Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 28, 2015

OS GAFANHOTOS QUE ALIMENTARAM SÃO JOÃO

Acordei entediado. Manhã de segunda-feira quase parada, feriadão já com horas contadas para terminar. Ligo o computador e fico de olho na página do Word e não sai uma única palavra. Ergo o olhar por sobre a tela em branco e tenho a atenção desviada para uma libélula que insiste em planar próximo a um besouro que tenta se ocultar sob as folhas da hera que reveste a parede em frente. Deu vontade de intervir, afastando o frágil inseto de um velho rola-bosta carrancudo. Mas desisti.

O smartphone avisa que há mensagens chegando. Consulto a telinha mas não existe qualquer informação do meu interesse imediato. Nesse momento, o peru-gato do vizinho emite sons galináceos – ou seriam peruáceos? – bastante conhecidos, mas ainda indecifrados. Vou à porta da frente e vejo o japonês do início da rua passeando com seu elegante cachorro-cabra. O japonês mora no Brasil há 30 anos mas não fala português; muito mal, inglês.

Retorno à cadeira, e decido que terminarei a leitura do livro O Pacifista, de John Boyne, autor de O Menino do Pijama Listrado. Abro a página indicada com o marcador, dou uma olhada geral e mais uma vez desisto. O tédio?

As lembranças parecem fugir de minha mente feito formigas em debandada. Mas tenho que terminar a crônica da semana, insisto comigo mesmo. Em casa, saíram todos, e estou sozinho. Resolvi ligar o aparelho de som, mas não consegui escolher um DVD entre as dezenas disponíveis.

Saí pelo quintal, que ainda exibia os sinais da boa arrumação de Moaci, o faz-tudo daqui de casa. Fui direto ao fundo do terreno, onde na véspera tinha feito amizade com algumas formigas cortadeiras com cara de bravas. Continuavam trabalhando. Uma libélula deu um voo rasante sobre um cajá que se exibia na ponta de um galho. Não sei se é o mesmo zigue-zigue que estava na lateral da casa, e se interessara pelo rola-bosta de que falei no início destas lamentações. O zigue-zigue me lembrou o gafanhoto, que me lembrou João Batista, o homem que batizou Cristo.

Voltei para minha cadeira, e fiquei com essa ideia: gafanhoto, João Batista e Jesus Cristo. Virei-me de lado e dei de cara com um texto de Demi Getshko n’O Estado de São Paulo, em que comenta a possível utilização da alfarroba, também conhecida como “pão de São João”. Pesquisando na rede, o editorialista descobriu que a alfarroba é de origem hebraica, e sua grafia (haruvim) é parecida com a de outra palavra hebraica, “gafanhoto” (hagavim). E comenta que na tradição cristã São João no deserto alimentou-se de “mel e gafanhotos”. E pergunta: teriam os tradutores lido erradamente e traduzido para “gafanhoto”? Teria São João se alimentado de “mel e alfarroba”?

Em um momento de vácuo criativo, a possível constatação de que a alfarroba teria sido um dos alimentos de São João.

Só faltou o deserto. E a cena do batismo mais simbólico da História.


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