Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 30, 2017

UMA INCELENÇA PARA OSOVREN

Osovren resolveu mudar-se para o interior da Paraíba. Corria o ano de 1955, e a escassez de trabalho forçara a decisão da família. Adquiriu um terreno na zona da mata paraibana, próximo à cidade de Pilar. Tinha uma casinha no fundo, algumas árvores em estado de ressecamento e cinco cabritos comedores de tudo.

Alguns parentes de sua esposa residiam em sítios das redondezas, e logo o casal faria novas amizades. Um ano depois da mudança, Arcanja, a esposa, começou a apresentar sintomas de uma estranha doença. Sentia-se cansada e com falta de ar. No mês de julho do ano seguinte, a doença piorou e Arcanja morreu, para tristeza e irritação de Osovren.

A notícia da morte logo se espalhou pelos sítios e fazendas próximos, e à noite algumas pessoas se dirigiram para a casa da falecida, em pequenos grupos, cada um entoando cânticos pelas veredas e pés de morros. Na chegada, um caboré sonolento, que pousara em uma caveira de boi ressecada, no alto de um mastro, fugiu apressado. Osovren serviu café com bolacha aos presentes que, em seguida, formaram uma roda em torno do caixão rústico, feito ali mesmo. Uma lamparina iluminava cada um dos cantos da sala, onde se destacavam grumos de pucumãs no alto das paredes e nos caibros. Alfenim, o cão, saiu de fininho e procurou abrigo entre as pernas do seu dono. E deram início à rezação.

Foram surgindo cânticos lamuriosos, com augúrios e bendizenças, acompanhados de versos de improviso. A melodia era triste, e algo assim era ouvido na escuridão da noite quente: Uma incelença de Nosso Sinhô… Veste esta mortalha, foi Deus quem mandou.

Osovren percebeu que aquilo parecia um excerto extraído de seu passado recheado de privações. E todos repetiam a mesma frase, em uma ladainha que parecia obedecer a uma melodia, qual um cordel religioso. Em seguida, surgiu algo assim: Ó meu pai, em vou pro céu, doze anjins vão me levando. De tudo eu vou me esquecendo, só de Deus vou me lembrando. Osovren, na varanda da casa, aborrecia-se com aquela cantilena repetitória, mas entendia os bons fluidos que emanavam dos votos em louvor a Arcanja.

Os meninos dormiam. O dono da casa já ouvira alguns cânticos entoados em meio a orações contra males, tempestades e inundações, assim como em rogativas para acabar com as estiagens que castigavam a região onde morara. A certa altura, já escancarada a madrugada, o grupo iniciou uma cantoria diferente, e Osovren apurou o ouvido: Pelas sete marteladas que Cristo levou na cruz…

O sertanejo não se conteve. Com um facão em riste, partiu furioso na direção dos cantantes e urrava, seguindo a melodia que o grupo entoava: Pelas sete facãozadas na cabeça de vocês… Formou-se um grande tumulto, todo mundo correndo, tentando se proteger dos golpes desfechados por Osovren. Algumas pessoas escondiam-se atrás de árvores, enquanto outros foram vistos em disparada, escuridão a dentro, aos gritos e excomungos. Alfenim foi encontrado no dia seguinte, tocaiado debaixo da cama.

Três pessoas assistiram ao enterro de Arcanja; Osovren e dois cunhados. Alfenim preferiu não se arriscar. Ficou em casa.

Incelença – A incelença constitui uma forma de expressão musical típica da Região Nordeste, geralmente atrelada a costumes fúnebres (falecimentos, missas de sétimo dia e festejos relacionados ao Dia de Finados). A origem da incelença deriva de rituais fúnebres lusitanos – tradições mouriscas adaptadas à realidade católica. No Brasil, seu uso remonta aos primórdios da colonização. Segundo a crença, a interrupção da incelença, antes de seu término, traria como consequência o comprometimento da salvação da alma do defunto e diversos infortúnios à sua parentela. Esses rituais dividem-se em Incelenças da Hora – objetiva comunicar o falecimento aos parentes -, as Incelenças da Mortalha -, realizadas após o falecimento, quando se põe a mortalha no defunto -, e as Incelenças de Despedida. Há também as Incelenças de Chuva, realizadas na região do semi-árido nordestino. (fonte: internet).

Texto publicado em 2011.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 


Responses

  1. Evaldo, excelente crônica, mas lida neste momento, quase meia noite, deixa qualquer cristão um tanto “nervoso”.
    Ótima a explanação sobre ‘incelenças’.
    Um abraço.


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