Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 24, 2015

O DEDO NO CORAÇÃO

No ano de 1966, em plena ditadura, lá estava o jovem Edésio na luta por sua aprovação no vestibular de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Na época, os cursinhos pré-vestibulares multiplicavam-se pela cidade, e os movimentos estudantis eclodiam em todos os recantos daquele Brasil em ebulição.

No mês de janeiro, os trotes estudantis punham a cidade em clima de encantamento e alegria. Os trotes mais aguardados pelos estudantes e pela população eram o da Faculdade de Medicina e o da Faculdade de Engenharia, por terem se transformado em uma forma irreverente de protesto, em especial naqueles anos de chumbo grosso e chibata na mão, como aconteceu em pleno Eixo Monumental de Brasília.

Durante os seis anos do curso, a efervescência no mundo político, a lenta e gradual instituição da ditadura e a repressão policial foram os motes para a movimentação do Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina. Sem falar nas festinhas.

No caso do jovem Edésio, as dificuldades da dura vida de garoto pobre reforçavam a bravura da luta. Entre as salas de aula, as reuniões na biblioteca e as incansáveis aulas no anfiteatro de anatomia, o surgimento de um grande e iluminado amor. Ela, também estudante de medicina.

Certa manhã, no ano 1976, já cirurgião conceituado, o médico acabara de chegar para cumprir mais um estafante plantão no Pronto-Socorro do Hospital Walfredo Gurgel, quando ouviu uma gritaria seguida de uma movimentação incomum. Em uma maca, um senhor com aspecto de morto era conduzido às pressas em direção ao pronto-socorro. Terminando de vestir seu jaleco, o Dr. Edésio foi informado de que aquele paciente havia recebido uma facada no coração. Logo percebeu a real gravidade e urgência do caso. Rapidamente, pegou um bisturi e abriu o peito do paciente, mesmo sem luvas. Após uma rápida limpeza, observou um orifício no ventrículo direito por onde o sangue jorrava aos borbotões. Colocou o dedo na ferida aberta e comandou uma desabalada carreira para o centro cirúrgico, conduzindo o paciente. Lá, uma pequena equipe já o aguardava. Uma enfermeira assumiu o papel de ocluir a ferida no coração, enquanto o paciente era entubado e anestesiado. Na sequência, a equipa realizaria a sutura do órgão lesionado.

Ao sair da sala, o médico procurou o taxista que trouxera o paciente, para se inteirar do ocorrido. Foi informado de que aquele senhor estava em frente a uma padaria, onde se envolveu em uma briga. Nesse momento, recebeu uma facada no peito e caiu com a cabeça e o tronco dentro do táxi, que acabara de deixar um passageiro. Acomodado no banco do automóvel, foi rapidamente conduzido ao pronto-socorro, uma quadra adiante.

À noite, sentado na cama, o médico fechou os olhos e iniciou sua oração. Em nome do pai, do filho e do Espírito… Parou com o dedo sobre seu próprio coração. Naquele momento de entrega, lembrou do paciente da facada no coração e falou para si mesmo: Meu Deus, que dia!

Cinco dias depois o paciente recebia alta completamente recuperado.


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