Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 15, 2012

QUANDO EU ERA CRIANÇA

Nasci e cresci em Areia Branca-RN, pequena cidade, bem na esquina do mundo, com poucas ruas urbanizadas, as melhores com calçamento de carago – o asfalto branco, derivado do sal -, e boa parte delas invadida pela areia trazida por um vento quente que soprava das várzeas e das praias. Era um trabalho insano para a prefeitura, com suas antiquadas máquinas tentando remover o mar de areia solta que invadia ruas e becos, em especial para os lados da Ilha.

Na pracinha em frente ao Palacete Municipal, um velho coreto lembrava um passado recente com intenso movimento cultural. Tinha até banda de música. Nessa bandinha, meu pai tocava sua tuba em eventos populares, quando eu era criança. O Palacete Municipal era um pequeno e belo edifício, destruído pela volúpia do falso desenvolvimento. Em Braga, Portugal, visitei uma ponte construída na época do Imperador Adriano, no ano 80 d.C. E ainda funcionando. Construíram outras, mas a ponte romana continua servindo à comunidade. Uma relíquia.

Quando eu era criança, havia um cinema – Cine Coronel Fausto – com lordose postural própria dos teatros, tentando manter sua aparência de falsa grandiosidade. Somente quando vi o Cine Pax, em Mossoró, entendi isso, mas não falei para o nosso cine-teatro, que continuou simulando grandeza ainda por muitos anos.

Quando eu era criança, os meninos usavam suspensórios para sustentar suas calças curtas. Calças compridas, somente depois dos doze, juntamente com a introdução da cueca.

Andar de bicicleta na Rua do Meio era um sonho para poucos. Eu, nas vezes em que quebrei o protocolo, fi-lo com uma bicicleta alugada na pracinha atrás da igreja.

As festas populares tinham uma grandeza e uma  animação impressionantes, com participação efetiva das famílias e de pessoas da sociedade. Os pastoris encantavam as noites festivas, com suas músicas e suas pastoras, em uma guerra azul e encarnada. As prendas eram disputadas em animados leilões., em que se destacavam perus e pratos especiais. O correio elegante encantava jovens e adultos, promovendo amizades e namoros.

Os carros que circulavam eram coisa rara. Além da sopa para Mossoró, lembro do tão falado carrinho de Valquírio que, em minha mente, era de uma beleza celestial. Nem sei sua marca ou ano de fabricação. Sei que encantava crianças e adultos.

A honra das pessoas era algo levado a sério. Naquela época, contavam que em Macau um jovem havia feito mal à irmã de dois rapazes que, em represália, castraram o malfeitor. Este, como vingança, assassinaria os dois irmãos. O cabaço era levado a sério. Menstruação era boi. Fulana não vai à festa; estava de boi. Isso somente circulava entre as mulheres. Os homens não podiam saber desse fato.

Quando eu era criança, o zíper era ri-ri, o refrigerante era Grapette, o Almanaque Capivarol era leitura obrigatória, e um dos remédios mais usados eram as Pílulas de Vida do Doutor Ross. Os cabelos da rapaziada eram mantidos lisos e lustrosos com brilhantina Glostora – nada de coiffer; no bolso, um pente Flamengo e um  espelho redondo eram chamados ao serviço no decorrer da noitada, fosse na pracinha ou no Ivipanim clube.

A juventude sentava nas calçadas para conversar ou namorar. Namoro, nos conceitos de então, era namoro, mão na mão. Naquela época, havia roubo de moças. Elas fugiam com seus namorados na escuridão da noite, causando desconforto e muita agitação. O casamento era quase certo, na sequência.

Quando eu era criança, as pessoas, à noite, sentavam na calçada para discussões tipo miolo de quartinha. No mercado público, vendedores de pílulas mágicas fingiam-se de índios para, suados e aos gritos – gotículas de flugger aos borbotões (na sarjeta da vida, perdigotos) -, aspergindo falsas esperanças ao custo de quinhentos réis. Nas ruas, nos períodos em que as férias determinavam a soltura das rédeas do comportamento, crianças circulavam em grupos, com seus piões a tiracolo, em busca de embates em que o rodar e o corrupio juntavam-se em um bailado de pedigree renascentista, capadociando cores, espaço e tempo; coisas de então. Nas várzeas e descampados, vistos à distância, espectros de meninos cabriolavam em meio à cortina de poeira, segurando e guiando seus papagaios – pipas – antes do banho no rio Ivipanim, justo na hora em que os barcos de frutas, com o cansaço de além-rio, repousavam sua coluna cervicolombococsígea na Rampa, em um premeditado quase sem querer querendo. Em casa, um sabonete Eucalol daria um trato para as conversas na pracinha.

