Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 20, 2012

POESIA FESCENINA

Quatro anos depois de minha chegada a Natal, nos anos sessenta, vindo de Areia Branca, fui trabalhar no IML, labuta difícil, cansativa e mal remunerada. Ali, no prédio da Ribeira, eram confeccionadas carteiras de identidade, elaborados laudos, pareceres, realizados exames de corpo de delito e necrópsias, além de testes de paternidade, exames médicos para identificação de conjunção carnal e para concessão de carteiras de habilitação, bem como testes de embriaguez para motoristas infratores.

Mal saído dos dezoito anos, fui levado para o Instituto de Medicina Legal e Criminalística em função de minha habilidade datilográfica, posta inteira a serviço do público. Foi justo ali, em uma instituição que lidava com o sofrimento e a morte, que entrei em contato com a poesia fescenina.

Vez por outra, ao final de uma semana de trabalho, enfrentando as dificuldades de um órgão público estadual, incluindo aí a carência de materiais e equipamentos, dois amigos de Dr. Milton Ribeiro Dantas, Diretor do IML reuniam-se com ele para, em um triunvirato intelectual, discutir medicina legal, direito penal e – acredite – fazer poesia. Os amigos eram: Dr. Múcio Vilar Ribeiro Dantas, irmão de Dr. Milton, e Dr. Pedro Rodrigues Caldas, Diretor do Detran.

Naquela sexta-feira, no  final de uma tarde quente como todas as outras, lá estavam os três, mais uma vez a rir e falar alto. Um deles abriu a porta, e deu para ouvir quando o Diretor, com a elegância inata de um chefe de estado, disse:

Vejam a minha poesia fescenina…

A BUFA

É seu irmão o peido estrepitoso

Que de tão…

(E a porta se fechou)

Logo, a pessoa que saíra retornou, e a porta se abriu:

…Ganhando em cheiro que em som perdeu,

Quem no cinema ou na igreja uma bufinha já não deu?

(E novamente a porta se fechou).

Da minha mesa dava para ouvir os risos e os apupos, naquela confraria de amigos, a noite a se anunciar pela visita de algumas muriçocas vadias, fugitivas de um bairro boêmio, parede e meia de um lado com o IML e, do outro, com o baixo meretrício, vizinho do Rosa de Ouro, famoso cabaré da Ribeira.

E, durante anos, os fragmentos daqueles versos ficaram ribombando em minha mente. Fescenino teria alguma relação com fezes, pensava em meus devaneios de estudante do Atheneu. Era uma lembrança distante, de uma reunião de amigos, numa sexta-feira à tarde, discutindo direito penal, medicina legal ou fazendo poesia fescenina.

Somente anos depois descobri que fescenino corresponde a um gênero de poesia satírica latina, nascido na antiga Roma, entre os camponeses de Fescênia, na Etrúria, Itália (atual Toscana).

Bons tempos aqueles, em que funcionários públicos de alto escalão se reuniam nas tardes do último dia útil de uma semana estafante de trabalho para discutir Direito, Medicina ou recitar Poesias.

EVALDO ALVES DE OLIVEIRA

Médico Pediatra e Homeopata

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: