Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 29, 2017

UM MUSEU PARA OS AMORES DESFEITOS

Sabemos que os amores podem ser desfeitos, e até conhecemos algumas causas que levam a esse desfecho, como o ciúme, o apego emocional e o egoísmo. Mas não conhecíamos os elementos de prova da materialização, que são utilizados pelas pessoas no momento crítico de uma separação.

Caminhando por Zabreg, a austera capital da Croácia, nos deparamos com um museu no mínimo inusitado. Encontra-se em um prédio sóbrio, no centro do bairro dos museus. Em um só local, um posicionamento conceitual novo que questiona o conceito de museu, de artista e de arte.

Seu acervo consta de objetos doados pelo público, ao testemunhar, consigo ou com outrem, o final de um relacionamento, acompanhado de um depoimento escrito.

As salas são divididas por temas que guardam relação com sentimentos que emanam de um ambiente de separação. Os objetos são expostos junto a paredes muito brancas, ao lado de frases relacionadas aos depoimentos.

Dá até para imaginar a variedade dos objetos expostos, desde elementos do quotidiano até objetos muito pessoais, como um vestido de noiva e um machado. Ao lado de cada objeto, uma etiqueta explicativa, onde o doador conta a estória relacionada àquele amor agora despedaçado.

Esse machado, no final do corredor da raiva e violência, foi utilizado para despedaçar os móveis produzidos por uma designer, após sua companheira descobrir uma traição. Naquele momento, a traidora viajava em companhia de sua nova amante. Somente ao retornar a designer deu conta de que seus trabalhos haviam sido destruídos a machadadas.

A imagem do que restou de um anão de jardim nos dá a ideia do destempero. Aconteceu na Eslovênia. O homem apareceu em um carro novo no dia do divórcio, arrogante e frio. O anão estava fechando o portão que ele mesmo havia destruído há algum tempo. A mulher atirou o objeto no para-brisa do carro novo e resvalou no asfalto. Um giro na linha do tempo que definiu o fim do amor.

Deslocando-se pelas salas, observamos que uma delas se dedica aos amores à distância. Aí, uma mala, sapatos, uma bicicleta. Em seguida adentramos a sala vítimas do desejo, onde são expostos objetos eróticos.

Não se poderia sair dali sem visitar o espaço dedicado à morte. Lá, o destaque é uma chave de metal. Ao lado, uma triste narrativa: Você me falou de amor, me deu todos os dias pequenos presentes; este é apenas um deles. A chave para o coração. Você virou minha cabeça; você somente não queria dormir comigo. Eu percebi o quanto você me amava só depois que você morreu de Aids.

Um museu. A dor da separação. O inusitado das reações humanas.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 


Responses

  1. Dr. Evaldo!
    Tua crônica está perfeita com detalhes de objetos, sentimentos expostos com finalidade de imortalizá-los num Museu, em Zabreg (Croácia), destinado para tal fim.
    Verdadeiramente, gostaria muito de visitá-lo diante da beleza que me foi passada através do exposto.
    Despertou-me a curiosidade a ponto de me interrogar sobre que objeto destinaria ao mesmo, caso tivesse o privilégio de conhecê-lo. Mas…esqueçamos este detalhe; hoje, mais que antes, parece-me impossível.
    Interessante a estrutura do Museu com suas divisórias, conforme sentimentos explicitados por seus protagonistas, com suas ações e reações, após o término do provável ‘amor’.
    Parabéns, Evaldo!


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