Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 13, 2017

COISAS DO BRASIL NORDESTE

No Nordeste, a crendice popular é recheada de superstições, estórias de bicho-papão, papafigo, aves misteriosas e seus (en)cantos. No folclore mais pé no chão, lembro de três elementos que conheci na infância, o último de ouvir falar: a lenda da cruviana, a serração da velha e a incelença.

Desde criança sabíamos que a cruviana se materializava como um vento noturno, que vazava das frestas do tempo, trazendo consigo uma aura de mistério e uma vaga sensação de um frio que corria fino pelo corpo, como uma pizza metafísica meio mágica meio mística. Quando pequenos, nas noites de cruviana, um som agudo, fininho, tipo assobio, fazia com que nos encurvássemos ainda mais em nossas redes brancas com cheirinho de quarador.

A serração da velha acontecia normalmente em noites escuras. No Brasil, surgiu no Nordeste no final do século XIX – segundo Câmara Cascudo -, como parte do calendário religioso da Quaresma. De acordo com o folclorista, um grupo serrava uma tábua, aos gritos estridentes e prantos intermináveis, fingindo serrar uma velha, lamentando-se através de um berreiro ensurdecedor.

Na cidade em que fui criança – nas noites de serração -, logo depois que a usina elétrica desligava seus motores, gemidos agourentos surgiam em um crescente, e o som grosseiro de um serrote começava a ser ouvido, acompanhado de um alarido de velório. Então, versos vazavam pela noite:

– Serra o pau e toca o sino. Serra a cacunda do véio Virgino.

Era comum que alguém aparecesse à janela, proferisse algumas palavras plenas de desrespeito e atirasse o conteúdo de um penico sobre o grupo, que respondia com mais gritaria, confusão, xingamentos, excomungos e correria.

A incelença consta de cânticos lamuriosos, com augúrios e bendizenças, sempre acompanhados de versos de improviso. A melodia é triste; algo assim: Uma incelença de Nosso Sinhô… Veste esta mortalha, foi Deus quem mandou. E todos repetiam a mesma frase, em uma ladainha que parecia obedecer a uma melodia, qual um cordel religioso. Em seguida, algo assim: Ó meu pai, vou pro céu, doze anjins vão me levando. De tudo eu vou me esquecendo, só de Deus vou me lembrando. A certa altura uma cantoria diferente poderia ser ouvida: Pelas sete marteladas que Cristo levou na cruz…

Cruviana, serração, incelença. Coisas do Brasil Nordeste.

Evaldo Alves de Oliveira

Médico Pediatra

 

 


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