Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 6, 2017

OS MENINOS DA RUA PAULO (*), uma alegoria

Quase todos os meninos tiveram um local para jogar bola, brincar de Zorro, soltar pião ou empinar papagaio. Esse lugar era uma propriedade dos garotos, fosse pela manhã ou à tarde. Sempre havia uma ameaça velada de invasão por outros grupos, geralmente mais numerosos ou compostos por crianças maiores. Quem viveu em cidade pequena sabe muito bem do que estou falando. Lembro de um local que ficava perto da minha casa, chamado Sete Bocas, em Natal, onde um grupinho batia bola à tarde. Dali saiu Marinho, zagueiro da seleção brasileira.

O grund era a comunidade criada pelos meninos da Rua Paulo. Não passava de um pedaço de terra que servia de local para suas brincadeiras, que teriam acontecido no século XIX na cidade de Budapeste. Por serem crianças pobres, o grund era o único espaço que os garotos da Rua Paulo e adjacências dispunham para os seus momentos de lazer.

Organizaram, então, a Sociedade do Betume, e as reuniões do grupo aconteciam no grund. Ali também aconteciam os jogos de péla (ou apenas péla), que era um jogo praticado no passado. Consistia em atirar uma bola de um lado para o outro com a mão, com ou sem o auxílio de um instrumento (raquete ou bastão), que teria dado origem ao tênis.

A Sociedade do Betume¹ foi criada pelos meninos da Rua Paulo, e tinha dois objetivos: manter o betume (o símbolo da sociedade) sempre molhado (mastigavam o betume) e a luta pela defesa do grund. As reuniões do grupo aconteciam naquele local – que correspondia a um terreno baldio -, e eram acertadas na escola, sempre com o sigilo exigido pela seriedade desse tipo de instituição.

No contraponto, havia o grupo dos camisas-vermelhas, formado por uma turma que não tinha autorização para utilizar o grund, propriedade exclusiva dos meninos da Sociedade do Betume. Era ali onde aconteciam os encontros dos exércitos. Os garotos se relacionavam como em uma organização militar, onde havia os mais graduados e os soldados rasos, com suas atribuições específicas.

Face aos desencontros entre os dois grupos, foi acertada uma batalha para definir quem seria o dono do grund, seguindo os padrões dos embates militares, as regras tinham que ser rigidamente seguidas, e quando um grupo fugia do seu cumprimento propiciava ao outro também abandonar o protocolo dos combates, concedendo ao outro grupo o direito de utilizar técnicas não convencionais a partir de então.

Dia marcado para a guerra, com todos os ingredientes de uma batalha normal, com direito a espiões, traidores e informações desencontradas.

E veio a guerra total, com manobras estratégicas de alto risco de ambos os lados. Os camisas-vermelhas invadiram o grund, com seus soldados e suas lanças, ecoando gritos de guerra ao lado de muita movimentação. Ao final, os vencedores assumem definitivamente o controle do grund, com o cumprimento dos protocolos antes acertados.

Aqui, muitas coisas aprendemos em nossos espaços de infância, mesmo na base do meio sem jeito das nossas insipientes instituições.

Grund. A infância com suas lições de organização, respeito e cidadania.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

(*) Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnar, publicação da Editora Saraiva. Tradução de Paulo Ronai.

(¹) Há dois tipos de betume: um escuro, feito de hidrocarbonetos pesados com outros produtos, utilizado como impermeabilizante e no asfalto. O outro, massa de pez, cal, azeite e outras substâncias, que se emprega para vedar (internet).

 


Responses

  1. Evaldo
    Tua crônica me fez retroceder no tempo e conduzir-me à terrinha dos meus sonhos, numa fase em que, em meio aos limites impostos, ‘eu era feliz e não sabia,’
    Há algo em comum entre os meninos em fase de adolescência. Costumam encontrar um espaço onde possam organizar suas traquinagens e/ou brincadeiras em grupos.
    Era exatamente assim tbm com meus irmãos, numa família de 12 filhos, sendo 9 deles do sexo masculino. Nós, suas irmãs, não podíamos, nem em pensamento, invadir seu território, o que muitas vezes, eram seus adversários que se encarregavam disso.
    Brincadeiras que, de certo modo, influenciavam no crescimento dos meninos, na maioria das vezes, de forma positiva, mudando apenas o “modo operante”.
    Um abraço!


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: