Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 17, 2017

ODE A UM JOVEM FOTÓGRAFO

Ele fazia parte do nosso grupo. Quando chegamos à Turquia, no anfiteatro de Éfeso, onde São Paulo apresentou algumas de suas cartas, avistei um jovem com uma pequena e estranha máquina apoiada no solo. Aguardou um pouco e recolheu seu instrumento de trabalho, tendo a tiracolo uma moderníssima Canon que dispõe até de sistema de geolocalização. A aura que flui no anfiteatro de Éfeso é de tal modo intensa que algumas pessoas passam por extranhas experiências psicológicas. No meio do anfiteatro, de repente, uma moça coreana começou a cantar uma estranha música de seu país, em um afinadíssimo meio-soprano digno de grandes artistas.

dsc06176

Em Praga, lá estava Sacul Acesnof com sua máquina primitiva, esforçando-se para conseguir mais uma foto, desta feita com o equipamento colocado sobre o vão da ponte Carlos, um dos monumentos mais famosos da capital da República Tcheca.

Mais tarde vim saber, além do seu nome, a origem daquele equipamento fotográfico tão insipiente. Tratava-se de uma câmera bastante rústica, de fabricação russa, cujo nome genérico é Pinhole – uma câmara escura com um pequeno orifício. Sua designação tem por base o inglês pin-hole (buraco de alfinete). Trata-se, pois, de uma técnica obsoleta de fotografia.

Uma câmera pinhole é uma câmara escura que, em princípio, é qualquer caixa ou lata fechada contendo um orifício, como essas latinhas com um furo que a meninada ainda usa para fotografias em grupos, nas ruas, geralmente para trabalhos escolares. Aristóteles se referia à câmara escura como instrumento de observação de eclipses solares.

pin_008No Atomium, em Bruxelas

As câmeras fotográficas modernas nada mais são do que câmaras escuras aprimoradas, sendo que a Pinhole mantém a característica mais primária do orifício, como se lê no Manual Prático de Fotografia Pinhole – Cfalieri – 1997. A câmera usada por Sacul ainda tem a interferência de outros dois orifícios, que promovem uma sobreposição da mesma imagem, gerando um efeito quase caleidoscópico, distorcendo ainda mais a realidade

 O fenômeno da câmara escura talvez acompanhe o homem desde os primórdios das cavernas. Na Grécia Antiga, Aristóteles já se referia à câmara escura como instrumento de observação de eclipses solares.

A imagem produzida por uma pinhole apresenta uma profundidade de campo quase infinita, ou seja, tem um foco suave em todos os planos da cena.

pin_010No Louvre, em Paris

Sacul justifica sua preferência por retratar monumentos: é uma exaltação do seu valor primário que, assim como a fotografia, é uma criação de valor simbólico, funcional e estético produzido para que algo seja lembrado. O monumento é um edifício público notável pela sua grandeza ou pela sua magnificência – arrematou Sacul.

Um fotógrafo. Uma pinhole. Uma foto magnífica. Um jovem tentando manter viva uma técnica fotográfica que agoniza.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Perfeito.
    Minha filha vive com uma maquininha de lata fazendo fotos e diz que as fotos são perfeitas e dão muita realidade.
    Parabens Dr Evaldo.


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