Nas noites de sexta-feira, serenatas ecoavam em calçadas de moçoilas ansiosas, com seus chambres brancos. No contraponto, poderiam ocorrer pesadas serrações, em que os maus presságios e a grosseria tinham vez e voz.

A vida era assim, quando eu era criança.

 


Responses

  1. Evaldo, você foi puxando o fio do novelo e eu fui lembrando de quando EU era criança. Prefiro dizer “Menino”, conforme crônica anterior de sua autoria, neste mesmo blog. Pois bem, quando eu era menino, aí pelo final da década de 50, em Mossoró, cidade nas proximidades de Areia Branca (Areia Branca é a nossa referência, certo?) lembro dos cines Pax, Caiçara e Cid. Lembro mais do Pax porque ficava localizado por trás da praça Bento Praxedes, onde morava meu avô paterno e também porque lá (no Pax) passava mais filmes de caubói. Em Areia Branca, onde ia passar férias depois que mudamos para Natal (cidade também portuária do RN, a uns 350 Km a leste de Areia Branca), lembro com nitidez do cine São Raimundo, onde assisti pela primeiro vez o épico “Barrabás”. A simples menção de “Areia Branca” me remete no tempo e no espaço ao convívio com “vovó Vanja”, minha bisavó cega que tão amorosamente afagava meu rosto e minhas mãos de menino, para compensar com o tato, a deficiência da visão. Obrigado por me resgatar tão maravilhosas lembranças.

  2. Guilherme, comparo você a uma pizza emocional multifacetária: parte Areia Branca, parte Mossoró, parte Natal e parte Brasília, onde moramos junto com Chico Novo, Flexinha (Joseilton) e aquele engenheiro maluco de Fortaleza, que certa vez apanhou na boate querendo gozar com a cara dos goianos. Lembra?

  3. Caro Evaldo! Falar do nosso tempo de “MENINO” na nossa querida Areia Branca, não tem preço. Jogar bolão nas ruas coberta com carago. Soltar pião, jogar biloca com castanha. Os jogos de castanha em um caixão de sabão português onde tinha os números de 01 a 06 e apostávamos com um bozó (dado). Brincar rodando uma roda de aro de pneu ou uma roda de ferro com um arame. Puxar uma roladeira feita de latas de leite ninho. Nas noites enluaradas brincar de TICA, ESCONDE-ESCONDE ou então se juntar as meninas e brincar de roda. Ir a pé para a praia do Meio e aos domingos para Upanema. Quando tinha dinheiro usava a Escandalosa do Sr. Luiz Cirilo e, depois veio a Noca. Tempos bons do nosso tempo de “MENINO”.
    Bem lembrado o “BOI” (menstruação). Quando se via no varal do vizinho um monte de toalhinhas estendidas, já sabíamos que havia alguém na casa de “BOI”. Assunto restrito as mulheres. Depois veio o “MODESS” o absorvente. Lembro que quando trabalhei na SOSAL hoje Salinor, todo mês havia uma reunião na salina e vinha a secretária para redigir a ATA. Garota muito bonita que sempre vinha vestida em uma calça incarnada (vermelha). O pessoal dizia que ela estava de “BOI” e era para disfarçar caso transbordasse a TOALINHA.
    Cinemas. No Coronel Fausto vi muito TOM MIX, NYOKA, TARZAN.
    Eu frequentei mais o Cine São Raimundo vi os filmes de Geni Autry, Rock Lane, Bill Elyot, seriado do Buster Craber. Que saudades do meu tempo de “MENINO” na minha querida Areia Branca.
    Que Deus te ilumine para continuares a escrever as memórias da nossa terra.
    Fique na Paz de Cristo


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