Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 2, 2016

UM VERSO PARA ANDREAS VESALIUS

Erasmo de Rotterdam escreveu: A verdadeira sabedoria é a loucura. E continua: O que faz a vida agradável não é a frieza da razão e sim o calor das paixões, pois a loucura dá sabor à vida. Um pensador moderno, da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, completa: a loucura que mobiliza transformações positivas e representa, em cada uma de suas manifestações, um saldo evolutivo. Aqui estão os gênios, os transformadores, os descobridores, líderes e cultores das artes, cientistas, filósofos, santos.

No ano de 1514, em Bruxelas, capital da Bélgica, nascia um louco que viria revolucionar o estudo da Anatomia e da Medicina. Andrea Vesalius passava longas horas no Cemitério dos Inocentes, em Paris, revirando ossos, sendo em diversas ocasiões ameaçado por cães selvagens. O médico mantinha em seu quarto os corpos de cadáveres retirados de túmulos ou que lhe eram dados após execuções públicas, dissecando-os, ensanguentando e contaminando suas mãos. Naquela época eram desconhecidas as doenças infecciosas e as bactérias.

Nesse trabalho minucioso, Vesalius constatou algumas absurdas observações de Galeno, como as que diziam ser o fígado que fabricava o sangue, que o útero possuía múltiplas câmaras e que a pituitária despejava suas secreções diretamente no nariz. Os ataques e as perseguições foram tantos que, três anos depois da publicação do Fábrica – um belo livro com 42 centímetros de altura e 28 de largura, com sete volumes encadernados em veludo de seda púrpura imperial, Vesalius desistiu de seu trabalho. O mais importante anatomista da Europa escreveu ao imperador: Imploro a Vossa Majestade Imperial que puna severamente, como ele merece, esse monstro nascido e criado em vossa própria casa, esse que é o pior exemplo de ignorância, ingratidão, arrogância e impiedade, a fim de eliminá-lo para que ele não envenene o resto da Europa com seu hálito pestilento.

E toda essa fúria se devia a contestações a algumas absurdas observações de Galeno: o fígado fabricava sangue; o útero possuía múltiplas câmaras e a pituitária despejava suas secreções diretamente no nariz. Três anos depois da publicação do Fábrica, Vesalius decidiu não mais publicar qualquer livro, tantas foram as críticas ao seu trabalho.

Quinhentos anos se passaram até que outro gênio, agora das letras – Francisco de Assis Câmara -, oferecesse este verso à genialidade quase loucura de Vesaluis, no livro Memorial Poético da Loucura, editado recentemente:

Meritíssimo e digno juiz:

Eu, Andreas Vesalius nominado,

De espírito livre e tão ousado,

Da medicina ainda aprendiz,

Requeiro e imploro a Vossa Excelência,

Humildemente, em nome da ciência,

Que seja à minha guarda deferido

O corpo a ser levado à execução;

Será mais útil na dissecação.

Que debaixo da terra, apodrecido.

 

Loucura, encantamento, paixão, alegria e sentido à vida. Assis Câmara.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


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