e, muito menos, em seres humanos, que vigorou até 1882, quando Robert Kock conseguiu provar o contrário, ao demonstrar ser a tuberculose causada por um bacilo.

Fiz ar de riso, ao lembrar que até 1930 a ciência médica era incapaz de conceber que uma droga, de qualquer tipo, fosse capaz de curar uma infecção sistêmica. Essa ideia era tão arraigada que Fleming, no início, achava que a penicilina tinha ação limitada, servindo apenas como unguento ou um líquido para lavar.

Um segundo de meditação, uma viagem pela História da Medicina, e aquela mão continuava no ar, à espera de um aperto fraternal.

Apontei para o lavatório e ofereci sabão líquido. Feita a devida assepsia, o aperto fluiu forte e sincero. De Tyndal (1875) a Fleming (1928), cinquenta e três anos, e mais catorze anos para a produção do medicamento que mudaria a história do mundo.

Em um segundo, uma viagem argonáutica, Jasão em um lampejo, e o perfeito entendimento de que este ato – tratamento adequado e seguro de uma doença infectocontagiosa – somente foi tornado possível há apenas 62 anos (1942-2004).

Hoje, a ciência voa na velocidade do nano, Hermes do século XXI.

 


Responses

  1. Homem! Você tem um fôlego para a escrita hein! Mal eu acabei de comentar a sua crônica do dia 1 e, de repente, vem esta do dia 8. Que posso dizer?
    A trajetória de um bom médico, nos olhos dos pacientes, com sua gratidão, é uma coisa linda. Eu mesmo já me ajoelhei com lágrimas nos olhos diante de dois médicos que me operaram, um deles foi num caso de varicocele (a minha caxumba – papeira, como se diz em AB – havia descido) o outro foi um sr., já aposentado, que extraiu um dente siso incluso que deu trabalho. Sem qualquer conotação ‘gay’ amo esses dois seres que honraram o juramento a Hipócrates. Lamento não ter-me ajoelhado perante um outro Sr. que, se vivo fosse, teria uns 115 anos, foi um grande homeopata; chamava-se Dr. Roberto Costa e clinicou na R. Uruguaiana, no RJ. Ele faleceu no final dos anos 80. Curou, entre outros males, uma asma brônquica + uma alergia que eu e meu filho primogênito tínhamos. Sou fã da homeopatia. Corrigindo, os alvos de minha eterna gratidão são as TRÊS pessoas acima citadas.

  2. Ricardo, nos dias de hoje, os profissionais de todas as áreas estão, em sua maioria, voltados para a coisa rápida, lucrativa, que não exija grandes esforços, e que traga resultados rápidos. Isso ocorre em todas as áreas do conhecimento humano – engenharia, odontologia, medicina, direito etc. O respeito ao outro, o tempo para ouvir, o exame mais acurado, são coisas do passado. Até no casamento é assim. A nossa geração teve que batalhar muito, começando de baixo, lutando para subir. Hoje, os jovens casais querem casa nova, apartamento, carro, tudo na boa. Acho que nós, os pais, somos os culpados por este tipo de comportamento. Mas deixa pra lá. Um abraço.


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